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(depois de) Antes da Queda




Quando estudei na BA, tinha aula de performance com Juliana Moraes, que, além de ministrar aulas na faculdade, é bailarina, concebe, dirige e cria espetáculos de dança.

Partindo do contato em sala de aula, comecei a acompanhar seus trabalhos e tive o prazer de assisti-la por três vezes interpretando em: “Antes da Queda” (que fiquei de boca aberta do começo ao fim) e “Querida senhora M”, no Centro Cultural Vergueiro, e “3 tempos num quarto sem lembrança”, no Teatro de Dança que fica no Edifício Itália.

Minha recomendação do dia é “(depois de) Antes da Queda“, espetáculo dirigido por Juliana. Pra variar, eu também já vi esse… que há algum tempo foi apresentada no Centro Cultural vergueiro.

(texto divulgação Cia. Perdida)
Aos 22 anos a fotógrafa americana Francesca Woodman se suicidou ao final de um relacionamento amoroso. Mesmo com pouca idade, Woodman deixou um legado que só agora vem sendo descoberto. Suas fotografias são marcadas por desejos, frustrações, medos e fantasias. Desse material deixado pela jovem fotógrafa surge o espetáculo (depois de) Antes da Queda, realizado pela Companhia Perdida, de dança contemporânea, que chega ao SESC Pinheiros com poucas apresentações.

(depois de) Antes da Queda é formada por um elenco exclusivamente feminino. O espetáculo, de 1h10 de duração, conta com a direção da coreógrafa Juliana Moraes.

Para Juliana, “trabalhamos uma dramaturgia que se constrói por repetições de imagens que vão se diferenciando de si mesmas a cada nova vez que reaparecem, através de distorções, deslocamentos e condensações. Buscamos a repetição na diferença e isso vai dando forma temporal e espacial ao trabalho. No momento, chamo isso de ‘dramaturgia do inconsciente”. Ela completa que “no início, aprendemos uma a uma todas as formas do corpo da Francesca. Depois desse começo árduo, quando as poses demoravam a se sedimentar no corpo, elas acabaram por se tornar mais naturais e pudemos manipulá-las livremente, juntando duas ou três numa mesma ação e imaginando desdobramentos para além das imagens sugeridas pela artista.”

A Companhia Perdida mergulhou em questionamentos sobre o que constitui o universo feminino, como se fosse emprestada a câmera de Francesca para ensaiar e desafiar faces tradicionalmente associadas a essa categoria.

Para o espetáculo a música foi composta por Jonas Tatit e utiliza os barulhos de talheres, de móveis se arrastando e de portas se abrindo numa alusão ao apartamento quase vazio em que a fotógrafa costumava trabalhar. O iluminador André Boll usa como inspiração pinturas surrealistas e renascentistas para criar a luz colorida do espetáculo, dialogando com os elegantes figurinos de Paulo Babboni. A artista plástica Marcia de Moraes produziu um conjunto de desenhos de poucos e leves traços que ilustram o material de divulgação.

Em texto para o espetáculo, o jornalista Bruno Moreschi ressalta que “o título é uma referência assumida dos segundos que antecederam a queda de Adão e Eva, quando essa última mordeu a maçã proibida do paraíso – e, é claro, ao instante antes de Francesca se jogar da janela. O antes de qualquer salto é um confuso instante. Não se está no chão. Nem livre no ar. Uma desordem entre a racionalidade de permanecer na segurança do plano e a instintividade de se deixar levar pela gravidade”, conclui.

A Companhia Perdida

Foi criada pela bailarina e coreógrafa Juliana Moraes na intenção de abrir um espaço para incursões de trabalho em grupo. Anteriormente, a artista havia se consolidado na criação de solos e duetos. No momento, integram o grupo as criadoras-interpretes Carolina Callegaro, Isabel Monteiro, Érica Tessarolo, Beatriz Sano e Flávia Scheye. A produção é coordenada por César Ramos.

Um pouco de Francesca Woodman

Francesca Woodman nasceu em 1958 em Denver, Colorado, numa família de artistas. Estudou na Rhode Island School of Design, em Providence, entre 1975 e 1979. Entre 1977 e 1978 passou um ano de intercâmbio em Roma, onde costumava freqüentar a galeria-livraria Maldoror, especializada em Surrealismo e Futurismo. Foi lá, no porão da Maldoror, que Francesca fez sua primeira exposição.

De volta aos EUA, mudou-se para Nova York. Em janeiro de 1981 foi lançado “Some Disordered Interior Geometry”, único livro de seu trabalho publicado em vida. No dia 19 desse mesmo mês ela se jogou da janela de seu loft no East Village. Francesca começou a fotografar aos 13 anos de idade e continuou até sua morte prematura, aos 22. Em suas imagens o corpo, geralmente feminino, coloca-se em processo de apagamento. Como ela mesma disse: “I show you what you do not see – the inner force of the body.” Para Philippe Sollers, que escreveu um dos capítulos de um belo livro sobre a artista, Francesca pode ser comparada a uma feiticeira (sorceress), um anjo provocador e irônico, que “não mostra piedade para o que é deformado, monstruoso ou doente”. Como uma jovem e bela feiticeira, Woodman atravessa o espelho (objeto recorrente em seus trabalhos), brinca de esconde-esconde com a câmera, transforma um homem em coelho, flerta com a morte ao esconder um peixe morto entre as pernas ou usar uma pequena raposa como colar. Ela é inteligente, faceira, má, criança, mulher e velha ao mesmo tempo. Seu corpo nu é de uma nudez insuportavelmente profunda.

INFORMÇÕES:
De 10 a 26 de maio de 2011 - Terças, quartas e quintas, às 21h
Ingresso R$ 7,50; 3,50 e 1,75
60 lugares

SESC Pinheiros – Rua Paes Leme, 195 – 2º and. 30 min. de antecedência

Pinheiros – tel (11) 3095.9400