Uma reflexão sobre o acesso à cultura artística

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DIFICULDADES DE ACESSO À CULTURA ARTÍSTICA EM SÃO PAULO

Por Emanuelly Cardoso e Mariana Mesquita (2º sem. JO – texto desenvolvido para a disciplina Teoria do Jornalismo, sob orientação do Prof. Guilherme Bryan).

O dever de uma nação é o de autopreservação de sua cultura e história. O conjunto de manifestações artísticas, sociais ou comportamentais de um povo é o que leva a criação de uma identidade própria e formas independentes de pensar, falar, comer e fazer.

O Brasil é conhecido e prestigiado por sua diversidade cultural. No entanto, a produção artística em cidades pequenas se faz inviável. De acordo com a pesquisa divulgada pelo IBGE, as cidades mais ricas do país são responsáveis por cerca de 40% de todo o consumo e 72,3% dos municípios brasileiros não apresentam nenhum tipo de exibição.

A distância e a falta de comunicação e incentivo, faz com que o desinteresse e a desigualdade social de sobreponha, não somente a exposições de museus, mas também como movimentos independentes. Segundo a UNESCO, Apenas 13% dos brasileiros vão ao cinema alguma vez no ano, 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança e 73% dos livros estão concentrados nas mãos de apenas 16% da população.

Por ser uma metrópole, a cidade de São Paulo possui muita diversidade em sua formação e abriga diversos museus e teatros, alguns gratuitos em período integral e outros que promovem o livre acesso durante alguns eventos ou dias da semana.

O MASP, cartão postal da cidade, possui um dos principais acervos da América Latina, reunindo mais de dez mil obras que incluem pinturas, objetos, esculturas, vestuário e vídeos. A entrada do museu é gratuita todas às terças feiras, porém grande parcela da população não está ciente do fato.

Em visita ao MASP, Luana e Júlia (15), estudantes de escola pública, contam que a escola não incentiva esse tipo de visita, foram por indicação do professor, as estudantes completaram que não costumam frequentar museus e não sabiam da gratuidade do dia. Iara (23), não é da capital e foi ao MASP acompanhada de sua filha de sete anos numa excursão da prefeitura de sua cidade, Santa Isabel. Amanda (35) também não é da capital, mora em Brasília e veio a São Paulo em viagem com sua filha de onze anos. Apesar de possuírem hábitos diferentes, as duas mães reconhecem a importância do acesso a cultura artística para as filhas, enquanto Iara não costuma frequentar museus, Amanda está sempre buscando novas exposições devido à sua formação em artes plásticas.

Nenhuma das visitantes conhecia a gratuidade do museu e comentaram sobre a dificuldade de acesso, Iara declarou que só descobriu o dia gratuito por conta da excursão e afirmo: “acho importante que minha filha venha para esses museus e aumente seus conhecimentos sobre coisas novas, ela estuda em escola pública e nem sempre consegue ver isso, dependendo da escola, o acesso varia muito”. Amanda disse que não conhecia as dificuldades de acesso para jovens de escolas públicas, pois sua filha sempre estudou em escolas particulares, onde era muito incentivada a ter contato com a cultura artística e, comentou ainda sobre a divulgação “eu pesquisei na internet e não encontrei nada sobre isso, ainda falta uma estruturação maior para divulgação, nas ruas, no metrô ou até mesmo nas redes sociais”.

A educação tem papel importante desde muito cedo para a formação cultural dos jovens, porém encontra dificuldades como conta a professora de educação básica Rita de Cássia, “A escola pública tenta incentivar a cultura, mas dependendo do público alvo, sendo por exemplo de extrema periferia, as crianças não têm acesso. Existe um incentivo levando os alunos à museus e teatros, porém essas visitas são caras e envolvem o poder socioeconômico. Em alguns casos, as escolas organizam visitas a locais gratuitos, mas não possuem recursos para o transporte e ao cobrar dos alunos, nem todos podem pagar”.

A professora também ressalta “A cultura no nosso país é muito cara, o que faz com que grande parte das pessoas não tenha acesso, ficando restrita a uma minoria. Apesar de encontrarmos coisas gratuitas, falta divulgação e isso impede o acesso. Se existisse uma maior divulgação, as pessoas iriam usufruir melhor da cultura artística”.

De acordo com a Lei 8.313, de 23 de dezembro de 1991, o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) tem como objetivo captar recursos para facilitar o acesso às fontes de cultura e o exercício dos direitos culturais, promovendo a produção cultural e artística de forma que valorize os recursos humanos. O Programa é implementado pelo Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart).

Segundo o secretário adjunto da Secretaria da Fazenda de São Paulo, Luis Felipe Vidal Arellano, a criação da lei é unanimidade no setor, pois é uma forma muito efetiva de assegurar os direitos relacionados ao meio artístico, por outro lado, levanta uma crítica “existem poucos recursos de pequeno apelo, ela acaba funcionando apenas para grandes espetáculos que não precisam de tamanha assistência”.

Nota-se que o acesso à cultura em seu espectro físico, como cinema, teatro e exposições, fica restrito à pequenas camadas da população, geralmente as elites sociais Fonte: Jornal no e, quando acessível financeiramente à toda população, tem-se uma barreira construída Palco culturalmente e potencializada pelas enormes falhas na estrutura educacional e políticas de integração e incentivo no Brasil.

Cintia Dal Bello

Cintia Dal Bello

Cíntia Dal Bello é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com especializações em Marketing e Comunicação (pela Cásper Líbero) e Cultura e Meios de Comunicação (pela PUC-SP). Como publicitária, acumula experiências em criação publicitária, planejamento de comunicação e marketing escolar. Sua pesquisa versa sobre cibercultura, subjetividade, identidade, tele-existência e imaginário tecnológico. Atualmente, estuda os temas arquetípicos da psicologia profunda para compreender as dimensões da imagem e do imaginário nos processos criativos.

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