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DATA VENIA é a revista eletrônica do
Curso de Relações Internacionais da Faculdade
de Belas Artes de São Paulo. De periodicidade
trimestral, seu conteúdo não necessariamente
coincidirá com o pensamento da FEBASP, mantenedora
da Faculdade, mas será de inteira responsabilidade
dos autores que subscreverão suas respectivas
matérias.
As
colunas serão alimentadas pelos professores do
Curso, contando-se também com a colaboração
do alunado, da Comunidade Febaspiana como um todo, e
apenas marginalmente, ocorrerá a participação
de colaboradores externos à Instituição.
Além
de divulgar as notícias relacionadas ao Curso,
as matérias publicadas reportar-se-ão
às sociedades nacional e internacional, através
de textos inéditos e não muito extensos,
acolhendo-se também material redigido nos idiomas
inglês e espanhol.
O
conteúdo divulgado em DATA VENIA primará
pelo balizamento ético e pluralismo das idéias,
as quais autoriza-se sua reprodução por
quaisquer meios desde que se mencione suas respectivas
fontes.
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| Não
vivemos para a escola, mas para a vida.
A
primeira Revolução Industrial incutiu
na maioria das pessoas a associação
entre educação e trabalho, como
se este resumisse a única finalidade daquela,
e assim a Escola formaria apenas profissionais
ao invés de cidadãos, ou seja, prepararia
para o mercado de trabalho, mas não para
a vida inteira.
Deixando-se
de lado por ora àquelas escolas que não
formam nem uma coisa nem outra, mas contribuem
para a deformação de muitos, o elevado
desemprego dos tempos modernos e, por sua vez,
a baixa remuneração dos trabalhadores,
nem todos profissionais, são fatores tendentes
a suportar ao menos parte do argumento inicial,
além da falsa premissa de que o estudo
não compensa. Ora, se a empregabilidade
já apresenta dificuldades para quem estudou,
elas se avolumam numa relação inversamente
proporcional aos anos de escolaridade de quem
estudou pouco.
De
nossa parte, acreditamos que os verdadeiros profissionais
encontram-se em permanente e contínua formação;
são como tarefas inacabadas e que extrapolam
os muros acadêmicos, mas estes têm
a obrigação de lhes fornecer um
alicerce edificante à dignidade pessoal
e profissional, à prática da cidadania.
Nesses termos, almejamos qualificar recursos humanos,
preparando-os adequadamente para o mercado de
trabalho, mas também para o engrandecimento
pessoal.
Foi
com estas idéias que se estruturou o curso
de Relações Internacionais da Faculdade
de Belas Artes de São Paulo, sendo depositário
de um excelente projeto pedagógico, um
quadro docente altamente qualificado e uma moderna
infra-estrutura de apoio que somados, constituem
fatores indispensáveis à excelência
no ensino e na formação de qualquer
profissional.
Não
foi mero acaso que cada um dos três itens
acima tenha obtido conceito "A" do MEC,
deixando-nos satisfeitos, todavia jamais acomodados,
face à consciência de que vencemos
uma batalha, mas a guerra está apenas começando.
Estamos
seguros da vitória também em outras
batalhas ulteriores, traduzidas por exemplo pela
formação de bacharéis em
Relações Internacionais qualificados
para analisar, interpretar, sugerir, cooperar,
enfim, dialogar com a sociedade internacional,
intentando torná-la mais justa e menos
assimétrica.
Tal
segurança advém das armas de que
dispomos para lutar e algumas delas já
foram aqui delineadas. Advém ainda da garra,
da competência e do apoio técnico
e administrativo provenientes da Comunidade Febaspiana
que a Belas Artes acolhe. Louve-se também
o esforço e a boa vontade para com o curso
de Relações Internacionais, emanados
pela direção da Faculdade, desde
os momentos iniciais de sua implantação.
Como
para nós a prática sem teoria é
curandeirismo, enquanto teoria dissociada da realidade
é diversão acadêmica, a praxis
das relações internacionais no curso
da Belas Artes resultará na trilogia ensino,
pesquisa e extensão. A propósito,
a pesquisa científica já se fará
presente a partir do terceiro semestre letivo.
E
consonante à interdisciplinaridade subjacente
às relações internacionais,
primaremos pelo pluralismo e respeito à
diversidade nas mais distintas instâncias;
respeitaremos os limites impostos pela ética,
justiça e legitimidade.
Imbuídos
desse espírito e motivados pelo sentimento
de equipe, conformando uma corrente em que cada
elo se nutrirá dos esforços emanados
pelos demais, não mediremos esforços
para ratificar a missão, a concepção
e os objetivos a que o curso de Relações
Internacionais da Belas Artes se propôs.
Raimundo Ferreira de Vasconcelos |
| As
Missões da ONU e a Diretriz Brasileira em
Relação às Forças de
Paz As
graves mudanças da conjuntura internacional
na década de 1990 revelaram, de modo dramático,
a importância das Missões de Paz
e do serviço de voluntariado como em nenhuma
outra década desse século. As missões
das Forças de Paz da ONU, que ocorreram
na última década do século
XX, se distinguem das anteriores por revelarem
a escalada crescente de desumanização
em que são submetidas hoje as populações
civis que se vêem envolvidas por conflitos
militares.
Os
deslocamentos de refugiados das guerras civis
étnicas que ocorreram em Ruanda/Burundi,
em 1993, nos Bálcãs entre 1995-1998,
mostraram ao mundo o potencial explosivo de disseminação
que os conflitos regionais hoje em dia são
capazes. Eles desorganizaram os já então
débeis serviços de infra-estrutura
dos países vizinhos em pouco meses. Pontos
críticos, como a alta taxa de mortalidade
infantil, más condições de
higiene, difícil distribuição
de víveres e remédios às
populações carentes, e o assentamento
dos refugiados, só se agravam quando não
há a contenção de um conflito
em seu estágio inicial.
A
própria ONU reconhece que, para o sucesso
dessas intervenções, seria necessário
que as forças de paz se engajassem eficientemente
em ações humanitárias. Não
há mais missões que sejam puramente
assistenciais, preventivas ou de segurança.
A situação crítica em que
se encontram várias populações
pelo mundo, demandam ações efetivas
urgentes que cubram todas as lacunas entre as
atividades de ajuda humanitária, de manutenção
da paz e de negociação ativa com
as forças beligerantes. Em conseqüência
dessa nova realidade, as Nações
Unidas lançaram a demanda por um novo profissional,
ativista em missões de paz.
O
novo voluntário do século XXI deve
ser capaz de atuar em contextos imprevisíveis.
Estar capacitado para coordenar trabalhos humanitários
dentro de uma estrutura multifuncional de trabalho,
e familiarizado em tarefas tão distintas
como as atividades assistenciais da ajuda humanitária
e o uso dos recursos de logística e de
comunicações de uma força
de paz.
A
Participação do Brasil em Missões
de Paz da ONU
O
Brasil não dispõe ainda de uma legislação
especifica para a participação em
missões humanitárias no exterior,
embora essas missões estejam previstas
no artigo IV da Constituição Federal
de 1988.
Após
a primeira missão nos Bálcãs,
em 1947, o Brasil participou - nas décadas
de 1950 e 1960 - integrando forças internacionais
de paz sob a égide da ONU, no Oriente Médio;
e da OEA, no Caribe. A mais longa missão
foi a do Oriente Médio (UNEF-1), que durou
de 1957 a 1967, com a participação
de um contingente de 600 militares aproximadamente
que se revezaram em 20 contingentes.
Nas
décadas seguintes foram poucas as missões,
até seu reinício em 1989. Em 6 de
julho de 1994, o presidente Fernando Henrique
Cardoso pronunciou-se, afirmando o desejo do país
ter assento permanente no Conselho de Segurança
da ONU, e aumentar significativamente a sua participação
nas suas operações. Desse modo,
o país se dispôs a aumentar o seu
efetivo no Departamento de Operações
da ONU, e integrar o programa Stand by Forces
, se convidado por àquela instituição.
Vale
notar que o Brasil também ainda não
dispõe de um corpo técnico especializado
de voluntários para missões no exterior,
atuando junto às instituições
governamentais.
Em
linhas gerais, adota-se como pré-requisito
para a participação o interesse
dos países beligerantes em que o Brasil
participe da mediação do acordo
de paz, aceitando a presença de observadores
civís brasileiros e/ou tropas brasileiras,
em seu território. Atendida essa pré-condição,
a consulta dos países beligerantes é
analisada pelo Ministério das Relações
Exteriores, responsável pela coordenação
do processo decisório. A consulta recebe
também o parecer do Ministério da
Defesa [outrora Estado Maior das Forças
Armadas - EMFA] que articula os três comandos
militares, no levantamento de informações
técnicas e operacionais. Uma vez concluído
os pareceres ministeriais, ambos são remetidos
à Presidência da República.
Se a Presidência julgar pertinente a participação
do Brasil em uma missão de paz no exterior,
ela irá dirigir-se ao Congresso Nacional,
pedindo sua autorização para o envio
de tropas ao exterior. A autorização
é dada por meio de um Decreto Legislativo.
Uma força expedicionária então
será criada por meio de um Decreto Presidencial,
podendo ela contar com corpos civís de
voluntários, submetidos ao comando militar
da missão.
Embora
não haja diretrizes de como integrar esses
corpos de voluntários civís, existem
normas políticas que indicam os procedimentos
que as agências governamentais devem adotar,
quando cooperam com organismos internacionais
como a ONU e a OEA (1).
Isso
não significa que não haja disposição
das autoridades brasileiras para elaborar uma
legislação específica para
essas diretrizes. A postura atual da ONU de atuar
com o voluntariado humanitário despertou
em nosso Ministério da Defesa, bem como
no MRE, a necessidade de se adestrar os técnicos
do governo, tanto civís como militares,
e o voluntariado civil, para a participação
nas Forças de Paz da ONU. O Ministério
da Defesa procura desenvolver uma doutrina de
emprego das FFAA (Forças Armadas) para
essas situações, enquanto o governo
federal aposta na disseminação da
Doutrina de Defesa Civil (2). Ambos convergem
para a adoção de uma diretriz comum
de ação a médio prazo, uma
vez que o país partilha da visão
da ONU de que é preciso se reformular o
conceito de segurança global - dotando
as Stand by Forces de mandatos mais flexíveis
e de uma capacidade operacional multifuncional
(3).
No
plano político interno, a iniciativa resultou
no envio de um projeto de lei ao Congresso Nacional,
elaborado pelos MRE e Ministério da Defesa,
para agilizar o processo de tomada de decisão
para o envio de tropas ao exterior (4). E se,
de fato, não houve ainda condições
de se ter uma legislação específica
sobre o tema, a razão é creditada
à falta de recursos do governo federal.
Notas
(1) Direito Internacional Humanitário.
Ministério das Relações Exteriores,
IPRES. Brasília. 1988.
(2) A Doutrina de emprego da Defesa Civil é
de sentido humanitário. As Forças
Armadas têm como doutrina de emprego, em
forças de paz, a manutenção
da ordem pública.
(3) Managing Arms in Peace Process. United Nations
Institute for Disarmament. New York, 1995.
(4) Monteiro. R. G. Anais do Encontro de Estudos
Estratégicos - Fundação Alexandre
de Gusmão. Brasília. 1996.
Paulo
Tempestini
Doutor em Ciência Política
e Professor do Curso de
Relações Internacionais da Belas
Artes |
| A
integração econômica da América
Latina Em
outubro de 1976, no limiar dos meus 30 anos de
idade, participei, pela primeira vez, de uma reunião
da Associação Latino Americana de
Livre Comércio - ALALC, em Montevidéu,
capital do Uruguai e país-sede desta Associação.
Eu representava, naquela época, os interesses
de uma empresa alemã do ramo eletro-eletrônico,
interessada em expandir a corrente de comércio
nos países da América Latina, principalmente
naqueles que abrigavam suas subsidiárias.
No contexto de uma integração regional,
as negociações que se desenvolvem
no âmbito de um bloco econômico têm
origem na associação de classe nacional,
que congrega as indústrias do país
membro. No caso brasileiro, os interesses da indústria
elétrica e eletrônica são
discutidos na Associação Brasileira
da Indústria Elétrica e Eletrônica
- ABINEE. A cada reunião convocada especialmente
para esta finalidade, nós, representantes
da indústria nacional, analisávamos
as possibilidades de expansão da Lista
de Produtos que poderiam ser alvo de redução
de alíquotas de importação.
O determinante maior para a inclusão de
um produto em uma negociação multilateral
é a competitividade deste produto em termos
de preço, qualidade, capacidade de produção
e outros aspectos técnicos característicos
do produto. Era necessário conciliar os
interesses, negociar contrapartidas, propor barganhas
por outros produtos ou mesmo linha de produtos
para se consolidar uma lista deles que pudessem
ser classificados como produtos intra-zonais,
no jargão dos especialistas, com direito,
portanto, a reduções de alíquotas
de importação e outras barreiras
não alfandegárias.
Cumprida esta etapa, se passava à aprovação
entre as nações que faziam parte
das negociações no âmbito
da ALALC. Em diversas oportunidades não
se logrou êxito na expansão dos Acordos
devido, principalmente, às diferenças
nos estágios de industrialização
de cada país signatário. Assim,
Brasil, México e Argentina promoviam entre
si Acordos de Complementação, especialmente
no tocante a produtos elétricos. Produtos
do setor de telecomunicações não
eram analisados nesta época, porque os
negociadores argentinos quase sempre se declaravam
sin mandato para tais negociações,
ou seja, os negociadores da Câmara Argentina
- o equivalente da ABINEE - não representavam
os interesses do setor de telecomunicações
daquele país na mesa de negociações.
Fatos como estes se repetiram em várias
oportunidades. Neste interregno, crescia o nosso
interesse particular pelo bloco econômico
que se formava. Aprendemos que, para se alcançar
uma integração regional era preciso
influenciar as negociações junto
aos delegados de governo, promovendo previamente
entendimentos entre as subsidiárias e suas
associações nacionais.
Vou repartir um pouco do que aprendemos sobre
a integração econômica da
América Latina. O objetivo maior da precursora
ALALC, como o próprio nome indica, foi
o de criar uma zona de livre comércio entre
os países da América Latina. Assim,
em 1960 foi firmado um acordo inicial entre sete
países: Argentina, Brasil, Chile, México,
Paraguai, Peru e Uruguai. Deu-se início
a um processo de maior integração
econômica entre estes países, por
meio da ampliação do tamanho de
seus mercados e expansão do seu comércio
recíproco. Posteriormente, Colômbia,
Equador, Bolívia e Venezuela aderiram ao
Acordo. Significava, portanto, a criação
de um bloco econômico formado pelos Estados
membros onde as mercadorias pudessem circular
livremente sem que fossem cobrados os impostos
de importação e exportação
e sem que houvesse a imposição de
medidas de efeito equivalente, tais como sobretaxas,
quotas de importação e outras.
De acordo com a carta magna da Associação,
as barreiras comerciais entre os Estados membros
deveriam ser eliminadas em 12 anos, contados a
partir de 1960, época da sua constituição.
Tal programa de liberalização comercial
deveria concretizar-se através da negociação
periódica e coletiva de uma lista de produtos
que deveriam ser libertos dos direitos aduaneiros
e de qualquer outra medida de efeito equivalente.
No entanto, dez anos depois ainda não se
havia chegado sequer a uma aproximação
de uma lista comum daqueles produtos, prevalecendo
Acordos de Complementação firmados
bilateralmente entre países signatários
da Associação que desfrutavam de
um estágio mais avançado de industrialização
local, base para o intercâmbio de produtos
e tecnologia.
Na década de oitenta foi assinado um novo
Tratado de Montevidéu, que criou a Associação
Latino Americana de Integração -
ALADI. Esta se constituiu como área de
integração regional em virtude da
"cláusula de habilitação"
na Rodada de Tókio do General Agreement
on Tariffs and Trade - GATT. Em sua constituição,
em 30 de outubro de 1947, o GATT, tendo como base
uma cláusula que privilegiava uma nação
mais favorecida, previa a diminuição
dos impostos de importação e outras
medidas para a liberalização do
comércio internacional.
Entre 1973 e 1979 o GATT promoveu a "Rodada
de Tókio", na qual as partes contratantes
firmaram uma cláusula que permitia a adoção
de tarifas preferenciais no comércio entre
países em vias de desenvolvimento com o
fim de reduzir ou eliminar mutuamente os impedimentos
de seu comércio recíproco. O objetivo
da ALADI, portanto, é o de promover o comércio
bilateral entre os Estados membros e entre esses
e terceiros países, por meio de acordos
bilaterais e multilaterais, com a meta de chegar
a um mercado comum latino-americano caracterizado
pela adoção de preferências
tarifárias e não tarifárias.
São países membros da ALADI a Argentina,
a Bolívia, o Brasil, o Chile, a Colômbia,
Cuba - que ingressou em 26 de agosto de 1999 -,
Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai
e Venezuela. Compreende, portanto, um território
de quase 20 milhões de quilômetros
quadrados e mais de 430 milhões de habitantes.
Os mecanismos da ALADI são mais flexíveis
que os da ALALC e se baseiam em acordos de alcance
regional (todos os membros da associação)
e acordos parciais (acordos comerciais que concedem
preferência a produtos específicos)
firmados normalmente por dois países membros.
Os acordos parciais mais amplos são também
chamados "acordos de complementação
econômica".
Em 1985 foi assinada a "Declaração
de Foz do Iguaçu" entre Brasil e Argentina
(com a finalidade de criar uma associação
preferencial entre os dois países), criando
as bases para a futura integração
do cone sul. Alguns anos mais tarde, mais especificamente
em 1988, foi assinado, novamente entre o Brasil
e a Argentina, o "Tratado de Integração,
Cooperação e Desenvolvimento",
que tinha por objetivo consolidar um espaço
econômico comum em 10 anos, por meio da
liberalização comercial e da homogeneização
das políticas macroeconômicas dos
países signatários.
A partir daquela data foram assinados 24 protocolos
sobre temas diversos, relacionados a produtos
alimentícios industrializados, indústria
automobilística, cooperação
nuclear, bens de capital etc.. Aqueles acordos
foram abreviados em um acordo único, denominado
"Acordo de Cooperação Econômica
no. 14", assinado em dezembro de 1990, no
âmbito da ALADI, que constituiu o referencial
adotado posteriormente no Tratado de Assunção.
Em agosto de 1990 Paraguai e Uruguai juntaram-se
ao processo em curso e em 26 de março de
1991 foi assinado o Tratado de Assunção,
que estabeleceu os mecanismos para a formação
de uma zona de livre comércio e de uma
união aduaneira entre os Estados membros,
hoje conhecida por Mercosul.
Dentre os objetivos do Mercosul, destacamos
- Coordenação de políticas
macroeconômicas e setoriais
- Desgravação tarifária e
não tarifária (quotas, restrições
fito-sanitárias) ou medidas de efeito equivalente;
- Adoção de uma pauta aduaneira
comum;
- Constituição de um regime geral
de origem, de um sistema de solução
de controvérsias e de cláusulas
de salvaguarda;
- Estabelecimento de listas de exceção
aos "produtos sensíveis" até
31 de dezembro de 1994, com tratamento diferenciado
para o Paraguai e Uruguai.
Em 17 de dezembro de 1994 foi assinado o Protocolo
de Ouro Preto, que criou uma nova estrutura institucional
do Mercosul, concedendo-lhe uma personalidade
jurídica de Direito Internacional Público.
Tal Protocolo estabeleceu a data de 1o. de janeiro
de 1995. visando a aplicação da
pauta aduaneira comum para aproximadamente 85%
dos produtos oriundos de terceiros países.
Com base nestas idas e vindas e, sobretudo, na
experiência acumulada neste particular segmento
de atuação, podemos afirmar que
o sucesso de um bloco econômico está
fortemente condicionado à formação
de uma cultura entre os povos que seja alicerçada
por uma união de forças e exploração
racional e sustentada de suas riquezas naturais,
em busca de um maior desenvolvimento e melhorias
da condição de vida, saúde,
educação e trabalho dos habitantes
dos países membros deste bloco. O estudo
da formação, intensificação
e melhoria institucional de um organismo de cooperação
internacional Interessa ao estudante de relações
internacionais porque a vontade política
para a integração, embora esteja
incorporada na maioria das Cartas magnas dos países,
deve pressupor a adesão do homem de negócios,
do produtor, do industrial, dos comerciantes,
a quem compete entender, aproveitar e utilizar
as novas e múltiplas possibilidades que
são colocadas à sua disposição
pelos Tratados firmados.
Sobretudo, porque os estudantes terão em
suas mãos o futuro de nossos países,
por onde passa a integração econômica,
social e tecnológica das nações.
Fauzi
Timaco Jorge
Economista e mestre em Economia
política Internacional;
Coordenador e Professor do Curso de Administração
de Empresas da Belas Artes.
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Caminhos da humanidade... |
| Essa
coluna será alimentada principalmente por
historiadores, tratando de matérias alusivas
a caminhos passados, atuais e quiçá,
futuros, trilhados pela humanidade, contextualizados,
por exemplo, por conflitos de concepção
e/ou interesses subjacentes ao desenvolvimento
sustentável, à mundialização
do capital, ao choque de civilizações
etc. Aguardem nossa próxima edição.
RFdV
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Memória
e cidades mundiais
"Aquilo que sabemos que, em breve, já
não teremos diante de nós torna-se
imagem". Esta afirmação de W.
Benjamin (1991:84) sobre o cenário profundamente
transformado de Paris sob as pás, enxadas
e alavancas do prefeito Haussmann, na segunda metade
do século XIX, e as imagens ou o imaginário
que logo suscitará, guarda uma justa correspondência
com a cidade de São Paulo. O
binômio destruição/construção
e segregação constituiu-se no elemento
fundante da modernidade das cidades, particularmente
daquela que passa a dar uma feição,
no final do século XIX, às metrópoles
européias, quando uma ordem burguesa impõe
sua hegemonia na sociedade capitalista. Essa hegemonia
traduziu-se no espaço urbano por meio da
expulsão das camadas populares dos lugares
públicos e da imposição de
um modelo de ordem social e urbana que passou
a organizar e disciplinar todo tipo de usos, práticas
e fluxos da rua (Pechman, 1994).
Quase
um século depois, poderíamos sugerir
que um dos pólos daquele binômio,
o da destruição/construção,
converteu-se no da preservação.
Sob a lógica temporal que instituiu as
cidades modernas - associada à fugacidade
do novo, que quase instantaneamente se desvanece
e adquire a qualidade do velho -, passa-se a assistir
ao estabelecimento de uma outra lógica
que busca paralisar o efêmero, imobilizar
esta fugacidade, buscando preservar o passado,
conferindo uma estabilidade ou, pelo menos, uma
identidade menos mutante à cidade. Todavia,
ao se observar a permanência de um dos pólos,
o da segregação, questionamos quais
são os velhos sentidos que permanecem e
os novos que emergem nesta nova lógica
que busca salvar uma memória da cidade,
envolvendo lembranças, mas também
esquecimentos/ocultamentos.
Desde
a última década do século
passado a cidade de São Paulo vem acompanhando
uma tendência mundial, espelhada na experiência
das cidades européias e norte-americanas,
ao ser palco de alguns projetos de "revitalização"
e "requalificação" das
áreas centrais, especialmente de seu centro
antigo, nas quais se destacam as ruas ligadas
ao "Triângulo Histórico"
- Praça da Sé, Largo São
Bento, Largo São Francisco - (Frúgoli,
2000), e antigas áreas industriais como
à da região da Luz. Estes projetos,
ainda em andamento, e outros, que não ultrapassaram
a polêmica nos meios de comunicação,
como a "Maharishi São Paulo Tower"
nos antigos bairros operários do Brás
e Pari, circunscrevem-se no atual contexto de
internacionalização da economia,
que se traduz na concorrência entre as metrópoles
para atrair investimentos e entrar no circuito
econômico e cultural da globalização
(Arantes, 2000). Os desdobramentos culturais e
urbanos desta concorrência, que tem como
um dos principais protagonistas o poder público,
residem na transformação do patrimônio
histórico arquitetônico e urbanístico
destas áreas em territórios potencialmente
valorizáveis pelo capital, seja ele imobiliário,
seja ele financeiro, seja ele da indústria
cultural, a fim de, entre outros objetivos, transformá-los
em centros atrativos para negócios, projetos
de lazer e culturais e paisagem turística
(Harvey, 2000; idem, 2000).
Na medida em que estas áreas da capital
paulista, por uma série de razões
de ordem histórica, econômica e social
, encontram-se "deterioradas", "degradadas"
e ocupadas por ambulantes, moradores de rua, de
cortiços, imigrantes clandestinos, prostitutas,
consumidores de drogas, enfim, por uma população,
que à despeito de suas particularidades,
sobrevive do mercado informal, seja ele de trabalho,
seja ele imobiliário, bem como fora da
ordem moral e legal, estes processos de revitalização
e requalificação trazem em seu bojo
uma forte tendência ao enobrecimento destas
áreas, através das tentativas de
expulsão desta população
, intensificando o crescente processo de segregação
espacial na cidade.
Não
há dúvidas acerca da necessidade
de intervenção destas áreas,
em nome da preservação da memória
e do patrimônio histórico e arquitetônico,
todavia, isto implica atentar para o fato de que
a relação, na atualidade, entre
o presente e o passado é constitutiva não
de uma, mas de múltiplas memórias
que dizem respeito à forma como as classes
sociais e grupos distintos não apenas experimentaram
este passado, mas como representam-no, a fim de
dar legitimidade, no presente, ao que deve ser
preservado ou revitalizado, como deve ser, e sobretudo,
como esta preservação/revitalização
está ligada ao seu lugar e o lugar do outro
na cidade (Pechman, 1994).
Essas
imagens sobre o presente, elaboradas a partir
de uma determinada representação
sobre o passado (e vice-versa), ora gravitam em
torno de um consenso, ora eclodem em diferenças,
revelando uma disputa pela imposição
de uma representação hegemônica
acerca do que é a própria cidade,
ou seja, da sua identidade.
Portanto,
refletir sobre a identidade da cidade, não
significa negar o espaço urbano também
como cenário turístico ou centro
de negócios e serviços - características
que podem qualificar e alçar a metrópole
paulistana ao status de "cidade global"
- mas antes, atentar para as correlações
políticas e econômicas muito desiguais
envolvidas no processo de sua produção.
É o que se depreende da forte presença
da Associação Viva o Centro, representada
pelo capital imobiliário e financeiro,
pelos setores de serviços, comércio
e instituições públicas e
privadas, entidade civil bastante atuante junto
aos poderes públicos na proposição
de projetos de revitalização do
centro antigo da cidade.(Frúgoli, 2000).
A despeito da sua importante atuação,
ainda assim, o reconhecimento da legitimidade
do conflito em torno da apropriação
do espaço bem como da negociação
com esta população, para além
do tratamento estritamente policial e/ou assistencialista,
parece ser ainda a grande lacuna dos atuais projetos
de requalificação, revitalização
e preservação destas áreas
centrais.
A
presença desta população
no palco não só da cidade, mas também
da sua história, requer o seu reconhecimento
como sujeitos históricos da cidade, portadores
de uma memória, ainda que ameaçada
pela experiência da destituição,
da violência, das drogas, da precariedade
do trabalho e da moradia.
Arantes,
O, Vainer, Carlos, Maricato, E. A cidade do pensamento
único. Desmanchando consensos. Petrópolis/RJ:
Vozes, 2000.
Benjamin,
Walter. Obras escolhidas III. Charles Baudelaire.
Um
lírico no auge do capitalismo. São
Paulo: Brasiliense, 1991.
Frúgoli,
H. Centralidade em São Paulo. Trajetórias,
conflitos e
negociações na metrópole.
São Paulo: Cortez/Edusp/Fapesp, 2000.
________
"Conflitos e negociações em
torno da requalificação do centro
de São Paulo: a Associação
Viva o Centro". Plural. Sociologia, USP,
São Paulo, 8:29-62, 2o. sem. 2001.
Harvey,
D. A Condição Pós-Moderna.
São Paulo: Edições Loyola,
2000.
Pechman,
Robert M. "Os excluídos da rua: ordem
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Stella (org.). Imagens da cidade - séculos
XIX e XX. São Paulo: ANPUH-SP/Marco Zero/Fapesp,
1994.
Rolnik,
Raquel. A cidade e a lei. Legislação,
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cidade de São Paulo. São Paulo:
Nobel/Fapesp, 1997.
Villaça,
Flávio. Espaço Intra-urbano no Brasil.
São Paulo: Studio
Nobel. FAPESP. Lincoln Institute, 1998
Verônica
Pereira Sales
Doutoranda e Mestre em Sociologia
Professora do Curso de Relações
Internacionais da Belas Artes |
| Esta
coluna se destina a comentar ou tão somente
reproduzir, no todo ou em partes, material veiculado
na mídia falada, televisiva, impressa ou
on line, atinente aos interesses acadêmicos
de relações internacionais.
Nesta
edição especial da estréia
de DATA VENIA, seu conteúdo esteve voltado
mais para a profissão do "internacionalista",
visando maiores esclarecimentos aqueles que pretendem
abraçar esta jovem e promissora carreira
profissional. Por conta disso, reproduziremos
a seguir trechos de um artigo publicado pela Gazeta
Mercantil, em 30/05/2000, sob o título
Globalização
abre mercado para o diplomata empresarial
Atraídos
por novas oportunidades geradas com a internacionalização
das economias e, ao mesmo tempo, desestimulados
pelo sistema hierárquico conservador do
Itamaraty, profissionais da área de relações
internacionais estão abandonando o antigo
sonho de serem diplomatas e partindo em direção
às empresas privadas. Demanda fora do governo
não falta: as empresas custaram a perceber
que, para ter um diferencial em suas negociações
internacionais, é preciso muita diplomacia
e, por isso, estão indo atrás de
pessoas com uma visão que vai além
do comércio exterior: conhecer a cultura
e a política dos países, assim como
a história da formação dos
blocos comerciais, ajuda, e muito, a criar um
ambiente favorável para o fechamento de
um grande contrato internacional ou mesmo na hora
de abrir uma empresa fora do País. É
esse tato dos "internacionalistas" que
as empresas estão buscando. "Se você
tem apenas conhecimento técnico e administrativo
quando faz uma transação com certos
países está arriscado a perder o
negócio", diz o gerente da área
de relações internacionais e comércio
exterior da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (FIESP), José
Carlos Maya.
A
formação diversificada - a base
forte é de economia, direito e história
- é o que distingue esses profissionais.
"Esse diplomata empresarial abre caminhos.
Ele faz a diferença na hora de negociar
com um cliente, já que as empresas são
muito parecidas no que diz respeito à produção
e tecnologia", diz o diretor corporativo
de recursos humanos da Monsanto, Felipe Westin.
Não
faz muito tempo que a agroquímica voltou
os olhos para essa área internacional,
mas Westin já prevê os resultados
futuros nos valores da organização.
"À medida que formos avaliando os
resultados, pretendemos ampliar o quadro."
Do
lado do profissional, a situação
está bastante favorável. Roberta
Duarte, formada em relações Internacionais
pela PUC-SP, em 1999, entrou no último
programa de trainees do Citibank e garante que
seu conhecimento amplo na área internacional
já permite agregar valor ao trabalho no
banco. "Entendo o processo jurídico
da negociação, também sei
se a economia de determinado país vai afetar
a nossa área de 'cash management' e consigo
fazer a interface com todas as áreas do
banco", assegura Roberta, que fala inglês,
francês e espanhol, disciplinas obrigatórias
na maioria dos cursos de relações
internacionais.
O
tempo para se chegar aos topos e os salários
oferecidos são dois pontos díspares
entre o caminho público e o privado nessa
área. Se o interesse for pela diplomacia,
a primeira barreira é o vestibular para
entrar no Instituto Rio Branco. São três
meses e meio de provas dificílimas e cerca
de 100 candidatos para cada uma das pouco mais
de 20 vagas oferecidas a cada ano. Formado pelo
Instituto Rio Branco, o diplomata tem um longo
processo hierárquico pela frente: cinco
níveis diferentes (entre secretário,
conselheiro e ministro), até chegar a embaixador,
o topo da pirâmide cada classe, cinco a
seis anos. O salário ainda está
em torno dos R$6 mil. O embaixador Amado, diretor
do Instituto Rio Branco e 32 anos de diplomacia,
afirma que recebe, brutos, R$ 9 mil.
Daniel
Barros, recém-formado em relações
internacionais e com experiência profissional
em duas multinacionais, também não
se imagina um diplomata de carreira, até
pela dificuldade de se entrar nesse campo "tão
conservador".
Alem
disso, ele acredita que o glamour que a diplomacia
já teve perdeu-se junto com a importância
da política externa brasileira frente às
relações comerciais internacionais.
Antes mesmo de se formar ele trabalhava como analista
de comércio exterior na AMP, onde aprendeu
a lidar com logística intraempresa, e começou
este ano trabalhando na SKF, outra grande companhia
do setor de autopeças, depois de selecionado
por "headhunters". "Com a globalização,
as multinacionais surgem como novos atores nas
relações internacionais e têm
poder de mudar a economia de um país. Numa
nacional existe possibilidade de crescimento.
Além disso, você pode optar por empresas
com culturas e filosofias diferentes". Barros
acredita, no entanto, que ainda falta um pouco
da administração no curso de relações
internacionais. Para chegar à posição
atual de especialista na divisão de apoio
a negócios da SKF, ele diz que valeu mais
a experiência no primeiro emprego do que
a formação universitária.
"As empresas não colocam anúncio
nos jornais procurando especialistas em relações
internacionais. Elas buscam pelo conhecimento
e pela habilidade. O movimento de busca por esses
profissionais ainda é novo. "A pessoa
formada em relações internacionais
traz um valor muito importante no relacionamento
entre os países, enquanto aquele voltado
apenas para o comércio exterior ajusta-se
mais ao negócio produto a produto, afirma
a diretora adjunta de recursos humanos do Bank
Boston, Denise Asnis.
Hoje
são 8 mil os alunos de graduação
em relações internacionais no Brasil,
fora os cursos de especialização
e pós-graduação. "No
início, o número de pessoas que
cursava relações internacionais
junto com outros cursos era grande. Hoje a maioria
já tem o curso como primeira opção",
conta o coordenador da PUC, Reginaldo Mattar Nasser.
Na Faap, o curso vai completar o quarto semestre
de existência agora no meio do ano e a procura
mais que duplicou no período. "Como
a profissão ainda é muito nova,
ainda se vê muitos advogados, economistas
e administradores trabalhando nos departamentos
internacionais das empresas. Mas isso deve mudar
em breve", diz o diretor da Faculdade de
Economia e Relações Internacionais,
Silvio Passarelli.
A
procura pelo curso no Instituto Rio Branco, no
entanto, não diminui em razão da
maior demanda da iniciativa privada, garante o
embaixador André Amado, diretor do Rio
Banco. Atualmente, o Itamaraty tem no exterior
cerca de 130 postos, sendo por volta de 90 nas
embaixadas e o restante nos consulados.
RFdV. |
·
FÓRUM DE PROFISSÕES
A Faculdade de Belas Artes tem participado dos Fóruns
de Profissões realizados nas principais escolas
do ensino médio da capital paulista, levando
informações sobre suas atividades,
cursos e respectivas profissões, com o propósito
de facilitar a escolha profissional e evitar a migração
de um curso a outro(s), após o ingresso na
Faculdade. Para
tanto, conta com equipes lideradas pela Srta.
Elisabeth Mittendorfer, Relações
Públicas da Faculdade e organizadora de
eventos internos/externos, e pelo Sr. Joaquim
Rodalto, responsável pela Central de Informações
e processo seletivo/vestibulares, além
da colaboração dos Coordenadores
de Cursos e demais Professores da Belas Artes,
a fins de atuar como plantonistas, esclarecendo
dúvidas sobre os itens acima, bem como
proferindo palestras, algumas delas verdadeiras
aulas magnas.
Desde
maio p.p. o Curso de Relações Internacionais
da Belas Artes também passou a fazer parte
desse roteiro, estando presente nos seguintes
eventos.
III
Fórum de Profissões, realizado no
Colégio Santo Estevam, no qual o Coordenador
do Curso, Prof. Raimundo Vasconcelos, proferiu
palestra sobre o referido curso, finalizando-a
com respostas às indagações
dos candidatos interessados nessa área
profissional.
No
mesmo dia, o Prof. Raimundo atuou ainda no plantão
de dúvidas, respondendo questões
relacionadas às relações
internacionais, desta feita, na UNIEXPO 2002 -
III Exposição de Universidades e
Profissões, realizada em 25/05/02 no Colégio
Santa Maria. Atuação semelhante
se deu ainda nos eventos a seguir.
Fórum
de Orientação Profissional, realizado
em 08/06/02, no Colégio XII de Outubro.
IV
Fórum Informativo das Universidades e Profissões,
realizado no Colégio Marista Arquidiocesano
de São Paulo, em 10/08/02.
BANDPRO
2002 - Band nas Profissões, atividade realizada
no Colégio Bandeirantes, em 17/08/02. Neste
evento, o curso de Relações Internacionais
se fez representar pela Profa. Elisabeth Mittendorfer,
enquanto o Professor Raimundo comparecia ao Simpósio
organizado pelo COC - Colégio Oswaldo Cruz,
na cidade de Osasco/SP, proferindo palestras sobre
as respectivas áreas profissionais de Economia
e de Relações Internacionais.
Jornada
das Universidades e Profissões 2002, realizada
em 24/08/02, no Colégio Agostiniano São
José - Unidade II.
Jornada
Profissional - 2002, organizada pelo Colégio
Pueri Domus, em 21/09/02, ocasião em que
a Belas Artes mais uma vez esteve presente, levando
informações sobre seus cursos e
demais atividades.
Ressalte-se
que em todos esses eventos, o interesse pela área
de relações internacionais foi uma
constante e conformou-se crescente a cada evento
realizado.
·
CONGRESSO
I Congresso de Iniciação Científica
da Faculdade de Belas Artes de São Paulo.
Evento promovido pela COP - Central de Orientação
à Pesquisa, coordenada pela Professora
Dra. Maria Augusta Justi Pisani - e realizado
nos dias 22 e 23 do mês de agosto de dois
mil e dois, nas instalações da Faculdade.
A
solenidade de abertura ocorreu em nosso auditório
e cuja mesa fora composta pelos seguintes membros:
Prof. Dr. Paulo A. Gomes Cardim - Diretor Presidente
da Belas Artes
Prof. Vicente di Grado - Diretor Geral
D. Maria Lúcia Gomes Cardim - Diretora
Administrativa
Profa. Dra. Maria Augusta Justi Pisani - Coordenadora
da COP
Após
a solenidade de abertura do Congresso, teve início
a apresentação das monografias inscritas
para esse evento, o qual contou com a devida atenção
do público que lá compareceu.
O
corpo docente e discente do Curso de Relações
Internacionais aguarda a segunda edição
do referido Congresso, para que também
possamos divulgar nossas pesquisas.
·
I SEMANA DIPLOMÁTICA
O Curso de Relações Internacionais
da Belas Artes promoverá a I Semana Diplomática,
a realizar-se em outubro próximo, nas instalações
da Faculdade.
Este
evento se repetirá anualmente, colocando
em discussão sempre um tema específico
e relevante da agenda internacional, prolongando-se
por três dias consecutivos. Estarão
presentes convidados externos ligados à
arena internacional, além do corpo docente
e discente de Relações Internacionais
da Faculdade. O evento dividir-se-á ainda
em três modalidades assim distribuídas:
palestras, mesa redonda e debate, todos eles debruçados
sobre o tema escolhido para discussão.
RFdV. |
12/08/02
- Início do semestre letivo na Belas Artes.
Os calouros foram recepcionados pelos respectivos
Coordenadores de Cursos. Mais especificamente, aqueles
do Curso de Relações Internacionais
puderam conhecer algumas dependências da Faculdade,
a exemplo da Biblioteca, do Setor de Multimídia
etc., encerrando-se a receptividade ao som da banda
musical Prato do Dia. Vale acrescentar que a Faculdade
de Belas Artes tem por norma não participar
de nenhum tipo de trote. 09/09/02
- Terá início o processo seletivo
de candidatos aos cursos da Belas Artes, visando
o preenchimento de vagas no primeiro semestre
de 2003. Maiores informações serão
obtidas pelo telefone 5576-7300 ramal 112, ou
através deste formulário
14/09/02 - Acontecerá o UNIVERSITAT &
FIRMA 2002.
I Encontro Brasil-Alemanha de Universidades e
Firmas, a realizar-se no Colégio Humboldt
- São Paulo. O Curso de Relações
Internacionais se fará representar através
da pessoa de seu coordenador, Prof. Raimundo Vasconcelos,
juntamente com os demais cursos da Belas Artes,
mediante a presença da Profa. Elisabeth
Mittendorfer, Relações Públicas
da Faculdade, além de uma equipe de funcionários
e professores da Belas Artes.
De
28 a 30 de outubro de 2002, a Faculdade de Belas
Artes de São Paulo, através
do curso de Relações Internacionais,
promoverá sua I SEMANA DIPLOMÁTICA.
A Segurança e o Sistema Internacional no
Limiar do III Milênio será o tema
debatido pelos convidados externos juntamente
aos professores e alunos do Curso.
De
06 a 08 de novembro de 2002, a UNB - Universidade
de Brasília - sediará o III Encontro
Anual do "FÓRUM UNIVERSITÁRIO
MERCOSUL" (FoMerco).
RFdV. |
| HUNTHINGTON,
Samuel. O Choque de Civilizações
e a Recomposição
da Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva
Ed., 1997.
MIYAMOTO,
Shiguenoli. "O Estudo das Relações
Internacionais no
Brasil: o estado da arte". Em: Revista
de Sociologia e Política, no.12, junho
de 1999.
THUROW,
Lester. O Futuro do Capitalismo: como as forças
econômicas
moldam o mundo de amanhã. 2ª ed.
Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
E
veja também:
www.interneg.org/in/
Site especializado em negociações
internacionais (em inglês).
RFdV
|
| Além
do senso comum Uma
das questões com que os estudantes universitários
irão se deparar ao longo de toda sua trajetória
acadêmica atende justamente pelo nome de
métodos. Tal conceito termina gerando uma
verdadeira confusão inicial entre os alunos,
e não sem razão. Sou partidário
de uma divisão básica do conhecimento
que diz o seguinte: existe o senso comum e o senso
crítico. O primeiro diz respeito ao conjunto
de saberes que adquirimos ao longo de nossa vida,
e sobre os quais na maioria das vezes dedicamos
pouca reflexão. Eles são um repositório
seguro daquilo que necessitamos para a nossa sobrevivência
imediata e, mesmo, para o nosso convívio
social mais básico e, em muitos casos,
mais intenso. Por mais que a academia se refira
ao "senso comum" de uma maneira desdenhosa,
creio que, num nível mais imediato, ele
se constitui em importante aspecto de nossa existência
cotidiana. Já o segundo demanda uma reflexão
continuada e aprofundada sobre determinados problemas
ou eventos que nos chamam a atenção.
O "senso crítico" implica em
trabalho intelectual, caracterizado por leituras,
reflexões, discussões e a produção
de resenhas, ensaios e toda a sorte de material
escrito.
Vamos aprofundar um pouco. Do "senso comum",
por exemplo, uma pessoa sabe pela prática
que, para fritar um ovo basta colocar óleo
numa frigideira e esquentá-lo sobre um
fogão. Simples e direto - o suficiente
para que ela sacie a sua fome. Aqui, é
desnecessário o conhecimento científico
das reações químicas que
envolvem o calor, o óleo, a gema e a clara
do ovo. Tal saber seria obtido, é óbvio,
através do exercício do "senso
crítico", conforme exposto acima.
Por
outro lado, suponhamos um caso que envolva não
um ovo ou uma porção de óleo,
mas pessoas de carne e osso. Pensemos, por exemplo,
numa família. Suponhamos que esta família
seja formada pelos pais e por três filhos
adultos. Todos trabalham numa região industrial,
no setor metalúrgico. Em determinado ano,
uma crise econômica força a indústria
que os emprega a fechar e a família vê-se
desempregada. Passam os meses e ninguém
naquela casa consegue arranjar um emprego de carteira
assinada e com todos os direitos trabalhistas
garantidos pela Constituição. Depois
de um determinado tempo, aquelas pessoas desistem
de procurar trabalho e passam a se contentar com
"bicos" e coisa do gênero, ao
mesmo tempo em que começam a apresentar
toda a sorte de problemas como alcoolismo entre
alguns de seus membros, apatia generalizada e
a recusa em receber dicas de vizinhos sobre emprego.
Estes mesmos vizinhos podem, a certa altura, começar
a achar que naquela família todos se tornaram
vagabundos e que merecem as dificuldades que atravessam.
Este seria um lado perverso do "senso comum"...
Um
pesquisador ou observador atento da realidade
social, por seu turno, tomando conhecimento dessa
situação começaria a fazer
uma série de questionamentos. Por exemplo,
ele se perguntaria se aquela família havia
trabalhado no ramo industrial por muito tempo;
qual tipo de trabalho especializado cada um fazia;
qual o tipo de indústria o empregaria no
seu dia à dia, isto é, se era do
setor de máquinas-ferramenta ou do automobilístico;
se a cidade em que moravam estaria tendo um problema
generalizado de desemprego industrial; e se, finalmente,
problemas psicológicos sérios estavam
se desenvolvendo entre eles, inviabilizando, no
curto prazo, uma reação pessoal
contra o infortúnio.
Posteriormente, este mesmo pesquisador ou observador
começaria a elaborar sistematicamente as
suas indagações iniciais, tentando
elencar uma série de explicações
para o problema dessa família. Ele poderia
se perguntar se eles receberam algum tipo de apoio
de alguma instituição governamental
ou da sociedade civil, como um sindicato. Indagaria
se essa família terminou chegando à
conclusão de que o ramo industrial havia
se tornado, para ela, inviável como fonte
de sustento remunerado - e se seus membros consideraram
a possibilidade de conseguir trabalho em outros
setores, como o de serviços, ou, então,
de constituir uma pequena empresa. Finalmente,
poderia perguntar se, ao entender essa situação,
esse grupo de pessoas foi percebendo que não
havia nenhum tipo de treinamento profissional
para um novo tipo de profissão, estímulo
a alguma atividade empresarial e, no limite, que
os governos, o local e o federal, não possuíam
nenhum tipo de plano de ação nesse
campo - o que em jargão de Ciências
Sociais chamamos de "ausência de políticas
públicas". Esse tipo de questionamento
e atitude só poderia ser concebido com
a utilização do "senso crítico".
Quando
o aluno acaba de chegar à universidade,
costumo dizer o seguinte: a obtenção
de um determinado tipo de "senso crítico"
é o objetivo maior de um curso superior.
Exige trabalho, dedicação e disciplina.
Para obter esse tipo de conhecimento, o estudante
terá que aprender a utilizar justamente
o método, que pode ser divido, de uma maneira
simplificada, em dois: o método de estudo
e o método de trabalho científico.
O primeiro diz respeito à organização
das atividades de leitura e de atividades mais
imediatas que serão exigidas desde o primeiro
dia de aulas. Ele é uma etapa necessária
e essencial para qualquer progresso pessoal. Já
o segundo liga-se à idéia do entendimento
dos procedimentos científico-críticos
que norteiam qualquer campo do conhecimento, seja
ele a Física, a Biologia, a Sociologia
ou as Relações Internacionais.
Introdução feita, a idéia
dessa coluna é, ao longo das próximas
edições, apresentar e discutir tópicos
ligados à Metodologia, com a ênfase
nos problemas que são próprios da
disciplina de Relações Internacionais.
Procurar-se-á esclarecer algumas questões,
como a organização dos estudos,
num plano mais básico, ou os links entre
as diferentes ciências que estudam os problemas
existentes nas Relações Internacionais
e o tipo de metodologias de trabalho científico
que elas utilizam - como a estatística
ou a teoria dos jogos, por exemplo.
Espera-se
criar um canal de comunicação entre
todos os leitores que venham a se interessar por
essas questões. Nesse sentido, a coluna
se propõe a ser uma via de mão dupla,
sujeita a críticas e sugestões.
Bem vindos a Uma Questão de Métodos.
Flávio
Rocha de Oliveira
Doutorando e Mestre em Ciência Política
Professor do Curso de Relações Internacionais
da Belas Artes |
| Resenhas
& Sinopses é uma coluna destinada a
notificar e comentar lançamentos editoriais,
além de teses e dissertações
de interesse da área de relações
internacionais. Aguardem nossas próximas
edições.
RFdV
|
| Bricolagens,
histórias e poemas como formas alternativas
de representação do processo reflexivo
de professores
O
desenvolvimento de professores, promovido através
de um processo reflexivo sobre a prática
pedagógica, é um consenso nos dias
de hoje. Muitos são os trabalhos de pesquisa
já desenvolvidos nesta área. Podemos
ler e aprender muito sobre o assunto, em trabalhos
como os de Zeichner & Liston (1987a), Nóvoa
(1992), Schön (1987), Smith (1992), Magalhães,
(1990), Liberali (1994), entre outros.
Porém,
os estudos desenvolvidos por estes pesquisadores
têm como característica principal
a observação e desenvolvimento de
um processo reflexivo partindo da sala de aula.
Ou seja, o professor é acompanhado por
um pesquisador iniciando-se um processo de observação
das aulas, seguido de encontros reflexivos para
se discutir sobre a aula (reflexão sobre
a prática). Objetiva-se que o professor
consiga, após um determinado tempo, refletir
sobre sua aula no instante que esta está
em andamento (reflexão na ação).
Tendo
como pressupostos teóricos os estudos de
Connelly & Clandinin (1988, 1990, 1994, 1995,
1998) e Clandinin & Connelly (1994, 1995,
1986), este artigo objetiva apresentar e discutir
sobre a Pesquisa Narrativa, que busca abrir caminhos
para o processo reflexivo do professor, através
da reconstrução de suas histórias
de vida.
O
foco principal deste trabalho é a reflexão
sobre a prática do professor, tendo como
ponto de partida suas histórias de vida.
Este artigo baseia-se no estudo realizado durante
os trabalhos de mestrado desenvolvidos pelas autoras,
que tinham como objetivo básico o entendimento
do fazer pedagógico observando-se as relações
entre o "eu" professor e o "eu"
pessoa.
Neste
trabalho, inicialmente estaremos apresentando
a pesquisa Narrativa, seus momentos e suas características.
Em seguida, apresentaremos alguns trechos de narrativas
de vida de professores e concluiremos traçando
uma relação entre as histórias
apresentadas e a prática pedagógica
de acordo com o explicitado no parágrafo
anterior.
Como
o termo narrativa é utilizado para um tipo
de texto literário que apresenta uma autobiografia
ou biografia, ficamos tendo apenas esse referencial
quando se fala em narrativa de vida. No entanto,
os pesquisadores que trabalham com narrativas
de vida dentro da Pesquisa narrativa (Narrative
Inquiry, Connelly & Clandinin, 1995), consideram
o texto escrito como um produto de todo um processo
reflexivo instaurado. Assim, percebemos que a
definição de uma narrativa de vida
não é baseada somente em um texto,
e sim no início e no desenvolvimento de
um processo reflexivo, possibilitado pela proposta
de se realizar uma narrativa de experiências.
Quando
Connelly & Clandinin (1995) definem e se referem
ao termo narrativa, eles estão tratando
de um instrumento característico de um
tipo de pesquisa que se inicia com a proposta
de uma narrativa/relato, um contar de histórias
(oral para si mesmo), um recontar (para si e para
outros), um construir, um reconstruir e a construção
de um futuro de possíveis transformações
das histórias contadas. O texto escrito
é o produto final de todo esse processo
de pesquisa vivido. Portanto, para Connelly &
Clandinin (1994), uma narrativa de experiências
é, ao mesmo tempo, um fenômeno observado
(a estória contada) e um método
de pesquisa (a narrativa) para reflexão
e análise deste fenômeno (p. 416).
Mapeando
as Fases da Pesquisa Narrativa
Para
auxiliar o entendimento da Pesquisa Narrativa,
intentaremos fazer uma divisão do processo
de Narrativa em momentos distintos. No quadro
1, mostramos resumidamente como estas fases e
suas subdivisões ocorrem cronologicamente,
discutindo-as logo em seguida.
Quadro
1. Mapeando as Fases da Pesquisa Narrativa
| Momentos
|
Título
|
Momentos |
| Primeiro |
Recobrar
e contar de histórias |
Diálogo interior do 'eu' para mim
mesmoApresentação Oral das
histórias para o Grupo ou pesquisador
|
| Segundo |
Reconstrução
das histórias contadas |
-x- |
| Terceiro
|
Transformações
que apontam para o futuro |
-x- |
Primeiro
Movimento: O Recobrar e Contar de Histórias
Esta
primeira fase divide-se em dois momentos: o primeiro
acontece em um diálogo interior do eu para
mim mesmo. O participante da pesquisa recobra
suas histórias e as reconta para si próprio,
selecionando as que deseja apresentar. O segundo
momento acontece quando da apresentação
oral das histórias para o grupo ou pesquisador.
Segundo
Movimento: Reconstrução das Histórias
Contadas
Este
segundo momento acontece depois da apresentação
das histórias e representa o momento em
que o apresentador reflete sobre o que foi relatado,
buscando construir e reconstruir significados
e traçando um paralelo entre si mesmo e
sua prática de sala de aula.
Terceiro
Movimento: as Transformações Que
Apontam para o Futuro
A
partir da reconstrução das histórias,
o pesquisador participante traça alternativas
de possíveis transformações
de sua prática pedagógica, apontando
e levantando, também, questionamentos para
posturas futuras.
Apesar
do seqüenciamento aqui apresentado, é
preciso esclarecer que cada pessoa pode ter um
tipo de envolvimento e desenvolvimento no decorrer
do processo de uma Narrativa. Algumas pessoas
desenvolvem os três movimentos simultaneamente.
Ou seja, ao contar e recontar suas histórias
para si mesmo, elas já iniciam um processo
de reflexão que culmina na reconstrução
das mesmas e em descobertas ou levantamentos de
significados e questões a serem investigadas,
para uma possível transformação
futura em sua prática pedagógica.
Outras pessoas somente iniciam o processo de reflexão
após a apresentação oral
das histórias. Outras, ainda, só
o conseguem após um tempo de amadurecimento
sobre o que é estar participando de uma
Pesquisa Narrativa.
O
propósito de se Apresentar a Narrativa
de Vida
Porque
apresentar as histórias em público?
Porque se pode ter a participação
do outro em seu processo de reflexão sobre
a prática pedagógica. Os participantes
do grupo ouvinte ou o pesquisador envolvido na
pesquisa, transformam-se em interlocutores atuantes
que podem levantar questões (através
de cartas a serem escritas a posteriori ou oralmente
logo após a apresentação
das histórias) antes não observadas
por aquele que conta histórias e, assim,
enriquecer o entendimento e as reconstruções
das mesmas.
E
as histórias não contadas? É
extremamente importante refletir sobre a seleção
de histórias que são apresentadas.
Tudo é importante neste tipo de pesquisa,
por exemplo, a seleção das histórias
que serão apresentadas, as razões
de omitirmos algumas histórias, a forma
como as histórias são contadas (através
de Anais , fotos, ou figuras, etc.), o porquê
algumas histórias nos emocionam mais, etc.
O "não contar" de algumas histórias
pode estar diretamente relacionado com questões
fundamentais para o desenvolvimento do si mesmo.
Podemos não contar algumas histórias,
mas é preciso tentar entender as razões
pelas quais não as contamos, e assim, fazermos
novas descobertas.
Como
citamos acima, a forma como uma narrativa é
apresentada deve ser, também, cuidadosamente
examinada. A maneira como agrupamos determinadas
histórias e como as apresentamos, por exemplo:
a apresentação das mesmas, através
de Anais ou não, pode nos mostrar em que
fase do processo de pesquisa estamos, ou que tipo
de comportamento ou postura sobre nós mesmos
queremos dar maior enfoque. Posteriormente, tentamos
refletir e entender que tipo de "eu"
queremos apresentar para nós mesmos e para
os outros; ou seja, que tipo de face queremos
pintar. É a reconstrução
de nosso "eu" pessoal e/ou profissional
que se poderia responder à pergunta: "Que
professor sou eu? ".
Qual a Importância de se Viver um processo
de Pesquisa Narrativa?
Antes
de iniciar o Mestrado, voluntariei-me para ser
uma das participantes de uma pesquisa desenvolvida
por uma doutoranda de uma Universidade. Essa investigação
tinha como foco o desenvolvimento do professor
proporcionado por sessões de ensino reflexivo
("reflective teaching"). Minhas aulas
eram filmadas por mim mesma. Depois, eu as assistia,
seguindo uma agenda provida pela pesquisadora
e escrevia diários sobre as aulas. Posteriormente,
havia um encontro no qual eu e a pesquisadora
discutíamos e levantávamos questões
sobre a aula. Tudo era muito interessante e a
partir desse período, comecei a me ver
e a me ouvir em sala. Porém, algo era estranho:
parecia haver um vazio em algum lugar, mas eu
não sabia dizer o que é que faltava.
Quando comecei o curso de Mestrado e, particularmente,
quando tomei contato com a Pesquisa Narrativa,
tudo ficou mais claro. Percebi que para começar
a refletir sobre meu "si-mesmo", primeiramente
seria necessário conhecer este "si-mesmo".
Do contrário, muitas reflexões poderiam
não ter alicerces muito fortes.
Com
a apresentação de sua Narrativa,
Mello (1999) passou a se conhecer não só
em sala de aula, mas como pessoa. Pode, então,
observar melhor sua prática pedagógica.
Tudo passou a fazer mais sentido e o vazio já
não mais existia. Assim, após o
desenvolvimento do processo de Pesquisa Narrativa,
percebeu que:
"Quando
abri minha vida, abri um armário com inúmeras
portas. Abri as cortinas e a sala ficou mais ampla
e mais clara. Agora sinto-me mais segura. Percebi
que realmente sou parte participante do processo
em que estou inserida. Meu caminhar se faz com
passos mais firmes. A viagem é quem vai
indicar a direção a seguir e sei
que muitas outras portas ainda podem se abrir."
Olhando
para o texto da narrativa
De
acordo com Santaella (1996), o termo linguagem
deve ser observado de forma muito mais ampla do
que a visão de linguagem considerado apenas
como uma forma de representação
verbalista. Tendo como base a literatura pesquisada
e nossas experiências pessoais com textos
de narrativas de vida na Pesquisa narrativa, podemos
explicitar que na narrativa podemos utilizar o
discurso verbal e o discurso não-verbal.
Porém, mesmo quando estamos utilizando
o texto verbal, utilizamos o mesmo sob uma outra
perspectiva: a língua será um dos
veículos que transportará a experiência,
ou transportará o pesquisador até
a experiência de vida que deverá
ser o seu foco principal de interesse. Terminada
a viagem, "abandona-se" o veículo
e retém-se a atenção nos
problemas e questionamentos levantados através
das experiências relatadas. Ou seja, tentamos
olhar predominantemente para a experiência
relatada e não para a forma lingüística
do texto produzido. A forma lingüística,
entretanto, poderia dar acesso a questões
não observadas. Porém, de acordo
com Polkinghorne (1995), também estamos
muito mais interessadas na observação
do conteúdo das histórias do que
em sua forma.
Segundo
Connelly & Clandinin (1990), o que difere
a narrativa comum de um texto científico
é o comprometimento deste último
com o processo reflexivo, gerador de desenvolvimento
e transformação de toda uma postura
de vida e, conseqüentemente, a transformação
da prática profissional do professor. Uma
narrativa comum caracteriza-se por um relato descompromissado
que objetiva somente informar o leitor. Uma narrativa
de vida enquanto texto científico, por
outro lado, caracteriza-se por um processo complexo
de contar, recontar, reviver e reconstruir significados
a partir das experiências vividas (Connelly
& Clandinin, 1990).
Uma
narrativa pode ser apresentada de diferentes e
variadas formas. Eisner (1981, 1991, apud Diamond,
1995) expõe que uma narrativa pode ser
contada através de recursos artísticos
tais como fotografias, letras de músicas,
linhas de um filme, diários, etc. Segundo
ele, estaríamos "explorando a força
da forma para informar" (p. 50) . Após
termos passado por um processo de Narrativa, concordamos
plenamente com Diamond (1995), quando este declara
que "em uma pesquisa baseada nas artes, podemos
escrever visualmente de maneira que essa escrita
(texto) reflita como é sentido o que está
sendo visto, tendo-se consciência de que
ver é sentir" (p. 12,). Baseada nesta
visão de "texto" é que
Mello (1999) se inspirou, ao longo de seu processo
de pesquisa, a escrever o seguinte pensamento
sobre a utilização da língua
em uma narrativa.
Pintando
Palavras
Como
não sei pintar, pinto com as palavras
Meu pincel é a caneta e minha tinta
as palavras
O papel é a tela e meu texto minha
obra de arte
As palavras são apenas o veículo
da imagem que quero desenhar
Porém, para que se possa ver a
imagem
É necessário ver o que está
pintado
E não ler o que está escrito.
Assim,
em uma narrativa, é necessário transcender
a palavra, aquilo que está escrito. Acredito
que o texto desenvolvido em uma narrativa poderia
ser o ponto inicial para uma outra pesquisa que
se detivesse mais amplamente em analisar o texto/discurso
enquanto primeiro objeto de estudo. No entanto,
em uma pesquisa narrativa nos detemos no processo
de construção e reconstrução
das histórias. O processo é o ponto
mais importante. É certo que algumas metáforas
utilizadas na narrativa ajudam a levantar questões
a serem discutidas e refletidas. No entanto, o
enfoque é no conteúdo das histórias
como um todo.
As
três primeiras características da
narrativa, portanto, seriam a utilização
do texto não-verbal, a visão de
língua enquanto um veículo e a utilização
de textos de cunho artístico ou literário
como poemas, prosas, etc.
Uma
outra característica do texto da narrativa
é a utilização da primeira
pessoa do singular. Esta pode ser atribuída
à voz muito forte e independente que os
participantes de uma Pesquisa Narrativa adquirem
durante o processo reflexivo. Connelly & Clandinin
(1990) consideram a problemática do "eu"
em uma narrativa da seguinte forma: segundo eles,
em uma narrativa há diversos "eus".
O "eu" pode falar enquanto participante,
pesquisador, professor, homem ou mulher, crítico
da narrativa e construidor de teoria (p.9). Porém,
fica explicito, tal como em Peshkin (1988) que
todos esses "eus" são uma só
pessoa que assume suas diferentes subjetividades
no decorrer do processo de investigação
da Narrativa. Diamond (1995), por sua vez, afirma
que há uma só voz refletindo ecos
diversos. Portanto, a utilização
da primeira pessoa do singular em uma narrativa
passa a ser, ao contrário de outros tipos
de pesquisa, um processo natural assumido pelo
pesquisador e ou participante da pesquisa.
Pires
(1998) comenta sobre o seu processo de assumir
a sua voz.
| "O
uso de linguagem expressiva auxiliou-me
na escrita da minha dissertação.
O discurso acadêmico era um obstáculo
para mim. A falta de familiaridade com as
regras do discurso acadêmico e a impessoalidade
provocavam tamanho estranhamento em mim
que eu me sentia incapaz de escrever. Parecia
que eu não poderia dizer nada ou
muito pouco. Isto porque eu não era
alguém. O meu texto precisaria ter
a voz de outros, os quais, nos parâmetros
canônicos da academia, eram muito
mais importantes que eu. Ao entrar em contato
com esta nova visão acadêmica,
a qual permite ao professor colocar sua
própria voz, vivi, num primeiro momento,
a sensação de sentir-me muda.
As outras vozes diziam-me: "Fale!"
e eu não sabia "o que"
falar. Essas vozes continuavam: "Vamos
lá, agora você pode falar!",
"Vamos, fale!".
"Desta
maneira, escrever na primeira pessoa parece
ter posto fim à minha mudez. Esta
é a minha pesquisa e isto é
o que eu tenho a dizer sobre ela. Neste
trabalho encontram-se meus objetivos, meus
interesses e minhas razões por me
interessar pelas questões aqui apresentadas.
Como escreveu Eisner (1991:36) eu sou "a
pessoa" por trás destas palavras.
Bem,
o narrativista conta sua história
em primeira pessoa e quem é o seu
primeiro destinatário? Na narrativa
este primeiro destinatário parece
ser o nosso próprio "eu",
ou pelo menos seríamos o destinatário
primeiro de nosso próprio discurso
porque apesar de em um determinado momento
do processo de pesquisa, termos a impressão
de que o ouvinte é o destinatário
principal (o participante relata suas histórias
para o pesquisador ou mesmo para um grupo
de pessoas participantes no processo), mesmo
durante este momento acredito que o que
acontece é um recontar e reviver
de experiências "diante do outro"
e não "para o outro". |
Analisando
a narrativa, parece ficar explícita a existência
de um destintário primeiro que é
o próprio narrador que relata suas experiências
de vida. Bahkthin (1979) diz que o ato de "expressar-se
a si mesmo significa fazer de si um objeto para
o outro e para si mesmo". Seguindo seu raciocínio,
é quando torno-me meu próprio objeto
de estudo e reflexão é que adquiro
a possibilidade de uma relação dialógica
comigo mesma.
Comentaremos
agora a organização de narrativa.
Conforme Connelly & Clandinin (1990), faz
parte da narrativa, enquanto um texto acadêmico,
a inclusão além das histórias
pessoais e/ou profissionais, da reconstrução
das histórias contadas (busca de significados)
e o desenvolvimento de uma pesquisa a partir dos
relatos e reconstruções realizadas.
Portanto, somente o relato das histórias
não poderia ser denominado uma narrativa
(texto científico). Estas fases do texto
podem vir em um só bloco ou em blocos distintos,
porém somente juntos podem compor o texto
ao qual denominamos narrativa.
Concluindo,
a narrativa seria um gênero caracterizado
por:
a.
Utilização da primeira pessoa do
singular
b. Possibilidade de utilização de
figuras e desenhos como texto não-verbal
c. Composição de textos metafóricos
e/ou artísticos
d. Alternância da voz que fala: uma mesma
pessoa em suas diferentes facetas (por exemplo,
o pesquisador, ora professor, ora mãe,
ora mulher, ora aluna...)
e. Conjunto de histórias pessoais e/ou
profissionais (eu pessoal/profissional)
f. Reconstrução das histórias
contadas
g. Relação dos significados encontrados
e o desenvolvimento de uma pesquisa proposta.
É
extremamente relevante estabelecer que, após
ter participado de um processo de Narrativa e
escrito uma narrativa, percebi ser extremamente
difícil e importante defini-la por partes
ou características como tento fazer aqui.
Difícil porque, cada pessoa passa pelo
processo da Narrativa de forma singular e isso
reflete na produção do texto narrativo.
Importante, porque a partir desta caracterização
básica da narrativa, pudemos refletir um
pouco mais sobre a produção do texto
de uma narrativa. Acreditamos, também,
poder ter iluminado um pouco mais a questão
do texto de narrativa, para os leitores que ainda
não tiveram oportunidade de estudar o assunto.
Pode
ser extremamente natural que uma narrativa não
apresente as características acima destacadas,
como também pode apresentar outras não
relacionadas aqui. Esta diferenciação
pode ser relacionada, também, ao nível
de amadurecimento da pessoa envolvida em uma Narrativa.
Baseada em nossas experiências pessoais
e observando as experiências das professoras
que participaram conosco do curso de Narrativas,
vemos que quanto mais envolvimento com este tipo
de pesquisa, mais haverá a utilização
de figuras, metáforas e textos artísticos
como poemas e ou poesias, etc. É como Diamond
(1997) argumenta sobre a necessidade de termos
narrativas mais artísticas, com menos textos
teóricos e mais poemas, ou mesmo teorias
explícitas através de poemas ou,
ainda, qualquer outra forma de representação
artística tais como figuras, pinturas,
filmes, bricollage etc.
Após
a discussão sobre o conceito de Pesquisa
narrativa, suas fases e suas características,
apresentaremos agora alguns trechos de histórias
de vida de professores e suas respectivas reconstruções,
conforme exposto e discutido na primeira parte
deste artigo.
Histórias
de professores
A
primeira história me foi relatada por uma
professora de escola pública de uma cidade
do interior de São Paulo. Maria contou-me
que a direção da escola havia organizado
um passeio. No entanto, só poderiam participar
do mesmo aqueles alunos que tivessem obtido notas
acima da média durante o semestre. E assim
aconteceu. No final do semestre as professoras
já tinham suas relações com
os nomes dos alunos que poderiam participar do
passeio. A direção da escola tratou
de organizar uma lista e, no dia da viagem, pediu
que todos os alunos fossem colocados em fila no
pátio da escola e, um a um, os alunos selecionados
iam sendo chamados para entrar no ônibus
enquanto os outros aguardavam na fila o momento
de dar adeus e ir para à sala de aula.
Maria conta que assistiu a tudo estarrecida e
com o coração em prantos, vendo
crianças de 7, 8, 9, 10 anos passando por
aquela situação constrangedora.
Através
desta história podemos observar um pouco
do universo educacional em que vivemos. A nota
da avaliação ainda continua a ser
vista como um passaporte para o prêmio,
que no caso era o passeio. Além disso,
parece-me que a postura punitiva da escola em
relação aos alunos que não
atingiram a nota passaporte é extremamente
improdutiva e perfeitamente dispensável.
Digo punitiva porque não encontro outra
razão para fazer com que os alunos "mal
sucedidos" fiquem expostos em fila para ficarem
observando a chamada dos "gênios da
escola" que partiriam felizes e orgulhosos
para o passeio tão esperado. Será
isto Educação? Será que ainda
há educadores que não perceberam
que na escola não se aprende somente matemática
e geografia, que o aluno aprende tudo que vive
e que observa, talvez até mais fora da
aula do que dentro dela? Que aprendizado terá
se dado com aquelas crianças através
deste evento?
Esta
história me faz lembrar uma outra que vivi
quando estava na 5ª série. Era dia
das mães e os alunos em fila no pátio
para cantarem o hino nacional. Logo depois do
hino, a diretora e os professores começaram
a recitar alguns poemas e falar algumas coisas
sobre os dias das mães. Uma de minhas amigas
não tinha mãe e ficou chorando na
fila o tempo todo. Nunca esqueci aquele momento.
Acredito
que estas duas histórias estão muito
relacionadas. Não somente pela obrigatoriedade
da fila, mas também pela imposição
de um sistema autoritário que parece muitas
vezes não se preocupar com o aluno, mas
sim, com o cumprimento do calendário letivo.
Por exemplo, já está estabelecido
o dia da homenagem às mães. Mas
será que professores e coordenadores se
dão ao trabalho de saber se os alunos têm
suas mães vivas ou ao lado deles? Hoje
em dia há muitas mães que trabalham
e não podem comparecer no dia da tão
esperada festinha das mães, há outras
que por algum motivo não moram com seus
filhos, e outros casos, e como fica a cabeça
da criança?
Lembro-me
que a história com minha amiga me impressionou
de tal forma, que em minha prática, sempre
procurei perguntar aos alunos, principalmente
os menores, com quem eles viviam, de forma que
no dia em que eu obrigatoriamente tinha que desenvolver
algum tipo de trabalhinho para ser entregue à
mãe, pudesse estar trabalhando a questão.
Procurava mostrar para eles que o dia das mães
não era o dia da mãe de cada um,
mas sim um dia dedicado a todas as pessoas que
exercessem o papel de mãe, e que portanto,
eles poderiam estar fazendo uma lembrançinha
para dedicarem a qualquer pessoa que fosse ou
desempenhasse o papel de mãe e não
necessariamente à mãe deles. Esta
foi a solução que encontrei para
enfrentar o famoso "dia das mães"
que com certeza ainda causa muita dor tanto para
muitas mães como para muitos alunos.
Abri
este parêntese porque vi uma relação
entre as duas histórias no que diz respeito
ao sistema escolar. Parece haver calendários
e atividades a serem cumpridas sem que se reflita
muito sobre a utilidade destas para o aprendizado
dos alunos. Acredito que o foco principal de uma
escola deve ser o aprendizado e desenvolvimento
intelectual e pessoal de cada aluno, e portanto,
todas as atividades propostas precisam estar relacionadas
diretamente com este foco. O que muitas vezes
observamos é que algumas atividades são
propostas por tradição ou por qualquer
outro motivo desconectado do foco, e a imagem
que fica muitas vezes para os alunos é
uma foto embaçada e desconexa.
A
próxima história foi relatada durante
um dos cursos que freqüentei quando retomei
minha pesquisa no programa de Doutorado. Um professor,
aluno do programa, contou que na universidade
em que trabalhava uma aluna agrediu uma outra
violentamente. A direção resolveu
então suspender das aulas a infratora por
um período x que a faria perder o ano letivo.
Que
significado poderemos tirar desta história?
Mais uma vez me parece que a escola segrega mais
do que educa. Ao invés de trazer o tema
violência para a sala, desenvolvendo um
trabalho de conscientização de todos
em relação ao fato acontecido em
sala e sua relação com o momento
que a sociedade está vivendo, a escola
prefere retirar o problema da sala de aula, exatamente
como o governo faz quando põe os infratores
nas penitenciárias e pensa que o problema
está resolvido.
Se
a escola continuar a agir desta forma, ignorando
os problemas e a realidade social em que vivemos,
em breve sobrarão poucos alunos em sala
e então confirma-se que não está
havendo uma educação para a vida.
Mais do que nunca precisamos ensinar mais do que
matemática ou geografia.
Creio
ser necessário contar agora uma história
positiva para que não se pense que a pesquisa
narrativa preocupa-se apenas com os relatos "problemáticos".
A seguinte história, portanto, me foi relatada
por uma professora universitária da cidade
de São Paulo. Contou-me que estava lecionando
para um grupo de professores da rede pública
e que havia pedido que cada aluno fizesse uma
resenha. Tais resenhas foram desenvolvidas com
sua ajuda durante o semestre e ao final do mesmo
estas resenhas foram utilizadas como textos a
serem lidos por seus alunos dos cursos de pedagogia
e letras da mesma universidade. Concluiu falando
da alegria dos professores-alunos ao verem suas
resenhas utilizadas como material didático
para alunos dos cursos de licenciatura.
Como
precisamos reconstruir a história intentando
ver o que há por trás dela, analisemos
este último relato. Esta professora mostra-nos
uma postura muito importante em termos de desenvolvimento
e construção do processo ensino-aprendizagem,
agindo em sua prática como facilitadora,
co-construíndo conhecimento com os alunos
e, quando apresenta e utiliza as resenhas de seus
alunos-professores para seus alunos dos cursos
de pedagogia e letras, mostra coerência
entre seu fazer pedagógico e seu discurso,
tentando desmitificar a idéia de pesquisador,
cientista que os alunos de graduação
geralmente têm.
Concluindo,
é importante refletirmos sempre sobre as
atividades que propomos aos nossos alunos. Se
estamos verdadeiramente interessados no desenvolvimento
do educando enquanto ser humano e ser social,
precisamos ir além da disciplina, do conteúdo,
da atividade em si. Isto significa que o conteúdo
precisa estar casado com a forma como ele é
desenvolvido e precisa estar também casado
com a realidade do mundo do lado de fora da sala
de aula.
Abordamos
a questão do sistema escolar e agora gostaríamos
de enfocar o papel do professor, tutor ou coordenador
pedagógico como promovedor de ambiente
para o crescimento e desenvolvimento de seus alunos
ou professores. Baseada em sua experiência
Pires (1998) escreveu:
| "Na
minha vida profissional houve uma tutora,
uma coordenadora e um professor que foram
extremamente importantes para o meu crescimento
profissional e pessoal. Essas pessoas foram
importantes porque acreditaram em mim. Acreditaram
na minha capacidade e acreditaram tanto que
até me convenceram disso. Essa foi
mais uma construção e reconstrução
da minha narrativa que me levou à percepção
de mais um aspecto do meu eu-profissional.
Essa descoberta responde à questão:
o que eu preciso para aprender? Que condições
são necessárias para que eu
produza, para que eu seja criativa e para
que eu vença minhas próprias
inseguranças? Ambiente de confiança,
bem estar e simpatia - para mim esta é
a resposta." |
Finalmente,
Mello (1999) relata duas histórias vividas
fora da sala de aula, pois como diz Conelly, Clandinin
e Diamond, alguns momentos de aprendizagem significativa
acontecem fora da sala de aula. Connelly e Clandinin
dizem ainda que a pesquisa narrativa é
uma espécie de "neverending stories",
pois o narrador conta histórias que dão
margens a outras histórias... A próxima
história, por exemplo, conta um dos meus
momentos de reflexão, instaurado durante
a tentativa de reconstrução de suas
histórias, ou seja, é a história
de ter relatado a história, a sua Narrativa
de vida.
| "Mas,
o dia da apresentação oral
chegou e, aí coloquei minha vida
numa sacola e saí. Chegando ao meu
destino, tirei a vida da sacola e a expus.
Até que não foi tão
difícil, naquele momento. Tudo parecia
estar sob controle. Terminada a narrativa,
ensacolei minha vida novamente e fui para
casa. Joguei a sacola no chão, em
um canto da casa. Lá, ela ficou por
um bom tempo.
Em
princípio achei que não havia
desfeito a sacola por falta de tempo. Mas
quando chegou a hora de fazê-lo, percebi
que a tinha largado para evitar um, mais
um momento de dor. Tirar a vida da sacola
doeu mais que colocá-la. Vários
e vários significados foram surgindo.
As metáforas foram sendo entendidas
de diversas formas e o choro foi a única
válvula de escape ao meu alcance.
É
extremamente necessário contar esse
processo que envolveu o organizar, o contar
e o rever a Narrativa. Uma professora contou
a narrativa e uma outra a olhou. Finalmente,
uma outra pessoa-professora nasceu através
da Narrativa. E esta última chorou,
pois viu o quão difícil foi
deixar as outras duas para trás." |
Narrativas
como textos científicos
Conforme
exposto por Clandinin e Connelly (l994), as narrativas
tornam-se textos científicos e diferem
das histórias de vida do dia a dia pelo
fato de servirem de instrumento para reflexão.
Através da reflexão, significados
são construídos, provocando crescimento
pessoal do narrativista. Assim, como já
foi dito anteriormente, muitos significados foram
entendidos e construídos por mim através
da minha narrativa. Foi olhando e remexendo nos
diversos textos que tinha levado quando fiz a
apresentação oral de minhas histórias,
que percebi o quanto era importante me desnudar
enquanto pessoa para poder traçar paralelos
com o meu fazer pedagógico. Durante a minha
vida inteira eu tinha (e ainda hoje eu faço
isso) que tentar encontrar exemplos das teorias
discutidas em sala de aula dentro do meu dia a
dia, do contrário tudo ficava muito oco,
muito vazio, sem sentido. O meu aprendizado sempre
precisou estar muito atrelado a minha realidade
e se o professor não o fazia eu tratava
de fazê-lo por minha conta.
Como
afirmam Connelly e Clandinin, os professores são
mecanismos carregadores de histórias. Portanto,
teríamos muitas histórias a contar,
mas paramos por aqui. Acredito que a Pesquisa
Narrativa representa uma grande contribuição
para os estudos acadêmicos, na medida que
ela suscita muitos questionamentos. Os estudiosos
contrários a este paradigma de pesquisa,
pondo em cheque sua cientificidade, podem, na
verdade, nos sugerir novos caminhos. A Pesquisa
Narrativa virá a questionar, por exemplo,
o que é científico? O que é
uma linguagem acadêmica? Qual é o
papel a ser desenvolvido por um pesquisador? Parece
ser o momento de criarmos mais um espaço
e aprofundarmos tais discussões.
Inovações?
Não. Talvez a inovação na
Pesquisa Narrativa seja exatamente não
inovar. Gostaríamos apenas que o professor
parasse um pouco de buscar métodos de ensino
inovadores com soluções mirabolantes
para o problema do processo ensino-aprendizagem
e fizesse uma visita à suas histórias
passadas, talvez uma grande fonte de conhecimento
ainda não explorada.
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Zeichner, K. & Liston, D. (1987) Teaching
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v 57(21).
Dilma
Maria de Mello
Doutoranda e Mestre em Lingüística
Aplicada
Professora do Curso de Relações
Internacionais da Belas Artes
Edvalda
Ambiel Pires Gaspar
Mestre em Lingüística Aplicada |
| a.
Entrelinhas
Dilma
Mello
O
que é escrito
Nunca está escrito
Porque o que foi escrito
Não é o que está escrito
O que está escrito
é apenas uma leve sombra
do que se queria escrito
Se
o que está escrito
Não é o que foi escrito
Onde será que este escrito
ficou escrito?
O
escrito ficou escrito
entre os escritos,
exatamente aonde
não tem nada escrito.
b. Quem sou Eu?
Raimundo
Ferreira de Vasconcelos
Quem
sou Eu que por vezes não me encontro?
Quem sou Eu que às vezes Me amedronto perante
interrogativas?
Qual força Me domina de maneira ativa?
Me faz pensar diferente...Me faz agir de modo
diferente...
Que força é essa? Terá vindo
de Deus?
Justo Eu que inventei o automóvel, o navio,
o avião.
Inventei todos os meios de locomoção
e...
E às vezes não consigo Me transportar.
Eu que também criei o rádio, o telefone
e a televisão.
Criei todos os meios de comunicação
e...
E nem sempre consigo Me comunicar.
Eu que também cheguei à lua,
Mas não pude alcançar os céus.
Por que será?...Por que será?
Eu que a tudo ou quase tudo inventei,
Mas não consigo inventar um outro Eu,
Exceto o fenótipo que também já
criei.
Ah, Eu não sou ninguém!
Ninguém!...Ninguém!
Que foi que eu disse?
|
| Processo
seletivo na Belas Artes A
seleção de candidatos aos cursos
superiores da Belas Artes constitui um processo
contínuo, subdividido em três modalidades:
(I) Através de entrevista com os respectivos
Coordenadores de cada curso, visando ao preenchimento
de metade das vagas oferecidas; (II) realização
de provas ; e (III) Mediante aceite de transferências
de outras Instituições de Ensino
Superior, havendo vagas remanescentes.
A
primeira modalidade acima denota a priori maiores
facilidades perante a segunda, causando ainda
a impressão de que nenhum candidato seria
reprovado, principalmente enquanto existirem vagas
a serem preenchidas.
Na
verdade, a modalidade I reprovará candidatos
sim, quando a prioridade da Instituição
recair de fato sobre a seleção ao
invés do preenchimento de vagas. Sendo
esta última a verdadeira prioridade, não
apenas muitos serão chamados, como muitos
também, às vezes todos, serão
escolhidos(?), mesmo na modalidade II. Vale relembrar
de que já houve casos em nosso país
de aprovação de candidatos analfabetos,
selecionados(?) mediante realização
de provas.
No
caso específico do Curso de Relações
Internacionais da Belas Artes, a diferença
no processo seletivo - modalidades I e II - resulta
da exigência do exame em língua estrangeira,
inglês e espanhol. A prova constará
da tradução e interpretação
de um texto para cada um dos respectivos idiomas,
permitindo-se o uso de dicionários durante
a realização do exame, o qual durará
em torno de 1h e 30 min para cada idioma.
Como
a maior parte da bibliografia utilizada ao longo
do curso encontra-se nos idiomas acima, intenta-se
averiguar nos referidos exames, a capacidade de
leitura e compreensão de textos, de modo
que a utilização de dicionários
não será suficiente para quem desconhece
ou conhece pouco àqueles idiomas.
A
entrevista com os candidatos abrange o exame de
proficiência em língua estrangeira,
acompanhado de uma redação (em português)
e dos questionários de natureza sócio-econômico
e específico da área de relações
internacionais. Para ser aprovado, o candidato
deverá ter um perfil adequado para ingressar
no curso, além de obter nota mínima
de 5,0 (cinco inteiros) em inglês, espanhol
e também na redação.
Dentre
os atributos considerados como perfil adequado,
encontram-se, por exemplo, o grau de interesse
pela sociedade internacional e seus temas, o hábito
e o gosto pela leitura, atualização
em termos da conjuntura nacional e internacional,
curiosidades subjacentes à filosofia política
e à economia política, acesso a
periódicos nacionais e estrangeiros, ser
usuário da rede Internet etc.
Para
nossa grata satisfação, o nível
dos candidatos ao curso de Relações
Internacionais, neste semestre, conformou-se bastante
elevado conforme prevíamos. A imensa maioria
mostrou-se apta a ler e compreender textos em
inglês e espanhol, sem falar que alguns
candidatos apresentaram fluência ao menos
no inglês, enquanto outros já residiram
durante algum tempo no exterior; as redações
também estiveram a contento, denotando
clareza de idéias, objetividade, familiaridade
com o tema solicitado etc.
Apesar
do bom nível apresentado pelos candidatos,
houve reprovação nas modalidades
I e II, além de não termos preenchido
o total de 50 vagas oferecidas no semestre.
PARABÉNS
AOS APROVADOS!!!
SEJAM BEM VINDOS À BELAS ARTES!!!
BEM VINDOS AO CURSO DE RELAÇÕES
INTERNACIONAIS!!! |
| Visando
maiores esclarecimentos sobre a formação
do "internacionalista", DATA VENIA foi
buscar um profissional da área, enviando-lhe
previamente as perguntas que se segue. A escolha
recaiu sobre o Sr. Giorgio Romano Schutte, 38,
brasileiro naturalizado, de origem ítalo-holandesa.
Ele é Mestre em Relações
Internacionais pela Universidade de Amsterdam
e doutorando da USP. Ocupou também cargos
de assessoria e consultoria internacional no movimento
sindical da Europa e do Brasil. Atualmente, é
Chefe de Gabinete da Secretaria de Relações
Internacionais da Prefeitura Municipal de São
Paulo.
DATA
VENIA - A própria natureza das relações
internacionais envolve um diálogo interdisciplinar,
embora isso não lhes retire sua especificidade.
Como o Sr. Justificaria esse caráter
específico, a ponto de suportar, por
exemplo, a regulamentação da profissão
de internacionalista?
O caráter interdisciplinar, embora item
de consenso entre todos os estudiosos, é
interpretado de várias formas. Assim,
por exemplo, podem-se tomar como ponto de partida
as teorias provenientes da teoria política
americana (teoria dos jogos, behaviorismo, entre
outras) ou o direito internacional. No meu caso,
tive uma formação que enfatizou
a economia política das relações
internacionais e a formação histórica
do capitalismo internacional. Ora, existem várias
escolas de relações internacionais
que, apesar de interdisciplinares, quase não
dão atenção à economia.
Dificilmente, porém, uma disciplina sozinha
é capaz de chegar a uma interpretação
consistente das relações internacionais.
Alguma mistura deve ser feita, e as possibilidades
são grandes. O que diferencia as várias
escolas de relações internacionais
é exatamente a ênfase na disciplina
predominante.
DATA VENIA - Falando ainda de especificidades,
o que diferencia o "internacionalista"
de outros profissionais como o politólogo
e o de comércio exterior etc.?
O internacionalista precisa ter uma formação
que permita contextualizar os diversos fenômenos
em seu contexto internacional. Além disso,
deve adquirir também uma formação
cultural que vise a cidadania mundial. Isso
é muito diferente de um conhecimento
técnico a respeito de comércio
exterior.
DATA VENIA - E mais concretamente, o que
os "internacionalistas" fazem e que
os politólogos, por exemplo, não
podem fazer?
Um politólogo, sem formação
em relações internacionais, tem
por definição uma visão
mais estreita, menos abrangente das relações
sociais e políticas. O internacionalista
deve ser capaz de mostrar uma visão ampla,
o que permite observar melhor as especificidades
e relativizar alguns processos.
DATA VENIA - O Sr. Considera salutar essa
recente expansão de cursos superiores
de Relações Internacionais? O
que considera escasso e o que seria abundante
nesses cursos?
No caso do Brasil, por muito tempo as ciências
sociais sofreram de falta de visão do
mundo. Isso limitou o conhecimento e o reconhecimento
da própria realidade. Sem dúvida,
a brusca abertura da economia brasileira como
parte do fenômeno mais amplo da globalização
evidenciaram esta lacuna nas universidades brasileiras,
de um lado, e de outro despertaram um interesse
muito grande de novas gerações
de estudantes. Ora, para fazer uma comparação
simples: diante do boom de academias de ginástica,
criou-se uma falta de instrutores capacitados,
e muita gente acabou saindo literalmente mal
das aulas nas academias por falta de preparo
dos instrutores. Essa deve ser uma preocupação
importante também da nossa parte.
DATA VENIA - A priori que impressão
lhe causou a proposta do curso de Relações
Internacionais da Faculdade de Belas Artes?
Acredito, neste caso, que o curso de R.I. seja
um exemplo de seriedade, pois envolveu uma longa
preparação, contatos com vários
especialistas de formações diversas
e com práticas ligadas às áreas
internacionais.
DATA VENIA - Dentre as vertentes teóricas
de relações internacionais, com
qual escola de pensamento o Sr. possui maiores
afinidades? Fale-nos um pouco sobre ela, tendo
em conta as mais recentes alterações
na Ordem Mundial.
A teoria da formação do sistema
mundial de Immanuel Wallerstein marcou profundamente
a minha visão do mundo e das relações
internacionais. Eu tive o privilégio
de estudar a grande obra do autor, os volumes
I e II do ´Sistema mundial moderno´,
em uma época em que ninguém falava
ainda de globalização. Wallerstein
explica, com grande conhecimento histórico
e muita atenção às fontes,
como a dinâmica do capitalismo está,
ao longo dos séculos, a partir do século
16, interligando o mundo. E como as relações
internacionais atingem a formação
da estrutura política, econômica
e sociológica de cada país e região.
Esta visão nos dá um entendimento
histórico da longa trajetória
que levou ao que hoje é conhecido como
'recente' fenômeno da globalização.
DATA VENIA - O meio acadêmico já
despertou para as relevantes funções
desempenhadas pelo "internacionalista"
nos dias atuais, mas o mesmo não ocorre,
ao menos em igual proporção, por
parte daqueles que poderiam empregar esse profissional.
O que fazer para num breve lapso de tempo, podermos
ler nos classificados dos jornais: precisa-se
de internacionalistas.
Acredito que ainda seja pouco conhecida esta
profissão. Os próprios candidatos
poderiam começar a entrar nos classificados
à procura de emprego utilizando essa
nomenclatura, e principalmente os cursos poderiam
fazer um trabalho junto aos órgãos
da imprensa e perante os especialistas em recursos
humanos.
DATA VENIA - Na sua avaliação
quais os principais atributos do profissional
de relações internacionais e como
o Sr. os distribuiria numa ordem decrescente
de prioridades?
Acredito que esta esteja relacionada à
sua primeira questão, sobre interdisciplinaridade.
Diria então que um bom conhecimento da
economia internacional, macroeconomia (teoria
de oligopólios, por exemplo), da história
mundial e do Brasil, da ciência política
e do direito internacional. Além disso,
é essencial ter um bom domínio
das principais línguas internacionais
(inglês, francês e espanhol).
DATA VENIA - Sendo assim, o que não
deveria faltar na formação acadêmica
do "internacionalista"?
Além das matérias e conhecimentos
mencionados acima, diria que é importante
verificar as possibilidades de estágios
internacionais.
DATA VENIA - Estamo-nos encaminhando para
o final da entrevista e não vamos desperdiçar
a chance de solicitar-lhe alguns comentários
sobre as perspectivas brasileiras perante a
Alca.
Esta questão não pode ser vista
de forma isolada. O que interessa é ampliar
as possibilidades de exportação
sem colocar em risco a sobrevivência de
alguns setores instalados aqui, que têm
potencial para avançar em qualidade e
competitividade. Isso passa, sem dúvida,
por negociações comerciais com
os Estados Unidos. Mas também pela OMC,
a União Européia, os países
vizinhos e o potencial ainda pouco explorado
das relações comerciais com Rússia,
China e Índia. Se analisássemos
a Alca como projeto político, não
haveria interesse em continuar a negociação.
Mas temos de analisar, caso a caso, o que o
Brasil pode ganhar. É obvio que interessa
melhorar a relação econômica
com o maior mercado do mundo, mas isto precisa
de uma estratégia muito refinada, e de
uma integração com os atores econômicos
nacionais, além de políticas que
visem realmente aumentar a nossa competitividade
nacional. São estas últimas que
estão faltando, ou, pelo menos, mostrando
maior deficiência. Veja por exemplo o
problema para acessar linhas de créditos
para os exportadores, sem falar da falta de
visão a médio longo prazos e da
ausência de uma política tecnológica.
Se, de um lado, a discussão sobre a Alca
ajudou a evidenciar algumas contradições
por parte de governo dos EUA (as barreiras impostas
aos produtos e serviços brasileiros),
de outro lado deveríamos discutir mais
o conjunto das propostas e políticas
envolvidas.
DATA VENIA - Retornando ao bacharel de R.I.,
o que o Sr. diria a quem está ingressando
(ou tem a intenção de) num curso
de graduação em relações
internacionais? E a quem está prestes
a concluí-lo?
Para quem está ingressando diria que
deve haver uma grande disposição
e curiosidade para, num primeiro momento, mergulhar
em uma vasta literatura. Além disso,
tem de rapidamente adquirir o hábito
de ler todos os cadernos internacionais dos
principais jornais nacionais e acompanhar, de
forma sistemática, uma revista internacional,
como ´The Economist´. Como dizem
os ingleses: keeping up to date on world affairs.
Para quem está concluindo: agora é
o momento de focar alguma especialidade para
continuar os estudos e dirigir-se a um nicho
específico do mercado. Assim, mistura-se
a base generalista com um aprofundamento de
especialista.
DATA VENIA - O que a formação
em Relações Internacionais lhe
deu, o que ela lhe tomou e o que ainda está
lhe devendo?
Sem dúvida me deu uma visão do
mundo e instrumentos para atuar nele. Por motivos
profissionais, tive pouco tempo de retomar esta
experiência com aulas, o que eu pretendo
fazer no futuro.
DATA VENIA agradece pela entrevista.
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