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DATA
VENIA é uma revista eletrônica do Curso
de Relações Internacionais do
Centro Universitário Belas Artes de São
Paulo. De periodicidade trimestral, seu conteúdo
é de inteira responsabilidade dos autores que
subscrevem suas respectivas matérias.
As colunas serão alimentadas pelos professores
do Curso, contando-se também com a colaboração
do alunado, da Comunidade Febaspiana como um todo, e
apenas marginalmente, ocorrerá a participação
de colaboradores externos à Instituição.
Além de divulgar as notícias relacionadas
ao Curso, as matérias publicadas reportar-se-ão
às sociedades nacional e internacional, através
de textos inéditos e não muito extensos,
acolhendo-se também material redigido nos idiomas
inglês e espanhol.
O conteúdo divulgado em DATA VENIA
pautar-se-á pelo balizamento ético e pluralismo
das idéias, as quais autoriza-se sua reprodução
por quaisquer meios desde que se mencione suas respectivas
fontes.
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O
Papa e o Fim do Comunismo
A
morte de João Paulo II pode ser vista como
a apoteose de seu longo reinado de 26 anos no
trono de São Pedro. Aos gritos de “santo
súbito”, seu corpo seguiu - acompanhado
por milhões de olhares mundo afora –
para a cripta antes ocupada por João XXIII,
ironicamente o papa que abriu as portas da Igreja
para a esquerda católica dizimada no último
pontificado.
O ex-ator, Karol Wojtyla, utilizou-se como poucos
dos meios de comunicação para atingir
seus objetivos claramente conservadores. Com gestos
simpáticos e plenamente adaptados à
sociedade do espetáculo, como beijar o
chão de cada país que visitava,
esquiar nas férias e saudar multidões
a bordo do papamóvel, conquistava os fiéis
e construía uma imagem de pontífice
próximo do rebanho ao mesmo tempo em que,
internamente, operava uma verdadeira “contra-revolução”.
Durante o seu papado, centralizou o poder, impôs
claros limites às questões morais
e na relação da Igreja com a Ciência,
além de punir teólogos mais progressistas,
entre eles os artífices da Teologia da
Libertação. Como muito bem colocou
Tariq Ali, “João Paulo II sempre
adorou as câmeras de televisão. Nesse
sentido, acho que sempre agiu como um político
inteligente e de direita. Ele pôs a mais
moderna tecnologia a serviço de um papado
digno da Idade Média”. (1)
Nestes 26 anos, João Paulo II foi também
hábil em erigir alguns mitos em torno da
sua personalidade. Ficou conhecido por defender
os direitos humanos e a democracia. No entanto,
oportunamente, poucos agora se recordam dos esforços
da Santa Sé para desestabilizar o governo
sandinista na Nicarágua e a calculada omissão
com relação a ditaduras sanguinárias
como a de Pinochet no Chile e a de seus colegas
militares na Argentina.
Nada se compara, porém, à idéia
de que João Paulo II derrubou o comunismo.
Esta ilusão, que adquiriu o status de verdade
irrefutável, contaminou os comentários
da imprensa, de analistas mais afeitos a dogmas
do que à realidade, e de importantes líderes
políticos nos últimos dias. Em nota
oficial, afirmou o presidente George W. Bush:
“O papa João Paulo II deixou o trono
de São Pedro da mesma forma como ascendeu
a ele – como testemunha da dignidade da
vida humana. Em sua nativa Polônia, essa
testemunha impulsionou uma revolução
democrática que varreu o Leste Europeu
e mudou o curso da história”. Na
mesma linha, declarou o chanceler alemão
Gerhard Schröder: “Ele influenciou
a pacífica integração da
Europa em seu pontificado de várias formas.
(...) O papa João Paulo II escreveu a história.
Por seus esforços e com sua personalidade
impressionante, ele mudou o nosso mundo”.
Nada mais próximo da pura fé do
que afirmações como estas. Não
se trata de negar aqui a importância política
de João Paulo II – mesmo porque isto
seria tão injusto e falso como as declarações
acima -, mas sim, de jogar um pouco de luz sobre
os eventos que marcaram o final do que alguns
chamam de “O Breve Século XX”.
Os anos 80 foram de profunda crise econômica
para todos os países do Leste Europeu e
para a própria União Soviética
(URSS). Nesta década, ficou patente a incapacidade
dos sistemas centralmente planejados para manter
altas taxas de crescimento e acompanhar as grandes
economias ocidentais. O sistema que se dizia “superior”
ao capitalismo não conseguia mais atender
às demandas de seus cidadãos. Na
década anterior, a situação
fora controlada graças à grande
quantidade de capital disponível no mercado
internacional, utilizado na aquisição
de bens de capital e consumo em quantidade suficiente
para manter as economias em funcionamento e as
populações sob a ilusão de
que o “mundo marchava para o socialismo”.
Porém, no início da década
de 80, com a crise da dívida, as economias
do Leste Europeu degringolaram definitivamente.
Paralelamente, o “socialismo real”
mostrou-se absolutamente incapaz de ingressar
na nova economia de alta tecnologia - fundamental
para a expansão da atividade econômica
e para a produção em massa de bens
de consumo de qualidade. As tentativas de reforma
do sistema, por sua vez, falharam completamente,
esbarrando na burocracia e nas próprias
contradições da economia centralmente
planejada.
Não demorou para que a crise econômica
e a visível piora nas condições
de vida das populações da Europa
Oriental e da URSS acarretassem em conseqüências
políticas. Com o desenvolvimento das comunicações
e o incremento do turismo internacional, não
era mais possível insular as populações
destes países e evitar as comparações
com os vizinhos ocidentais, o que representou
um duro golpe para a legitimidade dos regimes.
Como argumenta Eric Hobsbawm, “a aceitação
do comunismo pelas ‘massas’ dependia
não das convicções ideológicas
ou outras semelhantes, mas de como julgavam o
que a vida sob regimes comunistas fazia por elas,
e como comparavam sua situação com
a de outros. Assim que não foi mais possível
isolar estas populações do contato
e conhecimento com outros países, seus
julgamentos foram céticos”. (2)
Sem legitimidade política e à beira
do colapso econômico, o “socialismo
real” desabou como um castelo de cartas
no Leste Europeu entre agosto e dezembro de 1989.
A recusa da URSS em agir para manter o status
quo na região era um claro indício
de que o país não mais conseguia
carregar o fardo de ser uma superpotência
e que seu destino, como a história mostrou,
não seria muito diferente.
É importante notar que nenhum dos regimes
da Europa Oriental foi efetivamente derrubado
– no sentido revolucionário clássico.
Todos pereceram por suas próprias deficiências
e pela incapacidade de acompanharem o desenvolvimento
capitalista ocidental. Neste processo, João
Paulo II atuou mais como uma figura simbólica
do que como um real líder vanguardista,
o que não impediu que acumulasse um enorme
capital político e diplomático que
lhe seria muito útil durante todo o seu
pontificado.
Notas
(1). Entrevista publicada pelo jornal Folha de
São Paulo no dia 4 de abril de 2005.
(2). HOBSBAWM, Eric (1995). Era dos Extremos.
São Paulo: Companhia das Letras, p. 480.
Oswaldo
Amaral
Mestre em Relações Internacionais
e docente do
curso de RI do Unicentro Belas Artes.
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A
Democracia Compulsória
A história
das idéias políticas ou a formulação
do pensamento político desde os tempos
mais remotos teve por um de seus eixos centrais
a questão da forma de governo. A melhor
forma de governo, é aquela suscetível
de realizar o bem-estar e a felicidade do homem
e ser garantidora da igualdade - sem o que liberdade
nenhuma subsiste -, da justiça e da paz.
Em torno desse eixo muitos outros temas gravitaram
e outras vezes se altercaram, desde os mais abstratos
até aqueles que guardam referência
concreta com o desenrolar desse carretel de muitas
pontas que constitui a vida cotidiana.
Ao longo do tempo, diferentes povos e nações
experimentaram os mais variados regimes e formas
de governo e não se pode afirmar com segurança
que tenham vivido em plenitude a liberdade; muitos,
sequer viram-na despontar no horizonte nebuloso
da política e da História. Algum
grau de servidão humana parece ter atravessado
todos os tempos e regimes e logrado submeter os
homens e sociedades inteiras, por períodos
mais ou menos longos.
É pois, natural, que aqueles que se ocuparam
dos assuntos humanos e fizeram incidir o olhar
e a atenção sobre a política
e sobre o curso tortuoso da História, tenham
muitas vezes oscilado do ceticismo ao entusiasmo
em relação às formas de governo
e regimes concebidos pelo homem, entre eles a
democracia e a ditadura nas suas mais variadas
formas. Por certo contemplaram as promessas da
revolução como possibilidade histórica
e terão se defrontado também com
uma realidade diferente em tudo da esperança.
As cidades da Hélade, de modo particular
Atenas, foram tomadas por berço e símbolo
de uma democracia que, jamais logrou ser absoluta
e o exercício da tirania era também
uma possibilidade que não se chegou a excluir
das cogitações. (1) O fato de Sócrates
ter sido condenado permite supor que ele teria
sido uma voz discrepante e seu discípulo
Platão pode ter encontrado nele o fundamento
e inspiração para suas concepções
aristocráticas. E, antes deles, Homero,
na Ilíada, passando por ventríloquo
de Ulisses proclamara que “muita gente a
mandar não me parece bem; um só
chefe, um só rei, é o que mais nos
convém.” (2) Por outras palavras,
ter mais que um chefe, ainda que ungidos pelo
voto, significava-lhe ser multiplamente infeliz,
melhor ainda, ver sua desdita ser multiplicada
pelo número de homens a que deveria servir
e cuja autoridade deveria acatar.
Sabe-se que idéias e formas de governo
não surgem aleatoriamente na cabeça
deste ou daquele pensador ou líder político,
antes, decorrem da realidade concreta, desse chão
poroso da História, ajustam-se às
circunstâncias e ao caráter de uma
cultura e raramente se esgotam em uma única
alternativa totalizante e hegemônica.
No caso de Atenas, que se tem por nascedouro das
idéias democráticas, mais que da
democracia propriamente dita, a construção
de uma estrutura política democrática
fora acompanhada e estimulada por transformações
de ordem econômica e social lá ocorridas,
conformou-se em torno de eixos básicos
de reflexão que encontravam guarida na
vida cotidiana dos atenienses, tais como a idéia
de democracia, de igualdade, uma concepção
de liberdade e a prevalência da lei, ainda
que esta pudesse ser reformulada. Ressalte-se,
entretanto, que, se de um lado, a cidade liberava
o cidadão emancipando-o dos laços
de sujeição a homens e grupos, de
outra parte, impunha-lhe a sujeição
à lei. (3)
O apogeu da democracia ateniense, sob o governo
de Péricles, esteve, entretanto, bastante
longe de obter a unanimidade que hoje cerca o
conceito de democracia, do que terá sido
exemplo a crítica, revestida de fina ironia,
presente na obra de Aristófanes (444-385
a.C.), de todo refratário à demagogia
e às inovações que abalavam
os valores tradicionais e um crítico contumaz
da depravação dos costumes políticos.
(4)
De igual modo, Xenofonte (425-355 a.C.) investira
contra a democracia ateniense que lhe parecia
maculada pela divisão, indisciplina e incompetência,
preferindo apostar no governo de um só
homem. E Platão (428-347 a.C.) inclinara-se
favoravelmente a um regime de perfil aristocrático,
embora não contivesse a revolta em face
dos excessos cometidos pelos tiranos, o que o
levou a optar pela reflexão teórica
em detrimento da militância política,
refugiando-se na filosofia. Aristóteles
(384-322 a.C.) chagara a conceber a democracia
moderadamente com a constituição
alicerçada na classe média e procurando
aproximar os princípios democráticos
e aristocráticos.
Como se pode ver, a idéia de democracia
na Grécia Antiga, de modo muito particular
em Atenas, não escapou ao crivo da crítica.
“A Antigüidade – observa Bouthoul
– já acariciava a esperança
de um governo de sábios escolhidos pela
sua erudição e pelas suas virtudes.
Entretanto, a experiência mostrou que os
sábios, ingressando na política,
não se furtavam às servidões
e aos problemas de seus colegas.” (5) Erudição
e virtude é tudo o que não se pode
esperar da grande maioria daqueles que hoje postulam
os cargos públicos e pedem o nosso voto
e é também bastante conhecido o
modo como, uma vez eleitos se deixam enredar nas
malhas da atividade parlamentar.
A renascença européia retomou os
liames com a antigüidade clássica,
e o lampejante gênio político de
Nicolau Machiavelli (1486-1527) concebera a democracia,
aparando-a moderadamente nos marcos do republicanismo,
ainda que sua obsessão pela unidade política
da Itália o tenha levado a depositar todas
as esperanças na ação providencial
de um Príncipe, favorecido pela virtú
e pela fortuna. Em outras obras que não
O PRINCIPE, Machiavelli mostrara-se republicano
e amigo do povo e a república romana, no
seu período florescente, se lhe configurava
como a forma ideal do Estado. Favorável
à liberdade de pensamento, posto que amante
das discussões e tertúlias da vida
política, julgava que uma abertura democrática
podia ser boa e desejável, mas sem excluir,
entretanto, a possibilidade de uma ditadura diante
de situações de caráter extraordinário
e por um período delimitado. (6) Fica bem
claro em Machiavelli que um governo, uma autoridade
ou um regime político responderá
perante a História, não pelo fato
de ter lançado mão deste ou daquele
instrumento, mas pela resposta concreta e eficaz
que lograr articular ao repto que o tempo e a
circunstância lhe faz. O bem que a unidade
política da Itália representava
justificava por si só os males que a utilização
deste ou daquele meio pudesse significar. Quatro
séculos depois, na mesma Itália
já unificada, outro notável pensador,
Antônio Gramsci (1891-1937) atribuiria ao
partido político, o papel de Novo Príncipe.
Etiénne de La Boétie (1530-1563),
no seu DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA,
inquietava-se menos pela rebeldia ocasional dos
homens do que pela sua tendência dominante
de se submeter ao poder dos tiranos e às
leis iníquas, vinculando essa subserviência
a uma moléstia coletiva de caráter
epidêmico, um vício incurável
que acometia os homens sob os sistemas autoritários,
notadamente aqueles originários da civilização
judaico-cristã.
A atualidade aguda dessa crítica sobrevive
aos sistemas autoritários se considerarmos
as estruturas coercitivas em que se apoiam, em
grau maior ou menor, as democracias modernas,
de tal forma que a liberdade de que se julgam
e proclamam fiadoras e garantidoras não
ultrapassa os limites que o poder estabelece e
consente a ponto de se tornar – aqui e agora
– uma referência fundamental de caráter
único sob a égide do politicamente
correto, em função do que se exclui
da pauta de discussões qualquer alternativa
que ultrapasse os limites da democracia representativa
liberal, na mesma medida em que se elabora e repete
até a exaustão um conceito de liberdade
contido nos marcos do liberalismo e da globalização,
que se esgota na formulação de opções
que não ajudamos a formular e que a razão,
tanto quanto o sentimento, repelem.
No século XVIII, Montesquieu (1689-1755),
ao formular o conceito de lei como relações
necessárias que derivam da natureza das
coisas, rompe com o vínculo da política
com a teologia e procura encontrar constâncias
na variação dos comportamentos e
formas de organizar a vida dos homens e julga
possível estabelecer leis que regulam as
relações entre eles. Fica bastante
claro para o autor d’O ESPÍRITO DAS
LEIS que o estado de sociedade comporta uma grande
variedade de formas de realização
e organização que se ajustam a uma
grande diversidade de povos. Assim, pode-se concluir
que a estabilidade de um regime ideal –
república, monarquia ou despotismo –
implica numa correlação entre as
forças reais da sociedade que acaba encontrando
expressão e forma nas instituições
políticas.
Quando toma por objeto a democracia, Montesquieu
ressalta que se um governo é monárquico
ou despótico, o primeiro, pela força
das leis, o segundo pelo braço do príncipe,
num Estado que se pensa democrático e popular,
é preciso antes de tudo a virtude, pelo
que se entende um sentimento, mais que uma série
de conhecimentos. “O amor à igualdade,
numa democracia, limita a ambição
apenas ao desejo, apenas à felicidade de
prestar à pátria maiores serviços
que os demais cidadãos. Estes não
lhe podem prestar iguais serviços; mas
todos devem prestar-lhe algum.” (7)
O mesmo Montesquieu ressalva entretanto, que a
corrupção de cada governo começa
freqüentemente pela dos princípios
e acrescenta: “O princípio da democracia
se corrompe, não só quando se perde
o espírito de igualdade, mas também
quando se assume o espírito de igualdade
extrema, e cada um quer ser igual aos que escolheu
para comandá-lo.” (8) Assim, não
sobreviverá a virtude na República
quando o povo, não podendo já suportar
o poder em quem confia, deseja fazer tudo por
si só, assumindo as funções
dos magistrados e dos senadores. “O povo
cai nessa infelicidade, quando aqueles em quem
confia, querendo esconder a própria corrupção,
procuram corrompê-lo. (...) Não será
para admirar verem-se votos dados por dinheiro.
Não se pode dar muito ao povo, sem que
mais dele se extraia; mas para extrair dele, é
preciso subverter o Estado. Quando mais pareça
que tira vantagem da liberdade, mais o povo se
aproximará do momento de perdê-la.
Ele forma pequenos tiranos com todos os vícios
de um só tirano. Cedo se tornará
insuportável o que resta da liberdade;
surge um único tirano; e o povo perde tudo,
até mesmo as vantagens de sua corrupção.”
(9)
Conclui Montesquieu que a democracia, se quer
sobreviver, deve evitar o espírito de desigualdade
e o espírito de igualdade extrema, posto
que o primeiro conduz à aristocracia, ao
governo de um só e o segundo, leva ao despotismo
de um só. Sensível e apegado à
diversidade do mundo, a acuidade desse conservador
iluminado ou iluminista moderado, próximo
de John Locke (1632-1704), o pai do liberalismo,
distingue os governos segundo as épocas
e países, considera as fraquezas humanas
valendo-se de um método que se apoia numa
análise sociológica. Não
incidiu e jamais cairia na esparrela de considerar
que uma única forma de governo ou um único
regime atende às especificidades de todas
as sociedades em todas as épocas e condições.
O pensamento de origem anarquista, pela voz de
Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), identifica
na comunidade a origem da opressão e servidão
na medida em que limita a espontaneidade do espírito,
o livre arbítrio na ação
e no pensamento e destitui a pessoa humana de
suas prerrogativas, mas, ao mesmo tempo, não
deixa de revelar um acentuado ceticismo quando
o escrutínio de que resulta um número,
uma maioria, toma o lugar da tradição
e da hereditariedade. Céptico da necessidade
de tantos mandatários e representantes
e da eficácia dos pleitos eleitorais, preferia
acreditar que a liberdade, mais do que a expressão
fria e abstrata da lei, se inscrevia nas entranhas
e interstícios da vida cotidiana. “Não
acredito – dizia ele – de maneira
alguma, justificadamente, nesta intuição
divinatória da multidão, que a faria
discernir, logo de imediato, o mérito e
a honorabilidade dos candidatos. Os exemplos são
abundantes em personagens eleitos por aclamação
e que, sobre as bandeiras em que se ofereciam
aos olhos do povo arrebatado, já preparavam
a trama de suas traições.”
(10)
De modo particularmente acentuado no pós-guerra,
a vitória dos países aliados contra
as forças do eixo, tomou a forma de uma
vitória da liberdade e da democracia e,
por extensão de um determinado modo de
vida. A idéia de democracia passou então
por todas as mãos e vertentes ideológicas
e, superada a Guerra Fria parte de uma esquerda
claudicante e já desarvorada terá
sucumbido ao fetiche que a palavra exerce, proclamando-a
como valor universal a que nenhum povo, nenhum
país, independente do seu grau de desenvolvimento
e de sua cultura poderá se eximir de praticar,
pelo exercício periódico do voto
e pela alternância dos partidos no governo.
Sucumbiu-se assim a uma idéia monopolizadora
que terá servido de biombo para todos os
tipos de manipulações e distorções.
Os finados regimes burocráticos do leste
europeu nunca deixaram de se proclamar repúblicas
populares e democráticas, máscara
que logrou sobreviver à revolução
húngara de 1956 e à Primavera de
Praga (1968), mas que caiu por terra com a queda
do muro de Berlim e com a débâcle
da União Soviética. Uma infinidade
de golpes desfechados em todos os países
da América Latina e África, aos
quais se seguiram ditaduras sangrentas, foram
desfechados sob o pretexto de defender a liberdade.
E também em nome da democracia, pois não
se podia conceber que qualquer outro país
viesse optar por outro sistema que não
o democrático-representativo, de extração
liberal, o governo norte-americano - desembaraçado
de qualquer escrúpulo - levou a cabo sua
política intervencionista, ajudando a depor
governos não confiáveis, apoiando
ditaduras militares municiando-as de sofisticados
instrumentos de informação e tortura
e/ou impondo a realização de eleições
neste ou naquele país, como forma de encobrir
seu domínio sub-reptício.
A emergência dos Estados Unidos da América
como potência hegemônica e poder incontrastável
tornou, enfim, uma temeridade investir contra
os poderes democraticamente constituídos,
submetê-los a uma crítica devastadora,
expor suas mazelas e desnudar os partidos políticos,
pois deve, antes de tudo, prevalecer a premissa
de que são essenciais à fluição
da liberdade, à alternância no governo
e suposto apanágio das garantias individuais.
Repete-se à exaustão, não
se sabe se por hábito ou por absoluta falta
de repertório ou de imaginação,
e com o evidente propósito de excluir do
debate qualquer outra alternativa, a velha fórmula
de Churchill, segundo a qual “a democracia
é a pior forma de governo, excetuando-se
todas as outras. E assim, por inércia,
por falta de coragem cívica ou vigor intelectual,
sucumbimos à mesmice e conformamo-nos com
aquele sistema que se nos afigura o menos pior,
dos males o menor, ainda que a um custo elevado
que temos de pagar para manter instituições
que se revelam cada vez mais impróprias
e incapazes – pela estrutura e pela composição
– para articular respostas aos grandes problemas
que assaltam e comovem a sociedade contemporânea.
Está-se a pensar, naturalmente, nas câmaras
municipais, assembléias estaduais e nas
casas do Legislativo Federal e nos próprios
partidos políticos que nelas têm
assento e representação. Em defesa
dessas instituições, muitas vozes
levantarão o argumento de que o remédio
está nas mãos dos eleitores, aos
quais caberia escolher melhor seus governantes
e representantes em todos os níveis. O
voto é a arma que colocam em nossas mãos!
Devemos então comparecer às urnas,
cumprir o dever cívico e escolher aqueles
que vão tripudiar sobre nós nos
próximos quatro anos!
Marx observa que “assim como na vida privada
se faz a distinção entre aquilo
que um homem pensa de si próprio e aquilo
que realmente é e faz, assim, também,
nas lutas históricas se deve fazer ainda
melhor a distinção entre a fraseologia
e as pretensões dos partidos, a sua constituição
e os seus interesses, entre aquilo que eles julgam
ser e aquilo que na realidade são.”
(11)
A (re)leitura do 18 brumário de Luís
Bonaparte tem o poder de despertar nossa consciência
para a realidade dos fatos e para a falácia
desses mecanismos, uma roda dentada de que não
logramos escapar, uma rede insidiosa que tolhe
cada movimento e torna inútil cada manifestação
e que a todos exaure “pela constante repetição
das mesmas tensões e dos mesmos relaxamentos;
antagonismos que parecem agudizar-se periodicamente
por si próprios apenas para se poderem
enfraquecer e desaparecer sem se resolverem...”
(12)
Quando o temor de passar por inimigo das liberdades
públicas inibe a crítica às
instituições supostamente asseguradoras
da liberdade e do bem-estar geral, fecham-se as
portas para o exercício da imaginação
política. A palavra de ordem brandida aos
quatro ventos, uma variante da ordem do dia militar,
assim como a propaganda oficial largamente difundida
pela mídia, atrofia-nos o pensamento e
deslustra-nos o espírito. Da mesma forma,
a militância político-partidária,
em função das teias de lealdade
e cumplicidade com que nos envolve, inibe a crítica,
ora em nome da disciplina, ora em nome do mais
degradante fisiologismo. E a democracia, que,
supostamente, deveria resultar da livre e soberana
decisão, da vontade e da vocação
de um povo, torna-se compulsória. É
o regime a que todos devem se submeter sem discussão!
Se no mundo romano eram bárbaros os povos
que não falavam latim e habitavam fora
das fronteiras do Império, hoje, em plena
Era Bush, passam por bárbaros os povos
que não adotam o figurino democrático
e não se submetem ao rito eleitoral. Os
Estados Unidos outorgaram a si próprios
uma missão civilizatória ocidentalizante
e, finda a Guerra Fria, já desembaraçados
de qualquer poder dissuasório, fazem-se
passar por guardiões da democracia e assumem
a zeladoria do planeta.
Machiavelli compreendera melhor que ninguém
que o uso da força está sempre presente
nos horizontes da vida política; é
uma possibilidade que não se pode descartar,
mas, com certeza, jamais teria imaginado que ela
pudesse ser usada para impor a democracia a povos
cuja cultura e história aponta para outras
soluções.
A justíssima ênfase que se dá
aos crimes de lesa-humanidade perpetrados pelos
regimes totalitários ou até em nome
da religião, dos quais a história
oferece substanciosos relatos é mais que
necessária, mas acabam por elidir os crimes
e enormidades morais que também jamais
deixaram de vicejar sob regimes supostamente democráticos,
ou democráticos na forma estereotipada
mais do que no espírito e na prática
concreta, e que aparecem freqüentemente aditivados
de um aparelho repressivo e ideológico
de que nenhum governo parece abrir mão
e de uma máquina de propaganda de alcance
midiático, com extraordinário poder
de corromper, manipular consciências e despertar
nas mentes e corações expectativas
de mudança que se desmancham nos primeiros
atos do governo, caracterizando-se um verdadeiro
estelionato eleitoral. Quando isso ocorre, o que
se toma por democracia, mais se assemelha a uma
afronta, a um consórcio ou conúbio
indecente que reúne grupos em torno de
interesses na mesma medida em que os afasta do
povo que pretendem ou simulam representar.
Por conseguinte, se é compreensível
que se clame por democracia e liberdade de expressão
quando a ditadura e o autoritarismo, seja qual
for a coloração, nos inibe e constrange
e submete a sociedade ao arbítrio de um
homem, aos apetites insaciáveis de um grupo
ou ao espírito de corpo de um partido,
é igualmente compreensível e defensável
o desencanto, seguido de revolta e indignação
que a corrupção que grassa nas democracias,
como grassara também nas ditaduras, provoca.
É perceptível o desencanto e o ceticismo
da maioria da população e sobejamente
conhecida sua crescente inapetência em relação
à política, particularmente à
política partidária, além
de sua impaciência em face dos rituais eleitorais
aos quais muitas vezes, em alguns países,
tem de se submeter compulsoriamente, sob pena
de ter de prestar contas à Justiça
Eleitoral. É também fácil
perceber e registrar a indiferença ou o
asco com que tem de se submeter à propaganda
eleitoral obrigatória veiculada pelas emissoras
de rádio e televisão, muito menos
para educar e esclarecer do que para confundir
e obscurecer, impingindo ao eleitor produtos de
qualidade no mínimo duvidosa e, o que é
pior, postulantes cuja vida não sobreviveria
a uma investigação policial sumária
e menos ainda a uma investigação
de cunho jornalístico.
Não se conclua precipitadamente, das considerações
até aqui expostas, que um regime autoritário,
arbitrário e policialesco, que não
encontre limites na lei, seja desejável
e capaz de articular soluções para
os problemas que afetam a maioria da população
em muitos países e em todos os continentes,
afinal a liberdade é sempre necessária
e muitas gerações tolhidas pela
ditadura já pagaram muito mais do que seria
justo que custasse pela sua falta. Schwartzenberg
observa com acuidade que “uma sociedade
que não possui canais que permitem medir
as suas contradições, informar os
governantes sobre elas, debatê-las livremente,
caminha-se para o bloqueio e a esclerose”.
(13)
Sabe-se que a ausência de liberdade não
significa garantia de eficiência governamental
e, menos ainda, a eliminação da
corrupção que sempre logra enquistar-se
e reproduzir-se no aparato burocrático
do Estado, nos vãos obscuros das câmaras
legislativas e, também, nos meandros da
vida cotidiana, sempre que, em nome da sobrevivência,
parcelas excluídas da população
têm de optar por formas de navegação
social que passam ao largo da lei, do trabalho
formal. Mas daí não se pode concluir
que esses mecanismos tradicionais de representação,
maculados pelo descrédito e rejeição
pública, sejam capazes de fazer fluir o
debate, escapar do poder ardiloso dos grupos de
influência e encaminhar soluções
para os problemas já crônicos que
atravessaram e sobreviveram a diferentes governos
- democráticos ou autoritários –
e a diversas legislaturas.
Há que se criar então os canais
pelos quais a livre opinião possa fluir
e, desembaraçada das amarras institucional
e burocrática, possa produzir resultados.
Defender a liberdade e a democracia não
significa ser conivente e tolerante com a falcatrua,
a imoralidade e o tráfico deletério
que se faz entre o público e o privado.
Não se subestime o fato de que a crise
das crenças e costumes, valores e referências
éticas predispõe ao acolhimento
de soluções que passam ao largo
da vida civil e das normas institucionais, tornando-se
suscetível de acolher lideranças
carismáticas e oportunistas ou mesmo tecer
liames de lealdade para com poderes paralelos
ao Estado privatizado, cujo braço flácido,
nervos debilitados e falência múltipla
de órgãos e valores, torna ineficaz
sua ação e até repelidas
suas tentativas de intervenção.
Num caso ou no outro, ou seja, tanto nos períodos
de abertura política quanto nos períodos
de fechamento, é importante discernir entre
as palavras e as coisas, entre as intenções
e os fatos, entre o pretexto que terá sido
útil para desfechar um Golpe de Estado
e vilipendiar as liberdades públicas, os
direitos e garantias individuais, de um lado e,
de outro, os programas com que um partido ou uma
coligação, às vezes espúria,
obteve a maioria dos sufrágios e, legitimado
pelo voto nos coloca a sociedade a mercê
de arrivistas da pior espécie. É
assim que seqüestram-nos o voto, escamoteiam
a verdade das urnas e algumas poucas décadas,
algumas poucas alternâncias, bastam para
mostrar que a substituição de um
partido por outro não implica em mudanças
substantivas na vida dos cidadãos e, menos
ainda, daquela legião de homens e mulheres
cujo horizonte sequer contempla a idéia
e a possibilidade do exercício da cidadania.
Muito cedo, os novos depositários do poder
revelam-se tão vulneráveis, tíbios,
cínicos e deslumbrados, quanto aqueles
aos quais se opunham e contra os quais vociferavam
em altos brados.
O que se deseja afirmar aqui, apoiando-se nas
lições da História e na realidade
que, considerada sua característica multifacética
e policromática, extrapola, seguramente,
os limites de toda a teoria e de todos os sistemas
de governo, é que não existe um
único remédio ou, por outras palavras,
o remédio que num organismo produz efeitos
benéficos, no outro resulta em malefícios
e efeitos colaterais perniciosos. Não há
povo que não tenha provado o doce e inebriante
sabor da liberdade, sem antes ou depois ter experimentado
o amargo, mas às vezes consentido o gosto
da servidão.
Só um pensamento de todo estéril
elimina outras alternativas em benefício
de uma só. O pensamento que não
alberga o contraditório é que é,
pela sua própria natureza, antidemocrático.
A reflexão que se atém ao rótulo
sem verificar o conteúdo do produto, deixa-se
enganar pela aparência.
Um olhar obsequioso e atento permite perceber
que o que temos por democracia está (ainda)
infinitamente longe de sê-lo. Quando a justiça
claudica e o poder de alguns se abate sobre os
fracos e indefesos ou quando sentenças
judiciais são objeto de compra e venda,
não se pode falar de democracia; quando
uma relação incestuosa se estabelece
entre os poderes constituídos ou entre
o interesse público e o privado e quando
o voto no Parlamento se transforma em moeda de
troca, não se pode falar e tampouco pensar
em democracia; quando o voto é escamoteado
ou quando o exercício da cidadania fica
a ele restrito, não se pode inferir que
o que se tem se assemelha a democracia; quando
a infidelidade partidária deturpa a representação
e atraiçoa a vontade expressa nas urnas
ou quando prevalece o espírito corporativo
e o Parlamento legisla em causa própria,
esfuma-se o ideal de democracia; quando a urdidura
de alianças se faz a despeito de princípios
e concepções de mundo ou se torna
objeto de barganha que passa ao largo de referências
éticas e de qualquer escrúpulo,
o que se tem é esbulho, mais que democracia;
quando um enxame de parasitas de todo apartados
do interesse público e indiferentes ao
destino de suas cidades se locupleta nas câmaras
municipais, também não é
democracia o que se tem; quando a prodigalidade
no uso do dinheiro público pelas autoridades
constituídas tem por contrapartida a parcimônia
nos investimentos em saúde, infra-estrutura,
educação e pesquisa, o que se tem
é plutocracia mais que democracia; quando
a definição de um modelo ou política
de desenvolvimento não tem por premissa
a participação de todos nos frutos
do crescimento ao mesmo tempo em que desconsidera
o valor da natureza, as inclinações
do povo e o valor da cultura, o que se tem não
é nem remotamente democracia; quando se
estimula o individualismo exacerbado em detrimento
das atitudes e valores congregantes que favorecem
a ação comum e solidária,
o que se faz é solapar na base a possibilidade
de uma democracia compartilhada; quando em nome
do combate ao terrorismo se promove a beligerância
e, em nome da segurança se limitam as garantias
individuais, também não é
democracia o que se tem.
Todo o governo, seja qual for o formato pelo qual
se apresenta ou as origens nas quais se estriba
é corruptível e detém nas
mãos de seus depositários ou usurpadores
uma enorme capacidade de constranger seus súditos,
alguns invocando a herança dinástica,
outros legitimação plebiscitária,
outros apoiando-se em discutíveis razões
de Estado ou em maiorias obtidas através
do processo eleitoral e outros ainda através
de coup de main. Se é verdade que o poder
absoluto e discricionário corrompe absolutamente,
o poder que se obtém pelo voto, corrompe
ampla e democraticamente também, afinal,
o que um postulante a um cargo público
não faz para se eleger?!
Os fatos estão aí para demonstrar
que os povos imolam-se na luta pela liberdade
e pela democracia da mesma forma que sucumbem
ao fascínio de um chefe carismático
e populista; clamam pela liberdade quando dela
são privados total ou parcialmente da mesma
forma que clamam por ordem e autoridade, quando
a liberdade e a democracia servem de biombo escuso
para os favorecimentos de uma classe política
que se aloja nas instituições representativas
ou na burocracia estatal, em cargos mais ou menos
visíveis, apegando-se aos seus cargos como
crustáceos e valendo-se de um cipoal de
leis que sempre guarda uma brecha para escapar
da responsabilidade por seus atos e contando também,
naturalmente com a dedicação de
uma legião de causídicos.
O que define a natureza de um regime político
e o seu grau de abertura ou fechamento é
muito menos a vontade deliberada de um povo, manifestada
pelo voto ou por alguma outra forma mais expontânea
e menos convencional, ou o ato volitivo de um
chefe, um condottieri que empalma o poder, do
que pelas circunstâncias de tempo e lugar.
A política, a natureza da cultura e a força
das circunstâncias ou se se preferir a necessidade
histórica, comporta flutuações,
variações e opções
não irredutíveis a um regime ou
forma de governo que se pensa única e perene
e menos ainda a um parecer técnico ou a
uma aferição da vontade popular
pela via eleitoral. “As formas que a humanidade
não pára de engendrar – adverte
Finkielkraut – possuem cada uma sua existência
autônoma, sua necessidade imanente, sua
razão singular”. (14) Os mesmos tanques
e bombardeios que já lograram impor a ditadura
pelo medo e pela repressão, alijando do
poder, governantes livremente eleitos, hoje, ao
sabor dos interesses e conveniências, afrontam
as culturas dessemelhantes, estabelecem odiosos
bloqueios econômicos, intervêm militarmente
e depõem ditadores impondo a realização
de eleições, tudo em nome da democracia
e da liberdade de que se julgam guardiões
vigilantes.
Mas o que é ser livre? Em que se resume
a liberdade? Mais do que expressão fria
e abstrata da lei, mais que redutível a
uma forma de governo, a liberdade se inscreve
nas estruturas e interstícios da vida cotidiana,
anela-se com a vida econômica. “Ser
livre – ressalta Unabomber – significa
dominar (como indivíduo e como membro de
um pequeno grupo social) as questões vitais
da existência: a alimentação,
o vestuário, o alojamento e a defesa perante
as ameaças envolventes. Ser livre significa
ter poder, não para dominar outras pessoas,
mas para controlar as condições
da nossa própria existência”.
(15)
Inibidos pela odiosa patrulha do politicamente
correto, deixou-se de por em discussão
algumas coisas essenciais e, entre elas, os limites
e a natureza dessas instituições
e o próprio sentido da expressão
democracia, que, esvaziada e expurgada de seu
conteúdo originário, obscurecida
sua origem histórica, passa a ser apenas
um mecanismo de alternância periódica
no governo, de partidos que nada representam,
cujos programas se confundem e que se revelam
de todo incapazes de suscitar qualquer esperança
ou entusiasmo mobilizador. É compreensível
e, até certo ponto saudável, que
a grande maioria dos jovens fujam deles não
sem expressar asco e repugnância. Encontrarão,
por certo, algum porto mais seguro onde ancorar
suas esperanças e outros meios de se expressar,
outras formas de se organizar, visto que a delinqüência,
a venalidade, o fisiologismo e a esclerose tornaram-se
características de todos os partidos.
Um tumor que por muito tempo terá ficado
delitescente no organismo político e social
carece de biópsia urgente, se é
que se tem ainda algum apreço pela liberdade
que eles vilipendiam e pela idéia de democracia
– em tudo diversa do que temos por democracia
– que se deseja ainda cultivar. Não
a democracia formal que se circunscreve ao ato
de votar e escolher entre opções
que sequer ajudamos a formular e que foram engendradas
mais para excluir do que para incluir, mais para
escamotear do que para revelar. Ser tolerante
e conivente com as mazelas que deixam de ser exceção
para ser a tônica dominante da atuação
dos homens que se pensam públicos, mas
que se orientam por interesses privados e corporativos,
e dos partidos políticos que lhes servem
de albergue, um pouco por toda a parte, é
seguramente a melhor forma de abrir caminho para
uma recidiva autoritária. Quantos em cada
dez brasileiros sairiam às ruas para defender
o parlamento, caso este fosse fechado e cercado
por uma tropa tendo a frente um general? Se prevaricarmos
no exercício do que ainda temos por senso
de cidadania, deixando de submeter as instituições
ao exame preventivo e à crítica
contundente, expurgando-as da malta de salteadores
e da choldra que delas se apossaram pelos caminhos
mais tortuosos e métodos mais indefensáveis,
não restará, por certo, alternativa
outra que não proceder a autópsia
da democracia e dos partidos políticos,
estes já em estado terminal.
Notas.
1. O historiador Arnold Toynbee, cujo olhar atencioso
incidiu poderosamente sobre a civilização
helênica, identificou a vulnerabilidade
das Cidades-Estado gregas no fato de que o estímulo
e objetivo que conferia aos cidadãos só
eram desfrutados integralmente por uma parte da
comunidade, ou seja, pelos homens que tinham tempo
disponível para freqüentar as praças
onde os negócios públicos eram debatidos.
Isso significava de de facto, embora não
de jure, uma situação de inferioridade
para os cidadãos agricultores, cujas terras
ficavam a alguma distância do centro cívico
da polis. (HELENISMO, pp. 59/62). Outro historiador,
Maurice Bowra, acentua que a vida social era a
autêntica base da democracia ateniense e
de seus grandes ideais: a igualdade de leis e
a liberdade de palavra; o povo, isto é,
os homens livres, depois de 510 a.C., constituíam
o poder soberano, tomavam todas as decisões
políticas, formavam os jurados, exerciam
cargos públicos e tinham direito de falar
livremente, sem que nenhuma consideração
de ordem pública os estorvassem ou inibissem.
Extrapolava, por conseguinte os limites do que
entendemos por democracia representativa. As leis
que regiam a vida de Atenas eram publicadas e
conhecidas, mas podiam ser anuladas ou modificadas
por decisão do povo. Péricles afirmava
que a lei é aquilo que o povo decide. Em
defesa da democracia ateniense, Bowra ressalta
que “entre tantas sociedades que fizeram
uso da escravidão, Atenas se distinguia
pela grande proporção de homens
livres em relação aos escravos”
mas não deixa de observar que as mulheres
ficavam excluídas da vida política
posto que o lar era seu lugar e o silêncio
seu dever mais nobre. (Apud. CIUDADES DE DESTINO,
PP. 40/47). Não obstante, cabe observar
que a tragédia e a comédia gregas
reservavam à mulher (Antígona, Lisístrata,
entre outras) papéis especialmente significativos.
2. HOMERO – Ilíada, c. II.
3. Montesquieu retomaria essa concepção
n’O ESPÍRITO DAS LEIS (1748), ao
afirmar que “a liberdade política
não consiste em fazer-se o que se quer.
Num Estado, isto é, numa sociedade em que
existem leis, a liberdade só pode consistir
em poder fazer o que se deve querer e a não
ser coagido a fazer o que não se deve querer.
(...) A liberdade é o direito de fazer
tudo o que as leis permitem; e se um cidadão
pudesse fazer o que elas proíbem, ele não
teria mais liberdade, porque os outros também
teriam esse poder.” (Livro XII, C. III).
4. Jean Touchard – HISTÓRIA DAS IDÉIAS
POLÍTICAS (Vl. 1), pp. 46/47.
5. Gaston Bouthoul – SOCIOLOGIA DA POLÍTICA,
p. 137.
6. Walter Theimer – HISTÓRIA DAS
IDÉIAS POLÍTICAS, C. IV, p. 95.
7. Montesquieu – O ESPÍRITO DAS LEIS,
L. V, C. III.
8. Montesquieu – Idem, L. VIII, C. I/II.
9. Montesquieu – Idem, L. VIII, C. II.
10. Daniel Guérin (Org.) – PROUDHON
– TEXTOS ESCOLHIDOS, p. 74. – Também
Errico Malatesta (1853-1932) chama a atenção
para os limites do voto ao afirmar que “o
regime do sufrágio universal, mentiroso
como todo o sistema parlamentar, não é
de modo algum o governo da maioria – nem
mesmo da maioria dos eleitores. É simplesmente
um artifício com o qual o governo de uma
classe ou de uma parcela, toma a aparência
de governo popular”. – GRUPO ANARQUISTA
1º DE MAIO – MALATESTA – TEXTOS
ESCOLHIDOS, p. 82. – A vida partidária
e sindical tem sido deveras propícia ao
aparecimento e ascensão de personagens
medíocres e venais que valendo-se de condições
e circunstâncias bastante propícias,
ascendem pelo voto a cargos de alta relevância
para os quais jamais se prepararam. Não
são menos expressivos os exemplos daqueles
que se apegam às facilidades e sinecuras
que vicejam nas nervuras do poder.
11. Karl Marx – O 18 BRUMÁRIO DE
LUIS BONAPARTE, p. 51.
12. Karl Marx – O 18 BRUMÁRIO DE
LUIS BONAPARTE, p. 46.
13. Roger-Gérard Schwartzenberg –
SOCIOLOGIA POLÍTICA, p. 337.
14. Alain Finkielkraut – A DERROTA DO PENSAMENTO,
p. 18.
15. Unabomber (Theodore Kaczynski) – MANIFESTO
DO UNABOMBER. O FUTURO DA SOCIEDADE INDUSTRIAL,
p. 103.
Referências
bibliográficas
1. BOUTHOUL,
Gaston [1976] – SOCIOLOGIA DA POLÍTICA.
Lisboa: Livraria Bertrand.
2. FINKIELKRAUT, Alain [1988]
– A DERROTA DO PENSAMENTO. Rio de Janeiro:
Paz e Terra.
3. GRAMSCI, Antonio [1980] –
MAQUIAVEL, A POLÍTICA E O ESTADO MODERNO.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
4ª.ed.
4. GRUPO ANARQUISTA 1º DE
MAIO [1984] – MALATESTA – TEXTOS ESCOLHIDOS.
Porto Alegre: L&PM.
5. GUÉRIN, Daniel (Org.)
[1983] – PROUDHON – TEXTOS ESCOLHIDOS.
Porto Alegre (RS): L & PM.
6. LA BOETIE, Etienne [1986]
– DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA.
Lisboa: Ed. Antígona.
7. MACHIAVELLI, Nicolló
[2002] – O PRÍNCIPE. S. Paulo: Ediouro.
8. MARX, Karl [1990] –
O 18 BRUMÁRIO DE LUÍS BONAPARTE.
S. Paulo: Ed. Mandacaru.
9. MONTESQUIEU, Charles de Secondat,
Barão de La Brède e de [1973] –
O ESPÍRITO DAS LEIS. São Paulo:
Abril Cultural.
10. SCHWARTZENBERG, Roger-Gérard
[1979] – SOCIOLOGIA POLÍTICA. São
Paulo: Difel.
11. SKINNER, Quentin [1981] –
MACHIAVELLI. London: Oxford
12. THEIMER, Walter [1970] –
HISTÓRIA DAS IDÉIAS POLÍTICAS.
Lisboa: Arcádia.
13. TOYNBEE, Arnold J. [1968]
– CIUDADES DE DESTINO. Madrid: Aguilar.
14. TOUCHARD, Jean (Dir.) [1970]
– HISTÓRIA DAS IDÉIAS POLÍTICAS
(Vls. 1-4). Lisboa: Pub. Europa-América.
15. UNABOMBER (Theotore Kaczynski)
[1997] – MANIFESTO DO UNABOMBER –
O FUTURO DA SOCIEDADE INDUSTRIAL. Lisboa: Fenda
Ed.
16. WEFFORT, Francisco C. [1989]
– OS CLÁSSICOS DA POLÍTICA
(1). São Paulo: Ática.
17. WOODCOCK, George (Org.) [1990]
– OS GRANDES ESCRITOS ANARQUISTAS. Porto
Alegre (RS): Ed. L & PM, 4ª.ed.
Evaristo
Giovannetti Netto
Doutor em História e docente do
Centro Universitário Belas Artes
|
|
Lula-lá:
continuidade e ruptura – Parte I
Por
Nilson Araújo de Souza (1)
1.
À moda de introdução
O
governo Lula já fez seu segundo aniversário.
Já é possível, portanto,
dar-se ao desafio de realizar um primeiro balanço
das suas ações e assim começar
a compreender a sua natureza. Certamente, análise
alguma tem a possibilidade de, neste momento,
ser conclusiva, na medida em que ainda faltam
dois anos para o término do atual mandato
e muita água ainda há de correr
debaixo da ponte. Mas, a partir da análise
dos dois primeiros anos, torna-se possível
perscrutar as perspectivas que se abrem para o
restante de seu mandato.
A questão básica a examinar é
a seguinte: o governo Lula tem sido capaz de promover
as mudanças cujas bandeiras estiveram na
origem de seu nascimento? E, mais concretamente,
o governo Lula representa continuidade ou ruptura
em relação ao período anterior,
particularmente em relação à
gestão Fernando Henrique, que exacerbou
ao limite a subordinação externa
da economia?
Adiantando um pouco a conclusão a que chegamos
neste ensaio, é possível afirmar
que é, contraditoriamente, continuidade
e ruptura. Continuidade no que diz respeito à
política econômico-financeira, especialmente
nas áreas monetária, fiscal e cambial,
e suas ações derivadas nas chamadas
reformas microeconômicas; ruptura em relação
à política exterior e suas ações
derivadas na política de comércio
exterior. Ao continuar os aspectos da política
macroeconômica relativos às áreas
monetária, cambial e fiscal, mantém
a subordinação da economia ao FMI
e às regras impostas pela administração
estadunidense e os credores externos e internos;
ao mudar a política exterior, afasta-se
do alinhamento automático com aquela administração
e pratica uma política externa independente
e uma conseqüente política de diversificação
do comércio exterior. É essa a contradição
do governo Lula.
Setores da cúpula do PT costuma afirmar
que o governo Lula realiza uma transição
sem ruptura. Ora, se não há ruptura,
não há transição,
pois transição significa passagem
de uma realidade para outra, e essa passagem implica
romper com a realidade anterior. Se não
se rompe com essa realidade, ou seja, se a essência
dela se mantém, não se realiza transição
alguma; ao contrário, pratica-se a continuidade.
Embora em toda transição haja elementos
de ruptura e de continuidade, a transição
só se completa quando os elementos de ruptura
passam a prevalecer. Na transição
que realiza o governo Lula, há elementos
de continuidade e de ruptura. Nem sempre é
possível, num primeiro momento, decifrar
quais elementos estão predominando. Este
trabalho é um esforço nessa direção.
2.
Herança maldita
Qualquer
exame objetivo dessa primeira metade do mandato
do Presidente Lula tem que partir da situação
em que ele recebeu o País. E, nesse sentido,
não é exagerado dizer que o governo
de Fernando Henrique legou ao governo de Lula
o que este designou de “herança maldita”.
Examinemos, então, as principais características
desse legado.
O grau de dependência externa aumentou expressivamente
no período FH. Um dos melhores indicadores
dessa dependência é o passivo externo,
que computa o conjunto do capital estrangeiro
presente no país, em suas várias
modalidades de ingresso. O passivo externo líquido
– que desconta o capital brasileiro presente
no resto do mundo – subiu de US$ 149 bilhões
em dezembro de 1994 para US$ 354 bilhões
em dezembro de 2001(2). Enquanto isso, sua parcela
representada pela dívida externa subia
de US$ 148 bilhões em dezembro de 1994
para US$ 225 bilhões em dezembro de 2002.
Em sua forma de “investimento direto”
(que disfarça a aquisição
de patrimônio nacional, em lugar de investimento
em nova capacidade produtiva), a participação
no faturamento das 500 maiores empresas privadas
e 50 maiores estatais pulou de 32% em 1994 para
46,4% em 2001(3).
Segundo o Banco Central(4), de 1995 a 2000, 5.082
empresas brasileiras passaram para o controle
estrangeiro. Assim, o número de empresas
estrangeiras no país aumentou de 6.322
para 11.404 e seu patrimônio pulou no período
de US$ 86,2 bilhões para US$ 179,8 bilhões.
O resultado foi que setores-chave da nossa economia
passaram a ser quase que inteiramente dominados
pelo capital estrangeiro, conforme se pode ver
pela tabela abaixo:
Tabela
1
Fatia do capital estrangeiro na economia brasileira
– 2000
| Setores |
%
do faturamento |
| Eletroeletrônico
|
90 |
| Automotivo |
89 |
| Higiene,
limpeza e cosméticos |
86 |
| Tecnologia
e computação |
77 |
| Telecomunicações
|
74 |
| Farmacêutico |
74 |
| Mecânica |
68 |
| Alimentos |
58 |
| Plásticos
e borracha |
54 |
Fonte:
“Melhores e maiores”, revista Exame,
2001
E a situação
se agravou mais ainda posteriormente porque
em 2001 e 2002 entraram mais US$ 40 bilhões
do chamado “investimento direto estrangeiro”
para se apropriar de empresas brasileiras(5).
Ao final do governo Fernando Henrique, 76% do
patrimônio público haviam passado
para mãos privadas, a maioria para o
capital estrangeiro: a participação
do capital estrangeiro nas “privatizações”
do período FH (1995/2002) foi de 53%,
sem contar, evidentemente, o uso de testas-de-ferro
e outras formas de disfarce do controle estrangeiro(6).
Uma outra importante forma de manifestar-se
a dependência externa é a desnacionalização
do mercado interno, que a Constituição
de 88 havia estabelecido como patrimônio
nacional. A partir de 1988/89, quando Mailson
da Nóbrega esteve à frente do
Ministério da Fazenda no governo Sarney,
foi deflagrado um processo de abertura do mercado
interno ao produto estrangeiro, que, melhor
sistematizado no governo Collor, foi acelerado
desde que Fernando Henrique assumiu o Ministério
da Fazenda no governo Itamar. O principal instrumento
utilizado foi a redução das tarifas
de importação, mas a adoção
do Plano Real acrescentou a sobrevalorização
artificial da moeda nacional. Ora, a soma de
tarifas baixas com moeda estrangeira barata
foi fatal para a balança comercial brasileira
e para as empresas instaladas no país:
o importacionismo dali derivado só não
produziu uma crise na proporção
da que ocorreu na Argentina porque, pressionado
por setores empresariais do País, o governo
teve que corrigir tarifas de importação
de importantes setores da economia (brinquedos,
bens de capital, autopeças, calçados,
veículos, etc.) e, diante da avassaladora
crise cambial de 1998/99 (perdemos US$ 50 bilhões
do nosso estoque de US$ 75 bilhões de
reservas cambiais), foi forçado a desvalorizar
o real no começo de 1999(7).
Ainda na área externa, o governo de Fernando
Henrique deixara como legado uma política
externa alinhada automaticamente com a política
exterior dos EUA, um acordo para implantar a
ALCA (Área de Livre Comércio das
Américas) a partir de janeiro de 2005
e um “acordo” com o FMI para vigorar
no primeiro ano do novo governo.
O endividamento público teve uma trajetória
explosiva no governo tucano. Em seu conceito
mais abrangente, de dívida líquida
do setor público, subiu de R$ 153 bilhões
(30,4% do PIB) em dezembro de 1994 para 881
bilhões (55,5% do PIB) em dezembro de
2002. A parcela que mais depende da política
monetária do governo – e, por conseguinte,
da taxa básica de juros -, a dívida
mobiliária em poder do público,
subiu de R$ 62 bilhões em dezembro de
1994 para R$ 623,2 bilhões em dezembro
de 2002(8). Para fazer face aos encargos financeiros
dessa trajetória explosiva do endividamento
público, o governo aumentou violentamente
a carga tributária total (três
esferas da federação) do País,
que subiu de 25,72% no ano anterior ao Plano
Real (1993) para 35,53% em 2002 (ver tabela
2), além de haver torrado na bacia das
almas, como vimos, quase todo o patrimônio
público.
Tabela
2
Carga tributária como percentagem do
PIB – 1993/2004
| Ano |
Carga
tributária (% do PIB) |
| 1993 |
25,72 |
| 1994 |
29,47 |
| 1995 |
29,76 |
| 1996 |
28,97 |
| 1997 |
29,03 |
| 1998 |
29,73 |
| 1999 |
31,79 |
| 2000 |
32,49 |
| 2001 |
33,92 |
| 2002 |
35,53 |
| 2003 |
34,88 |
| 2004 |
35,45* |
Fonte: Secretaria da Receita
Federal, Ministério da Fazenda
* Essa foi uma estimativa preliminar
divulgada pelo governo. Por sua vez, a entidade
que congrega os fiscais da Fazenda, a Unafisco,
estima uma carga de 36,06%; e o Instituto Brasileiro
de Planejamento Tributário (IBPT), de 36,74%.
A economia estagnou
durante o governo de Fernando Henrique: o PIB
cresceu a um ritmo de apenas 2,3% ao ano(9)
durante seus dois mandatos (1995/2002), mas,
como a força de trabalho se expandia
a 2,4% ao ano, o PIB por trabalhador (ocupado
e desocupado) estacionou.
Como conseqüência, o desemprego explodiu:
a taxa de desemprego da região metropolitana
de São Paulo subiu de 14,2% em 1994 para
19% em 2002(10). O poder de compra do salário,
depois de subir um pouco no primeiro ano e meio
do Real em decorrência da queda da inflação,
despencou daí em diante: o rendimento
médio real dos trabalhadores ocupados
na região metropolitana de São
Paulo desabou 28,38% de 1995 a 2002, sendo que
o rendimento dos assalariados caiu 21,58%(11).
A nível nacional, só nos últimos
cinco anos de governo FH, o salário médio
real caiu 15%(12). Em decorrência desse
arrocho salarial, a participação
do conjunto dos salários (incluindo aí
os encargos trabalhistas) na renda nacional,
que já vinha caindo sistematicamente
antes, baixou de 45% em 1993 para 36% em 2002(13).
Com desemprego nas nuvens e salário no
fundo do poço, aumentou a quantidade
de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza
(com até meio salário mínimo):
passou de 50 milhões em 1995 para 54
milhões em 2001, equivalentes a 32% da
população(14).
Até mesmo na área onde seu governo
propagava ter tido sucesso – o combate
à inflação -, a ameaça
de descontrole batia à porta em sua reta
final. O Índice Geral de Preços
da Fundação Getúlio Vargas,
que, depois do pico de 1999 (20%), havia se
mantido em torno de 10% no período 2000-01,
voltou a disparar no último trimestre
de 2002. A inflação média
naquele trimestre, medida pelo IGP-DI, projetava
uma taxa anual de 65%(15).
Lula, que se elegeu no segundo turno com 62%
dos votos válidos(16), condensou em sua
campanha eleitoral o profundo sentimento de
mudança que havia tomado conta do povo
brasileiro. Ele próprio revelou essa
consciência já na abertura de seu
discurso de posse, a 1º de janeiro de 2003:
“’Mudança’: esta é
a palavra-chave, esta foi a grande mensagem
da sociedade brasileira nas eleições
de outubro. A esperança finalmente venceu
o medo (...) Foi para isso que o povo brasileiro
me elegeu Presidente da República: para
mudar”. E definiu claramente o sentido
da mudança: “O Brasil, nesta nova
empreitada histórica, social, cultural
e econômica, terá de contar sobretudo
consigo mesmo, terá de pensar com a sua
cabeça, andar com as suas próprias
pernas, ouvir o que diz o seu coração”.
Apesar de terem se apresentado outros candidatos
com discurso de oposição, o povo
havia identificado, não necessariamente
o PT, mas sobretudo Lula como o portador dessa
mudança. Isso porque, ao contrário
dos demais, sua trajetória política
o credenciava como oposição mais
consistente ao “modelo econômico”
e às políticas econômicas
vigentes.
3. Política
externa independente
Hoje, num balanço
dos dois primeiros anos de governo Lula, é
possível afirmar que ele respondeu de
maneira contraditória ao anseio de mudança
depositado nas urnas de 2002.
De um lado, no front externo, rompeu com a política
de alinhamento automático com os EUA
que vinha sendo praticada pelo governo FH e
retomou a tradição de política
externa independente de Santiago Dantas. E,
nesse sentido, tem se chocado, em muitos aspectos
e momentos, com os interesses expansionistas
levados ao extremo pela administração
Bush. Na esfera econômica – com
impacto mais diretamente na política
de comércio exterior -, pode-se falar
em quatro ações importantes que
expressam esse choque com os interesses estadunidenses:
1) por ocasião da reunião da OMC
em Cancún, México, quando a diplomacia
brasileira liderou um grupo de 22 países
contra a tentativa dos representantes dos EUA
imporem sua agenda unilateral nas negociações;
2) nas duas reuniões para discutir a
formação da ALCA, em Miami (EUA)
e Puebla (México), quando a posição
brasileira de resistência às imposições
dos representantes do governo estadunidense
inviabilizou o avanço das negociações
e, em conseqüência, adiou sine die
a implementação do bloco regional,
que estava prevista para iniciar-se a 1º
de janeiro de 2005;
3) a constituição, em dezembro
de 2004, da Comunidade Sul-Americana de Nações,
que, com a fusão do Mercosul com a Comunidade
Andina de Nações (Pacto Andino),
começou a construir um bloco regional
que, ao unir o conjunto da América do
Sul, se contrapõe aos objetivos estadunidenses
de formação da ALCA para garantir
seu domínio absoluto na região;
4) a abertura de um processo de aproximação
com os países da África, do mundo
árabe, da China, Rússia e Índia,
além de outros países em desenvolvimento,
com o objetivo explícito de diversificar
nossas relações comerciais externas
e que, além do mais, tende a fortalecer
um pólo que pode se contrapor ao unilateralismo
belicista que vem praticando o governo dos EUA
na sua política externa.
Ao mesmo tempo,
na área mais propriamente política,
o governo Lula adotou um conjunto de atitudes
na sua política exterior cuja contradição
com a política exterior do governo Bush
é evidente, a saber:
1) a articulação
para democratizar o Conselho de Segurança
da ONU, dando-lhe mais representatividade
mediante a incorporação de novos
membros permanentes, dentre eles o Brasil,
diminuindo, assim, a capacidade de o governo
dos EUA impor suas decisões;
2) a oposição à invasão
do Iraque pelos EUA, quando defendeu uma posição
de negociação através
da ONU;
3) no caso da Venezuela, em que tem apoiado
o governo bolivariano de Hugo Chávez
contra as tentativas de desestabilização
patrocinada pelo governo dos EUA;
4) em relação à Bolívia,
quando apoiou uma solução negociada
que garantiu a substituição
do neoliberal de sotaque estadunidense Sanchez
de Lozada por seu vice, Carlos Mesa, contra
a posição do governo dos Estados
Unidos, que defendia sua permanência.
Na área
interna, também ocorreram mudanças
importantes, com destaque para as seguintes:
1) o BNDES
deixou de financiar a aquisição
de empresas estatais pelo capital estrangeiro
para financiar o investimento das empresas
nacionais; além disso, recomprou parte
das ações da CVRD(17) (garantindo
o controle acionário por sócios
nacionais) e assumiu metade (menos uma ação)
do valor das ações da energética
paulista Eletropaulo, que havia sido arrematada,
com dinheiro emprestado pelo próprio
BNDES, pela estadunidense AES, a qual deu
calote no banco(18);
2) o Ministério das Minas e Energia
recuperou parte de seu poder de comando no
setor energético, antes entregue às
agências reguladoras, além de
suspender o processo de “privatização”
do setor;
3) a Petrobras estabeleceu um programa de
compra de plataformas e navios construídos
no País (num total de 40), com o objetivo
de estimular a produção nacional,
em lugar da anterior política importadora;
decidiu também voltar a operar no setor
petroquímico, que fora totalmente privatizado(19).
4. Manutenção
da política econômica do FMI
No entanto, tem
prevalecido na esfera interna a manutenção
das políticas monetária, cambial
e fiscal – componentes decisivos da política
macroeconômica - que vinham sendo praticadas
pelo governo FH, além de dar-se continuidade
às “reformas microeconômicas”
por ele programadas. O Ministério da
Fazenda e o Banco Central mantiveram e renovaram
o “acordo” firmado com o FMI, preservando,
em conseqüência, a subordinação
ao seu receituário econômico(20).
Nesse terreno, o governo, em lugar de enfrentar
a “herança maldita”, optou
por subordinar-se a ela e, dentro dela, procurar
fazer alguma coisa, como veremos, para amenizar
seus perversos efeitos econômicos e sociais
– as chamadas “medidas compensatórias”.
O ministro da Fazenda, Antônio Palocci,
tem alegado que esse é o único
caminho possível. Mas não foi
sem importantes embates dentro do próprio
governo que esse caminho terminou por se impor
nestes dois primeiros anos de mandato. O próprio
chefe da Casa Civil, José Dirceu, tido
como a pessoa com maior poder dentro do governo
depois do Presidente, tem resistido a essa política.
Além de herdar o “acordo”
com o FMI, o governo Lula recebeu como herança
uma política de combate à inflação
baseada no “sistema de metas de inflação”.
Depois do enterro, em janeiro de 1999, da “âncora
cambial”, que era o principal instrumento
de combate à inflação durante
o Plano Real, o então presidente do Banco
Central, Armínio Fraga, importou, para
substituí-la, o chamado sistema de metas
de inflação, inteiramente enquadrado
no receituário do FMI, porque, como veremos,
está dentro da mais perfeita ortodoxia
monetarista. Por esse sistema, a meta inflacionária
é estabelecida pelo governo – no
caso do Brasil, formalmente pelo Conselho Monetário
Nacional, mas, na prática, vem sendo
imposta nos “acordos” com o FMI
- e depois cabe ao Banco Central, através
do Comitê de Política Monetária
(COPOM), garantir a convergência da inflação
efetiva (ou da que consta das expectativas dos
operadores do sistema financeiro) para a meta
inflacionária. Como, em sua lógica
monetarista, a inflação é
gerada por excesso de moeda em circulação,
a “âncora monetária”,
isto é, a taxa básica de juros,
substitui a “âncora cambial”
como principal instrumento de combate à
inflação. Assim, o Banco Central
montou um “modelo” que correlaciona
taxa de juros e taxa de inflação,
de modo que, quanto mais as expectativas inflacionárias
ou a inflação efetiva se afastam
da meta de inflação, maior é
a taxa de juros praticada pelo Banco Central,
como forma de tirar moeda de circulação.
Nessa lógica, enquanto as metas inflacionárias
forem decrescentes, a inflação
corrente e, em conseqüência, as expectativas
inflacionárias sempre serão maiores
do que a meta estabelecida e, neste caso, os
juros teriam que se manter sempre elevados ou
mesmo em elevação. Em nosso caso,
a diretoria do Banco Central, que constitui
o Comitê de Política Monetária
(COPOM), se reúne todo mês para
estabelecer a taxa básica de juros (selic)(21).
E, em seu “diagnóstico”,
usa como uma de suas principais peças
a “pesquisa Focus”, que é
um levantamento de expectativas inflacionárias
e expectativa de juros futuros feito pelo BC
junto a cerca de 100 operadores e analistas
do sistema financeiro. Ou seja, os agentes financeiros,
que são os principais beneficiários
de políticas de juros altos, servem de
fonte para as autoridades do BC acerca das expectativas
de juros futuros. Por essa via, também
os juros tendem a se manter elevados. É
o mesmo que colocar a raposa para tomar conta
do galinheiro.
Dentro dessa visão, uma política
monetária restritiva, fundamentada em
juros altos, além de instrumento de combate
à inflação, presta-se ainda
a um outro objetivo: na época do governo
Fernando Henrique, como havia déficit
nas contas correntes do balanço de pagamentos,
os juros elevados tinham o objetivo de atrair
capitais externos (obviamente, especulativos)
para cobrir esse rombo nas contas externas,
mas, na gestão Lula, quando esses déficits,
por força do crescimento dos saldos positivos
da balança comercial, se converteram
em superávits, racionaliza-se que os
juros altos cumprem o papel de manter no país
os capitais especulativos (externos ou internos),
viabilizando, assim, a “rolagem”
da dívida pública. Temem que uma
eventual redução dos juros poderia
espantar esses capitais, inviabilizando o refinanciamento
da dívida pública e provocando,
ao mesmo tempo, uma forte fuga de capitais e,
portanto, uma forte valorização
da moeda estrangeira.
Dentro do receituário do FMI, um outro
instrumento de combate à inflação
é a chamada “âncora fiscal”,
que, no passado, se manifestava sobretudo na
contenção do gasto público,
mas, hoje, se expressa na geração
de superávits primários das contas
públicas, obtida tanto pelo corte do
gasto público como pela elevação
da carga tributária. Com isso, tentam
matar dois coelhos de uma cajadada só:
retiram dinheiro de circulação
e assim atendem à lógica de sua
política monetarista de combate à
inflação e, ao mesmo tempo, geram
recursos para pagar os encargos financeiros
da dívida. Alegam que, dessa forma, os
aplicadores em títulos públicos
mantêm seu dinheiro no País e garantem
o refinanciamento da dívida. Nesse caso,
quanto maior a relação dívida/PIB
e maiores as taxas de juros, maiores deveriam
ser os superávits primários como
proporção do PIB. Ou seja, arrocho
monetário demanda arrocho fiscal.
5. Dogmatismo
monetarista impera na política econômica
O Ministério
da Fazenda e o Banco Central vêm, desde
o começo do governo Lula, seguindo à
risca esse figurino. E têm sido mais ortodoxos
do que a tradicional ortodoxia monetarista à
Friedman: naquela visão, quando a inflação
estava em queda, os juros poderiam baixar; na
visão que vem sendo praticada pelo Banco
Central, mesmo que a inflação
esteja em queda, mas sua taxa efetiva - ou a
“expectativa” de sua taxa futura
- supere a meta estabelecida, os juros seguem
elevados ou mesmo em elevação.
É isso que vem ocorrendo. A taxa inflacionária,
medida pelo IPC do IBGE – que é
o índice adotada pelo BC -, fechou 2002
em 12,58%, 2003 em 9,33% e 2004 em 7,57%(22).
Mas, como a meta para 2004 era de 5,5% e para
2005 é de 4,5% (depois ajustada para
5,1%), o BC, mesmo tendo “acordado”
com o FMI uma margem de 2,5 pontos percentuais,
prefere “mirar” o núcleo
da meta e por isso segue mantendo os juros básicos
reais (que é o que interessa para quem
toma e dá dinheiro emprestado) elevados
ou mesmo em elevação. Na tabela
abaixo, percebe-se que o governo Lula herdou
uma taxa de juros reais muito baixa (5,8% anuais
em dezembro de 2002), não porque a taxa
nominal também o fosse, mas porque a
inflação havia recrudescido no
final do governo de FH; a aceleração
inflacionária manteve essa tendência
de baixa da taxa real de juros até março
de 2003 (3,6%), a partir de quando esta começou
a subir de maneira sistemática até
atingir 14,3% em abril de 2004; um ligeiro aumento
da inflação voltou a diminuir
os juros reais até alcançar a
taxa de 9,3% em setembro, a partir de quando
o COPOM voltou a subir a taxa selic, forçando,
assim, a taxa real novamente para cima até
atingir 12,7% em março de 2005(23).
Tabela
3
Taxas de juros reais efetivas* (%) – últimos
12 meses
| Mês
|
Jan/02 |
Fev/02 |
Mar/02 |
Abr/02 |
Mai/02 |
Jun/02 |
Jul/02 |
Ago/02 |
| Taxa |
9,3 |
9,6 |
9,5 |
9,6 |
9,9 |
10,1 |
10,3 |
10,1 |
| Mês
|
Set/02 |
Out/02 |
Nov/02 |
Dez/02 |
Jan/03 |
Fev/03 |
Mar/03 |
Abr/03 |
| Taxa |
9,7 |
9,3 |
7,0 |
5,8 |
4,5 |
3,9 |
3,6 |
3,8 |
| Mês
|
Mai/03 |
Jun/03 |
Jul/03 |
Ago/03 |
Set/03 |
Out/03 |
Nov/03 |
Dez/03 |
| Taxa |
4,0 |
5,1 |
6,8 |
7,4 |
7,6 |
8,7 |
11,4 |
12,9 |
| Mês
|
Jan/04 |
Fev/04 |
Mar/04 |
Abr/04 |
Mai/04 |
Jun/04 |
Jul/04 |
Ago/04 |
| Taxa |
13,7 |
13,9 |
14,2 |
14,3 |
13,5 |
11,9 |
10,2 |
9,3
|
*Adotada
como base a taxa do CDI (Certificado de
Depósito Interbancário), que
reflete a evolução da selic,
deflacionada pelo IPCA do IBGE.
Fonte: Bacen e IBGE. Elaboração:
Global Invest. Relatório Mensal –
taxas de juros, dez. 2002, dez. 2003 e set.
2004.
Em suma, havia
espaço, mesmo dentro da lógica
de que juros altos pudessem servir para combater
a inflação e obedecendo à
lógica atual do próprio FMI –
que, apesar de extremamente rígida, concorda
com uma margem de “tolerância”
-, para o BC baixar os juros, mas suas autoridades
optaram por não fazê-lo. Racionalizam,
para justificar esse comportamento, que taxas
de crescimento do PIB acima de 3,5% ao ano provocam
inflação e impedem a sustentabilidade
do crescimento(24). Por isso, os juros têm
que ser elevados para “enquadrar”
o crescimento nesse “teto” por eles
fantasiosamente estabelecido. De onde eles tiraram
esse número cabalístico, ninguém
sabe, a não ser que se trata de mais
uma cópia da equipe econômica de
Fernando Henrique..
Os próprios monetaristas, que formularam
a “teoria” de que juros altos coíbem
um processo inflacionário, professam
que isso ocorre porque, ao enxugarem o mercado
de moedas, contêm a demanda, retirando
sua pressão sobre os preços. Ou
seja, nessa visão, os juros só
resolveriam tensões inflacionárias
provocadas por excesso de demanda ou, ainda,
só poderiam combater “inflações
de demanda”. Ora, a inflação
herdada pelo governo Lula, como vimos antes,
não era uma “inflação
de demanda”. Como poderia sê-lo
se a economia estava há dois anos (2001
e 2002) estagnada, patinando a 1,6% ao ano,
em média? A aceleração
inflacionária no segundo semestre de
2002 se deveu, sobretudo, à valorização
do dólar (e conseqüente desvalorização
do real), que chegou em outubro daquele ano
a R$ 4,00. Assim, os produtos importados encareceram
em real; além disso, os produtores de
bens exportados, que passaram a receber melhor
preço em real, passaram a cobrar preço
idêntico no mercado interno. Com isso,
os preços no atacado dispararam, forçando
o Índice Geral de Preços da FGV
para cima: a inflação anual, projetada
com base no IGP-DI do último trimestre
de 2002, indicou um índice de 65%. E,
como, por força dos contratos firmados
por FH, os setores de serviços privatizados
deveriam ter suas tarifas reajustadas com base
no IGP, os preços administrados seguiram
na esteira dos preços no atacado, isto
é, refletiram a desvalorização
do real. Mesmo depois da queda do dólar,
os efeitos retardados da valorização
anterior seguiram contaminando o IGP e, por
conseguinte, os preços administrados.
Estes, além disso, receberam o impacto
do aumento dos preços das commodities
no mercado internacional em 2003 e 2004. Assim,
se formos desmembrar o IGP em seus vários
componentes, vamos verificar que nestes dois
últimos anos os preços administrados
subiram na frente dos demais preços(25).
Em síntese, como a subida do dólar,
que estava na origem da aceleração
inflacionária deflagrada em 2002, desapareceu
e converteu-se em seu contrário –
em queda do valor dessa moeda -, restou como
pressão sobre os preços o reajuste
dos preços administrados. Nada a ver
com “inflação de demanda”.
De que adianta cortar a demanda se os preços
administrados, que não dependem dela,
mas da política de reajuste tarifário
pactuada, seguem sendo reajustados? Essa correção
monetária automática, que afeta
a mais de um terço dos preços
ao consumidor, está hoje em torno de
12% ao ano. Para resolver o problema, bastaria
extirpar esse mecanismo de indexação
– preços administrados atrelados
ao IGP – que, além de realimentar
a inflação, só beneficia
aos proprietários das empresas privatizadas,
que são basicamente grupos estrangeiros.
Por outro lado, a história já
revelou que uma política monetária
restritiva não é capaz de debelar
um processo inflacionário de maneira
sustentada. Numa economia muito cartelizada,
como é o caso da brasileira(26), o corte
da demanda provocado por juros altos não
necessariamente força a queda dos preços
ou mesmo da taxa inflacionária. Usando
seu poder de monopólio, os cartéis
podem até promover reajuste de preços
como forma de compensar a queda das vendas e
assim garantir sua expectativa de rentabilidade.
Só uma queda muito profunda da demanda
e, portanto, uma recessão muito violenta
podem forçar as empresas monopolistas
a conter sua sanha remarcadora. Ou quando, mesmo
a recessão não sendo muito forte,
um processo de estagnação econômica
se faz acompanhar de abertura da economia para
produtos estrangeiros. Foi o que ocorreu no
período de Fernando Henrique e nestes
dois primeiros anos de governo Lula. Mas as
conseqüências já conhecemos:
além da pressão que o importacionismo
realiza sobre as contas externas, a economia
é impedida de crescer. Quando a inflação
é combatida dessa forma, a pressão
sobre os preços retorna tão logo
a economia volte a crescer, na medida em que
esse fato permite aos cartéis o retorno
ao reajuste de preços. Assim, essa forma
de combate à inflação,
ao ser incompatível com o crescimento
econômico, não se sustenta no tempo.
Além do mais, a elevação
dos juros, ao provocar o aumento dos encargos
financeiros das empresas endividadas, estimula
estas a repassar esses custos para os preços
tão logo tenham condição
de fazê-lo, pressionando a inflação
para cima. Igualmente, como veremos mais adiante,
força o governo a aumentar a carga tributária,
pressionando, por essa via, a estrutura de custos
das empresas. Isso, sem falar no fato de que,
ao desorganizar as finanças públicas,
alimenta expectativas inflacionárias
nos chamados agentes econômicos. Por isso,
juros altos também são incompatíveis
com estabilidade monetária duradoura.
Vejamos o outro argumento, o de que juros elevados
são necessários para impedir fuga
de capitais e garantir o refinanciamento da
dívida pública. Ora, o que vem
ocorrendo na economia mundial é, além
do excesso de liquidez financeira, um nível
muito baixo de taxas reais de juros(27). Na
verdade, são duas faces da mesma moeda:
excesso de liquidez financeira provoca juros
baixos. Excesso de dinheiro torna mais fácil
sua captação pelos tomadores.
Então, por que o Brasil tem que disputar
o campeonato de taxas de juros reais no mundo?
E mais ainda, com uma diferença muito
grande em relação aos demais países?
Segundo levantamento da Global Invest, a taxa
real efetiva dos juros básicos praticada
no Brasil nos 12 meses terminados em dezembro
de 2003 era de 12,8%, enquanto a taxa real média
dos chamados países emergentes –
que, portanto, em tese, disputariam com o Brasil
recursos internacionais – era de 3,6%
e a dos países desenvolvidos, 0,5%. Naquele
ano, apenas a Turquia ganhava do Brasil: 15,9%.
No levantamento referente a setembro de 2004,
mês em que as taxas de juros voltaram
a subir no Brasil, a disparidade permanecia,
como se pode observar na tabela 4.
Tabela 4
Taxas básicas de juros reais
| Países |
% |
| Turquia |
14,8 |
| Brasil |
9,3 |
| “Países
emergentes” |
2,7 |
| Países
ricos |
0,3 |
Fonte: Global
Invest. Relatório mensal – taxas
de juros. Set. 2004
Mas, no levantamento
de março de 2005, depois que o COPOM
promoveu a disparada dos juros, o Brasil não
apenas assumiu a dianteira, como se distanciou
do segundo colocado: a taxa real do Brasil subiu
para 12,3%(28), enquanto a da Turquia baixou
para 6,7%; a taxa média dos 40 países
estudados estava no rés do chão:
1,2%(29). Se considerarmos os países
centrais, as taxas reais de juros são
negativas, isto é, as taxas básicas
são menores do que a inflação,
à exceção da Inglaterra,
como mostra a tabela abaixo:
Tabela 5
Países centrais: taxas básicas
de juros e taxas de inflação anuais
- 2004
| Países |
Taxa
de juros (%) |
Taxa
de inflação (%) |
| EUA
|
2,5 |
3,3 |
| Japão |
0,02 |
0,8 |
| Zona
do euro |
2,14 |
2,3 |
| Inglaterra |
4,81 |
1,6 |
Fonte: Folha
de S.Paulo, 30.01.2005
Portanto, a
não ser que os especuladores prefiram
ganhar menos, não há nada que
ameace o refinanciamento da dívida pública
brasileira (a dívida externa não
depende dos juros internos, mas das taxas internacionais
e do “risco” que os especuladores
atribuem a cada país).
Além disso, os critérios para
compor a taxa de juros exigida pelos especuladores
internacionais para se arriscarem a aplicar
seu dinheiro num país seriam plenamente
satisfeitos com uma taxa de juros muito mais
baixa do que a que vem sendo praticada no Brasil.
Eles somam a taxa básica dos EUA com
o que eles chamam “risco país”
(que eles mesmos “calculam”) e mais
a correção cambial. Façamos
os cálculos: taxa básica dos EUA
– 2,5%; “risco Brasil” –
4%; a correção cambial vem sendo
negativa, já que o dólar vem se
desvalorizando, mas demos uma colher de chá
e deixemos de subtrair essa correção
negativa(30). Resultado: 6,5%. Vejam bem, os
próprios especuladores “sinalizam”
que topariam aplicar no Brasil a uma taxa de
6,5% nominais, mas o Banco Central vem praticando
uma taxa real que é o dobro disso. Sabemos
perfeitamente que, como se acostumaram a usufruir
de uma taxa de juros elevada aqui no Brasil,
sua tendência, diante de um movimento
de queda, é chantagear (ameaçar
retirar o dinheiro do País) para impedir
esse movimento. E, para isso, recorrem, não
a uma ilusória “lei de mercado”,
mas ao poder de monopólio de que desfrutam
na esfera mundial(31). Mas esse poder tem limites:
como não vão encontrar campos
mais rentáveis e seguros para aplicar
os recursos daqueles que aplicam em seus “fundos
de investimento”, a quem devem satisfação,
essa chantagem tem pernas curtas. De qualquer
forma, agindo com firmeza, há um espaço
razoável para baixar os juros no Brasil.
Mas há uma contradição
nessa ânsia de ganho dos especuladores
e nessa ânsia das autoridades monetárias
em servi-los. É evidente que a banca,
estrangeira ou nacional, prefere juros altos.
No entanto, se eles permanecerem durante muito
tempo em patamares elevados, os donos do dinheiro
começam a desconfiar da capacidade de
pagamento do governo e, aí sim, podem
passar a retirar seus capitais, realizando a
tão temida – pelos dirigentes do
BC – fuga de capitais. Até o atual
ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, que
tem estado afinado com a política econômica
de Palocci/Meirelles, percebeu essa verdade,
conforme declarou recentemente em entrevista:
“para qualquer pessoa que analise o impacto
dos juros sobre o estoque da dívida pública,
nós temos de questionar se uma política
monetária tão rígida não
pode acabar causando o efeito contrário
daquilo que se pretende. Pode causar maior preocupação
com a sustentabilidade da dívida, aumentando,
portanto, as avaliações de risco
e, simultaneamente, causando no mercado financeiro
expectativas negativas em relação
à dívida brasileira”. Mais:
“Se houver o prosseguimento de juros altos
e real apreciado por um longo prazo, evidentemente
vamos ter uma mudança das expectativas
econômicas”(32).
6. Palocci paga mais a bancos do que
exigido pelo FMI
Vimos, assim,
que o núcleo central dessa “política
de estabilização” patrocinada
pelo FMI é o que eles chamam de “austeridade
monetária”: a política de
juros altos é racionalizada como instrumento
de combate à inflação e
de garantia de refinanciamento da dívida
pública. Mas, como vimos, um outro instrumento
adotado, que decorre diretamente do primeiro,
é o que eles designam de “austeridade
fiscal”, que operaria como “âncora
fiscal” da “política de estabilização”.
A principal forma como isso se manifesta é
o superávit primário, isto é,
a geração de recursos públicos
para servir aos encargos financeiros engendrados
pelos juros altos. No governo Lula, o superávit
primário foi sensivelmente elevado: esteve
em torno de zero durante o primeiro mandato
do governo FH, passou para 3% do PIB no segundo
mandato (havendo sido de 3,89%(33) no último
ano, equivalentes a R$ 52,39 bilhões),
subiu para 4,37% no primeiro ano do governo
Lula (R$ 66,17 bilhões) e chegou a 4,61%
no segundo ano (R$ 80,1 bilhões)(34).
É importante registrar que a meta estabelecida
no “acordo” com o FMI para estes
dois anos era de 4,25% do PIB. Além disso,
não foi o FMI que exigiu esses 4,25%;
ele estava satisfeito com os 3,89% realizados
pelo governo de Fernando Henrique no último
ano. Foi o Ministério da Fazenda da gestão
Palocci que propôs a elevação
dos saldos primários das contas públicas,
isto é, esse aumento dos pagamentos dos
encargos financeiros da dívida; não
bastasse isso, deu de bandeja um superávit
maior do que o prometido.
Essa decisão se fundamentou em documento
editado pelo Ministério, da lavra do
economista Marcos Lisboa, secretário
de Política Econômica, em que este,
depois de criticar o governo de Fernando Henrique
por haver gerado um baixo nível de superávit
primário, afirma que a geração
de elevados saldos nas contas públicas
era o caminho para baixar a relação
dívida/PIB e, assim, criar as condições
para posteriormente baixar a taxa de juros.
Nessa visão, enquanto a relação
dívida/PIB não baixa, os juros
têm que permanecer elevados. Diz o documento
que, se FH houvesse, durante seus oito anos
de mandato, gerado um superávit médio
anual de 3,5% do PIB, a relação
dívida/PIB seria a metade dos 55,5% legados
a Lula, e os juros seriam menores(35). Isso
seria possível porque, além da
contenção da demanda e, portanto,
da inflação possibilitada pela
geração de saldos primários,
o fato de contar com essa garantia de remuneração
de suas aplicações daria mais
segurança aos “investidores”(36),
que por isso mesmo poderiam aceitar juros menores.
Referido documento(37) tem como base estudo
feito antes das eleições por uma
equipe integrada, dentre outros, pelo próprio
Lisboa, sob encomenda do Banco Mundial. Coincidentemente,
estudo solicitado na mesma época pelo
BIRD a economistas estadunidenses do MIT (Massachusset
Institute of Technology) havia chegado à
mesma conclusão.
Para obter esses crescentes saldos primários,
a ação da área econômica
no primeiro ano, como houve queda da carga tributária(38),
consistiu em cortar severamente os investimentos
públicos(39), mas o principal instrumento
no segundo ano foi o aumento da carga tributária:
segundo a Secretaria da Receita Federal, a carga
aumentou de 34,88% em 2003 para 35,45% no segundo(40).
Por qualquer dos dois caminhos – contenção
de investimento ou aumento da tributação
-, o resultado sobre a economia é o mesmo:
ao retirar dinheiro dos que produzem ou trabalham
para canalizar para o sistema financeiro, provoca-se
a retração do consumo e da produção
e, em decorrência, a desaceleração
da economia.
Enquanto isso, o que ocorreu com a dívida
pública? Pelo conceito mais amplo, o
de “dívida líquida do setor
público”(41), a evolução
foi a seguinte:
Tabela
6
Evolução recente da dívida
líquida do setor público
| Períodos
de tempo |
Valor
(R$ bilhões) |
| Dezembro
de 2002 |
881,1 |
| Dezembro
de 2003 |
913,15 |
| Dezembro
de 2004 |
957 |
Fonte: Banco
Central do Brasil
Se
considerarmos a dívida mobiliária,
cuja trajetória é mais explosiva,
na medida em que depende mais diretamente da
taxa selic, a evolução foi a seguinte
(tabela 7):
Tabela
7
Evolução recente da dívida
mobiliária federal
| Períodos
de tempo |
Valor
(R$ bilhões) |
| Dezembro
de 2002 |
623,2 |
| Dezembro
de 2003 |
732 |
| Dezembro
de 2004 |
812 |
Fonte: Banco
Central do Brasil
Ou
seja, em dois anos, a dívida total cresceu
R$ 76 bilhões e a sua parcela mobiliária,
R$ 188,8 bilhões, isto é, um brutal
crescimento de 30,3% em apenas dois anos. A
dívida total, apesar de forte crescimento,
cresceu menos do que a mobiliária porque,
como veremos a frente, realizaram-se no período
pagamentos do principal da dívida pública
externa. Em síntese, impôs-se um
enorme sacrifício fiscal no período,
ao gerar um superávit primário
de R$ 146,27 bilhões, inteiramente usado
para pagar encargos financeiros da dívida,
sem contar os pagamentos de dívida pública
externa, e ainda assim a dívida pública
total subiu R$ 76 bilhões.
Os próceres do Ministério da Fazenda
podem se vangloriar de que, apesar do crescimento
absoluto da dívida pública, a
relação dívida/PIB diminuiu:
de 55,5% em dezembro de 2002 para 51,3% em dezembro
de 2004(42). Isso é verdade, mas esse
resultado deve ser matizado: 1) num primeiro
momento, essa relação aumentou,
pois passou de 55,5% em dezembro de 2002 para
58,2% em dezembro de 2003 – isso se deveu
basicamente à estagnação
do PIB num momento em que a dívida estava
crescendo fortemente(43); 2) num segundo momento,
o índice baixou, passando de 58,2% em
dezembro de 2003 para 51,3% em dezembro de 2004
– isso se deveu não à desaceleração
do crescimento da dívida(44), mas ao
crescimento do PIB. Significa que, diante de
uma eventual desaceleração do
PIB, a continuar a política de juros
altos, a relação dívida/PIB
voltará a crescer, apesar dos gigantescos
superávites primários que estão
sendo gerados. O nó górdio do
problema é, pois, a taxa de juros. Se
ela houvesse baixado, a relação
dívida/PIB haveria caído mais
ainda, e, o que é melhor, de forma sustentada.
7. Volta fantasma do real sobrevalorizado
Uma importante
decorrência da política de juros
e superávits primários elevados
vem sendo o retorno do fantasma, já tão
nosso conhecido, da sobrevalorização
externa da nossa moeda. Lembremo-nos de que
a sua valorização durante o primeiro
mandato de FH levara à explosão
das contas externas e internas, ao sucateamento
de parcela importante da nossa indústria,
ao estancamento da economia, ao aumento do desemprego,
enfim, ao colapso financeiro do país,
forçando o governo a, no apogeu da crise,
em janeiro de 1999, desvalorizar o real. Pois
bem, em termos reais, isto é, descontada
a inflação do Brasil e dos seus
principais parceiros comerciais, estamos hoje
com o real mais valorizado do que estava na
véspera do colapso de janeiro de 1999(45).
Nestes últimos dois anos, o dólar
caiu, em termos reais, 34,5% em relação
ao real(46).
Essa revalorização do real não
se deve apenas aos juros elevados, mas, como
veremos, eles vêm tendo um papel decisivo.
Os neoliberais de plantão alegam que
o valor das moedas é estabelecido pelo
mercado, desde que se as deixem flutuar. Por
outro lado, as autoridades econômicas
brasileiras procuram nos convencer – e
convencer a si mesmas – de que não
se pode fazer muita coisa porque essa queda
do dólar faz parte de um movimento mais
geral, já que essa moeda tem caído
diante de todas as principais moedas do mundo.
De fato, esse movimento existe, e se explica
sobretudo pelo crescimento dos chamados déficits
gêmeos dos EUA (combinação
do déficit público com o déficit
externo)(47), o que exige a demanda de recursos
externos (da Europa, do Japão, da China
e dos “tigres asiáticos”)
para financiá-los. Essa maior demanda
de moeda estrangeira pelos EUA força
o enfraquecimento da moeda estadunidense. Essa
é apenas parte da verdade, já
que a valorização do real diante
do dólar é maior do que a de outras
moedas. Assim, como vimos anteriormente, o real
está se valorizando não apenas
em relação ao dólar, mas
a uma cesta de moedas dos 13 principais países
com os quais o Brasil comercializa, em relação
às quais se valorizou 12,6% somente em
2004; além disso, segundo estudo da FIESP,
o real foi a segunda moeda que mais se valorizou
em relação ao dólar de
maio de 2004 a janeiro de 2005: acumulou valorização
de 16,4%, atrás apenas da Polônia,
cuja moeda valorizou-se 18,4% - nesse estudo,
caso o nível de valorização
do real fosse dentro da média dos demais
países, a cotação do dólar
no começo de fevereiro seria de R$ 2,86,
e não de R$ 2,60, como estava(48).
Então, existem razões relacionadas
ao Brasil que provocam esse movimento. Certamente,
os enormes superávits comerciais obtidos
nestes últimos dois anos – acumulando
um total de US$ 58,5 bilhões –
e a entrada de recursos sob a forma de “investimento
direto estrangeiro” - em torno de US$
27 bilhões – ajudam a explicá-lo.
Por duas razões: de um lado, porque produzem
o aumento da oferta de dólar no mercado
interno e, de outro, porque garantem aos que
trazem seus dólares para aplicar no Brasil
que, assim que quiserem retornar à esfera
internacional ou à sua origem, poderão
contar com dólares suficientes para fazer
o câmbio. No entanto, um fato decisivo
para a vinda dos capitais estrangeiros é
a combinação de juros elevados
com superávits primários também
elevados. Assim, os especuladores contam que,
além dos elevados ganhos para suas aplicações
em títulos do governo, podem receber
parte significativa desses ganhos e, além
disso, convertê-los em dólares
quando quiserem retornar à esfera internacional.
Fica claro que o movimento da taxa de câmbio
não tem nada a ver com “forças
de mercado”. Sua queda recente resulta
de uma política deliberada do governo,
que, ao praticar juros e superávits primários
elevados, atrai capitais especulativos externos
na forma de dólares, provocando seu enfraquecimento.
Veja na tabela abaixo a sincronia entre a elevação
da taxa selic e a queda da taxa de câmbio
desde que começou o movimento recente
de subida dos juros (setembro 2004).
Tabela
8
Comportamento da Selic e da taxa de câmbio
– set.2004/fev.2005
| Data
definição Selic |
01/09/04 |
15/09/04 |
20/10/04 |
17/11/04 |
15/12/04 |
19/01/05 |
16/02/05 |
| Taxa
Câmbio (R$/US$) |
2,933 |
2,902 |
2,872 |
2,762 |
2,725 |
2,711 |
2,563 |
| Taxa
Selic(%) |
16,00 |
16,25 |
16,75 |
17,25 |
17,75 |
18,25 |
18.75 |
Fonte: Banco Central
do Brasil
A
área econômica do governo tem utilizado
o dólar barato – ou, o que dá
no mesmo, a sobrevalorização do
real - como instrumento de combate à
inflação, fazendo renascer a chamada
“âncora cambial”, pois com
dólar barato os produtos importados também
ficam baratos, pressionando a estrutura de preços
internos para baixo. Essa atitude pode não
ser inteiramente consciente, mas há algo
de consciente nela, pois o FMI, que funciona
como “consciência” da área
econômica do governo, revelou estar apostando
no uso desse instrumento de combate à
inflação: em seu relatório
anual sobre o Brasil, divulgado em 25 de março
de 2005, afirma, entre outras coisas, que “a
recente valorização do real e
o aumento das taxas de juros” devem ajudar
a derrubar a inflação nos próximos
meses(49).
No entanto, com a “âncora cambial”,
podem retornar os problemas já nossos
conhecidos: em primeiro lugar, na balança
comercial, com o aumento desordenado das importações
e a limitação ao crescimento das
exportações, podendo trazer de
volta os déficits comerciais, com seu
conseqüente impacto no aumento da vulnerabilidade
externa; em segundo, nas finanças públicas,
pois a elevação dos juros para
atrair capitais externos destinados a cobrir
eventuais rombos na balança comercial
provoca o aumento dos encargos financeiros da
dívida pública; terceiro, na estrutura
produtiva interna, ao substituir produção
interna por produção importada
e prejudicar os setores exportadores; em quarto
lugar, no nível de emprego, que seria
afetado pela queda ou estancamento da atividade
econômica.
Até agora, apenas as importações
foram afetadas: em 2003, devido à estagnação
da economia, elas praticamente estacionaram
– cresceram apenas 2,22%, passando de
US$ 47,24 bilhões para US$ 48,29 bilhões
-, mas em 2004, quando a economia começou
a reagir, subiram 30%, retomando o recorde de
US$ 62,78 bilhões alcançado em
1997 por conta da sobrevalorização
do real(50). As exportações ainda
não sofreram o impacto do real valorizado:
cresceram 21% de 2002 para 2003 (passando de
US$ 60,36 bilhões para US$ 73,08 bilhões)
e espetaculares 32% em 2004 (subindo para US$
96,48 bilhões)(51). E isso tem levado
aos arautos do real valorizado a profetizar
que, desta vez, não haverá problema
com as exportações. Não
percebem que os efeitos do real valorizado sobre
as exportações, de um lado, se
manifestam retardatariamente(52) e, por outro,
estão sendo por enquanto compensados
por fatores, que, como veremos adiante, têm
seus limites. Referimo-nos basicamente à
política de diversificação
comercial adotada pelo governo Lula, combinada
com o fato de que essa diversificação
tem procurado mercados cujas moedas também
se valorizaram em relação ao dólar,
ainda que não na mesma proporção
da moeda brasileira, sem contar com o forte
crescimento (para os padrões recentes)
da economia mundial nos últimos dois
anos.
Um outro instrumento que, uma vez mais, consciente
ou inconscientemente, foi usado no combate à
inflação foi o velho e famigerado
arrocho salarial. A “âncora salarial”
somou-se, portanto, à “âncora
monetária”, à “âncora
fiscal” e à “âncora
cambial” para compor o arsenal de combate
à inflação empregado pela
atual equipe econômica, dentro da mais
estrita ortodoxia monetarista que vem sendo
imposta pelo FMI há décadas (a
única aquisição nova, que
vem sendo praticada desde os anos 90, é
a “âncora cambial”) . De acordo
com o IBGE, o poder de compra do rendimento
do trabalho nas principais regiões metropolitanas
do país caiu 12,92% entre os últimos
10 meses de 2002 e igual período de 2003(53);
por sua vez, pesquisa do SEADE/DIEESE revelou
uma queda menor na região metropolitana
de São Paulo – 6,33%(54) -, provavelmente
em face do maior poder de organização
e de mobilização dos trabalhadores
dessa região. Em 2004, a nível
nacional, a queda reduziu-se substancialmente:
foi de apenas 0,8%; em São Paulo, houve
um ligeiro aumento de 1,5%. A violenta queda
do salário real em 2003 deveu-se principalmente
à estagnação da economia
e ao conseqüente aumento do desemprego,
provocados sobretudo pela rígida política
monetária e fiscal, isto é, pelos
juros e superávits primários nas
nuvens; do mesmo modo que a suspensão
da queda do salário real em 2004 resultou
da melhoria da atividade econômica naquele
ano. E por que o arrocho salarial serviu de
“âncora” no combate à
inflação? Por duas razões:
porque contribuiu para diminuir o custo das
empresas e porque, ao lado dos juros e dos saldos
primários elevados, ajudou a conter a
demanda agregada.
Como já vimos, a contenção
da demanda resultante da rigidez monetária,
fiscal e salarial, numa situação
de elevado grau de monopolização
da economia, só consegue derrubar a inflação
se puder provocar uma recessão tão
violenta que impeça aos cartéis
de reajustarem seus preços como forma
de compensar a queda da demanda. No entanto,
como veremos, não houve essa recessão
no período: ocorreu estagnação
econômica no primeiro ano e recuperação
da economia no segundo. Apesar disso, a inflação
cedeu. Acreditamos que isso se deveu à
incorporação ao arsenal anti-inflação
da “âncora cambial” que, ao
favorecer a entrada de produtos importados baratos,
impediu a remarcação de preços
pelos grupos cartelizados, a não ser
os que controlam os setores com preços
administrados, que têm seus reajustes
garantidos por contrato. Na verdade, como o
recrudescimento inflacionário de fins
de 2002 decorreu sobretudo da forte valorização
do dólar, que, ao subir 52% naquele ano,
chegando a atingir R$ 4,00 em alguns momentos,
encareceu violentamente em real os produtos
importados e os preços internos dos produtos
exportados, foi a derrubada dessa moeda que
debelou a escalada da inflação:
como vimos, o dólar caiu de R$ 3,53 em
dezembro de 2002 para R$ 2,60 em fevereiro de
2005, acumulando uma queda real de 34,5%. Nesse
sentido, a elevação dos juros
e do superávit primário contribuiu
para derrubar a inflação, não
porque tenha contido a demanda interna –
até porque a inflação não
era de demanda -, mas porque derrubou o valor
do dólar. Tanto é assim que, mesmo
depois que a demanda interna cresceu –
como veremos adiante -, a inflação
seguiu caindo em compasso com a queda do dólar.
Trata-se da mesma forma de combate à
inflação adotada pelo governo
de Fernando Henrique. Muitos defendem a idéia
de que o governo Lula radicalizou a política
de seu antecessor. O documento do Ministério
da Fazenda, elaborado por Marcos Lisboa, que
criticou FH por haver gerado pouco superávit
primário e propugnou elevar esse superávit
– o que acabou ocorrendo –, parece
dar razão a esses críticos. Na
verdade, os dois lados estão equivocados.
Fernando Henrique não se importou em
gerar um superávit primário muito
elevado para pagar os beneficiários dos
juros altos que praticava porque preferia, em
seu lugar, entregar-lhes patrimônio público,
direta ou indiretamente. O governo Lula está
entregando dinheiro, recursos públicos,
aos credores, mas, salvo os casos dos leilões
das áreas petrolíferas(55), não
tem tido como política a entrega do patrimônio
público(56). Essa, certamente, não
é uma diferença pequena.
8.
Política do FMI provoca encolhimento
da economia em 2003
No entanto, do
ponto de vista do andamento da atividade econômica,
as conseqüências da adoção
dessas quatro ”âncoras” não
tem sido diferentes nos dois governos. Até
conseguem momentaneamente derrubar a inflação,
mas, ao conterem o investimento e a demanda
e pressionarem a produção interna,
substituindo-a por produção importada,
impõem pesados sacrifícios à
atividade econômica e ao emprego. A escalada
inflacionária de fim de 2002 e que se
estendeu até quase meados de 2003 foi
debelada: o IGP-DI da FGV, que fora de 26,41%
em 2002 e projetara uma inflação
de 65% no último trimestre daquele ano,
despencou para 7,67% em 2003(57); por sua vez,
a inflação anualizada medida pelo
IPCA do IBGE caiu de 17,2% em maio de 2003 para
a faixa de 7% no primeiro bimestre de 2004(58).
O custo dessa estratégia de estabilização
foi, como indicamos antes, o estancamento da
economia e o recrudescimento do desemprego num
primeiro momento. As empresas conseguiram melhorar
sua rentabilidade graças à queda
do salário real(59), mas, em face dos
juros reais elevados e da queda da demanda(60),
não se sentiram estimuladas a aumentar
o investimento e a produção. Além
disso, o setor público, pressionado pela
elevação do superávit primário
e dos encargos financeiros da dívida(61),
também teve que comprimir seus investimentos(62).
Assim, em 2003, de acordo com o IBGE, o investimento
total no País caiu 6,6%, fazendo a taxa
de investimento baixar da média de 18,8%
do último triênio de FH (18,33%
no último ano) para 18,05% no primeiro
ano de governo Lula(63) . O resultado foi o
estancamento do PIB naquele ano. Em sua primeira
divulgação, o IBGE indicou uma
queda de 0,2%, com redução de
1% na produção industrial, pressionada
pela construção civil, cuja produção
teria despencado 8,6% (o PIB per capita teria
caído 1,5%). Em revisão posterior,
que corrigiu o índice da construção
civil, o PIB teria crescido 0,5% e a produção
industrial, 0,1%. De qualquer forma, como o
crescimento da população tem estado
em torno de 1,3%, a renda per capita caiu. A
contração do consumo final e do
investimento internos, fazendo deprimir o que
os keynesianos chamam de demanda agregada, teria
levado, não a um mero estancamento, mas
a um forte encolhimento do PIB se não
fosse o forte aumento das exportações
naquele ano: 21%. Por conseguinte, enquanto
a participação do consumo das
famílias no PIB baixava de 60,9% no ano
2000 para 56,7% em 2003, a participação
das exportações aumentava de 10,7%
para 16,4%(64).
O resultado desse estancamento econômico
foi o crescimento da taxa de desemprego. Pelo
critério de desemprego total do SEADE/DIEESE
(que soma o desemprego aberto com o desemprego
oculto), a taxa de 2003 foi de 19,9% da força
de trabalho na região metropolitana de
São Paulo, contra 19% em 2002(65). Foi
a maior taxa desde que se começou a medir
desemprego no Brasil. A nível nacional,
usando o critério de desemprego aberto
do IBGE (que não considera o desemprego
oculto), a taxa subiu de 11,7% em 2002 para
12,3% em 2003, se considerarmos as principais
regiões metropolitanas do País(66).
Já vimos como essa elevação
do desemprego, ao diminuir o poder de negociação
dos trabalhadores, se refletiu na violenta queda
do salário real.
9. Política
exterior de Lula garante crescimento em 2004
O bom senso indica
que as pessoas aceitam um sacrifício
provisório desde que o prêmio seja
a garantia – ou pelo menos a perspectiva
- de uma melhoria duradoura no futuro. As pessoas
de bom senso no governo, dentre as quais reputamos
o próprio Presidente Lula, se deixaram
convencer da necessidade do sacrifício
num primeiro momento porque lhes foi prometido
pelos membros da equipe econômica que
essa seria a condição para viabilizar
um crescimento auto-sustentado num futuro próximo,
que garantiria a geração de emprego,
a distribuição de renda e a “inclusão
social”. Isso porque, como vimos, segundo
eles, a elevação do saldo primário
das contas públicas permitiria diminuir
a relação dívida/PIB, conquistando,
assim, a confiança dos credores, o que
viabilizaria a queda dos juros, condição
para a retomada do investimento e da produção.
Na visão da equipe do Ministério
da Fazenda, criadas essas condições
macroeconômicas “consistentes”,
caberia ao “mercado” a tarefa de
promover a retomada do investimento e do crescimento
econômico(67); na visão da equipe
do Ministério do Planejamento, criadas
essas condições macroeconômicas,
caberia ao governo adotar políticas de
desenvolvimento, como a política industrial,
com base no consumo de massa, para garantir
a retomada sustentada do crescimento econômica(68).
Ao longo de 2004, o quadro estagnacionista do
primeiro ano de governo começou a mudar,
e a economia começou a movimentar-se.
Parecia, então, que os fatos estavam
dando razão aos arautos da política
econômico-financeira vigente. Eles, que
haviam derrubado a inflação, agora
estavam garantindo a retomada do crescimento
econômico. Com isso, o grupo de Palocci
fortaleceu-se dentro do governo, debilitando
os críticos internos da sua política
econômica, dentre eles o ministro José
Dirceu. Mas se, ao invés de ficarmos
na aparência do fenômeno, tentarmos
um mergulho na sua essência, podemos concluir
que, mais uma vez, como sempre, as coisas aparecem
na superfície com sinal trocado. Os fatos,
se examinados com cuidado, podem mostrar que
têm razão aqueles que, havendo
criticado o programa econômico de FH,
seguem criticando os aspectos dele que vêm
tendo continuidade no governo Lula(69).
Vamos aos fatos. A partir de março de
2004, a produção industrial iniciou
um processo de recuperação, que
rapidamente entrou num ritmo acelerado, produzindo
uma forte taxa de crescimento durante o ano:
8,3% a nível nacional(70) e 8,5% em São
Paulo(71). Foi a maior taxa de crescimento desde
o ano do Plano Cruzado (1986). Esse elevado
crescimento industrial alavancou o PIB(72),
que, pela primeira estimativa do IBGE, subiu
5,2%, dando um crescimento per capita de 3,7%(73),
batendo com a previsão que o IPEA fizera
em dezembro, quando elevou sua estimativa de
4,6% para 5,2%. Foi o maior crescimento desde
1994. Como conseqüência, a taxa de
desemprego caiu pela primeira vez depois de
três anos(74): a nível nacional,
pelo levantamento do IBGE, no critério
de desemprego aberto, caiu de 12,3% em 2003
para 11,5% em 2004; na região metropolitana
de São Paulo, pelo levantamento do DIEESE/SEADE,
no critério de desemprego total, baixou
de 19,9% em 2003 para 18,7% em 2004. Pelos dados
levantados pelo Ministério do Trabalho,
foram criados 1,523 milhão de “empregos
formais”, isto é, com carteira
assinada. E, pela pesquisa do IBGE, o nível
de emprego industrial cresceu 1,9% no ano(75).
Essa importante melhoria econômica ensejou
uma forte queda do índice de falências
e concordadas: segundo o SERASA, o número
de falências decretadas caiu 22,5% em
2004 sobre 2003 e o de concordadas deferidas,
20% - revelando o melhor quadro desde o ano
2000.
Apesar de um crescimento de 5,2% do PIB não
ser nenhum espetáculo, dada a trajetória
histórica do Brasil(76), é um
crescimento respeitável nesse período
de estagnação econômica
que tomou conta do País nas últimas
duas décadas e meia(77). Nesse período,
em apenas dois momentos, ocorreu crescimento
superior: nos dois primeiros anos do governo
Sarney (1985-86), aí incluído
o período do Plano Cruzado, e nos dois
anos de governo Itamar (1993-94). A questão,
então, é descobrir as causas desse
crescimento para, a partir daí, reunir
os elementos para prospectar as perspectivas.
Ou seja, a questão é saber se
esse crescimento veio para ficar, se é
um crescimento auto-sustentado(78), ou se é
mais um daqueles espasmos de crescimento que
vêm caracterizando a economia brasileira
desde 1981 – o chamado vôo-de-galinha.
Crescer um ou dois anos para depois retornar
à estagnação ou mesmo recessão
já ocorreu três vezes desde então:
nos dois momentos citados acima (Sarney e Itamar)
e no ano de 2000 (FH).
Primeiro cabe decifrar um mistério: como,
numa situação de juros reais e
saldos primários das contas públicas
elevados, e taxa de câmbio e salário
real no fundo do poço, o que equivale
a uma situação que deprime a demanda
interna e desanima os investimentos, a produção
industrial e o PIB conseguiram experimentar
um respeitável crescimento? O que ocorre
é que a produção industrial,
que alavancou o PIB, cresceu a despeito desses
fatores negativos, que empurraram a demanda
agregada interna para baixo, porque contou com
a válvula de escape das exportações.
A participação do consumo no PIB,
que fora de 60,9% em 2000 e já baixara
para 56,7% em 2003, caiu para 55,3 em 2004.
Enquanto isso, a participação
das exportações aumentou de 10,7%
para 16,4% e 18%(79). Lembremo-nos de que, em
2003, apesar da forte queda da demanda interna,
o PIB não desabou porque aquela queda
foi compensada pelo aumento das exportações,
que foi de 21%. Em 2004, o crescimento das exportações
acelerou mais ainda: subiu 32%(80), sendo que
as exportações de produtos industrializados
do estado de São Paulo cresceram 32,2%(81).
Demonstração de que foram as exportações
que puxaram o crescimento do PIB é o
fato de que os setores que mais cresceram foram
os que tiveram maior expansão no volume
exportado: a produção do setor
de bens de capital cresceu 19,7%, enquanto suas
exportações cresceram 54%(82);
outro setor que teve forte crescimento foi o
de bens duráveis de consumo (21,8%) e,
dentro dele, o subsetor de veículos automotores
(29,9%), sendo que o número de unidades
exportadas de veículos leves, segundo
a Associação Nacional dos Fabricantes
de Veículos Automotores (ANFAVEA), cresceu
17,8% no ano(83).
Outro mistério a decifrar: como, apesar
de terem seus custos pressionados para cima
pelos juros elevados e pela elevação
da carga tributária, o que poderia empurrar
sua rentabilidade para baixo, a qual, além
disso, era prejudicada pelo câmbio desfavorável,
as empresas exportadoras puderam aumentar sua
produção com destino ao comércio
exterior?
Em primeiro lugar, a violenta queda do salário
real entre 1998 e 2004, que, a nível
nacional, foi de 30,87%(84) e, na região
metropolitana de São Paulo, de 31,88%(85),
derrubou fortemente os custos trabalhistas das
empresas, mais do que compensando a manutenção
dos juros num patamar elevado. Se sua produção
tivesse como destino o mercado interno, elas
perderiam pelo lado da demanda, cujo crescimento
foi bloqueado pela queda do salário,
o que ganharam pelo lado dos custos, mas, como
compensaram com o aumento das vendas no mercado
externo, não sofreram com a debilidade
da demanda interna.
Em segundo lugar, depois de três anos
de estagnação (2001-03), as empresas
industriais estavam com elevado nível
de capacidade ociosa – 29,5% na média
de 2003, pela pesquisa da CNI, e na faixa de
20% pela Sondagem da Indústria de Transformação
da FGV -, podendo, assim, elevar sua produção
sem necessidade imediata de realizarem novos
investimentos, apenas usando capacidade já
instalada e em ociosidade. Assim, seu custo
unitário baixava à medida que
a produção aumentava. No último
trimestre de 2004, a capacidade ociosa havia
reduzido para 23% pela pesquisa da CNI(86) e,
em janeiro de 2005, para 16,4%, na Sondagem
da FGV.
E, por último, quanto mais elevam a produção
para exportação, mais aumenta
o giro de seu capital, proporcionando, em conseqüência,
um aumento da lucratividade por unidade de capital
aplicado. O resultado foi que, a despeito da
adversidade dos juros, da carga tributária
e do câmbio, as empresas industriais experimentaram
a maior lucratividade desde 1994: as grandes
empresas aumentaram a margem de lucro sobre
o faturamento de 10,2% em 2003 para 12,4% de
janeiro a setembro de 2004, enquanto as pequenas
e médias subiram de 3% para 5,1%(87).
A margem de lucro das grandes empresas é
muito maior do que a das pequenas e médias,
não apenas em face de seu poder de monopólio,
mas também porque são elas que
conseguem penetrar mais no mercado externo,
enquanto as pequenas e médias têm
que amargar a debilidade atual do mercado interno.
Mas, para poderem aumentar as exportações,
não basta as empresas terem seus custos
reduzidos pelo corte do salário e o uso
de capacidade ociosa. Elas têm que contar
com compradores interessados em seus produtos
no mercado internacional. E isso vem ocorrendo
nos últimos dois anos. Poder-se-ia atribuir
esse fato ao crescimento que, no último
biênio, depois de vários anos de
estagnação, vem experimentando
a economia mundial: o PIB mundial, depois de
crescer 3,9% em 2003, pode ter crescido, na
projeção do FMI, 4,9% em 2004
– a maior taxa de crescimento desde 1984.
É evidente que esse crescimento da economia
contribuiu para dinamizar o comércio
internacional(88) e, assim, ajudou a alavancar
as exportações brasileiras. Não
explica, porém, toda a verdade. Aliás,
explica uma parte pequena da verdade. Um crescimento
de 4,9% do PIB mundial foi capaz de alavancar
um crescimento de 18,3% nas exportações
mundiais, mas como, por si só, conseguiria
alavancar um crescimento de 32% das nossas exportações?
A parte principal da verdade está em
outra esfera. É possível demonstrar,
até matematicamente, que a política
exterior do governo Lula, que rompeu o alinhamento
automático com os EUA, e buscou fortalecer
a unidade da América do Sul e aprofundar
as relações diplomáticas
com a China, a Índia, a Rússia,
a África do Sul e o Oriente Médio,
além de um maior estreitamento dos laços
com vários países da União
Européia, cumpriu papel decisivo no espetacular
aumento das exportações. A diplomacia
brasileira, que antes estava a reboque dos interesses
dos EUA, foi posta a serviço dos interesses
nacionais e do comércio exterior brasileiros,
como já o fizera Getúlio Vargas,
Santiago Dantas e Geisel. Diferentemente das
políticas monetária, cambial e
fiscal – que constituem aspectos decisivos
da política macroeconômica, e que
estão empurrando a economia para baixo
-, a política de comércio exterior,
diretamente comandada pelo Presidente Lula,
vem cumprindo papel decisivo no sentido de dinamizar
a economia, ao diversificar e abrir novos mercados
e assim intensificar as nossas exportações.
No entanto, segundo a equipe do Ministério
da Fazenda, essa política de comércio
exterior só teve efeito secundário
no forte crescimento das exportações,
cabendo a responsabilidade principal à
sua política de câmbio flutuante:
“A política de câmbio flutuante,
aliada a uma agressiva agenda de comércio
exterior, vem permitindo um significativo ajuste
das contas externas apoiado no forte crescimento
das exportações”(89). Marcos
de Barros Lisboa, secretário de Política
Econômica do Ministério e autor
do documento, fica nos devendo a explicação
de como uma “política de câmbio
flutuante” que tem valorizado fortemente
o real – e, portanto, tornando menos competitivas
nossas exportações – foi
capaz de promover um “forte crescimento
das exportações”.
Vejamos os dados da tabela 9:
Tabela
9
Exportações brasileiras por destino
– 2002/2004
| Blocos/
Países |
2002 |
2003 |
2004 |
| |
US$
bi |
Var.
% |
US$
bi |
Var.
% |
US$
bi |
Var.
% |
| U.E. |
15,40 |
1,07 |
18,46 |
19,84 |
24,16 |
30,87 |
| Nafta |
18,48 |
11,22 |
20,41 |
10,46 |
25,18 |
23,39 |
| P.Andino |
2,68 |
5,91 |
2,56 |
-4,52 |
4,16 |
62,76 |
| Mercosul |
3,31 |
-47,97 |
5,67 |
71,31 |
8,91 |
57,13 |
| O.
Médio |
2,33 |
14,84 |
2,80 |
20.38 |
3,69 |
31,41 |
| EUA |
15,35 |
8,21 |
16,69 |
8,72 |
20,04 |
20,05 |
| China |
2,52 |
37,51 |
4,53 |
79,83 |
5,44 |
20,02 |
| Argentina |
2,34 |
-53,19 |
4,56 |
94,77 |
7,37 |
61,65 |
| Venezuela |
0,79 |
-27,07 |
0,60 |
-23,96 |
1,46 |
141,79 |
| A
Sul |
0,48 |
12,70 |
0,73 |
53,49 |
1,04 |
41,28 |
| Índia |
0,65 |
129,11 |
0,55 |
-15,37 |
0,65 |
17,78 |
| Rússia |
1,25 |
13,59 |
1,50 |
19,77 |
1,66 |
10,52 |
Fonte:
MDIC-SECEX
Pode-se
observar, pelos dados da tabela acima, que as
exportações brasileiras para os
EUA e o bloco que lideram (Nafta) aumentaram
bem menos do que a média das exportações
nos anos 2003 e 2004: estas cresceram 21% no
primeiro ano e 32% no segundo, enquanto a taxa
de crescimento para os EUA foi, respectivamente,
de 8,72% e 20,75%, e, para o Nafta, de 10,43%
e 23,39%. Enquanto isso, se considerarmos os
dois anos, as exportações para
a Argentina, a China, a África do Sul
e o Mercosul aumentaram bem mais do que a média;
no caso da Venezuela, depois de uma queda em
2003, experimentaram um violento crescimento
em 2004 (141,79%); para o Oriente Médio,
cresceram dentro da média e, para o Pacto
Andino, depois de uma ligeira queda no primeiro
ano, subiram 62,76% em 2004; para a União
Européia, expandiram-se dentro da média;
até agora, dentro das prioridades da
política externa, apenas a Rússia
e a Índia ainda não responderam
muito bem.
Puxada pelas exportações e, portanto,
pelos setores exportadores, a reanimação
econômica de 2004 aos poucos foi se espalhando
para o conjunto da economia. A correia de transmissão
foi a massa salarial: cálculos feitos
pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
Industrial (IEDI), entidade de grandes empresários
brasileiros, indicam que a massa salarial cresceu
2,3% em termos reais em 2004; levantamento da
CNI mostra um crescimento maior se considerarmos
o setor industrial: 9,01%(90). O levantamento
do IBGE apresenta cifra semelhante: aumento
de 9%, depois de haver caído 4,2% no
ano anterior(91). Apesar do nível muito
baixo a que chegaram os salários reais,
que, além disso, estavam em queda na
fase inicial, a massa salarial nos setores exportadores
foi crescendo à medida que, com o aumento
da produção, o nível de
emprego também foi subindo: como conseqüência,
as contratações líquidas
no conjunto do país cresceram 3,2% em
dezembro de 2004 em relação a
igual mês de 2003 (92). Já vimos
que, pela pesquisa do IBGE, o emprego industrial
cresceu 1,9% de 2003 para 2004.
Esse crescimento da massa salarial atuou no
sentido de melhorar a demanda interna, estimulando,
assim, o aumento da produção para
o mercado interno. Assim, as vendas no comércio
varejista, que haviam caído 3,67% em
2003, e vinham caindo desde 2001, subiram 9,25%
em 2004 em relação a 2003(93).
Na região metropolitana de São
Paulo, no conjunto de 2004, o faturamento do
comércio cresceu 5,42%, o maior desde
2000; em 2003, a queda fora de 3,86%(94). Esse
aumento não se deveu principalmente ao
aumento da massa salarial. Tanto é que
os setores que dependem do poder de compra do
salário foram os que menos cresceram:
a produção industrial de bens
de consumo não duráveis (como
tecidos, vestuário, calçados,
alimentos) só cresceu 4% em 2004, menos
da metade do crescimento do conjunto da indústria(95);
enquanto isso, as vendas de tecidos, vestuário
e calçados também só cresceram
4,73%, contra 9,25% do conjunto das vendas(96).
O baixo crescimento da produção
e das vendas dos não duráveis
acarretou como resultado perverso a destruição
de emprego nesses setores: se considerarmos
em bloco os ramos de tecidos, vestuário,
calçados, papel e gráfica, produtos
de metal e cimento, que são responsáveis
por 43% da força de trabalho industrial
do País, houve uma perda de 100 mil empregos
no ano, sendo que no ramo de vestuário
a queda chegou a ser de 7,5%(97).
O aquecimento do mercado interno se deveu principalmente
ao retorno do consumidor ao crediário.
Exemplo disso é que os setores da economia
em que as vendas internas mais cresceram em
2004 foram o de eletrodomésticos e o
de veículos(98), que dependem de financiamento.
A produção deles também
teve forte crescimento a nível nacional:
18,7% e 29,2%, respectivamente(99). Apesar dos
juros altos, a melhoria da economia e o aumento
dos prazos de financiamento(100) encorajaram
o consumidor a endividar-se. Um fato importante
também foi a ilusão monetária:
apesar de permanecerem elevadas, as taxas nominais
de juros no crediário baixaram ao longo
de 2004 até setembro, a partir de quando,
sob a pressão do aumento da taxa selic,
voltaram a subir(101). Ainda que os juros reais
não hajam caído na mesma proporção,
o consumidor se ilude com sua queda nominal
e vai às compras(102). Ele só
percebe que se iludiu na hora do pagamento da
prestação, que nem sempre cabe
no salário. E aí vem a inadimplência.
Além disso, o salário real, que
vinha em queda, começou a subir, sobretudo
na indústria voltada para o mercado externo,
a partir de setembro de 2004: na comparação
com igual mês do ano anterior, desde então
vem aumentando na faixa de 2%(103). A melhoria
do salário também encoraja o consumidor
a usar o crediário.
10. Contradição entre
política externa e política econômica
Quando
iniciou-se o processo de recuperação
da economia em 2004, o ministro da Fazenda e
o presidente do Banco Central apressaram-se
a alardear que isso era confirmação
de que sua política está correta.
Mais ainda, que essa reanimação
econômica fora produzida por sua política
econômica(104). Na verdade, como demonstramos,
a economia teve essa boa performance a despeito
da política macroeconômica encabeçada
pelo Ministério da Fazenda e em contradição
direta com ela. Esse resultado se deve, como
vimos, ao espetacular aumento das exportações,
que foi obtido sobretudo pela política
de comércio exterior resultante da diplomacia
do governo Lula, encabeçada diretamente
pelo Presidente, e que está em franca
contradição com a política
econômica do Ministério da Fazenda.
Enquanto esta tem submetido o andamento da nossa
economia às regras impostas pelo FMI
e, por seu intermédio, aos interesses
dos donos das finanças internacionais,
principalmente dos EUA, a política externa,
ao diversificar as relações diplomáticas
e, em decorrência, o comércio exterior
brasileiro, permite um maior grau de independência
econômica do País, favorecendo
o crescimento da economia. No entanto, os efeitos
econômicos positivos dessa política
exterior não podem suplantar indefinidamente
o impacto negativo de uma política macroeconômica
que, ao apostar dogmaticamente no primado da
estabilidade monetária sobre o desenvolvimento,
opera no sentido de restringir a atividade econômica.
E essa contradição já começa
a se manifestar.
Um primeiro problema diz respeito à destinação
dos saldos comerciais obtidos com o aumento
das exportações. Em lugar de serem
usados, pelo menos em parte, para fortalecer
nossas reservas cambiais disponíveis,
e assim reduzir a vulnerabilidade externa da
economia, os US$ 24,8 bilhões de 2003
foram inteiramente destinados a pagar os encargos
do passivo externo (juros, lucros e dividendos)(105)
e outros “serviços” de empresas
estrangeiras, como fretes, seguros e royalties(106);
em 2004, a situação se agravou
mais ainda, pois, depois de cobrir o saldo negativo
da balança de serviços, a sobra
de US$ 10,7 bilhões (superávit
em conta corrente) dos US$ 33,7 bilhões
de saldo comercial foi utilizada para abater
dívida externa, a qual reduziu de US$
235,4 bilhões em dezembro de 2003 para
US$ 220 bilhões em dezembro de 2004(107).
As reservas líquidas só conseguiram
aumentar um pouco nesse último ano, em
US$ 3,68 bilhões, porque o Banco Central
decidiu comprar dólares dos especuladores
com o objetivo alegado de recompor as reservas,
mas, na verdade, numa tentativa disfarçada
de segurar a forte queda do dólar. O
real valorizado servia à política
do Banco Central de combate à inflação,
mas até a mente turva das autoridades
monetárias é capaz de perceber
que uma sobrevalorização muito
acentuada pode prejudicar as exportações
e comprometer sua disposição de
honrar os encargos do passivo externo. Por isso,
começaram a intervir no “mercado”
a partir dos últimos meses de 2004.
No entanto, diante do atrativo dos juros, do
superávit primário e do superávit
comercial elevados, que, além de permitir
alta rentabilidade, garante seu recebimento
e expatriação, os capitais externos
continuam adentrando ao País em grandes
volumes(108), aumentando a oferta de dólares
e forçando seu preço para baixo.
A continuar esse quadro, não são
meras intervenções pontuais do
BC no mercado cambial que vão conseguir
promover a necessária desvalorização
do real.
Ao perceber isso, o Banco Central vem acelerando
a compra de dólares: US$ 2,8 bilhões
em dezembro de 2004, outros US$ 2,8 bilhões
em janeiro de 2005 e US$ 4,0 bilhões
em fevereiro(109). Como na primeira quinzena
de março houve uma certa reação
do câmbio (o dólar chegou a atingir
R$ 2,766 no dia 15 do mês), a equipe do
BC parece ter passado a acreditar que seus leilões
de compra estavam dando resultado. Algum resultado
certamente produziram. A equipe do BC deixa
de considerar, porém, um fato mais importante:
depois da declaração do presidente
do FED estadunidense (seu Banco Central), Alan
Greenspan, de que os juros dos EUA seguirão
subindo, a taxa de longo prazo (10 anos) dos
títulos do Tesouro daquele país
se elevou de 4% em janeiro deste ano para 4,6%
em março, incentivando a demanda de dólares
no mercado mundial (para aplicar no mercado
estadunidense) e promovendo uma ligeira valorização
dessa moeda em março. Mas nada garante
que esse movimento se consolide, dada a insegurança
que os gigantescos déficits gêmeos
dos EUA provocam nos especuladores internacionais.
Assim, o mercado de dólar tem operado
como uma gangorra: os juros internos elevados,
combinados com superávites primário
e comercial igualmente elevados e o enorme rombo
nas contas internas e externas dos EUA, empurram
o dólar para baixo; enquanto isso, a
aceleração dos leilões
de compra de dólares pelo BC, combinada
com a ameaça de elevação
dos juros nos EUA, puxam o dólar para
cima. Explica-se assim a enorme volatilidade
que vem caracterizando a nossa taxa de câmbio:
depois de haver subido de R$ 2,59 no começo
de março deste ano para R$ 2,766 no dia
15 do mês, baixou novamente para R$ 2,668
no último dia do mês. Percebe-se
que o comportamento do preço do dólar
é volátil, mas as forças
que o empurram para baixo têm prevalecido.
As próprias autoridades do BC parecem
estar se dando conta de que nem mesmo essa aceleração
dos leilões de compra de dólares
será capaz de provocar uma desvalorização
do real suficiente para garantir os saldos programados
na balança comercial. Daí que
começam a inventar outros mecanismos
destinados a atingir esse efeito. Falam em autorizar
a abertura de contas em dólares dentro
do País, em incentivar os exportadores
a manter dólares no exterior ou mesmo
que nacionais transfiram dólares para
fora. Ou seja, pretendem, de um lado, dificultar
a entrada ou a troca de dólares por real
e, de outro, estimular sua saída, como
forma de bloquear sua tendência a cair.
É mais uma tentativa superficial de enfrentar
o problema, já que deixa de atacar sua
raiz, que está na rígida política
monetária. Ademais, são medidas
que, além de diminuir o controle do BC
sobre as reservas cambiais, criam mecanismos
que favorecem a dolarização da
economia e diminuem as reservas cambiais, aumentando
a vulnerabilidade externa da economia. E já
conhecemos esse filme no caos em que virou a
economia argentina em 2001.
Em suma, a substancial melhoria das contas externas,
obtida graças à adoção
de uma política externa independente
e de uma conseqüente política de
comércio exterior, em lugar de ser utilizada
para fortalecer nossa economia, tem estado a
serviço de uma estratégia voltada
ao atendimento dos credores externos, da mesma
forma que a geração de superávites
primários nas contas públicas
vem servindo aos credores da dívida pública.
Assim, apesar do gigantesco esforço exportador
e da aceleração das compras de
dólares pelo BC, nossas reservas líquidas,
se comparadas com o valor das importações,
seguem num nível muito baixo(110), o
que deixa a economia brasileira muito vulnerável
diante de qualquer turbulência internacional.
Além disso, um crescimento econômico
puxado pelas exportações, no qual
até a dinamização do mercado
interno foi em parte movida pela massa salarial
gerada no setor exportador, tem limites muito
estreitos, além de deixar nossa economia
muito vulnerável às evoluções
da economia mundial. Vários fatores conspiram
para a redução do ritmo de crescimento
das exportações brasileiras neste
ano. Já há até quem esteja
prevendo a queda do volume exportado. A Fundação
Centro de Estudos de Comércio Exterior
(FUNCEX) prevê que, caso o dólar
se mantenha num patamar inferior a R$ 2,70,
o volume das exportações brasileiras
cairá 5% neste ano. O vice-presidente
da Associação de Comércio
Exterior do Brasil (AEB), José Augusto
de Castro, é ainda mais pessimista e
projeta queda de 15% na exportação
de produtos manufaturados, que representam 54%
das exportações brasileiras(111).
Não acreditamos que ocorra essa queda
no volume das exportações, mas,
caso o câmbio permaneça nos níveis
atuais, seguramente haverá uma forte
queda do seu ritmo de expansão(112).
Apesar de disfarçadamente virem intervindo
no câmbio (comprando dólares) desde
o final de 2004, as autoridades monetárias
têm difundido que essa taxa de câmbio
não prejudica as exportações,
alegando que o forte crescimento da produtividade
compensaria essa defasagem cambial. Na verdade,
a produtividade industrial não cresceu
tanto assim. Se for computada tomando como base
o pessoal ocupado, ela teria crescido 5,3% nos
11 primeiros meses de 2004 em relação
a igual período do ano anterior, depois
de três anos de queda, mas, se adotarmos
o critério correto e tomarmos como referência
as horas trabalhadas, o crescimento foi de apenas
2,7%(113). Esse aumento da produtividade tanto
não foi suficiente para compensar a valorização
do real que, segundo estudo da Fundação
Centro de Estudos de Comércio Exterior
(FUNCEX), houve uma queda de 12,7% na rentabilidade
das exportações brasileiras em
2004.
A área econômica do governo também
alega que, apesar dessa defasagem cambial, as
exportações seguem crescendo.
Não percebem que o efeito de uma queda
do dólar sobre as exportações
ocorre com uma defasagem temporal de pelo menos
seis meses. Isso porque, como os contratos de
exportação são feitos a
prazo mais longo, o câmbio que está
vigorando nas exportações de hoje
é o de 4, 6 ou 8 meses atrás,
havendo casos de até dois anos. O câmbio
do início do ano tenderá, pois,
a impactar as exportações apenas
no meio do ano. Segundo Fernando Ribeiro, da
FUNCEX, “mantido esse patamar [da cotação
do real], vamos ver um resultado negativo com
redução das exportações
já no começo do segundo semestre”(114).
Agrega-se à apreciação
do real, sua enorme volatilidade cambial: “O
Brasil é o país que apresenta
a maior volatilidade cambial. A média
da diferença entre a cotação
máxima e a mínima da moeda brasileira
atingiu 22%”(115). Disputam o segundo
lugar o Reino Unido, o Japão, a Rússia,
o Chile e a Coréia, com variação
de 11,1% e 10,4%(116). Essa volatilidade deixa
o exportador inseguro nas suas transações
internacionais, na medida em que não
consegue formar seu preço – e,
conseqüentemente, sua margem de lucro -
de forma minimamente planejada, podendo desestimulá-lo
a seguir procurando o comércio exterior.
Não deixa de ser irônico o Ministério
da Fazenda, em documento mais uma vez da lavra
de Marcos Lisboa, tentar atribuir o crescimento
das exportações a uma suposta
redução da volatilidade cambial:
“A estabilidade alcançada nos preços
e a redução da volatilidade cambial
têm levado a sucessivos recordes na balança
comercial e, pela primeira vez em dez anos,
a um superávit na conta de transações
correntes”(117).
A elevação dos juros reais desde
o último quadrimestre de 2004, ao incrementar
os custos industriais, torna ainda mais adversa
a capacidade exportadora das empresas instaladas
no País. E, para agravar a situação,
até mesmo a revista arqui-conservadora
The Economist prevê que, a partir de 2005,
será retomada a desaceleração
da economia mundial. Num quadro assim tão
adverso para os exportadores, nem mesmo a política
de diversificação comercial da
diplomacia brasileira poderá conseguir
resultados muito favoráveis nas exportações,
pois os novos parceiros comerciais teriam dificuldade
de absorver produtos brasileiros mais caros
numa situação em que suas economias,
impactadas pela desaceleração
mundial, poderiam também enfrentar dificuldades.
Por fim, conforme examinamos antes, mesmo pressionadas
por juros e carga tributária elevados
e real supervalorizado, as empresas instaladas
no País puderam atender à crescente
demanda do mercado externo porque contavam com
uma grande capacidade ociosa, além de
salários reais baixos e em declínio.
Quanto ao salário, já vimos que
começaram a reagir. No caso da capacidade
ociosa, os dados indicam que não tarda
muito a se esgotar. Os economistas consideram
que uma utilização de 90%, em
média, da capacidade instalada na indústria
significa, na prática, o esgotamento
da capacidade ociosa, na medida em que, como
se trata de uma média, muitos setores
ou empresas terão chegado ao seu limite,
impondo “gargalos” ao crescimento
de outros setores ou empresas. Pois bem, pela
pesquisa da CNI, as grandes empresas, que são
as que dominam o setor exportador, atingiram,
no último semestre de 2004, 83% de sua
capacidade instalada(118); e, pela Sondagem
da Indústria de Transformação
da FGV, o conjunto dessa indústria alcançou
83,6% em janeiro de 2005. Basta o PIB crescer
mais um ano ao ritmo de 2004 para que a capacidade
ociosa seja esgotada, a não ser que se
realizem os investimentos necessários
ao aumento da capacidade instalada.
Nesse quadro, a elevação dos juros
reais, da carga tributária e do valor
externo da moeda, como vem ocorrendo desde o
ano passado, pode ser fatal para o processo
em curso de reanimação da economia.
Os problemas já começaram a aparecer.
Desde setembro de 2004, isto é, desde
quando a taxa de juros do Banco Central retomou
sua trajetória ascendente, a produção
industrial desacelerou o ritmo anterior. E por
isso a produção do último
trimestre do ano cresceu a um ritmo menor do
que o dos dois anteriores: considerando a comparação
com igual trimestre do ano anterior, a produção
do segundo trimestre cresceu 10%, a do terceiro
10,4% e a do quarto 6,3%(119); mas, se a comparação
for com o trimestre imediatamente anterior,
as taxas foram de 3,4%, 2,5% e 0,9%(120), respectivamente.
Estudo realizado pelo Instituto de Estudos para
o Desenvolvimento Industrial (IEDI, com base
nos dados levantados pelo IBGE, indica a mesma
tendência: a produção industrial
cresceu 6,6% entre abril e agosto de 2004, havendo
baixado o ritmo para 0,4% de setembro de 2004
a janeiro de 2005. Essa forte desaceleração
ocorreu com praticamente todos os setores: a
indústria têxtil, cuja produção
crescera 11,4% no primeiro período, sofreu
retração de 7,5% no segundo; a
de vestuário cresceu 12,1% no primeiro
período e caiu 1,8% no segundo; a de
automóveis despencou de um crescimento
de 19,6% no primeiro para uma queda de 1,9%
no segundo(121).
Ao mesmo tempo, de acordo com a sondagem industrial
do quarto trimestre do ano, realizada pela CNI,
o índice de acumulação
de estoques da indústria em geral aumentou
de 49,6 no terceiro trimestre para 51,3 no último,
e o índice das grandes empresas o fez
de 51,5 para 53,8(122). Isso se deve à
queda das vendas industriais, que vinha ocorrendo
desde setembro: depois de dessazonalizadas,
caíram 4,2% de setembro de 2004 a janeiro
de 2005(123). Com os estoques em crescimento,
as grandes indústrias estacionaram a
utilização da capacidade instalada,
mantendo-a em 83% no terceiro e no quarto trimestres(124).
O comportamento da produção industrial
em janeiro de 2005 expressou essa mesma tendência.
O índice de atividade industrial em São
Paulo, descontado o efeito sazonal, caiu 3%
em relação a dezembro de 2004;
em relação a janeiro de 2004,
cresceu 4,2%, isto é, menos da metade
do crescimento industrial de 2004(125). Esses
dados revelam uma forte desaceleração
do ritmo da indústria. Normalmente, quando
isso ocorre no começo do ano, significa
que as festas de fim de ano (outubro a dezembro)
não conseguiram esgotar os estoques produzidos
no terceiro trimestre do ano, e é um
forte sinal de que não se garantiram
as condições para o crescimento
sustentado. A saída em janeiro de 114
mil pessoas da população economicamente
ativa (PEA) na região metropolitana de
São Paulo, a despeito da queda da taxa
de desemprego, é também um péssimo
indício das perspectivas econômicas(126).
Essa tendência foi agravada pela elevação
da taxa de desemprego de 16,7% em janeiro para
17,1% em fevereiro(127). Obviamente, ainda é
preciso esperar pelos resultados do conjunto
do primeiro trimestre para se poder prognosticar
melhor a tendência.
A desaceleração industrial provocou
também a desaceleração
do conjunto da economia. O PIB do quarto trimestre
de 2004 só cresceu 0,4% em relação
ao terceiro e 4,9% em relação
a igual período do ano anterior, quando
a expansão do terceiro trimestre havia
sido, respectivamente, de 1,1% e 6,1%. No último
trimestre, além disso, a formação
bruta de capital fixo caiu 3,9% em relação
ao terceiro(128).
Como resultado da desaceleração
econômica a partir do fim do ano retraiu
a criação de empregos formais,
ou seja, com carteira assinada: de acordo com
o Ministério do Trabalho, haviam sido
criados 1,8 milhão desses empregos até
outubro, levando-o a projetar a criação
de 2 milhões durante o ano; no entanto,
ao final, só haviam sido criados 1,523
milhões de vagas formais, porque só
em dezembro foram eliminadas 352.093 vagas(129).
Pela pesquisa do IBGE, o mesmo fenômeno
ocorreu com o emprego industrial a nível
nacional: em outubro e novembro, na comparação
com o mês imediatamente anterior, houve
queda de 0,1% no nível de emprego, sendo
que em dezembro a queda foi de 0,2%(130). Segundo
a FIESP/CIESP, fato idêntico ocorreu com
o emprego industrial paulista: depois de crescer
sistematicamente desde janeiro de 2004 (em relação
ao mês anterior), estacionou em novembro
e caiu 0,44% em dezembro(131).
Essa desaceleração da economia
já levou o IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômicas Aplicadas), órgão
vinculado ao Ministério do Planejamento,
a rever para baixo sua previsão de crescimento
para 2005: na previsão de dezembro de
2004, o PIB cresceria 3,8% neste ano e, na previsão
de março de 2005, a taxa seria de apenas
3,5%(132). Nesse quadro, em lugar de expandir
os investimentos públicos, como forma
de conter essa tendência da economia para
baixo, a equipe econômica decidiu cortar
os investimentos orçamentários
que já haviam sido aprovados para 2005:
passaram o facão em R$ 9 bilhões,
diminuindo-os de R$ 21,4 bilhões para
R$ 12,4 bilhões.
Assim, o tipo de reanimação econômica
que o Brasil vem experimentando desde 2004 pode
ser bloqueado tanto pelo lado da demanda, com
o enfraquecimento do comércio exterior,
quanto pelo lado da oferta, com o esgotamento
da capacidade ociosa. Sua conversão em
crescimento auto-sustentado, como vem prometendo
o governo Lula, depende, portanto, do bom equacionamento
desses dois problemas.
Notas
1.Doutor em Economia pela Universidad Nacional
Autónoma de Mexico (UNAM), com Pós-Doutoramento
na USP; professor de Economia no Curso de Relações
Internacionais do Centro Universitário
Belas Artes de São Paulo; autor de vários
livros sobre Economia Política, Economia
Mundial e Economia Brasileira. Seus mais recentes
livros são: Ascensão e queda do
império americano, editado em 2001 pela
Mandacaru/CPC-UMES, e A longa agonia da dependência
- economia brasileira contemporânea (JK/FH),
editado em 2004 pela Alfa-Omega.
2.Fonte: SOBEET
3.Cf. “Melhores e maiores”. Revista
Exame.
4.Cf. Banco Central do Brasil. Censo de capitais
estrangeiros 2001.
5.Fonte: Banco Central do Brasil
6.BNDES. Privatização no Brasil
- 1990-1994/1995-2002. Rio de Janeiro,
publicação preparada pela Área
de Desestatização e Reestruturação,
jul. 2002.
7.Fonte: Banco Central do Brasil
8.Fonte: Banco Central do Brasil..
9.Fonte: IBGE. Média aritmética
das taxas anuais do período.
10.Fonte: SEADE/DIEESE.
11..Fonte: SEADE. Disponível em: http://www.seade.gov.br/cgi-bin.
Acesso: 14.03.2005..
12.Fonte: IBGE.
13.Ibid.
14.Ibid., em convênio com a ONU.
15. Fonte: FGV. Revista Conjuntura Econômica
16.Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.
17.CVRD – Companhia Vale do Rio Doce.
18.É uma mudança ainda não
inteiramente consolidada, conforme se pode deduzir
da substituição da diretoria do
Banco no final de 2004.
19..Há, no entanto, uma contradição
na política petrolífera, já
que a agência reguladora do setor (a ANEP)
prosseguiu com os leilões das áreas
petrolíferas, muitas das quais com reservas
já descobertas pela empresa. Um fato
importante é que a própria empresa,
sozinha ou em consórcio, tem arrematado
a maior parte das áreas.
20.O “acordo” firmado durante o
governo Lula se encerrou em março de
2005. No dia 28 desse mês, depois de vários
membros do governo haverem declarado não
ser necessária sua renovação,
o ministro Palocci anunciou que o “acordo”
não seria renovado, mas não há
nada que indique uma mudança imediata
da política econômica imposta por
esse receituário.
21.Sigla para Sistema Especial de Liquidação
e Custódia.
22.Fonte: IBGE. Série histórica
– IPCA dessazonalizado. Disponível
em: http://www.ibge.gov.br. Acesso: 18.03.2005,
13h25m.
23.Ver também tabela 4 e nota 28 adiante.
24.Vejam, por exemplo, o resumo dessa posição
em recente documento oficial do Banco Central:
“Os primeiros resultados relativos ao
nível de atividade no início de
2005 apontam um arrefecimento do ritmo de expansão,
dando seguimento ao processo delineado ao longo
do segundo semestre do ano passado. Tal resultado
(...) é esperado, na medida em que foram
atingidos níveis de produção
historicamente elevados [diga-se: 5,2% em 2004],
e contribui para a sustentabilidade do crescimento”
(Banco Central. Relatório trimestral
de inflação. Cap 1 – Nível
de atividade, 29.03.2005, p.1. Disponível
em: http://www.bacen.gov.br. Acesso 30.03.2005,
19h05m. Grifo nosso). Os tecnocratas do BC,
portanto, fazem festa com a desaceleração
da economia desde que começaram a elevar
a taxa básica de juros e racionalizam
que esse ritmo menor de expansão econômica,
que estimam em 4% para 2005, é que garantirá
a “sustentabilidade do crescimento”.
Na verdade, 4% ainda é um ritmo elevado
para eles; o que eles pretendem mesmo é
enquadrar a economia nos seus sonhados 3,5%.
25.Se tomarmos como referência o Índice
de Custo de Vida (ICV) para a cidade de São
Paulo calculado pelo DIEESE, a taxa média
foi de 9,55% em 2003, enquanto os “serviços
públicos” (aí incluídas
as tarifas das empresas privatizadas) subiram
13,45%. As tarifas telefônicas subiram
mais ainda: 17,16%. Se considerarmos a evolução
de dezembro de 2003 em relação
a dezembro de 2002, a assinatura telefônica
subiu 17,19% e o pulso, 20%. A tarifa de energia
elétrica residencial (até 300
kwts) subiu 11,18% no mesmo período.
Em 2004, o índice médio de crescimento
do custo de vida foi de 7,7%, ao passo que as
despesas de comunicação (incluindo
telefonia) subiram 11,04%. A assinatura telefônica
subiu 14,16% e o pulso, 16,66%. A tarifa de
energia elétrica residencial avançou
10,5% (fonte DIEESE. Disponível em: http://www.dieese.org.br.
Acesso: 14.03.05, 16h15m. Ver também
http://www.dieese.org.br/procon/tarifas. Acesso:
17.03..05). Situação idêntica
é revelada no IPCA do IBGE: em 2002,
o índice médio foi de 12,58%,
enquanto o de energia elétrica residencial
foi de 19,88%; em 2003, enquanto o índice
geral foi de 9,33%, o de energia elétrica
foi de 21,31% e o de comunicação,
18,69% (Fonte: IBGE. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/hoje/estatísticas/indicadores/preços/inpc_ipca.
Acesso: 28.03.2005, 18h15m).
26.Estudo feito pela consultoria Economática
revelou que as cinco maiores empresas do setor
de alimentos aumentaram sua fatia no faturamento
total de 78,2% em 1994 para 94% em 2002; de
57% para 67,1% na indústria química;
de 68,9% para 84,5% no setor de fios e tecidos;
de 91% para 98,9% no de eletrodomésticos,
sendo que só uma empresa, a Multibrás,
aumentou seu peso de 48,2% para 59,6%. No caso
da mineração, excluídos
petróleo e gás, a Vale do Rio
Doce aumentou sua parcela de 80,4% para 85,8%.
27.Segundo estudo do McKinsey Global Institute,
as aplicações no sistema financeiro
mundial atingiram US$ 118 trilhões em
2003, um montante três vezes superior
ao do PIB mundial (Cf. “Aplicações
financeiras são três vezes maior
que PIB mundial”. Fonte: Reuters Investor.
Disponível em: http://br.invertia.com./noticias/noticia.aspx.
Acesso: 02.03.2005, 14h23m).
28.O estudo foi feito quando a taxa selic estava
em 18,75%; com o aumento em março para
19,25%, a taxa real no Brasil subiu para 12,7%.
29.Fonte: GRC Visão. Extraído
de Folha de S.Paulo, 16.03.2005, p. B7.
30.A enorme volatilidade do câmbio, como
ocorreu no mês de março deste ano,
quando o dólar subiu de R$ 2,59 para
R$ 2,766 e depois baixou para R$ 2,668, não
nega o fato de que, se tomarmos um período
maior (por exemplo, os últimos seis meses,
a partir do retorno do aumento da taxa de juros),
a correção cambial tem sido negativa.
31.Na década de 1990, ocorreu o maior
movimento de fusões e aquisições
da história recente do capitalismo: o
conjunto das transações para fusões
subiu de US$ 138 bilhões em 1991 (2%
do PIB) para US$ 957 bilhões em 1997
(12% do PIB). E foi precisamente na área
financeira em que o processo de centralização
do capital foi mais intenso: na principal praça
financeira do mundo, os EUA, de 1996 até
abril de 1998, das nove maiores fusões
ocorridas, três se realizaram no setor
financeiro (Cf. Souza, Nilson Araújo
de. Ascensão e queda do império
americano. São Paulo, Ed. CPC-UMES/Mandacaru,
2001, p. 128).
32.Folha de S.Paulo, 17.02.2005.
33.Na primeira estimativa divulgada pelo BC,
o índice era de 4,06% do PIB, mas, posteriormente,
com a reestimativa para cima do crescimento
do PIB, a cifra baixou para 3,89%.
34.Fonte: Banco Central do Brasil.
35.Diz o documento: “A importância
do ajuste fiscal de longo prazo não pode
ser subestimada. Caso o governo brasileiro tivesse
realizado um superávit primário
de 3,5% do PIB ao ano durante os últimos
oito anos, a relação dívida/PIB
hoje seria a metade da observada, mantidas todas
as demais condições, inclusive
as políticas cambial e monetária
adotadas durante o período 1995-1998”
(Cf. Ministério da Fazenda. Política
econômica e reformas estruturais. Brasília,
abr. 2003, p. 8).
36.Usamos “investidores” entre aspas
porque eles não realizam investimento
algum. Investimento, no conceito keynesiano,
significa canalização da poupança
para o aumento da capacidade produtiva da economia.
Esses a quem chamam de investidores não
destinam um centavo ao aumento da capacidade
produtiva; não passam de rentistas que
aplicam recursos próprios ou de terceiros
no mercado financeiro, sobretudo em títulos
da dívida pública; o termo mais
correto para designá-los é o de
que o senso comum já se apropriou: especulador.
37.Ministério da Fazenda. Política
econômica e reformas estruturais, cit.
38.A participação da carga tributária
no PIB caiu de 35,53% em 2002 para 34,88% em
2003 (fonte: Secretaria da Receita Federal.
Ver tabela 2). Essa queda se deveu, seguramente,
ao encolhimento do PIB: quando entram em dificuldades,
uma das primeiras atitudes das empresas é
sonegar impostos.
39.Em termos reais, os investimentos do governo
federal despencaram 44,39% em 2003, depois de
haverem caído 35,97% no ano anterior
(Ministério do Planejamento, Orçamento
e Gestão. Disponível em: http:/www.planejamento.gov.br.
Acesso em: 16 mar. 2004. Extraído de:
Dathein, Ricardo. Governo Lula: análise
crítica dos resultados, das perspectivas
e das alternativas às políticas
econômicas adotadas, p. 2, tabela 1).
Também não escaparam do facão
determinados gastos na área social. Foi
o que ocorreu, por exemplo, com os gastos em
saúde: os gastos públicos per
capita com saúde, que já vinham
caindo desde 1997, diminuíram de R$ 177,4
em 2002 para R$ 158,9 em 2003 (valores atualizados
para dezembro de 2003), refletindo uma queda
real de 10,42%. Assim, sua participação
no PIB baixou de 1,92% no primeiro ano para
1,82% no segundo (Cf. Provedello, Maysa. “Fome
de dinheiro”. Revista Desafios do desenvolvimento,
no. 7, fev. 2005, ano 2, p. 24, tabela).
40.Fonte: Secretaria da Receita Federal, Ministério
da Fazenda (ver tabela 2). Enquanto isso, estudo
preliminar feito por um grupo de economistas
da Unicamp, FGV e UFRJ indicou que a carga tributária
aumentou de 34,8% do PIB em 2003 para 36,7%
em 2004. A Unafisco, por sua vez, calculou em
36,06^% e o IBPT, em 36,74%.
41.É um conceito mais amplo, mas não
necessariamente mais preciso, na medida em que,
para se chegar à dívida líquida,
descontam-se da dívida bruta valores
que não necessariamente são ativos
ou créditos do governo, como, por exemplo,
as reservas cambiais, que às vezes resultam
de dólares trazidos por especuladores
e podem retornar a qualquer momento; em outros
casos, descontam-se créditos que o governo
federal detém junto a empresas, estados
ou municípios, que nunca irá receber
e por isso mesmo são chamados de “créditos
podres”.
42.Fonte: Banco Central do Brasil.
43.Esse crescimento se deveu sobretudo à
elevação da taxa selic entre fins
de 2002 e começo de 2003. Em conseqüência,
a participação dos juros nominais
do setor público no PIB subiu de 8,47%
em 2002 para 9,49% em 2003; assim, apesar do
superávit primário de 4,32% do
PIB nesse último ano, o déficit
nominal foi de 5,16%%, exigindo a emissão
de mais títulos para cobri-lo (Banco
Central. Disponível em: http://www.bcb.gov.br.
Acesso em: 14 mar. 2004, p. 5, tabela 2)
44.Ao contrário, ele até acelerou:
cresceu R$ 32 bilhões no primeiro ano
e R$ 44 bilhões no segundo.
45.Estudo feito pela Fundação
Centro de Estudos de Comércio Exterior
(FUNCEX) em novembro de 2004 mostra que, diante
de uma cesta de 13 moedas de outros países,
em outubro daquele ano o real estava 2,1% mais
alto do que em dezembro de 1998. Só ao
longo de 2004 o real acumulou uma valorização
de 12,6% em relação a essa cesta
de moedas. E vejam que em outubro de 2004 o
dólar ainda não havia chegado
aos R$ 2,60 de fevereiro de 2005.
46.Em dezembro de 2002, US$ 1 custava R$ 3,53.
Se fizermos incidir sobre essa taxa de câmbio
a inflação brasileira (17,92%
pelo IPCA) menos a inflação estadunidense
(de 5,24% pelo seu IPC), a taxa deveria ser
de R$ 3,98 em dezembro de 2004. No entanto,
chegamos neste começo de ano a R$ 2,60
– portanto, uma desvalorização
real do dólar em 34,5%.
47.O déficit comercial dos EUA em 2004
atingiu a cifra recorde de US$ 617,7 bilhões,
superior em 24,4% ao déficit registrado
em 2003 (cf. “Déficit comercial
dos EUA atinge recorde de US$ 617,7 bi em 2004”.
In Folha Online - Dinheiro. Acesso: 10/02/2005,
12h29m).
48.Cf. Cardoso, Cíntia. “Real é
moeda com a maior volatilidade mundial”.
In Folha de S.Paulo, 11.02.2005, p. B5.
49.Cf. UOL. “Relatório do FMI elogia
avanços econômicos do Brasil”.
Disponível em: http://noticias.uol.com.br/ultinot.
Acesso: 25.03.2005, 18hl9m.
50.Em 1997, um ano antes do estouro do Real,
as importações haviam alcançado
U$ 61,35 bilhões, maior nível
atingido até então (Fonte: Banco
Central do Brasil).
51.Ibid.
52.Na opinião do economista da Fundação
Centro de Estudos de Comércio Exterior
(FUNCEX), Fernando Ribeiro, o impacto da valorização
do real sobre as exportações é
retardado, na medida em que a maioria das empresas
fecha contratos com prazos de seis meses a dois
anos, utilizando uma cotação do
dólar preestabelecida – no caso
recente do Brasil, mais elevada do que a atual.
É importante registrar que a aceleração
da valorização do real ocorreu,
como vimos na tabela anterior, a partir de setembro
de 2004 – portanto, seus efeitos ainda
não se fizeram sentir nas vendas externas.
53.Pela mudança de metodologia, o IBGE
não possui dados comparáveis para
o conjunto de cada um desses anos.
54.Por sua vez, o poder de compra dos assalariados
caiu 4,8% (Fonte: SEP. Convênio SEADE-DIEESE.
Pesquisa de Emprego e Desemprego. Disponível
em: http://www.seade.gov.br/cig-bin. Acesso:
14.03.2005).
55.Que, como vimos, têm sido, em sua maioria,
arrematados pela própria Petrobrás.
56.Não que a área econômica
do governo não queira fazê-lo.
Se dependesse dela, essa política teria
continuado. Demonstração disso
é o documento do Ministério da
Fazenda sobre “reformas microeconômicas”,
expedido ao final de dezembro de 2004 (Ministério
da Fazenda. Reformas microeconômicas e
crescimento de longo prazo. Brasília,
dez. 2004), no qual propõe privativar
o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). Logo
depois, em janeiro, o ministro da Fazenda, Antônio
Palocci, aproveitou o Fórum Econômico
Mundial, em Davos, para oferecer o IRB aos financistas
internacionais.
57.Fonte: FGV. Conjuntura Econômica.
58.Fonte: IBGE.
59.A taxa de rentabilidade sobre o patrimônio
das 500 maiores empresas subiu de 3,2% em 2002
(Cf. “Melhores e maiores”, revista
Exame, 2003) para 12,4% em 2003 (Cf. “Melhores
e maiores”, revista Exame, 2004).
60.Referimo-nos à demanda interna. Segundo
o IBGE, o consumo das famílias caiu 3,3%
em termos reais em 2003 e as vendas no comércio
varejista, 3,68% (terceiro ano consecutivo de
queda). Até o consumo de alimentos, que
costuma ser o último a cair, reduziu-se
em 4% de outubro de 2002 a outubro de 2003
61.O montante devido dos juros aumentou de R$
114 bilhões em 2002 para R$ 145,2 bilhões
em 2003 (Fonte: Banco Central do Brasil).
62.Ver nota 39.
63.Fonte: IBGE. Há cálculos que
indicam uma taxa menor ainda: 17,1% (Cf. Dathein,
Ricardo, op. cit., p. 2, tabela 1). O próprio
IBGE chegou a estimar uma taxa de 17,8%.
64.Fonte: IBGE.
65.Fonte: SEADE/DIEESE.
66.Fonte: IBGE.
67.Ver Ministério da Fazenda. Política
econômica e reformas estruturais. Brasília,
abr. 2003.
68.Cf. Ministério do Planejamento, Orçamento
e Gestão. Plano Brasil de todos: participação
e inclusão. Brasília, mai. 2003.
Recorde-se que, apesar dessa postura formalmente
distinta da que defendia a equipe do Ministério
da Fazenda, a equipe do Ministério do
Planejamento terminou, na prática, moldando-se
à visão da Fazenda.
69.Estamos, obviamente, nos referindo aos aspectos
monetário, fiscal e cambial da política
macroeconômica e às chamadas reformas
estruturais. Já vimos que, em questões
também estruturais, como a política
de comércio exterior (derivada da política
externa) e a política relativa às
estatais, houve importantes mudanças.
70.IBGE. Pesquisa industrial mensal –
produção física –
Brasil. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia.
Acesso: 10.01.05.
71.Fonte: FIESP.
72.A produção agrícola
sofreu queda no ano: a safra de grãos,
prejudicada por intempéries no sul, caiu
3,68%, passando de 123,63 milhões de
toneladas para 119,10 (IBGE). Ainda assim, o
valor real da produção do conjunto
da agropecuária subiu 5,3% no ano, em
grande medida alavancado pela melhoria dos preços
internacionais dos produtos básicos (Cf.
“PIB cresce 5,2% em 2004, melhor taxa
em uma década”. Uol – Última
Notícias. Disponível em:: http://notícias.uol.com.br/economia/ultnot/reuters.
Acesso: 01.03.2005, 10h38m).
73.Cf. “PIB cresce 5,2% em 2004, melhor
taxa em uma década”. In: UOL –
Últimas Notícias. Disponível
em: http://noticias.uol.com.br/economia/ultinot/reuters.
Acesso: 01.03.2005, 10h38m.
74.Depois do pico de 1999, havia caído
em 2000, bafejado por um efêmero crescimento
do PIB.
75.IBGE. “Pesquisa industrial mensal de
emprego e salário”. Disponível
em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia.
Acesso: 17.01.2005, p. 1. Apesar de baixo, esse
foi o maior crescimento do emprego industrial
desde 1989.
76.De 1930 a 1980, foi a economia que mais cresceu
no mundo capitalista, a uma taxa média
anual em torno de 7%, sendo que, nos momentos
de expansão acelerada, experimentou taxas
anuais acima de 10%.
77.A média anual de crescimento do PIB
na década de 80 foi de 2,9% e na de 90,
1,9%; se considerarmos os últimos 10
anos, incluindo 2004, a taxa foi de 2,4% (cf.
“PIB cresce 5,2%...”).
78.Isso não significa iludir-se com crescimento
sem crise na economia capitalista, mas analisar
se ocorrerá de forma completa a primeira
fase do ciclo capitalista: reanimação,
aceleração e auge. Isso só
ocorre quando, esgotada a capacidade ociosa
gerada durante a crise, o PIB segue crescendo,
e o PIB só continua crescendo nessas
circunstâncias quando durante a fase de
reanimação (ou recuperação)
começam a ser realizados os investimentos
indispensáveis ao aumento da capacidade
produtiva.
79.Fonte: IBGE.
80.Fonte: Banco Central.
81.Fonte: FIESP.
82.IBGE. Pesquisa industrial mensal –
produção física –
Brasil, cit., p. 3.
83.Ibid.
84.Fonte: IBGE.
85.Fonte: SEADE/DIEESE.
86.Uma outra pesquisa da CNI, adotando outro
critério, indicava um nível de
16,9% de capacidade ociosa no fechamento do
ano (cf. “Emprego e vendas da indústria
quebram recorde histórico”. In
Reuters Investor. Disponível em: http://www.br.invertia.com..
Acesso: 12.02.2005).
87.Fonte: SERASA.
88.De acordo com levantamento do FMI, as exportações
mundiais, que haviam caído 4,2% em 2001
e crescido 4,5% em 2002, subiram 16,5% em 2003,
com previsão (feita em setembro de 2004)
de crescimento de 18,3% em 2004 (Cf. MDIC. “Evolução
do comércio exterior brasileiro –
1950 a 2005 (janeiro)”. Dados elaborados
por SECEX/DEPLA/MDIC. Disponível em:
http://www.desenvolvimento.gov.br./arquivo/secex/evocoxtbrasil.
Acesso: 21.01.2005, 10h15m).
89.Ministério da Fazenda. Reformas microeconômicas
e crescimento de longo prazo. Brasília,
dez. 2004, p. 21.
90.Cf. ”Emprego e vendas na indústria....
91.IBGE. Pesquisa industrial mensal de emprego
e salário. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia.
Acesso: 17.01.2005, p. 4.
92.Fonte: IBGE. Pelo levantamento da CNI, o
emprego industrial cresceu 3,49% no ano (Fonte:
CNI).
93.Cf. “Brasileiro compra mais, e comércio
cresce pela 1ª vez no século”.
Fonte: Investnews. Disponível em: http:/www.br.invertia.com./noticias/noticia.
Acesso: 17.02.2005, 10h09m
94.Fonte: FECOMÉRCIO.
95.IBGE. Pesquisa industrial mensal –
produção física –
Brasil. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia.
Acesso: 10.01.2005, p. 1.
96.Cf. “Brasileiro compra mais...”,
p. 1.
97.Levantamento realizado pelo Instituto de
Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI),
com base em dados coletados pelo IBGE (Cf. Brandão
Junior, Nilson. “Setores que mais empregam
não registram aumento de contratações”.
O Estado de S.Paulo, 27.02.2005, p. B1)
98.Considerando os 11 primeiros meses do ano,
o crescimento das vendas no comércio
varejista de eletrodomésticos no país
foi de 22,4% (IBGE), tendo sido de 18% na região
metropolitana de São Paulo para o conjunto
do ano; se levarmos em conta o setor de eletrodomésticos
e móveis, o crescimento das vendas, conforme
apurado pelo IBGE, foi de 26,37% no conjunto
do ano e o de veículos, 17,8% (Cf. “Brasileiro
compra mais...”).
99.Vimos que a produção de automóveis
e de bens de capital, que também dependem
de financiamento, teve um crescimento bastante
elevado, mas parte significativa desse aumento
destinou-se ao mercado externo (cf. IBGE. Política
industrial mensal...., cit., p. 3).
100.Os prazos usuais, que antes eram de 6 meses,
aumentaram para 12 e já chegam a 18 meses.
101.De acordo com levantamento da ANEFAC, em
janeiro de 2004, a taxa média mensal
dos juros no crediário era de 6,16%,
a partir de quando começou a baixar até
atingir 6% em setembro; daí em diante,
voltou a subir até alcançar 6,06%
em dezembro de 2004 e 6,10% em fevereiro de
2005, quando indicou um acumulado em 12 meses
de 103,51%, o maior índice nos últimos
dois meses (Fonte: ANEFAC – Associação
Nacional dos Executivos de Finanças,
Administração e Contabilidade.
Disponível em: http://www.anefac.com.br.
Acesso: 13.03.2005, 13h30m). O levantamento
do PROCON-SP indica a mesma tendência:
a taxa mensal de juros no empréstimo
pessoal inaugurou janeiro de 2004 em 5,37% mensais,
tendo caído para 5,14% em setembro; cresceu
daí em diante, até atingir 5,22%
em dezembro (Fonte: PROCON-SP. Extraído
de Folha Online Dinheiro. Disponível
em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro.
Acesso: 28.12.04, 13h07m).
102.Em 2004, houve um crescimento nominal de
21% no volume de crédito ao consumidor
(fonte: Banco Central. Cf. Travaglini, Fernando.
“Juro alto estanca o volume de crédito”.
DCI, 17.02.2005, p. A-13). Deflacionado pelo
IPCA, isso significa um aumento real de 12,4%.
103.IBGE. Pesquisa Mensal de Emprego.
104.Segundo a equipe da Fazenda, “a política
de equilíbrio fiscal [que, na sua visão,
é o eixo de sua política macroeconômica]
foi fundamental não apenas para a forte
retomada da atividade econômica como também
é uma das condições necessárias
para que o Brasil inicie uma trajetória
sustentável de crescimento de longo prazo”
(cf. Ministério da Fazenda. Reformas
microeconômicas e crescimento de longo
prazo. Brasília, dez. 2004, p. 22).
105.No montante de US$ 18,66 bilhões
(fonte: Banco Central)
106.No total de US$ 5,2 bilhões (Ibid.).
As transações correntes apresentaram
um saldo positivo de US$ 4 bilhões porque
contaram com um superávit de US$ 2,87
bilhões nas transferências unilaterais
(Ibid.).
107.“Projeções macroeconômicas
em foco, 13.01.2005”. Fonte: BACEN/IBGE.
Elaboração: GRC-Visão.
Disponível em: http://www.globalinvest.com.br./relatórios.
Acesso: 22.02.2005, 12h40m. O BC, ao decidir
excluir da dívida externa US$ 18,8 bilhões,
que correspondiam ao montante dos empréstimos
intra-empresas (estrangeiras) em dezembro de
2004 e que passaram a ser “enquadrados”
como investimento direto estrangeiro, considera
que a dívida externa baixou de US$ 214,9
bilhões para US$ 201,4 bilhões,
numa redução de US$ 13,5 bilhões
(Fonte: Invertia. “Dívida externa
cai e fecha 2004 em US$ 201 bilhões”.
Disponível em: http://br.invertia.com/noticias/noticia.
Acesso: 21.03.2005, 13h32m).
108.Em fevereiro de 2005, a conta de capital
e financeira do balanço de pagamentos
apresentou saldo positivo de US$ 4,4 bilhões,
praticamente dobrando a entrada do mês
anterior.
109.Fonte: Banco Central.
110.Em 31 de dezembro de 2005, as reservas totais,
estavam em US$ 52,9 bilhões, o que, descontando
a parte do FMI, davam um montante de US$ 27,5
bilhões de reservas líquidas,
suficientes para cobrir apenas 5,5 meses de
importação, ao nível de
2004. A aceleração das compras
de dólares no começo de 2005 ajudou
a fortalecer as reservas cambiais, levando as
reservas totais para US$ 59 bilhões no
final de fevereiro e as líquidas para
US$ 31,4 bilhões. Houve um aumento de
seu valor absoluto, mas, se considerarmos agora
o nível das compras externas projetadas
(MDIC) para 2005, verificaremos que esse nível
de reserva só garante 4,5 meses de importações.
Lembremo-nos de que as reservas chinesas bancam
mais de um ano de importações.
Cabe o registro de que, como esse aumento das
reservas brasileiras não foi obtido através
dos saldos da balança comercial –
os quais foram usados para pagar os encargos
do passivo externo -, mas da compra de dólares
junto a especuladores, em nada contribui para
diminuir a vulnerabilidade externa, pois, se
os especuladores decidirem ir embora, voltam
a trocar reais por dólares e a debandar
com as reservas cambiais (Fonte: Banco Central).
111.Cf. Folha Online – Dinheiro, acesso
em 03.02.2005, 09h20m.
112.O próprio IPEA, órgão
de pesquisa do Ministério do Planejamento,
em sua previsão de março de 2005,
projetou um crescimento de 10,2% das exportações
neste ano, contra 32% em 2004. Sua previsão
para o valor médio do dólar no
ano é de R$ 2,71 (Cf. “Ipea reduz
a 3,5% previsão de alta do PIB”.
Cf. Folha de S.Paulo, 09.03.2005, p. B1).
113.Fonte: Confederação Nacional
da Indústria (CNI).
114.Cf. Folha de S.Paulo, 02.02.2005, p. B3.
115.Cardoso, Cíntia. “Real é
moeda.....”, cit., p. B5.
116.Ibid. Fonte: FIESP, com dados do FMI.
117.Ministério da Fazenda. Reformas microeconômicas
e crescimento de longo prazo. Brasília,
dez. 2004, p. 22.
118.Em outra pesquisa, usando outra metodologia,
a mesma CNI mostra que o uso da capacidade instalada
do conjunto da indústria fechou o ano
de 2004 em 83,1% (Cf. “Emprego e vendas...”,
cit.), havendo sido de 80,8% na média
do ano (Cf. “Juro alto reduz atividade
industrial, diz CNI”. Folha de S.Paulo,
09.03.2005, p. B3).
119.Cf. IBGE. Pesquisa industrial..., cit.,
p. 1
120.Ibid
121.Fonte: IEDI, com base em dados do IBGE.
122.Fonte: CNI.
123.Ibid.
124.Ibid.
125.“Atividade industrial avança
no ano e recua no mês”. Disponível
em: http://br.invertia.com/noticias/noticia.
Acesso: 25.02.2005, 11h44m.
126.Fonte: DIEESE/SEADE. “Desemprego e
renda recuam em janeiro em SP”. Disponível
em:: http://notícias.uol.com.br/economia/ultnot/reuters
Acesso: 23.02.2005, 12h11m.
127.Fonte: DIEESE/SEADE.
128.Cf. “PIB cresce 5,2%...”.
129.Cf. Folha Online - Dinheiro, acesso em 14.01.2005,
10h26m.
130.Cf. IBGE. “Pesquisa Industrial Mensal
de Emprego e Salário”. Disponível
em: http;//www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia.
Acesso: 17.02.2005.
131.Cf. Futema, Fabiana. “ABC e interior
puxam alta do emprego industrial em São
Paulo”. In Folha de S.Paulo, 11.02.2005,
p. B3.
132.Cf. “Ipea reduz a 3,5% previsão
de alta do PIB”. Folha de S.Paulo, 09.03.2005,
p. B1.
Nota
do Editor
Na próxima edição, estará
disponível a parte final deste ensaio.
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R E S E N H A S & S I
N O P S E S |
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Chutando
a Escada
Por
*Raimundo Ferreira de Vasconcelos
Chutando a escada foi o título escolhido
por Há-Joon Chang para seu atualizado e
oportuno livro que tem ainda por subtítulo,
a estratégia do desenvolvimento em perspectiva
histórica. Ao longo de suas 266 páginas,
o autor nos estimula a fugir do pensamento único,
encetado pelo mainstream econômico, capitaneado
pelas instituições de Bretton Woods,
e que corrobora a idéia do fazes o que
digo, mas evitas o que fiz(emos) em busca do desenvolvimento.
Tal “chute na escada” refere-se a
uma metáfora empregada pelo economista
alemão, Friedrich List, em sua obra de
cunho nacionalista intitulada de, O Sistema Nacional
de Economia Política (1841), na qual já
identificava o protecionismo imanente às
políticas comercial e industrial, praticadas
pelos principais países ocidentais, à
época. O próprio Chang chama atenção
para as críticas de List debruçadas
sobre o então berço do liberalismo,
representado pelos Estados Unidos e Inglaterra,
ao denotar que esta última fora a pioneira
a aperfeiçoar os argumentos em defesa da
indústria infante ou nascente.
Ancorado na evolução histórica
dos países ricos, além de amplas
evidências estatísticas e fontes
bibliográficas, Chang nos mostra o quão
diferente é o discurso da prática,
quando visualizamos os caminhos trilhados pelas
nações do Norte, rumo ao desenvolvimento,
denotando ainda, incoerências no discurso
“impositivo” destas mesmas nações,
quando se referem às políticas e
instituições a serem implementadas
pelas nações do Sul na busca da
riqueza e do desenvolvimento.
Ao longo dos quatro capítulos, focados
no século XIX e início do séc.
XX, mas dilatando-se o olhar - a montante e a
jusante - em certos momentos, seus leitores dar-se-ão
conta de que o mundo rico de hoje já foi
muito protecionista, intervencionista (via Estado),
pouco ou nada democrático; utilizou trabalho
infantil (crianças entre nove e catorze
anos de idade, trabalhavam de 12 a 16 horas diárias);
desrespeitou a lei de patentes e os direitos autorais;
seu sistema judiciário e os bancos centrais
nada tinham de independência política;
suas instituições eram frágeis
e até menos evoluídas quando comparadas
às suas congêneres nos países
em estágios semelhantes de desenvolvimento.
O primeiro capítulo de Chutando a Escada
introduz o leitor ao tema, ao enfocar as “boas
políticas”, e esse qualitativo quer
dizer afinadas com o Consenso de Washington, e
as “boas instituições”,
corroboradas pelo mercado, democracia, judiciário
e banco central politicamente independentes, as
quais subsistem no mundo desenvolvido, sobretudo
no de origem anglo-saxão. Estas “boas”
políticas e instituições
serão conducentes - segundo o establishment
- ao desenvolvimento econômico ao serem
implementadas pelo mundo subdesenvolvido.
Dito de outro modo, na atualidade perdura a idéia
de que tudo aquilo que seja benéfico aos
EUA também o será para as demais
nações. O receituário é
bem conhecido: livre mercado, democracia, reformas
fiscais, trabalhista, previdenciária, independência
do banco central, privatizações,
reduções do custo-país e
do custo de conflitos, a exemplo de reformulações
na lei de falências etc. E nessa tentativa
forçada de se igualar os desiguais, evidentemente
há erros tanto de diagnóstico quanto
de prognóstico e o que é pior, a
indicação de medicamento único
para males tão distintos.
O autor prossegue com algumas questões
de natureza metodológica, ao ressaltar
a relevância do método histórico,
de raciocínio indutivo, para se analisar
o desenvolvimento econômico, mas lamenta-se
pelo fato de tal raciocínio ter sido arrestado
pelo pensamento neoclássico, o qual também
rejeita o referido aparato analítico, tornando,
portanto, atemporal as discussões acerca
do desenvolvimento. E o desfecho deste primeiro
capítulo remete a um detalhamento dos três
outros que compõem a obra.
No capítulo segundo, o mais longo de todos,
o autor nos remete à perspectiva histórica
das políticas industrial, comercial e tecnológica
praticadas pela Grã-Bretanha, Estados Unidos,
Alemanha, França, Suécia, Bélgica,
Holanda, Suíça, Japão, Coréia
e Taiwan.
Embora a Alemanha seja visualizada como o nascedouro
das práticas protecionistas à indústria
nascente, verificamos que esse protecionismo assumiu
maior relevância para a indústria
infante de Estados Unidos e Grã-Bretanha.
Chama atenção, também, o
fato de países como a Suíça
e a Holanda terem adotado o reconhecimento de
patentes apenas em 1907 e 1912, respectivamente.
Não foi à toa que o pequeno território
suíço alcançou notável
desenvolvimento na indústria químico-farmacêutica
(pirateando aos alemães), além de
extraordinário sucesso na indústria
alimentícia, e a Nestlé é
um bom exemplo disso, através de investimentos
externos diretos, atraídos pelo não
reconhecimento de patentes.
Também é digno de nota que, no século
XIX, o livre comércio tenha sido imposto
por países desenvolvidos – papel
protagonizado pela Grã-Bretanha –
aos países subdesenvolvidos e com pretensões
de se industrializarem, os quais foram obrigados
a assinar os denominados “tratados desiguais”,
e que consistiam na adoção de 5%
como teto tarifário.
Na América Latina, o Brasil foi o primeiro
a se submeter aos referidos tratados, em 1810,
e portanto, logo após a tão decantada
abertura de nossos portos, em 1808. De tal submissão
também foram vítimas a China, o
Sião (atual Tailândia), a Pérsia
(atual Irã), o Império Otomano (atual
Turquia) e o Japão que, com o mesmo ferro,
feriu a Coréia, em 1876.
Já o capítulo terceiro enfoca a
perspectiva histórica da “boa governança”
proporcionada pelas instituições.
E mesmo reconhecendo a ausência consensual
na correlação direta entre desenvolvimento
econômico e progresso institucional, o autor
traça um perfil institucional de países
hoje desenvolvidos à época em que
ainda estavam na busca do desenvolvimento, enfatizando
primordialmente instituições como
a democracia, a burocracia e o judiciário,
os direitos de propriedade, a governança
empresarial, as instituições financeiras
públicas e privadas, além das instituições
previdenciárias e trabalhistas.
Pelo comparativo do processo de desenvolvimento
institucional nos países desenvolvidos
com o dos atuais países em desenvolvimento,
o autor conclui que estes, em muitos casos, apresentam
um padrão superior aos dos primeiros. Para
citar apenas o exemplo da democracia, vejamos
a época de adoção do sufrágio
universal em alguns países: Alemanha, França
e Itália (1946); Japão (1952); EUA
(1965); Portugal e Canadá (1970); Suíça
(1971); Índia, Paquistão, Bangladesh,
México, Venezuela e Argentina (1947); Peru
(1956); Colômbia (1957); Brasil (1977).
O autor contribui aqui para aguçar o debate
sobre a adoção do sufrágio
universal pelo Brasil ao apontar como demarcação
o ano de 1977. Na realidade, há quem admita
isso já em 1894, quando da primeira eleição
republicana em nosso país; já outros
apontam para o ano de 1933, quando se concedeu
à mulher brasileira o direito de votar,
mas permaneceram excluídos desse direito
tanto os analfabetos quanto parte do estamento
militar. Decorrente disso, alguns analistas preferem
citar o ano de 1988 como sendo àquele em
que, de fato, o Brasil adota o sufrágio
universal. E sobre este último ponto de
vista comunga o autor desta resenha, não
sem antes sublinhar que democracia completa, no
meu modo de entender, não é sinônimo
de sufrágio universal, pois não
basta a democracia política se estão
ausentes as democracias econômica e social.
No quarto e último capítulo, batizado
de lições para o presente, o autor
reafirma o argumento de que os países desenvolvidos
praticaram exatamente o oposto do receituário
hoje indicado aos países em desenvolvimento.
Ele na verdade reedifica historicamente a escada
protecionista que as nações avançadas
preferem esquecer, mas o que aos olhos escapa,
a memória alcança.
Uma das fragilidades do texto, admitida pelo próprio
autor, reside na utilização da renda
per capita (com suas reconhecidas limitações)
para aferir estágios de desenvolvimento;
situação semelhante ocorre quando
o autor correlaciona positivamente o progresso
institucional com o desenvolvimento econômico.
E uma outra debilidade, desta feita não
assumida, encontra-se no reducionismo do sufrágio
universal como medidor do estado democrático.
Não obstante, nenhuma delas e nem mesmo
o seu conjunto é capaz de comprometer o
texto em sua amplitude e relevância, nem
o objetivo a que se propôs seu autor, qual
seja, o de provar com dados e argumentos convincentes
que os países desenvolvidos, de fato, chutaram
a escada (e continuam a fazê-lo) pela qual
atingiram o topo do desenvolvimento, além
de reafirmar a importância do método
histórico, concreto, indutivo, na análise
da trajetória desenvolvimentista.
Trata-se pois de uma obra merecedora da atenção
de acadêmicos, police makers e estudiosos
em geral dos processos de desenvolvimento, e em
particular, daqueles que se inquietam com o atual
pensamento único, o qual tenta igualar
os desiguais, além de sugerir medidas para
acelerar o desenvolvimento quando antes o retardam.
*. Economista, doutor
em sociologia econômica e mestre em economia
política.
Sobre
a obra:
Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento
em perspectiva histórica. São Paulo:
Editora UNESP, 2004.
Título original: Kicking Away the Ladder
– development
Strategy in historical perspective.
Tradução de Luiz Antônio Oliveira
de Araújo.
Formato: 14 x 21 cm; 266 pp. R$39,00
Sobre
o autor:
Ha-Joon Chang é diretor-assistente de estudos
sobre o desenvolvimento na University of Cambridge.
Foi consultor da ONU, do Banco Mundial e do Asian
Development Bank. Publicou vários artigos
sobre a teoria do Estado, do mercado e das instituições,
dentre outros sobre as economias em transição.
(RFdV).
|
|
E
N E R I
Transcorrerá
de 12 a 15 de maio próximo, na atraente
cidade de Belo Horizonte / MG, a 10ª edição
do Encontro Nacional dos Estudantes de Relações
Internacionais (ENERI), ambientado no Centro de
Convenções (Minascentro), o qual
abrigará ilustres convidados que proferirão
palestras para os internacionalistas presentes
ao evento.
Em paralelo ao ENERI transcorrerá, de 13
a 15 de maio, o ENEJ-RI – Encontro Nacional
das Empresas Juniores de RI.
Por sua vez, o IV ENEPRI também ocorrerá
de 13 a 15 de maio, reunindo profissionais e pesquisadores
de relações internacionais. A Federação
das Indústrias Mineiras será a sede
do encontro, organizado em seis grupos de trabalho,
e contará com o apoio da OEA, CEBRI, Fundação
Konrad Adenauer, dentre outras instituições.
FEJESP
prestigia Febasp Jr – RI
Os diretores e conselheiros administrativos da
Empresa Júnior de Relações
Internacionais do Unicentro Belas Artes foram
diplomados dia 17 de março p.p., em evento
que contou com o apoio da FEJESP – Federação
das Empresas Juniores do Estado de São
Paulo, representada pela diretora-presidente,
Joice Toyota, e pelo diretor-administrativo, Ricardo
Pacheco.
Após a cerimônia de diplomação,
os mencionados diretores promoveram palestra abordando
a relevância, implantação
e mecanismos de funcionamento de uma empresa júnior.
Confiram a seguir alguns registros fotográficos
do evento.
(RFdV)
Site da FEBASP-JR
www.belasartes.br/febaspjr-ri
|
| U
m a q u e s t ã o d e m
é t o d o |
|
Somos
todos ignorantes
Como você reagiria ao ser acusado de ignorante?
O mais provável seria não aceitar
essa adjetivação. Não concordaria,
em princípio, mas no calor da discussão,
esbravejaria, espumaria de raiva como naquele
“mal secreto da cólera que espuma
a dor que mora n’alma...”, ficaria
vermelho e continuaria, veementemente, a negar
a acusação.
Embora seja essa a reação esboçada
pela maioria das pessoas, senão todas,
nosso propósito com esta comunicação
é demonstrar que somos todos ignorantes,
uns mais outros menos, mas não deixamos
de sê-lo em absoluto, conforme denotará
o transcorrer do texto até suas últimas
frases
Prega o senso comum que toda regra tem lá
sua exceção e talvez aqui resida
o grito de misericórdia dos que pretendem
escapar da ignorância. De nossa parte, lamentamos
antecipar, nem isso dissipará a questão,
afinal, trata-se não de uma regra, mas
de uma adjetivação. Enfim, continuaremos
ignorantes.
No traslado do conhecimento, vale dizer, do senso
comum para a ciência, e portanto, apoiando-nos
em terreno mais firme, aonde existem regras, critérios,
métodos, teorias, leis e hipóteses,
e estas últimas são passíveis
de provas, arriscando-se à refutação,
para além da comprovação,
construiremos algumas premissas na intenção
de escaparmos da ignorância.
Diria o acusado em sua autodefesa, eu não
sou ignorante, pois jamais cometi alguma estupidez,
algum ato de violência contra quem quer
que seja, nem tampouco agredi vivente algum, seja
ele racional ou irracional.
Neste momento, ao deixarmos o ônus da prova
para o acusado, a confusão aumentou, pois
o mesmo levou a discussão para terreno
nada sólido ao desviar-se da acusação.
Por certo agiu inconscientemente sem se dar conta
de que o estúpido, o violento também
é ignorante, mas o inverso nem sempre é
verdadeiro.
Continuamos então ignorantes, mas elevemos
o nível da discussão, convidando
para o debate mais dois acusados e suas acusações
mútuas. O primeiro inicia sua exposição:
_ Vossa Senhoria habita na ignorância, pois
não enxerga o jogo de soma positiva presente
no comércio internacional; desconhece as
maravilhas do mercado (produtor, consumidor, trabalhista,
monetário, de divisas, de capitais, nacional,
internacional, global etc.) com sua auto-regulação,
seu equilíbrio no longo prazo; não
crê na harmonia de interesses e ainda se
recusa admitir que a economia une enquanto a política
divide os povos, as nações.
Por sua vez, o outro interlocutor assim se exprime:
_ Vossa Senhoria além de ignorante também
é cego, pois esse seu mercado me parece
bem próximo de uma crise de identidade,
assim como não contempla a existência
de pessoas, parecendo operar no vácuo,
desprovido até mesmo de uma moldura jurídica;
a meu ver, o comércio internacional está
mais para um jogo de soma zero e mesmo na ocorrência
de ganhos mútuos, por certo não
serão na mesma proporção;
quero ver essa harmonia de interesses acontecer
desprovida do uso da lei, emanada daquele que
detém o monopólio legítimo
da força; enfim, quero ver como seu mercado
reagirá à concorrência de
um competidor externo, mais avançado técnica
e financeiramente, e então, clamará
ou não por aquele monopolista a que me
referi há pouco e até mesmo pela
proteção divina?
Neste momento, e para o bem do diálogo
científico, convidamos alguém com
munição para acalmar os mais exaltados.
Valemo-nos de Habermas com seu Sprachethik (regras
de conversação), ao demarcar limites
para um diálogo civilizado: “Não
minta; preste atenção; não
burle; coopere; não grite; deixe que falem
os demais; seja imparcial; explique-se quando
perguntam; não recorra à violência
ou conspiração em auxílio
de suas idéias”.
Não obstante, lamentamos desapontar ao
leitor, pois esse Sprachethik também não
é a chave para escapar da ignorância,
a qual felizmente tem limites; ocorre no momento
em que o crepúsculo da ignorância
cumprimenta o alvorecer do conhecimento, pois
ignorância nada mais é do que a falta
de conhecimento. A propósito, você
sabe quem é o autor do soneto Mal Secreto,
aludido no primeiro parágrafo?
Nessa seara do conhecimento costumava se divertir
o saudoso antropólogo brasileiro, Darcy
Ribeiro, quando brincava de afirmar que um feirante
sabe muito mais que um doutor, na medida em que
o primeiro conhece um pouquinho de cada tema,
enquanto o segundo, conhece muito de um tema só.
Brincadeiras à parte, o fato é que
o conhecimento também é relativo;
logo, a ignorância não poderá
ser absoluta. Assim, há os mais e menos
sábios, ou se preferir, os mais e menos
ignorantes, porém ignorantes somos todos,
afinal ninguém sabe tudo. Incorre em auto-engano
quem afirma (ou pensa) saber tudo.
Esse tipo de auto-engano às vezes transparece
como ignorância dissimulada, tipificada
pelo interlocutor que intenta menosprezar as idéias
adversárias e/ou provenientes de outra
esfera do conhecimento a qual pouco conhece, a
exemplo do cientista político ignorante
em economia e do economista que desconhece a política.
Na realidade, ambas as esferas são mais
complementares que excludentes, afinal, espelham
as duas faces de uma mesma moeda, a sociedade.
Não obstante, mesmo entre os próprios
economistas ocorre ignorância dissimulada
quando o véu ideológico impede a
visualização/aceitação
de paradigmas concorrentes/alternativos.
E para encerrar essa nossa séria brincadeira,
lembramos daquele passeio na floresta em que um
especialista em botânica era guiado por
um caipira como se a ignorância iluminasse
a sabedoria. Havia umas duas horas que o botânico,
com pretensões exibicionistas, indagava
sobre o nome científico das plantas, e
diante do desconhecimento do caipira, ele exclamava:
_ quanta ignorância!
Demorou pouco e ambos se depararam diante de um
rio transbordante, o qual teria de ser atravessado
a nado. O botânico se apavora por não
saber nadar, quando o caipira vem em seu socorro,
dizendo: _ Posso não saber o nome das plantas,
mas afogado jamais morrerei; vejo que o doutor
conhece cada planta, embora se perca na floresta;
e como já o guiei até aqui, não
me custa transportá-lo no meu ombro à
outra margem do riacho.
Mas que mundo de contrários e de contraditórios.
Eis a dialética. E no balanço final
de contas, ainda somos todos um bocado ignorantes.
Raimundo
Ferreira de Vasconcelos
Doutor em sociologia econômica e mestre
em economia política. É coordenador
e docente do curso de relações internacionais
do Unicentro Belas Artes.
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| I
n f o r m e s P u b l i c i t á
r i o s |
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Diretrizes
curriculares em RI
Muitos já se deram conta das alterações
promovidas na matriz curricular do curso de relações
internacionais do Unicentro Belas Artes. Queremos
aqui assegurar que não houve alterações
na essência do currículo. Na verdade
fizemos apenas um ajuste. Alguns Tópicos
Especiais em disciplinas adquiriram denominação
mais precisa, a saber.
Negociações Internacionais resultou
da junção entre Tóp. Esp.
em Política Internacional I e II.
Geopolítica Latinoamericana e América
Latina e Desenvolvimento resultaram de Integração
Regional I e II, respectivamente.
Análise de Tratados e Convenções
Internacionais substituiu Tóp. Esp. em
Teoria das Relações Internacionais,
bem como, em Segurança e Riscos Transnacionais
(inseridos em Estratégia e Segurança).
Logística e Projetos Internacionais resultou
da adaptação de Elaboração
e Viabilidade de Projetos Internacionais.
Grupos
de Estudo / RI
Acadêmicos do nosso curso de relações
internacionais mobilizam-se entre si para formar
grupos de estudo, objetivando ampliar conhecimentos,
além do engrandecimento pessoal e profissional.
Na turma do primeiro semestre/matutino (AM1RI)
foram criados quatro Grupos de Estudo na área
lingüística, para estudar francês,
alemão, russo e hebraico.
O idealizador e organizador dos grupos foi o estudante
Rodrigo Moura, o qual ainda atua como instrutor
de alemão; Paulo Watanabe (alemão
e francês); Cinthia Ludovico (russo); e,
Leonardo Rosemberg (hebraico).
Já o Grupo de Estudo sobre Política
Externa Brasileira (GPEB) reuniu estudantes do
3º semestre/matutino (AM3RI) e do 4º
semestre/noturno (AN4RI), sob a liderança
de Luiz Fernando Silva Pinto e seus colegas Andor
Ascer, Juliana Seraphim e Daniel Faviere. Este
Grupo conta ainda com o apoio logístico
e orientação do Prof. Me. Feliciano
de Sá Guimarães, estando aberto
à colaboração de outros docentes
e discentes, e também, ao diálogo
com a comunidade externa de internacionalistas.
Parabenizamos a todos pela iniciativa, a qual
é um exemplo a ser imitado, e desejamos-lhes
sucesso nessa edificante empreitada.
(RFdV).
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| Editor
e revisão técnica:
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Raimundo F. de Vasconcelos |
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Luisa Moura |
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João de Oliveira |
Raimundo F. de Vasconcelos
Luisa Moura
Fernando Emanuel de Oliveira Mourão
Verônica Sales Pereira
Paulo Tempestini
Sidney Ferreira Leite
Evaristo Giovannetti Netto
Nilson Araujo de Souza
Pedro Augusto M. Figueiroa |
Fernando Augusto A. Mourão
Henrique Altemani de Oliveira
Maria Aparecida Alcântara
Dermi Azevedo
Giorgio Romano Schutte |
Design Gráfico
Adriano Frachetta |
Fabiano
Reis
Fabio Espíndola |
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.: CENTRO UNIVERSITÁRIO
BELAS ARTES DE SÃO PAULO :.
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