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Lula-lá:
continuidade e ruptura – Parte final.
Por Nilson Araújo
de Souza
11. Crescimento auto-sustentado exige
novos investimentos e dinamização
do mercado interno
O esgotamento da capacidade
ociosa demanda, para a continuidade do crescimento
da produção, o aumento da capacidade
produtiva da economia, o que depende de novos
investimentos. No entanto, os investimentos ainda
não reagiram na proporção
necessária. A taxa de investimento, medida
pela relação entre a formação
bruta de capital fixo e o PIB, que baixara de
18,33%, em 2002, para 18,05%, em 2003, subiu para
apenas 18,95% no primeiro semestre de 2004(133)
e para 19,6% na média do ano, taxa semelhante
à que vigorou durante os dois mandatos
de estagnação econômica de
Fernando Henrique (19,4%), conforme se pode verificar
pela tabela abaixo(134).
Tabela
10
Taxa de investimento (FBCF/PIB - %) – 1995
– 2004
|
A
n
o |
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0
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T
a
x
a |
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9 |
1
9
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5 |
1
8
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3 |
1
8
,
0
5
* |
1
9
,
6 |
Fonte: IBGE
* Como já vimos atrás, há
também estimativa de 17,1% e 17,8%.
É importante registrar que,
em 2004, a taxa de poupança foi de 23,2%(135).
Ou seja, um volume de poupança correspondente
a 3,6% do PIB não foi canalizado para o
investimento. Para onde foi drenado esse enorme
volume de recursos, equivalente a R$ 63,75 bilhões(136)?
Já vimos antes: para o exterior, a fim
de remunerar o capital estrangeiro aqui aplicado,
em suas várias modalidades. Se não
estivéssemos sofrendo essa hemorragia externa
– como costumava dizer Brizola -, poderíamos
ter investido 23,2% do PIB, cifra próxima
à que vigorou na década de 70, quando
nosso PIB cresceu a uma taxa média anual
de 9%(137).
Uma outra parcela importante da
renda nacional, que às vezes nem chega
a converter-se em poupança, é esterilizada
na especulação financeira, desviando-se,
assim, do investimento produtivo. A transferência
desses recursos para o setor financeiro pode ocorrer
de duas formas: 1) de forma direta, quando o setor
produtivo, sobrecarregado de juros, paga pesados
encargos financeiros ao sistema financeiro; 2)
de forma indireta, quando o setor produtivo, sobrecarregado
de tributos, transfere renda ao setor público,
o qual, por sua vez, sobrecarregado de juros,
gera um enorme superávit primário
a fim de repassar parcela dessa renda ao sistema
financeiro. É por isso que a lucratividade
dos bancos é sempre muito superior à
lucratividade das empresas industriais e comerciais(138),
e boa parte desses ganhos dos bancos circula apenas
na esfera financeira, nunca retornando à
área produtiva. Sob o peso dos encargos
financeiros alavancados pelos juros estratosféricos,
nem as empresas produtivas(139) nem o Estado conseguem
realizar um nível de investimento capaz
de viabilizar o crescimento auto-sustentado da
economia.
Os dirigentes do IBGE, depois
de divulgarem as informações sobre
o crescimento industrial de 2004, procuraram nos
convencer de que o investimento estaria tendo
um importante crescimento, na medida em que a
produção do setor de bens de capital
(que produz bens destinados a aumentar a capacidade
produtiva) teve um aumento de 19,7% no ano. Mas
a própria nota do IBGE mata a charada:
as exportações desse setor aumentaram
54%(140). Ou seja, parte expressiva do aumento
da produção de bens de capital não
se destinou ao sustento do investimento interno,
mas ao mercado externo.
Fica claro, assim, que a garantia
desse nível de investimento depende da
limitação da drenagem dos recursos
para o exterior e para a especulação
financeira. Isso implica em três ordens
de medidas: 1) reduzir substancialmente o uso
do superávit da balança comercial
para cobrir a amortização de dívida
externa e os encargos do passivo externo; 2) reduzir
fortemente a taxa básica real de juros;
3) reduzir de forma semelhante o superávit
primário das contas públicas. Não
apenas uma maior parcela da renda nacional seria
destinada à poupança, como esta,
ao invés de ser drenada para o exterior
ou esterilizada na especulação financeira,
seria convertida em investimento. Os saldos comerciais
poderiam ser usados, em grande medida, para adquirir
no exterior equipamentos ou tecnologias dos quais
não houvesse disponibilidade interna; além
disso, ajudariam a formar as reservas cambiais
indispensáveis à diminuição
da nossa vulnerabilidade externa. A parcela economizada
do superávit primário se converteria
em poupança real (em lugar de mera poupança
financeira, nas mãos dos especuladores)
e seria canalizada para o investimento produtivo.
A queda dos juros, além de viabilizar essa
conversão de superávit primário
em poupança e investimento, diminui os
encargos financeiros das empresas, aumentando
também sua capacidade de investimento;
ademais, tende a estimular a tomada de dinheiro
emprestado para investir e a desestimular o uso
dos recursos próprios para aplicações
financeiras, canalizando-os para o investimento.
Como, então, derrubar os
juros? Conforme já vimos, as autoridades
monetárias alegam que eles têm que
continuar elevados para promover a convergência
da inflação para a meta estabelecida
e para garantir o refinanciamento da dívida
pública. Ora, como o Conselho Monetário
Nacional (CMN) tem fixado metas inflacionárias
declinantes e como as autoridades do BC racionalizam
que inflação se derruba com juros
elevados, a postura de buscar fazer a inflação
efetiva convergir para a meta exigiria juros reais
sempre elevados ou mesmo em elevação.
Isso significa que o sistema de metas de inflação
é incompatível com a queda da taxa
de juros enquanto as metas forem declinantes.
No entanto, se a diretoria do BC fosse menos dogmática
no manuseio desse sistema, e recorresse a uma
brecha estabelecida por ele próprio, que
é o uso da margem que a taxa de inflação
pode atingir, em torno do núcleo da meta,
haveria espaço para a queda dos juros.
No caso do Brasil, a margem acordada é
de 2,5 pontos percentuais. Assim, para 2004, como
a meta estabelecida era de 5,5%, a taxa poderia
atingir 8% (ficou em 7,6%); para 2005, como a
meta original de 4,5% foi alterada para 5,1%,
a taxa pode atingir os mesmos 7,6% a que chegou
em 2004; para 2006, como a meta é de 3,5%,
a taxa pode atingir 6%. Bastaria lidar com essa
flexibilidade que o próprio sistema de
metas permite para ter uma postura menos rígida
em relação à política
monetária, mas o fundamentalismo dessa
equipe do Banco Central que aí está
impede esse comportamento. Além disso,
como a taxa de inflação vem caindo(141),
até mesmo um monetarista mais dogmático,
mas que não seja inteiramente comprometido
com o sistema financeiro(142), tenderia a baixar
a taxa real de juros. Portanto, mesmo para um
monetarista, que acredita que inflação
se combate com juros altos, não há
fundamento em manter a taxa selic nos níveis
atuais – e muito menos, em elevá-la,
como vem ocorrendo desde setembro de 2004.
O outro argumento alegado pelos
dogmáticos do Banco Central é o
de que a baixa dos juros dificultaria o refinanciamento
da dívida pública. Antes, quando
havia déficit comercial e na conta corrente
do balanço de pagamentos, o argumento era
o de que havia necessidade de atrair capitais
externos para cobri-lo; agora, quando o déficit
desapareceu e converteu-se em superávit,
diz-se que a questão é o refinanciamento
da dívida pública. Ora, mesmo admitindo
que fosse necessário, para esse refinanciamento,
o aporte de capitais externos ou de capitais internos
que podem se evadir, a situação
atual do mercado financeiro internacional propicia
uma ampla folga para a queda dos juros no Brasil.
Vejamos as razões: 1) os enormes déficits
gêmeos dos EUA vem gerando uma certa insegurança
dos aplicadores internacionais em destinar seus
recursos àquele país, aumentando,
assim, a liquidez internacional; 2) o excesso
de dinheiro disponível para aplicação
tem provocado, em conseqüência, a manutenção
dos juros reais em níveis muito baixos
nas várias praças do planeta, sendo
negativos nos EUA, União Européia
e Japão; 3) o critério adotado pelos
especuladores internacionais para aplicar seu
dinheiro em determinado país, que soma
a taxa básica dos EUA, o chamado risco-País
e a correção cambial, formaria uma
taxa básica de 6,5% no Brasil.
Assim, mesmo dentro da lógica
neoliberal-monetarista, que usa como pretexto
para uma política monetária apertada
o sistema de “metas de inflação”
e a necessidade de refinanciamento da dívida
pública – o que leva a formar a taxa
de juros interna com base em critérios
internacionais, isto é, com base nos interesses
da banca internacional, e não nas necessidades
internas do País -, há muito espaço
para a queda dos juros no Brasil. Há, portanto,
outra causa para a insistência dogmática
em manter os juros elevados: a submissão
dos dirigentes do Banco Central – senão
comprometimento direto(143) - à ação
monopólica dos cartéis financeiros,
sobretudo os estrangeiros(144).
O próprio processo através
do qual é estabelecida mensalmente a taxa
selic revela essa verdade. Um dos principais instrumentos,
senão o principal, que fundamenta a decisão
do Comitê de Política Monetária
do Banco (COPOM) é a “pesquisa Focus”,
que é feita semanalmente junto a pouco
mais de 100 executivos de instituições
financeiras, mas termina, na verdade, predominando
a resposta dos 10 maiores bancos instalados no
País. Ali, dentre outras coisas, eles dizem
quais são suas expectativas sobre os juros
e a inflação futuros. E a tendência
do COPOM vem sendo “adotar” as taxas
resultantes dessa “pesquisa”, sancionando,
assim, as supostas expectativas dos agentes financeiros.
E a tendência deles, obviamente, é
puxar para cima as expectativas inflacionárias
a fim de pressionar por taxas de juros mais altas.
Ora, contando com essa subserviência
ou comprometimento das autoridades do BC, os cartéis
financeiros, mesmo diante de uma situação
de grande liquidez internacional, chantageiam
para manter os juros altos no Brasil. Como esse
comportamento das autoridades do BC no Brasil
é mais ou menos atávico, já
durando décadas, salvo alguns intervalos,
os cartéis financeiros tanto internos como
internacionais acostumaram-se a grandes ganhos
aqui, ou seja, a elevadas taxas de juros. Assim,
mesmo havendo bastante espaço para reduzi-las,
ainda dentro de seus critérios, eles agem
no sentido de impedir isso. Uma eventual fuga
de capitais diante de uma queda dos juros não
responderia, portanto, a qualquer mecanismo de
mercado, mas à chantagem resultante desse
poder monopólico dos cartéis financeiros.
E só há uma maneira de bloquear
essa chantagem: colocando à frente do Banco
Central pessoas mais comprometidas com o País
e, a partir daí, centralizando o câmbio
nessa instituição. Aí, então,
o BC poderia controlar o fluxo cambial de acordo
com as necessidades da economia nacional, evitando
grandes flutuações da taxa de câmbio,
a fuga de capitais e os eventuais ataques especulativos
contra nossa moeda(145). E, com base nessa nova
realidade, o BC poderia estabelecer uma taxa de
câmbio(146) e uma taxa básica de
juros a partir da realidade e das necessidades
internas da economia brasileira, e não
mais com base nos “critérios internacionais”,
isto é, no interesse da banca internacional(147).
Todos os países que seguiram esse caminho
puderam baixar radicalmente suas taxas de juros,
e voltaram a crescer. Os exemplos mais recentes
são os da Venezuela e Argentina. Mais ainda,
segundo estudo do FMI, de 25 países que
voltaram a crescer depois das crises cambiais
dos anos 90, 19 haviam feito alguma forma de reestruturação
de suas dívidas.
O fato de o BC manter elevados
os juros básicos, e, assim, bloquear o
uso do principal instrumento que viabiliza o investimento,
não significa que o governo Lula não
tenha feito nada para melhorar o nível
desse investimento. O BNDES, que, historicamente,
tem sido o principal instrumento governamental
destinado a financiar o investimento de longo
prazo - salvo no período FH, em que foi
usado para emprestar dinheiro a grupos estrangeiros
interessados na aquisição de empresas
estatais -, teve um recorde de empréstimo
em 2004: contratou um montante de R$ 40 bilhões,
14,3% acima dos R$ 35 bilhões de 2003(148).
Além disso, por decisão do Conselho
Monetário Nacional – que, por contar
com a participação de outros ministros,
não é inteiramente comandado pela
equipe do Ministério da Fazenda -, a TJLP(149)
tem-se mantido em 9,75% ao ano desde abril de
2004, o que significa, nos níveis de inflação
atual, uma taxa real em torno de 2%, apesar do
aumento desde setembro da taxa selic e das demais
taxas de juro da economia.
No entanto, além de não
haver emprestado todo o valor previsto pelo próprio
banco, que era de R$ 47 bilhões, não
atendeu nem de longe à demanda realizada
pelas empresas através de cartas-consulta.
O montante total demandado foi de R$ 98,4 bilhões,
e desse valor o próprio banco conseguiu
enquadrar em suas normas a cifra de R$ 75 bilhões(150).
Assim, emprestaram-se apenas 40,65% do montante
demandado – isto é, das necessidades
de financiamento de longo prazo expressas pelos
investidores - e 53,33% do montante aprovado pelo
banco. Segundo o BNDES, esse valor solicitado
indica “a disposição do empresariado
em fazer investimentos produtivos, funcionando
como um indicativo do nível de confiança
no futuro econômico do país”(151).
Mas, se dependesse do comando
do Ministério da Fazenda e do Banco Central,
nem isso o BNDES teria conseguido fazer. No segundo
semestre de 2004, o presidente do BC, Henrique
Meirelles, acusou o BNDES de ser responsável
pelos elevados spreads(152) do sistema financeiro
no Brasil. Para ele, o fato de o banco emprestar
diretamente aos tomadores finais a taxas de juro
baixas, em lugar de repassar esse dinheiro barato
através do sistema bancário, pressionaria
os bancos comerciais a elevar seu spread. Esconde
com essa afirmação o fato de que
a grande margem bancária existente no Brasil
se deve, no fundamental, ao elevado grau de concentração
e, portanto, de monopolização do
setor bancário, o que lhe dá condição
de fixar os juros finais. Escamoteia, além
disso, o fato de que o repasse do recurso barato
aos bancos privados em nada garante, como nunca
garantiu, que o destino final seja o investimento
de longo prazo. Os bancos têm mil e uma
artimanhas para desviar o recurso da finalidade
estabelecida para o ganho fácil da especulação(153).
A direção do BNDES, então
liderada pelos professores Carlos Lessa e Darc
Costa, respondeu à altura, denunciando
o objetivo de Meirelles, que era fortalecer os
bancos privados em detrimento do banco oficial,
e terminou sendo demitida pelo governo.
Foi então nomeada para
o BNDES uma equipe mais afinada com o grupo que
comanda o Ministério da Fazenda, encabeçada
pelo ex-ministro do Planejamento, o economista
Guido Mantega(154), e os tecnocratas da equipe
econômica aproveitaram-se desse fato para
fazer nova carga sobre a política creditícia
do banco. No começo de 2005, o secretário
do Tesouro do Ministério da Fazenda, Joaquim
Levy, propôs que a TJLP fosse atrelada à
taxa selic, o que significava, na prática,
que ela também passasse a subir. Ou seja,
queria extinguir um dos poucos instrumentos que
o governo Lula vem utilizando para viabilizar
o investimento de longo prazo. Como disse o ministro
do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan: “E
se vamos matar a única fonte de curto prazo,
vamos comprometer nosso futuro”(155). Felizmente,
Mantega, apesar de sua afinidade com a equipe
da Fazenda, reagiu à altura, dizendo não
aceitar qualquer possibilidade de realizar essa
vinculação entre as duas taxas.
É mais um ponto de tensão dentro
do governo. E arrematou: Levy “não
enxerga alguns palmos além do nariz”(156).
Bem dito.
O aporte do BNDES é muito
importante para alavancar o investimento, principalmente
pelo fato de cobrar juros compatíveis com
a atividade econômica. Mas, obviamente,
a parcela mais importante de recursos destinados
aos investimentos, tanto nas empresas privadas
quanto nas estatais, são os recursos próprios
oriundos de seus lucros. No ano passado, por exemplo,
o montante total dos investimentos foi de cerca
de R$ 346,2 bilhões(157). Como o BNDES
financiou apenas R$ 40 bilhões e o investimento
orçamentário da União mal
alcançou os 3% do investimento total(158),
coube às próprias empresas públicas
e privadas aportarem praticamente o conjunto dos
restantes R$ 306 bilhões(159). Vimos que
outros R$ 63,75 bilhões de poupança
deixaram de ser investidos, sendo drenados para
o exterior ou para a especulação
financeira. Vimos também que o nível
de investimento realizado (19,6% do PIB em 2004)
é muito baixo para garantir a retomada
auto-sustentada do crescimento da economia, na
medida em que parte significativa desse investimento
destina-se a repor a depreciação
do capital fixo.
Pode-se alegar que a taxa selic,
que baliza os demais juros praticados na economia
– à exceção da TJLP
–, não afeta em nada o investimento
produtivo(160), na medida em que os bancos privados
sediados no País não realizam empréstimo
de longo prazo, destinando seus recursos apenas
para títulos públicos e capital
de giro das empresas. É mais uma falácia,
que indica má-fé ou desconhecimento
da realidade. O elemento básico, tanto
para as empresas públicas e privadas quanto
para o próprio governo decidirem o nível
de investimento que farão com os recursos
disponíveis, é a taxa básica
de juros – a selic -, e não a TJLP
do BNDES. Por razões óbvias: o governo,
porque o nível da sua “poupança”
disponível para investimento depende dos
encargos financeiros com que tem de arcar; e as
empresas, porque vão decidir o que fazer
com seus lucros, se os investem na produção
ou se os aplicam no mercado financeiro, a depender
da taxa básica de juros.
Portanto, uma baixa TJLP, como
a que vem sendo praticada, é importante
para viabilizar o investimento, mas é insuficiente
para levá-lo para o nível adequado
à retomada sustentada do crescimento. Mais
uma vez, deparamo-nos com a necessidade de uma
política monetária que se subordine
não ao curto prazo do comportamento inflacionário
ou do refinanciamento da dívida pública,
mas ao longo prazo do investimento produtivo e
do crescimento econômico auto-sustentado.
Recentemente, a equipe econômica,
sobretudo nas palavras de Henrique Meirelles,
em mais uma defesa dessa política monetária
rígida, alegou que o problema da economia
não é a taxa básica de juros,
mas as taxas finais, de aplicação,
praticadas pelos bancos. Ora, é evidente
que a atividade produtiva é, em grande
medida, afetada por essas taxas finais, já
que são elas que balizam o comportamento
de empresas e consumidores. Mas, também
é evidente que essas taxas finais, como
assinalamos antes, são condicionadas em
última instância, ainda que não
exclusivamente, pela taxa básica. Segundo
Meirelles, essas taxas finais são elevadas
porque o spread bancário também
o é. Porém, a responsabilidade disso
não seria dos bancos, mas, sim, do BNDES,
que não lhes estaria repassando recursos
baratos para emprestarem ao tomador final, e dos
clientes, que não pagam corretamente suas
dívidas. Ou seja, sendo elevada a inadimplência,
o risco bancário aumenta e por isso os
bancos elevam o spread. Quanto ao BNDES, já
vimos que a proposta de Meirelles é repassar
os recursos do banco através dos bancos
privados.
Para enfrentar a inadimplência
e, assim, diminuir o risco dos bancos, o governo
bancou a aprovação pelo Congresso
de um projeto de lei de falência –
designado de Lei de Recuperação
de Empresas - que dormia na casa legislativa há
já bastante tempo. O projeto tem dois aspectos
básicos: 1) cria a figura da chamada recuperação
judicial, que supostamente favoreceria a recuperação
das empresas em dificuldade(161); 2) prioriza
o pagamento dos débitos bancários
no caso de falência. Detenhamo-nos neste
segundo aspecto, que tem a ver diretamente com
a questão dos juros. Antes, a prioridade
era dos débitos trabalhistas e tributários;
só depois, viriam os débitos bancários.
A forma como a nova lei foi aprovada na Câmara
invertia essa situação dando prioridade
aos débitos bancários. O Senado
amenizou um pouco essa decisão: estabeleceu
que os débitos trabalhistas terão
prioridade até 150 salários mínimos
(ou R$ 39 mil ao nível da época
da aprovação da lei, no começo
de 2005); a partir daí, a prioridade passa
para os débitos bancários e só
então vêm os débitos tributários.
Ou seja, são prejudicados os trabalhadores
e a sociedade (tributos) para beneficiar os bancos.
Alega a equipe econômica que, assim, diminui
o risco dos bancos, levando-os a reduzir sua margem
e, por conseguinte, as taxas finais de juros.
A primeira reação da Federação
Brasileira de Bancos (FEBRABAN) foi de que não
se deve esperar uma queda dos juros tão
cedo; que isso só poderia ocorrer no longo
prazo. Como dizia Keynes, a longo prazo todos
estaremos mortos. É mais uma ilusão
que as autoridades econômicas tentam incutir
na opinião pública, pois deixam
de considerar que a razão fundamental para
os elevados spreads bancários é
o comportamento de cartel que, em face do elevado
grau de concentração/centralização
do setor, os bancos assumem no País(162).
Mas, como vimos, além do
aumento da capacidade produtiva da economia, o
crescimento auto-sustentado exige também
o crescimento sustentado do mercado interno. O
mercado externo, mais sujeito a perturbações,
operaria apenas de forma complementar. Uma distribuição
mais justa da renda é o principal mecanismo
de alavancagem do mercado interno. Assim, estar-se-ia
simultaneamente garantindo o crescimento auto-sustentado
da economia e distribuindo melhor os frutos desse
crescimento; nas palavras de Celso Furtado, convertendo
o crescimento econômico em desenvolvimento
econômico.
Uma
melhor distribuição de renda demanda
um conjunto de políticas e reformas estruturais
de curto, médio e longo prazos. Dentre
as políticas, certamente destaca-se a política
salarial. Como o governo de FH extinguiu qualquer
política salarial no País, resta
ao governo, num primeiro momento(163), utilizar
o salário mínimo como instrumento
de melhoria do conjunto do salário real.
Na medida em que o poder de compra do salário
mínimo aumenta, a tendência é
melhorar o poder de compra dos demais níveis
salariais. A promessa de campanha do governo Lula
era dobrar o salário mínimo real
ao longo do seu mandato. A mesma mídia
que critica Lula por não estar cumprindo
essa promessa(164) também o condena por
haver estabelecido essa meta, alegando ser ela
irrealizável porque o setor público
e as empresas privadas não suportariam
um tal reajuste do mínimo. Ora, o poder
de compra do mínimo já foi quatro
vezes maior do que o herdado pelo governo Lula(165),
e isso ocorreu no período em que a economia
brasileira foi a que mais cresceu no mundo capitalista,
ou seja, em lugar de inviabilizar o setor público
e as empresas, o melhor poder de compra do mínimo
contribuiu para fortalecer o mercado interno e
promover o desenvolvimento. Além disso,
na medida em que se adote uma política
de redução sistemática da
taxa de juros, diminuindo, em conseqüência,
os encargos financeiros do setor público
e das empresas, os mesmos poderão absorver
os aumentos salariais. Na verdade, seria uma redistribuição
de renda a partir do setor especulativo-financeiro
para os que vivem do próprio trabalho(166).
A política fiscal é
outro instrumento importante no processo de redistribuição
da renda. Pelo lado do gasto, a adoção
de políticas sociais arrojadas, que não
apenas “inclua” – para usar
o linguajar da moda - as mais de 50 milhões
de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza,
mas garanta educação, saúde
e habitação de qualidade para todos,
exige uma substancial redução do
superávit primário. O programa Fome
Zero(167) é um exemplo do que pode ser
feito, na medida em que, além da transferência
de renda, indispensável num momento de
emergência social, procura dotar as famílias
que vivem abaixo da linha de pobreza de condições
para superar essa situação. No entanto,
embora tenha atingido mais de 6,5 milhões
de famílias em dezembro de 2004, esse programa
ainda é claramente insuficiente. Graças
às “limitações orçamentárias”,
isto é, à decisão de gerar
superávites primários para honrar
os compromissos financeiros, transfere-se um valor
irrisório a cada família: R$ 66,93
por mês em dezembro de 2004. Essa mesma
limitação orçamentária,
que só permitiu “investir”(168)
cerca de R$ 5,5 bilhões no programa em
2004, quando foram usados R$ 80 bilhões
de superávit primário para pagar
juros – sem considerar a parte que foi “rolada”,
isto é, foi coberta com recursos obtidos
pela emissão de novos títulos -,
impediu o atendimento do conjunto das famílias
necessitadas: o próprio governo admite
que cerca de 50 milhões de pessoas vivendo
em 11,4 milhões de famílias passam
fome no Brasil.
Pelo lado da receita, o caminho
seria a realização de uma reforma
tributária que onerasse mais as aplicações
financeiras, o superlucro monopólico, as
grandes fortunas e propriedades e os níveis
mais elevados de renda, ao mesmo tempo que diminuísse
a taxação da produção
e dos níveis mais baixos de renda. Durante
o processo de votação na Câmara
de Deputados da proposta de reforma tributária
do governo Lula, houve a expectativa de que seria
feita essa redistribuição de renda
via tributo. No entanto, a proposta perdeu sua
força redistributiva durante a votação
no Senado, que retalhou a reforma, graças
à aceitação, pela base parlamentar
do governo, do projeto apresentado pelo senador
tucano Tasso Jereissati. Portanto, ainda está
por se realizar uma verdadeira reforma tributária
que ajude no processo de redistribuição
de renda.
Como vemos, também aqui
na política fiscal, tanto o mecanismo de
converter superávit primário em
gastos sociais quanto o de redistribuir renda
via tributos estariam redistribuindo renda a partir
do setor financeiro para os que produzem e vivem
do próprio trabalho. Além de os
assalariados passarem a dispor de uma renda líquida
maior, as empresas produtivas, com carga tributária
menor, poderiam pagar melhores salários.
Ainda dentro da área fiscal,
o governo Lula patrocinou no Congresso Nacional
a continuidade da “reforma” da Previdência
deflagrada por Fernando Henrique. Este conseguiu
aprovar a transformação da figura
do tempo de trabalho para tempo de contribuição
como condição para a aposentadoria
vinculada ao INSS, mudando o sistema de solidário
para contributivo, mas não havia conseguido
aprovar o estabelecimento de um “teto”
para a aposentadoria do servidor público,
nem a contribuição dos inativos
do serviço público. Particularmente,
o estabelecimento do teto era decisivo no programa
de FH porque sua intenção era instituir
fundos de aposentadoria/pensão complementar
privados para aqueles que quisessem uma aposentadoria
acima do teto, isto é, com base no salário
que ganham na ativa. Na prática, FH queria
privatizar uma parcela da previdência, entregando-a
aos bancos. O governo Lula patrocinou a aprovação
no Congresso não apenas do teto e da contribuição
dos inativos, mas também do aumento da
idade mínima para aposentadoria do servidor
público(169).
Os objetivos explícitos
da “reforma” da Previdência
do governo Lula, conforme declarado na época
pelo então ministro da Previdência,
Ricardo Berzoini, eram os de promover a justiça
previdenciária e equilibrar atuarialmente
a Previdência. Quanto à justiça
previdenciária, dizia ele que, assim como
os trabalhadores vinculados ao INSS tinham um
teto, os servidores públicos também
deveriam tê-lo. Deixou de dizer três
coisas importantes: 1) a fixação
do teto no INSS é para evitar que setores
que podem fixar o próprio rendimento de
contribuição, como empresários
e profissionais liberais, extrapolem esses valores,
auferindo privilégios especiais; 2) no
setor público, os servidores não
têm a possibilidade de fixar o próprio
salário e, portanto, não tem a oportunidade
de estabelecer aposentadorias privilegiadas; 3)
o servidor público contribuía pelo
valor de seus vencimentos – portanto, nada
mais justo que usufruísse uma aposentadoria
equivalente. Quanto ao equilíbrio atuarial,
os ganhos com a fixação do teto
e com a contribuição dos inativos,
apesar do grande sacrifício imposto aos
servidores, não produzem uma economia muito
grande para o setor público.
Na verdade, essas alegações
não passam de racionalizações.
O objetivo central dessa “reforma”
da Previdência foi o de formar uma poupança
sob controle dos fundos de pensão com a
crença de que isso aumentaria a capacidade
de investimento do País. Se isso ocorresse,
seria o lado positivo do sacrifício imposto
aos servidores. No entanto, nem de longe está
garantida essa canalização da poupança
dos fundos para o investimento produtivo. Ao contrário,
enquanto se mantiverem elevadas as taxas de juros
da economia, a tendência é os fundos
aplicarem os recursos de seus associados no mercado
financeiro, que, obviamente, rende mais do que
qualquer atividade produtiva. Mais uma vez, a
taxa de juro aparece como bloqueio ao crescimento
da economia.
A
Reforma Agrária é outro poderoso
instrumento de distribuição de renda.
Na medida em que venha a distribuir a propriedade
do latifúndio improdutivo para camponeses
sem-terra, aportando-lhes crédito, assistência
técnica e garantia de comercialização,
a Reforma Agrária poderá não
apenas contribuir para o crescimento da economia
ao melhorar o mercado interno, como também
agir no processo de redistribuição
de renda. O governo Lula se propôs a assentar
400 mil famílias durante seu mandato(170).
Um número muito pequeno diante das necessidades.
Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra
(MST), existem mais de quatro milhões de
famílias de trabalhadores rurais sem terra
no Brasil. Mas, mesmo essa pequena meta do governo
não vem sendo cumprida: das 115 mil famílias
previstas para serem assentadas em 2004, o governo
só conseguiu atender 90 mil(171). Não
se pode designar isso que aí está
de Reforma Agrária –
seria, no máximo, uma política
de assentamentos rurais, coisa que vem sendo feita
desde o regime ditatorial. A limitação
aqui, conforme o Ministério de Desenvolvimento
Agrário vem alegando em suas reuniões
com o MST, é a falta de recursos, ou seja,
também a Reforma Agrária esbarra
na decisão de gerar enormes superávites
primários para transferir aos banqueiros.
Uma efetiva Reforma Agrária, que distribua
melhor a renda e ajude a alavancar o mercado interno,
exige decisão de enfrentar não apenas
o latifúndio improdutivo, mas também
o setor financeiro.
O combate às desigualdades
regionais, além de ajudar na distribuição
de renda, contribui para a formação
de novos mercados no interior do País.
A prolongada estagnação da economia
nacional trouxe à tona e agravou problemas
estruturais históricos que ameaçam
a própria integridade nacional. Destacam-se
o subdesenvolvimento do Nordeste e a subocupação
econômica e demográfica de imensas
áreas da Amazônia, ricas em recursos
minerais e agrícolas e em biodiversidade.
A recuperação da economia nordestina,
ao lado da melhoria das condições
de vida de sua população, exige
a industrialização da matéria-prima
local, um amplo programa de irrigação
com distribuição de terras e o uso
de seu imenso potencial turístico. A ocupação
econômica e demográfica da Amazônia
exige a implantação de um sistema
integrado de transportes rodo-hidro-ferroviário,
a construção de agrovilas dotadas
de toda a infra-estrutura e assentadas em programas
de distribuição de terras, a implantação
de distritos minerais que garantam a extração
e transformação regional dos recursos
minerais, o uso da biodiversidade para a pesquisa
e a produção de medicamentos e alimentos,
além de um sistema efetivo de vigilância
de suas fronteiras e de seu espaço aéreo
a fim de coibir o roubo de seus recursos minerais
e biodiversidade.
A decisão do governo Lula
de recriar a SUDENE, extinta pelo governo Fernando
Henrique, de revitalizar e transpor águas
do Rio São Francisco, a fim de banhar o
semi-árido nordestino, e de construir a
ferrovia Transnordestina, é um passo importante
no sentido de começar a enfrentar o problema
do subdesenvolvimento e da miséria no Nordeste.
Essa situação só pode ser
enfrentada com planejamento e com recursos. A
SUDENE procurou cumprir esse papel no passado.
No entanto, a forma como eram administrados os
recursos, consubstanciados nos chamados incentivos
fiscais, impediu que pudesse realizar todo seu
potencial. As empresas do sul descontavam do Imposto
de Renda devido um valor autorizado em lei, que
usavam para instalar uma sucursal no Nordeste;
mas, tão logo cessava o período
a que tinham direito a incentivos fiscais, tendiam
a fechar as portas da sucursal nordestina, quando
não desviavam os recursos para outros fins.
A nova SUDENE teria que equacionar esse problema,
principalmente canalizando os recursos dos incentivos
para obras públicas ou para empresas da
própria região. No entanto, apesar
de formalmente aprovada, a SUDENE até agora
não saiu do papel. A decisão de
revitalizar e transpor as águas do Rio
São Francisco parece mais próxima
da implementação.
12.
Reformas microeconômicas e medidas compensatórias
preservam “modelo”
Verifica-se, assim, que medidas
têm sido adotadas para melhorar o nível
do investimento e para animar o mercado interno.
E essas medidas têm algum fôlego.
Podem até garantir que, mesmo com o ritmo
em queda, a atividade econômica siga crescendo
neste ano. No entanto, quando não marcadamente
conservadoras, nos marcos do neoliberalismo que
vem sendo praticado desde o início dos
anos 90, como a Lei de Falências e a “reforma”
da Previdência, essas medidas são
claramente insuficientes, não viabilizando
o crescimento auto-sustentado. O problema básico
é que a adoção da maioria
delas ainda reflete uma concepção
econômica no essencial nos marcos do neoliberalismo(172):
parte do princípio de que a política
macroeconômica, fundada no tripé
juros e superávit primário altos
e moeda valorizada, está correta e que,
subordinando-se a essa lógica, tem-se que
procurar implementar “medidas compensatórias”
e realizar “reformas microeconômicas”
que possam melhorar o nível da atividade
econômica, a geração de emprego
e a “inclusão social”. Para
essa concepção, um crescimento de
5,2% do PIB, de 1,9% do emprego industrial, de
1,5% do salário real, aliado à concessão
de bolsas-família de R$ 66,93 mensais a
6,5 milhões de famílias, supera
os resultados que diz ser compatível com
o crescimento auto-sustentado e a estabilidade
monetária(173). Sabemos que essa performance
está muito distante da trajetória
histórica da economia brasileira antes
de seu mergulho na estagnação econômica
das últimas duas décadas e meia.
E mesmo assim só se conseguiu essa performance
porque o Presidente Lula, além de comandar
pessoalmente a diplomacia pragmática que
ajuda a dinamizar o comércio exterior,
tem brigado por verbas para os programas sociais,
para o microcrédito, para melhorar um pouco
o salário mínimo, para que o BNDES
possa aumentar seus empréstimos. Na verdade,
é como se a política econômica
fosse traçada e implementada pelo Banco
Central, de forma independente do governo, e só
restasse ao governo lutar por “medidas compensatórias”.
A Socióloga e Profa. Luisa Moura figurou
essa situação da seguinte maneira:
Palocci e Meirelles controlam o essencial da política
econômica e, por conseguinte, os recursos
orçamentários, enquanto o Presidente
Lula, como se estivesse presidindo uma ONG, luta
por algumas verbas – para não dizer
migalhas - para a área social ou para a
atividade econômica.
Se depender da equipe que comanda
o Ministério da Fazenda, essa situação
não apenas terá continuidade como
deixará o menor espaço possível
para as “medidas compensatórias”.
O caminho por ela apontado pode ser resumido da
seguinte forma: adotada uma “política
macroeconômica consistente”, centrada
na “sustentabilidade das contas públicas”,
o próximo passo seria a realização
de “reformas microeconômicas”,
como condição para garantir a sustentabilidade
do crescimento econômico.
Em seu documento Reformas microeconômicas
e crescimento de longo prazo, afirma o Ministério
da Fazenda:
O
objetivo da política econômica do
Governo é criar, em um ambiente de estabilidade
econômica, condições favoráveis
ao aumento da eficiência econômica
do setor produtivo, à melhoria do acesso
ao crédito e ao aumento da taxa de investimento
na economia brasileira, para superar os entraves
à retomada do crescimento sustentável
da renda per capita. É nesse contexto
que se insere o ajuste estrutural das contas públicas
que vem sendo implementado pelo Governo e sinaliza
um compromisso com a sustentabilidade fiscal de
longo prazo(174).
Veja mais:
A
sustentabilidade das contas públicas é
o centro da política macroeconômica,
tanto para a recuperação da atividade
econômica observada a partir do segundo
semestre do ano passado, quanto para viabilizar
o crescimento sustentável de longo prazo.
Além disso, deve-se aproveitar a estabilidade
macroeconômica e a retomada do nível
de produção para adotar políticas
ativas de estímulo ao aumento da produtividade,
à difusão de novas tecnologias,
ao desenvolvimento institucional do mercado de
crédito, ao investimento em infra-estrutura
e de incentivo ao empreendedorismo, de modo a
garantir sólidos fundamentos para que nossa
economia possa iniciar um ciclo longo de crescimento
econômico(175).
A
sustentabilidade fiscal significa, para a equipe
da Fazenda, a geração de enormes
superávites primários(176), como
forma de reduzir a razão dívida
pública/PIB, o que garantiria uma
estrutura fiscal de longo prazo, consistente com
as obrigações do setor público,
[a qual] reduz o risco de financiamento
inadequado do setor público e a incerteza
macroeconômica, permitindo menores taxas
de juros, a expansão do crédito
interno e da taxa de investimento. Além
disso, a redução dos custos de financiamento
do setor público permite uma melhoria da
composição da dívida pública,
reduzindo as restrições sobre a
política econômica e possibilitando
uma maior eficácia na resposta a eventuais
choques de oferta(177).
O problema é que essa “sustentabilidade
fiscal” tem sido sistematicamente comprometida
porque um dos três pilares da política
macroeconômica do Ministério da Fazenda
– uma política monetária rígida,
que supõe manter elevadas as taxas de juros
básicas – corrói por dentro
as finanças públicas, empurrando
para cima os encargos financeiros do setor público
e, por conseguinte, dificultando a queda da relação
dívida/PIB. Onde está a redução
do custo de financiamento do setor público?
Assim é que, apesar do gigantesco esforço
fiscal destes últimos dois anos(178), essa
relação só caiu 4 pontos
percentuais – e, ainda assim, porque houve
um crescimento de 5,2% do PIB no ano passado.
Mas esse impacto dos juros altos nas contas públicas
a equipe da Fazenda não consegue enxergar.
O problema, na sua racionalização,
é o excesso de gasto público: “Essa
dinâmica crescente de dispêndio público
resultou no aumento da carga tributária
de 29% em meados dos anos noventa para cerca de
35% nos dois últimos anos, além
de ser, em parte, responsável pelo crescimento
da relação dívida/PIB do
patamar de 30% em 1994 para 56% no fim de 2002”(179).
O
documento lista, analisa e justifica cinco blocos
de medidas na chamada esfera microeconômica
que estariam ou na fase de implementação
ou na fase legislativa ou ainda em processo de
formulação. Em suas próprias
palavras, “a tabela I sistematiza
a agenda de medidas microeconômicas, que
se dividem em cinco principais áreas: aperfeiçoamento
do mercado de crédito e do sistema financeiro,
melhoria da qualidade da tributação,
medidas econômicas para inclusão
social, redução do custo de resolução
de conflitos e melhoria do ambiente de negócios”(180).
Considera também como medidas
microeconômicas as alterações
nos marcos regulatórios dos setores de
telecomunicação e de energia elétrica
já promovidas pelo governo(181), bem como
as tentativas de promover “reformas”
nas áreas sindical e trabalhista(182) -
“reformas” cujo resultado seria a
redução do poder de mobilização
e negociação dos trabalhadores,
como o fim da unicidade sindical e da contribuição
sindical obrigatória, ou a retirada de
direitos trabalhistas, como a delegação
para a esfera da negociação entre
patrões e empregados de direitos hoje consagrados
em lei.
O
objetivo do “aperfeiçoamento do mercado
de crédito e do sistema financeiro”
seria, além de outros, “criar condições
para a queda das taxas de juros de mercado”(183).
O documento destaca, entre as medidas já
adotadas, a consignação de empréstimos
em folha de pagamento, além da criação
de instrumentos de financiamento específicos
para a construção civil e o agronegócio(184).
Essas medidas têm, de fato, proporcionado
o aumento da oferta de crédito, mas, em
todos os casos, como ocorreu também com
a Lei de Falências, a característica
central da medida não é a criação
de melhores condições para o tomador
do empréstimo, mas o aumento da garantia
de ressarcimento pelos bancos. Isso até
tem permitido a diminuição da taxa
de juros para esses tipos de empréstimo,
mas não tem viabilizado a redução
do spread bancário e, portanto, das taxas
de juros para os demais tipos de empréstimo.
Mas as medidas principais que o Ministério
da Fazenda pretende adotar nessa área do
sistema financeiro é a “abertura
do mercado de resseguros e autonomia operacional
do Banco Central”(185), isto é,
a privatização do Instituto de Resseguros
do Brasil (IRB) e do Banco Central, aliás
já anunciada pelo ministro Palocci durante
a reunião do Fórum Econômico
Mundial em Davos, em janeiro deste ano.
O documento justifica a privatização
do IRB sob a alegação de que isso
“vai estimular a concorrência no setor
e a ampliação dos produtos e serviços
oferecidos”(186). E dá como exemplo
os demais setores de serviços privatizados
e as respectivas agências reguladoras. Ora,
que concorrência existe nesses setores se
são precisamente neles em que, em face
dos contratos leoninos, os preços vêm
aumentando mais, puxando a inflação
para cima?
A “autonomia operacional”
do BC, segundo o documento, “permite uma
gestão mais eficaz da política monetária,
com menor volatilidade do nível de produção”(187).
Ora, desde o início do governo Fernando
Henrique, mas sobretudo a partir de 1999, com
o estabelecimento do sistema de metas de inflação,
o BC vem, na prática, gozando de “autonomia
operacional” em relação ao
governo, na medida em que o CMN traça as
metas de inflação, deixando o COPOM
livre para fixar a taxa selic (188). No entanto,
nunca houve tanta volatilidade no nível
de produção como nesse período(189).
Ademais, institucionalizar a “autonomia
operacional” do Banco, isto é, consagrar
sua insubordinação às diretrizes
do governo, só reforça sua conhecida
subordinação em relação
àqueles que deveria controlar e fiscalizar,
os bancos e demais instituições
financeiras. Foi por isso que, em sua época,
a propósito da discussão sobre a
estatização do sistema financeiro,
o ex-ministro Severo Gomes declarou: “Já
me daria por satisfeito se conseguisse estatizar
o Banco Central”(190). Posição
que foi atualizada pelo novo presidente da Câmara
dos Deputados, deputado Severino Cavalcanti, ao
dizer que tem-se que “pôr cabresto
no Banco Central”, isto é, subordiná-lo
a uma política econômica de desenvolvimento
do governo, em lugar de sujeitá-lo, como
atualmente, à lógica especulativo-financeira
dos bancos. Uma lógica que, como demonstramos
largamente anteriormente, tem levado à
manutenção dos juros em elevados
patamares, ao invés de reduzi-los, como
declara o documento ser seu objetivo com as medidas
de aperfeiçoamento do mercado de crédito
e do sistema financeiro.
Quanto
à “melhoria da qualidade da tributação”,
o documento indica medidas tributárias
já em fase de implementação,
como as “orientadas para a melhoria
da qualidade dos tributos – transformando
tributos cumulativos em tributos sobre o valor
adicionado – e para a redução
de tributos sobre bens de capital e sobre a poupança
de longo prazo”(191). O objetivo
seria diminuir o custo do novo investimento e
de seu financiamento, além de estimular
a formação de poupança de
longo prazo(192). O fim da cumulatividade de tributos,
como ocorreu com o PIS/COFINS e a CSLL(193), ao
desonerar a atividade produtiva, produz efeito
positivo na capacidade de investimento das empresas.
O mesmo resultado é obtido com a decisão
de reduzir tributos sobre bens de capital. A desoneração
da poupança de longo prazo, ao estimular
a formação de poupança, implica
também o aumento da capacidade de investimento.
No entanto, todas essas decisões, ainda
que positivas, esbarram, uma vez mais, na política
monetária restritiva. Os principais agentes
poupadores, isto é, que geram recursos
para o investimento, são o Estado e as
empresas. Com os juros altos, toda a poupança
do governo – medida pelo superávit
primário – é destinada ao
pagamento dos encargos financeiros da dívida,
em lugar de canalizar-se para o investimento;
no caso das empresas, o lucro que obtêm,
já ceifado pelos juros que têm que
pagar, é, em grande medida, destinado a
aplicação no mercado financeiro.
O governo dá com essas medidas muito menos
do que retira através da política
monetária.
Na área das “medidas
econômicas para inclusão social”,
são também destacadas basicamente
medidas já em fase de implantação,
como a extinção da alíquota
do PIS/COFINS sobre produtos da cesta básica
e sobre vários insumos para produção
de alimentos, medidas específicas destinadas
a estimular o microcrédito produtivo, medidas
destinadas a reduzir as restrições
à formalização do micro empresário(194),
ampliação de recursos para o financiamento
imobiliário(195). O Ministério da
Fazenda quer capitalizar, como suas, medidas que
só foram implementadas em face da pressão
do Presidente Lula, como é o caso da desoneração
da cesta básica e da ampliação
do microcrédito. Obviamente, medidas como
a desoneração tributária
da cesta básica e de insumos para a produção
de alimentos são positivas, mas esbarram
no baixo poder de compra dos trabalhadores. Esbarram
também no grau de monopolização
do setor de alimentos(196), que, ao agir como
cartel, pode se apropriar desse ganho tributário,
em lugar de transferi-lo para o consumidor.
No
quarto grupo, designado de “redução
do custo de resolução de conflitos”,
o documento destaca a Reforma do Judiciário,
que “apresenta uma importante contribuição
para o desenvolvimento do mercado de crédito,
e para a expansão da produção
e do investimento”(197), bem como
a nova Lei de Falências e alterações
no Código Tributário Nacional(198).
O objetivo seria “promover a negociação
para resolução de conflitos”(199),
como forma de agilizá-la e assim reduzir
seus custos. Nesse sentido, os autores do documento
enxergam os mecanismos de agilização
da Justiça não como forma de proteger
e fortalecer os direitos do cidadão, mas
como forma de garantir o “direito de propriedade”
“para o bom funcionamento de uma economia
de mercado”(200). Será mera ingenuidade
a não percepção de que, hoje,
o chamado mercado não passa de uma quimera,
já que vem sendo esquartejado e subjugado
por grupos cartelizados, sobretudo de origem estrangeira?
E que por isso mesmo os ganhos oriundos da eventual
redução de custos serão apropriados
por esses cartéis, e muitas das vezes drenados
para suas matrizes no exterior, em lugar de serem
transferidos para a sociedade brasileira? Quais
os mecanismos que podem obrigar a realização
dessa transferência? Isto não está
no documento, porque seguramente seus autores
acreditam que o “mercado” –
a fantasiosa “mão invisível”-
pode cumprir essa função.
O
quinto e último grupo de medidas teria
“por objetivo melhorar o ‘ambiente
de negócios’”(201).
Essa melhoria do ambiente de negócios seria
obtida, particularmente, através da criação
de novos mecanismos de defesa da concorrência
mediante uma reforma do Sistema Brasileiro de
Defesa da Concorrência (SBDC), da ampliação
dos mecanismos de financiamento do investimento
em infra-estrutura por meio da lei sobre Parcerias
Público-Privadas (as chamadas PPPs) e do
estímulo à inovação
e difusão de novas tecnologias, que seria
o eixo central da Nova Política Industrial,
Tecnológica e do Comércio Exterior(202).
É evidente que, para a
boa saúde da economia, não deixa
de ser bem-vinda qualquer ação que
venha a coibir a ação monopólica
dos cartéis. No entanto, temos que esperar
pela proposta de “reforma” do SBDC
para podermos avaliar sua eficácia. Quanto
às PPPs, trata-se de uma mudança
importante em relação à política
do governo anterior: substituiu-se a política
anterior de entrega do patrimônio público
por uma outra em que o capital privado é
chamado a construir as obras de infra-estrutura
em conjunto com o Estado. Deparamo-nos, porém,
com dois problemas: 1) o Congresso limitou a participação
do Estado nos projetos a 1,5% do orçamento,
isto é, tomando como base o orçamento
deste ano, a R$ 3,63 bilhões(203), um valor
irrisório diante das necessidades de investimento;
2) a participação das empresas privadas,
por sua vez, estará limitada pelo nível
das taxas de juros: no patamar em que estão,
os empresários vão preferir aplicar
no mercado financeiro do que investir na atividade
produtiva. Essa mesma situação também
limita as possibilidades da Nova Política
Industrial, Tecnológica e de Comércio
Exterior. No geral, o Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior definiu
bem os setores prioritários que cumpririam
o papel de alavancar uma nova dinâmica na
economia, mas faltam as fontes dos recursos.
13.
À moda de conclusão
Pode-se concluir que o governo
Lula é, contraditória e simultaneamente,
continuidade e ruptura em relação
à gestão de Fernando Henrique.
A manutenção da
política macroeconômica, sobretudo
em seus aspectos monetário, fiscal e cambial,
é continuidade da política subordinada
ao FMI e aos interesses da banca nacional e estrangeira.
As “reformas microeconômicas”
já realizadas ou planejadas são
medidas que se enquadram na mesma lógica,
e já estavam no horizonte do FMI e do governo
FH, além de medidas como a “reforma
da Previdência” e a Lei de Falências.
Mas também é ruptura,
ao distanciar-se da política exterior de
alinhamento automático com os EUA praticada
por FH, e começar a implementar uma política
externa independente, que, além de fortalecer
a integração da América do
Sul, busca estreitar os laços com a China,
a Índia, a Rússia, a África
do Sul e o mundo árabe. Conforma, assim,
um bloco que, nas negociações internacionais
(OMC, ALCA), se contrapõe aos interesses
imperiais dos EUA e permite uma maior diversificação
do nosso comércio exterior.
A continuidade, ao manter uma
política monetária e fiscal rígida,
provocou no primeiro ano de governo a estagnação
da economia, o aumento do desemprego e a queda
do salário real; a crise só não
foi mais grave porque a ruptura, ao favorecer
a diversificação dos mercados externos
e garantir um forte crescimento das exportações,
amorteceu os efeitos depressivos da continuidade.
A ruptura, ao favorecer um salto
nas exportações, viabilizou no segundo
ano o crescimento do PIB, a redução
do desemprego e um ligeiro respiro no poder de
compra do salário; o crescimento da atividade
econômica só não foi mais
forte (perdendo para outros países em desenvolvimento,
como Argentina, Venezuela, China, Índia
e Rússia) porque a continuidade, ao engessar
a economia com sua política monetária,
fiscal e cambial rígida, empurrou a economia
para baixo.
É da solução
dessa contradição que depende o
futuro próximo da economia brasileira e
do conjunto da Nação. A continuidade,
se mantida, tende a diminuir e, em certos casos,
até a anular os efeitos positivos da ruptura.
Dois exemplos: 1) ao usar os superávites
comerciais, obtidos pela ruptura, no pagamento
da dívida externa e dos encargos do passivo
externo, impede de usá-los para fortalecer
as reservas cambiais e assim diminuir a vulnerabilidade
externa; 2) ao praticar uma política monetária
e fiscal que provoca a valorização
do real, cria obstáculos ao crescimento
das exportações estimulado pela
ruptura, agindo como fator depressor da atividade
econômica no País. Isso sem considerar
que, enquanto a ruptura promove o dinamismo da
economia ao estimular o crescimento das exportações,
a continuidade, com seus juros, superávit
primário e valor da moeda elevados, empurra
a economia para a recessão.
A própria forma como se
configura a ruptura, refletida no aumento do comércio
exterior, tem seus limites, na medida em que condiciona
o comportamento da nossa economia à dinâmica
da economia mundial, e não à das
condições econômicas internas.
Uma ruptura mais duradoura implicaria a criação
de condições para viabilizar o investimento
e a expansão do mercado interno. Apesar
de algumas iniciativas do governo Lula - à
margem e, muitas das vezes, até contra
a equipe econômica -, no sentido de ampliar
os recursos para investimentos e de melhorar o
mercado interno, são medidas cujo impacto
na economia é bloqueado pela política
monetária e fiscal apertada da equipe econômica.
É como tirar água de um navio com
um balde sem antes tapar o rombo no casco.
Essa pressão da continuidade,
como vimos, além de haver engendrado a
estagnação econômica em 2003,
já voltou a produzir seus efeitos negativos,
ao provocar o início da desaceleração
da economia a partir do último trimestre
de 2004. Por isso, é possível afirmar
que, nessa briga de foice entre continuidade e
ruptura, tem prevalecido a continuidade. Mas,
cada vez mais, torna-se difícil a convivência
entre esses dois pólos da contradição,
isto é, entre uma política financeiro-fiscal
subordinada aos interesses externos e uma política
externa e de comércio exterior independente.
É difícil a convivência entre
“Deus e o Diabo na Terra do Sol”.
A solução dessa
contradição, a favor da continuidade
ou da ruptura, não depende apenas do que
pense ou possa fazer o governo ou o Presidente
Lula, ainda que dependa muito dele. Depende, sobretudo,
do comportamento da sociedade, particularmente
dos setores populares, que foram os que mais se
identificaram com Lula em sua campanha eleitoral.
Se prevalecer a desmobilização social,
a pressão dos poderosos grupos econômicos
imporá a continuidade, mas, se os setores
populares se mobilizarem, poderão trazer
para o plano interno a ruptura que se realiza
na política exterior.
Essa mobilização
se faz tanto mais necessária quanto mais
a área econômica do governo dá
sinais de que pretende perseverar na política
econômica implementada pelo Ministério
da Fazenda. O anúncio, no dia 28 de março,
pelo ministro Palocci, de que não seria
renovado o “acordo” com o FMI, que
venceria no dia 31 daquele mês, aparentemente
indicaria que o governo pretende adotar uma postura
mais autônoma em relação ao
receituário dessa instituição.
Pelo menos, parece ser essa a posição
do Presidente Lula(204). No entanto, a depreender-se
da trajetória recente do ministro Palocci(205)
e da posição que defendeu no momento
do anúncio dessa notícia(206), a
área econômica insistirá em
seguir praticando a política do FMI, ainda
que sem o FMI. A nomeação para o
cargo de ministro do Planejamento, em meados de
março de 2005, de Paulo Bernardo, um deputado
petista inteiramente afinado com a linha de Palocci,
a ponto de já haver sido apodado de fiel
escudeiro do ministro da Fazenda, sugere o fortalecimento
dessa posição dentro do governo.
Mas é evidente que o fato de não
haver “acordo” com aquela instituição
favorece a luta daqueles que, dentro ou fora do
governo, batalham pela mudança da política
econômico-financeira que vem sendo implementada.
Ruptura, nas atuais condições
do Brasil, significa romper com um período
de duas décadas e meia de estagnação
econômica, desemprego, arrocho salarial,
fome e miséria, e criar as condições
para o desenvolvimento econômico auto-sustentado
e a incorporação das amplas massas
aos resultados desse desenvolvimento. Para isso,
o fundamental é romper com a subordinação
externa da nossa economia e da nossa política
econômica. Pensar com a própria cabeça
e caminhar com as próprias pernas, como
diria o presidente Lula; enfim, traçar
o próprio destino.
Notas.
133.Fonte: IBGE.
134.Fonte: IBGE. Ver também Folha Online
Dinheiro. “Taxa de investimento na economia
tem o melhor resultado desde 1998”. Disponível
em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro.
Acesso: 31.03.2005, 09h45m. E Ministério
da Fazenda. Política econômica e
reformas estruturais. Brasília, abr. 2003,
p.31, tabela 2. Ao longo de 2004, a formação
bruta de capital fixo – ume medida do nível
de investimento – subiu 10,9%, mal compensando
a queda de 6,6% ocorrida em 2003 (fonte: IBGE.
Extraído de UOL – Últimas
Notícias. Disponível em: http://notícias.uol.com.br/economia/ultnot/reuters.
Acesso: 01.03.2005, 10h38m).
135.Fonte: IBGE. Extraído de Folha Online
Dinheiro, cit. No primeiro semestre, a taxa de
poupança fora de 24,15% (Fonte: IBGE. Extraído
de UOL – Últimas Notícias,
cit.)
136.A diferença entre um volume de poupança
de R$ 409,95 bilhões e um volume de investimento
de R$ 346,2 bilhões (Fonte: IBGE. Extraído
de Folha Online Dinheiro, cit.). O PIB de 2004
foi de R$ 1,769 trilhão (fonte: IBGE. Extraído
de Folha Online Dinheiro. “PIB brasileiro
somou R$ 1,769 trilhão em 2004, diz IBGE”.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro.
Acesso: 31.03.2005, 09h32m).
137.Fonte: IBGE. Média aritmética
das taxas anuais de crescimento do PIB na década.
138.A taxa média de rentabilidade sobre
o patrimônio das 500 maiores empresas não-financeiras,
que fora de 11,15% na década de 80, não
passou de 3% nos oito anos da era FH (ver “Melhores
e maiores”, Revista Exame, 1999, p. 12,
e jul. 2003, p. 22). Nesse último período,
a taxa de rentabilidade dos bancos esteve em torno
de 15%.
139.Em 2002, quando, segundo levantamento da consultoria
Austin Asis junto aos 50 maiores bancos do País,
estes apresentaram uma taxa de rentabilidade de
24,5%, as empresas não-financeiras, que
antes de pagarem os encargos financeiros, apresentavam
uma rentabilidade de 12% sobre seu patrimônio,
viram essa rentabilidade transformar-se num prejuízo
de 13,1%, depois dos encargos. Segundo a Associação
Nacional de Executivos de Finanças, Administração
e Contabilidade (ANEFAC), o aumento dos juros
naquele ano fez com que a parcela da receita das
empresas comprometida com juros tenha aumentado
de 7,2% para 13,7% (Cf. Souza, Nilson Araújo
de. A longa agonia da dependência –
economia brasileira contemporânea (JK/FH).
São Paulo, Alfa-Omega, 2004, p. 699-700).
140.Cf. IBGE. Pesquisa industrial..., cit., p.
2.
141.Medida pelo IPCA do IBGE, baixou de 12,58%
em 2002 para 9,33% em 2003 e 7,57% em 2004 (Fonte:
IBGE), e os próprios agentes financeiros,
que têm interesse em projetar uma taxa mais
alta a fim de forçar uma elevação
dos juros, “esperam”, de acordo com
a “pesquisa Focus” realizada pelo
BC no começo de março de 2005, uma
taxa de 5,88% para 2005 e de 5% para 2006 (Fonte:
Banco Central).
142.Registre-se que, costumeiramente, no Brasil,
os dirigentes do Banco Central têm vínculos
com a área financeira (ou são oriundos
dos bancos ou para lá vão depois
de concluído seu tempo à frente
do BC), mas, no passado, essa vinculação
se dava sobretudo com os bancos privados nacionais
(Cf. Batista Jr., Paulo Nogueira. “Estatizando
o Banco Central”. Revista Carta Maior. Disponível
em: http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.
Acesso: 24.03.2005). No entanto, desde que Pedro
Malan foi presidente do BC, na época em
que FH era ministro da Fazenda, inaugurou-se uma
época em que os presidentes desse banco
têm sido vinculados ao sistema financeiro
internacional: o próprio Malan foi diretor
do BIRD e do BID, Armínio Fraga foi o principal
operador do mega-especulador George Soros e Henrique
Meirelles foi presidente mundial do BankBoston,
de onde recebe a miserável aposentadoria
de US$ 750 mil por ano.
143.Ver nota anterior.
144.Houve um forte processo de fusão bancária
nos anos 90 a nível mundial. Na principal
praça financeira do mundo, os EUA, entre
1996 e abril de 1998, das nove maiores fusões
ocorridas, três ocorreram no setor financeiro.
É importante registrar que ocorreu naquela
década o maior processo de fusões
da história do País: o conjunto
das transações para fusões
subiu de US$ 138 bilhões em 1991 (2% do
PIB) para US$ 957 bilhões em 1997 (12%
do PIB). (Cf. Souza, Nilson. Ascensão e
queda do império americano. São
Paulo, Ed. CPC-UMES/Mandacaru, 2001, p. 128).
145.A queda de braço entre o governo argentino
e seus credores a propósito da renegociação
de sua dívida externa, em moratória,
revelou que, quando um governo nacional age com
determinação, é capaz de
dobrar a resistência da banca internacional:
a Argentina conseguiu que 76% de sua dívida
em moratória fosse renegociada com até
75% de desconto. Segundo informou o ministro da
Economia, Roberto Lavagna, a dívida de
US$ 102 bilhões foi reduzida para US$ 35
bilhões, economizando, assim, US$ 67 bilhões.
146.O chamado câmbio flutuante significa,
na prática, deixar uma variável
fundamental da economia – na medida em que
interfere no volume do comércio exterior
e, portanto, na atividade econômica e no
nível do emprego – nas mãos
dos especuladores com moeda. O mais correto seria
o controle cambial, isto é, a adoção
de um sistema de câmbio administrado, através
do qual o BC administraria a taxa de câmbio
de acordo com as metas de exportação
e importação do País.
147.Tem razão o economista Paulo Nogueira
Batista Jr., ao afirmar: “E fica cada vez
mais claro que precisamos de uma reforma no Banco
Central capaz de transformá-lo em uma instituição
orientada pelo interesse nacional” (Cf.
Batista Jr., Paulo Nogueira. “Estatizando
o Banco Central”. Revista Carta Maior. Disponível
em: http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.
Acesso: 24.03.2005).
148.Cf. “BNDES tem recorde de empréstimos,
mas sobram R$ 7 bi no caixa em 2004”. Folha
Online – Dinheiro. Acesso:, 13.01.2005,
11h46m.
149.Taxa de Juros de Longo Prazo, que baliza os
empréstimos do BNDES.
150.Cf. “BNDES tem recorde...”
151.Ibid.
152.Diferença entre a taxa de captação
e a taxa de aplicação do sistema
bancário.
153.O recente escândalo do Banco Santos,
acusado, dentre outras coisas, de praticar uma
gigantesca fraude com recursos do BNDES, é
apenas a ponta do iceberg dessa verdadeira torrente
de recursos desviados do banco oficial. Empresários
ouvidos pela Polícia Federal acusam o dono
do Banco Santo de exigir que metade dos recursos
do BNDES que conseguem emprestado por seu intermédio
fosse depositada em conta por ele indicada.
154.No início do governo, à frente
do Ministério do Planejamento, Mantega
apresentava certas divergências com o grupo
da Fazenda, liderado por Palocci, sobretudo no
que tange à rigidez monetária e
fiscal, mas também porque propugnava uma
política industrial ativa, com base no
consumo de massas e nas tecnologias de ponta,
enquanto o grupo de Palocci prefere deixar o desenvolvimento
industrial ao sabor do “mercado”,
isto é, da lógica dos cartéis.
No entanto, com o passar do tempo, Mantega foi-se
amoldando à política praticada pelo
Fazenda e o Banco Central – pelo menos publicamente.
155.Cf. Hora do Povo, 18-22.02.2005, p. 2.
156.Ibid., p. 2.
157.Considerando uma taxa de investimento de 19,6%
e um PIB de R$ 1,769 trilhão (Fonte: IBGE.
Dados extraídos de Folha Online Dinheiro,
cit.)
158.Ainda não dispomos dos dados da execução
orçamentária de 2004. Se houver
sido realizado o conjunto das despesas de capital
previstas na lei orçamentária e
nos créditos suplementares aprovados, no
montante de R$ 12,37 bilhões, chegaríamos
a um percentual de 3,67% do investimento total
no País. Mas, como é sabido, dificilmente,
ocorre essa execução integral do
orçamento. Em 2003, por exemplo, de um
total orçado (inclusive créditos)
de R$ 16,95 bilhões, só se investiram
R$ 6,45 bilhões (Fonte: Ministério
do Planejamento. Disponível em: http://www.planejamento.gov.br.
Acesso: 13.03.2005, 13h33m). Os próceres
do Ministério da Fazenda fizeram festa
quando, no dia 21 de fevereiro de 2005, o FMI
anunciou sua concordância com a proposta
do governo de usar parte do superávit primário
“para investimentos em infra-estrutura e
outros projetos de investimento público
com retorno macroeconômico e fiscal potencialmente
forte a médio prazo, consistente com uma
posição de sólida sustentabilidade
fiscal” (“Comunicado da diretora do
Departamento de Assuntos Fiscais do FMI”.
In: Folha Online – Dinheiro. Disponível
em: http://www1.uol.com.br/folha/dinheiro.
Acesso: 22.02.2005, 16h06m). Pelo barulho feito,
até parecia que rios de dinheiro estariam
disponíveis para investimento, mas não
passavam “de US$ 1 bilhão ao ano
pelos próximos três anos (2005-2007)”
(Ibid.), isto é, cerca de R$ 2,7 bilhões,
à taxa de câmbio atual – não
mais que irrisórios 3,25% do superávit
primário gerado em 2004. .
159.O governo de Lula está entusiasmado
com o micro-crédito. É importante
estimular essa modalidade de financiamento, na
medida em que favorece as micro e pequenas empresas.
Mas, obviamente, o montante do financiamento daí
derivado não passa de um grão de
areia na montanha de necessidades de recursos
para investimento no País: segundo o Ministério
da Fazenda, “a carteira ativa dessas operações,
em 30/09/2004, considerando apenas cinco grandes
instituições financeiras, situava-se
em R$ 339 milhões e 691.536 operações.
O acumulado em um ano nestes mesmos cinco bancos
chega a 2 milhões de contratos e R$ 843
milhões emprestados”. (cf. Ministério
da Fazenda. Reformas microeconômicas e crescimento
de longo prazo. Brasília, dez. 2004, p.
62). Esse volume anual não passa de 2%
do volume emprestado pelo BNDES em 2004 e de 0,5%
do volume de crédito que, em dezembro de
2004, constava nas carteiras dos bancos como empréstimos
às empresas (R$ 158,3 bilhões. Fonte:
Global Invest).
160.Veja a pérola de declaração
do secretário-executivo do Tesouro Nacional,
Joaquim Levy: “Um juro que aumente para
garantir a consistência macroeconômica
não mata o investimento” (Folha de
S.Paulo, 18.03.2005, p. B4).
161.Estima-se que hoje cerca de 80% das empresas
em concordata, em lugar de serem recuperadas,
chegam fatalmente à falência.
162.“No setor bancário, segundo estudo
da consultoria Austin Asis, as maiores instituições
aumentaram seu peso de 45,2% dos ativos totais
do sistema em 1994 para 60,2% em 2002” (Cf.
Souza, Nilson Araújo de. A longa agonia
da dependência – economia brasileira
contemporânea (JK/FH). São Paulo,
Alfa-Omega, 2004, p.. 697).
163.É evidente que o governo pode retomar
nossa tradição de política
salarial que garantia a reposição
das perdas inflacionárias para o conjunto
dos salários, ou pelo menos para aqueles
que ganham até 10 salários mínimos.
164.O primeiro reajuste do salário mínimo
da era Lula, em abril de 2003, de R$ 200 para
R$ 240, implicou um aumento real de apenas 2,67%,
se adotarmos como deflator o IPCA do IBGE de maio
de 2002 a abril de 2003 (16,88%); o segundo, em
maio de 2004, fixado em R$ 260, correspondeu a
um aumento real de 3,02%, diante de um IPCA de
5,12%; o terceiro, estabelecido para vigorar a
partir de maio de 2005, poderá implicar
um crescimento real de 7,5%, se o IPCA mantiver-se
no patamar atual (7,3%) (Para o IPCA, ver IBGE.
Série histórica – IPCA dessazonalizado.
Disponível em: http://www.ibge.com.br.
Acesso: 18.03.2005, 13h25m; para dados sobre salário
mínimo, ver DIEESE. Salário mínimo
nominal e necessário. Disponível
em: http://www.dieese.org.br/rel/rac.
Acesso: 18.03.2005, 12h). Nesse ritmo, para dobrar
o salário mínimo real, ainda teremos
vários anos pela frente.
165.O DIEESE calcula todo mês a evolução
do salário mínimo real. Em dezembro
de 2002, último mês de FH no poder,
o poder de compra do salário mínimo
era 3,8 vezes menor (índice 26,34) do que
o do momento da sua instituição,
em julho de 1940 (índice 100), e quatro
vezes menor do que o que vigorou, em média,
de 1952 a 1962 (índice 105,94), sendo 4,6
vezes menor do que os do momento de “pico”
em 1957 e 1959 (índice 121,05) (DIEESE.
Município de São Paulo: Salário
mínimo real. Índice julho 1940=100).
O DIEESE calcula também o salário
mínimo nominal necessário para sustentar
uma família trabalhadora de dois adultos
e duas crianças, com base na lei que criou
o salário mínimo, que estabelece
a ração necessária, e a Constituição
de 88, que reza que o “salário mínimo
fixado em lei, nacionalmente unificado, [deve
ser] capaz de atender às suas necessidades
vitais básicas e às de sua família,
como moradia, alimentação, educação,
saúde, lazer, vestuário, higiene,
transporte e previdência social, reajustado
periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo,
vedada sua vinculação para qualquer
fim” (Constituição da República
Federativa do Brasil, capítulo II, dos
Direitos Sociais, artigo 7º, inciso IV).
Em janeiro de 2003, esse salário necessário
deveria ter sido de R$ 1.385,91, enquanto o salário
mínimo era de R$ 200, isto é, 6,9
vezes menos (DIEESE. Salário mínimo
nominal..., cit. ).
166.O aumento do salário mínimo
para R$ 300, implicando num reajuste real de cerca
de 7,5% em 12 meses, além da correção
da tabela do Imposto de Renda em 10%, pode contribuir
para melhorar um pouco o poder de compra do salário
em 2005, animando um pouco o mercado interno,
mas, dado o fundo do poço a que chegaram
os salários reais em 2003/4, o impacto
não será muito grande.
167.O Programa Fome Zero procura apoiar as famílias
de baixa renda em ações na área
de saúde, alimentação, educação
e assistência social, mas seu principal
instrumento é o bolsa família, que
unificou todos os benefícios sociais do
governo federal. Esse programa prevê a concessão
de R$ 50 mensais por família, mais R$ 15
por dependente até 16 anos, num limite
máximo de três dependentes, para
famílias com renda per capita de até
R$ 100 por mês Em dezembro de 2004, estavam
sendo atendidas 6.571.842 famílias, que
recebiam, em média, R$ 66,93 por mês
(fonte: Ministério do Desenvolvimento Social
e Combate à Fome. Disponível em:
http://www.fomezero.gov.br. Acesso: 13.03.2005,
14h35m).
168.Para usar a terminologia do Presidente Lula,
para quem o gasto social é “investimento”.
169.Apesar da definição de que os
fundos de pensão complementar serão
de caráter fechado e de natureza pública,
a forma como ficou a redação da
emenda constitucional possibilita a mudança
da “natureza pública”, abrindo
campo para os bancos montarem esses fundos.
170.De acordo com o Plano Nacional de Reforma
Agrária (PNRA), seriam assentadas 30 mil
famílias em 2003, 115 mil em 2004, 115
mil em 2005 e 140 mil em 2006. Além disso,
o governo comprometeu-se a conceder terra a 130
mil famílias através do Programa
Nacional de Crédito Fundíário
(Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Disponível em: http://www.mda.gov.br.
Acesso: 13.03.200516h25m).
171.Entrevista de Frei Betto, revista Moradia
e Cidadania, jan. 2005, p. 9.
172.Registre-se que os formuladores do “Consenso
de Washington”, liderados por John Williamson,
então presidente do Instituo Internacional
de Economia, admitiam que, para contrabalançar
os efeitos negativos das políticas neoliberais,
dever-se-iam adotar “medidas compensatórias”.
173. Já vimos que o “teto”
por eles estabelecido para o crescimento do PIB
é de 3,5%, e esse “teto” condiciona
o comportamento das demais variáveis.
174.Ministério da Fazenda. Reformas microeconômicas
e crescimento de longo prazo. Brasília,
dez. 2004, p. 17.
175.Ibid., p. 8.
176. Conforme a equipe liderada por Marcos Lisboa
já havia indicado no documento anterior
(Ministério da Fazenda. Política
econômica e reformas estruturais. Brasília,
abr. 2003, esp. p. 34-36) e volta a insistir neste
último documento, a saber: “A austeridade
na administração das contas públicas
pode ser verificada pelos resultados primário
e operacional do setor público obtidos
em 2003 e 2004, que mostram consistência
com as metas estabelecidas e apontam também
para uma sensível melhora na evolução
recente da poupança do Governo. Em 2003,
o superávit primário do setor público
consolidado alcançou 4,25% do PIB –
contra 3,89% do PIB em 2002 (...) Em 2004, houve
um excesso de arrecadação...”
(ver Reformas microeconômicas..., p. 17).
177.Ministério da Fazenda, Reformas microeconômicas....,
cit., p. 17.
178.Expresso na queda dos investimentos públicos
(e vários gastos sociais) em 2003 e no
aumento da carga tributária em 2004.
179.Reformas microeconômicas..., cit., p.
23.
180.Ibid., p. 9.
181.Cf. Decreto no. 4.733, de 10.06.2003 (telecomunicações),
e lei no. 10.848/2004 (setor elétrico).
182.Ministério da Fazenda, Reformas microeconômicas...,
cit., p. 8-9.
183.Ibid., p. 9.
184.Ibid., p. 9.
185.Ibid., p. 9.
186.Ibid., p. 9.
187.Ibid., p. 9.
188.Não existe maior demonstração
de autonomia operacional do BC em relação
ao governo do que o fato de, apesar de o Presidente
Lula haver declarado em dezembro na presença
de vários senadores que os juros não
continuariam subindo, o BC seguiu elevando a taxa
selic dali em diante.
189.Só para demarcar o período de
1999 para cá: estagnação
econômica em 1999, crescimento do PIB em
2000, estagnação no período
2001-3, crescimento do PIB em 2004, com previsão
de desaceleração em 2005 ou 2006.
190.Cf. Batista Jr., Paulo Nogueira. “Estatizando
o Banco Central”, cit.
191.Cf. Ministério da Fazenda, Reformas
microeconômicas..., cit., p. 10.
192.Ibid., p. 10.
193.PIS – Programa de Integração
Social; COFINS – Contribuição
para o Financiamento da Seguridade Social; CSLL
– Contribuição Social sobre
o Lucro Líquido. O fim da cumulatividade
foi realizado através da MP no. 219/2004,
transformada no Projeto de Lei de Conversão
no. 62/2004.
194.As facilidades para a formalização
do micro empresário implicam um conjunto
de medidas positivas, como a desburocratização
e a redução da carga tributária;
no entanto, também contemplam a retirada
de direitos dos trabalhadores, como a redução
da alíquota do FGTS.
195.Ministério da Fazenda. Reformas microeconômicas....,
cit., p. 10.
196.Conforme vimos antes, em estudo feito pela
Consultoria Economática, as cinco maiores
empresas do setor de alimentos aumentaram sua
fatia no faturamento setorial de 78,2% em 1994
para 94% em 2002. Além disso, elas são
basicamente estrangeiras: em 2000, 58% do setor
de alimentos já pertenciam ao capital estrangeiro
(cf. “Melhores e maiores”, revista
Exame, 2001).
197.Ministério da Fazenda. Reformas microeconômicas...,
cit., p. 10.
198.Ibid., p. 11.
199.Ibid., p. 11.
200.Ibid., p. 71
201.Ibid., p. 11.
202.Ibid., p. 11.
203.Isto, se o critério for o de receita
líquida administrada pela Secretaria de
Receita Federal, isto é, exclusive INSS
e FGTS, e descontados os repasses a estados e
municípios, o que daria um montante de
R$ 242 bilhões. Se o critério for
e de receita administrada bruta, no montante de
R$ 316 bilhões, o valor que poderia ser
destinado às PPPs seria de R$ 4,74 bilhões
(Fonte: Ministério de Planejamento, Orçamento
e Gestão. Programação Orçamentária
e Financeira, 2005. Disponível em: http://www.planejamento.gov.br/arquivos.
Acesso: 17.03.2005).
204.Vejam suas próprias palavras: “Hoje,
ao comunicar ao FMI que nós (...) não
vamos fazer mais um acordo, nós fazemos
com a serenidade e com a tranqüilidade de
um governo que conquistou com o sacrifício
de todo o povo brasileiro o direito de andar com
as próprias pernas” (Cf. Folha de
S.Paulo, 29.03.2005, p. B3).
205.Concordou em que o COPOM seguisse elevando
a taxa selic, quando, no “acordo”
com o FMI, havia espaço para baixá-la;
propôs um superávit primário
acima do anteriormente acordado com o Fundo e,
pior ainda, praticou um índice maior do
que o por ele próprio proposto. Recordemo-nos
também de que, mesmo não tendo a
menor necessidade financeira, isto é, não
possuindo rombos nas contas externas a serem cobertos
com fundos do FMI, renovou o “acordo”
com essa instituição em 2003. Tanto
não tinha necessidade que não recorreu
aos US$ 15,4 bilhões comprometidos pelo
Fundo naquela renovação. O País
sofre o ônus da política contencionista
do FMI, sem beneficiar-se do bônus de seus
recursos financeiros. Ou seja, vem sendo mais
dogmático na aplicação do
receituário do Fundo do que os próprios
técnicos dessa instituição.
206.Ao dizer que “o controle do orçamento
e dos gastos públicos continuará
sendo feito com disciplina e transparência”
e que “é isso que garantirá
a continuidade do equilíbrio econômico
necessário para o Brasil crescer”
(discurso feito por Palocci no dia 28.03.2005),
deu o sinal de que pretende manter as metas de
superávit primário (4,25% do PIB)
acordadas com o FMI. Lembremo-nos de que essas
metas não foram impostas pelo Fundo, mas
propostas pela equipe de Palocci, que diz acreditar
ser essa a maneira de reduzir a relação
dívida/PIB.
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uma década”. Disponível em:
http://noticias.uol.com.br/economia/ultinot/reuters.
Acesso em: 01.03.2005, 10h38m.
Nilson
Araújo de Souza
Doutor em Economia e docente no curso de relações
internacionais do Unicentro Belas Artes.
Nota
do Editor.
Agradecemos ao Prof. Nilson pelo
envio do relevante e atual ensaio sobre a economia
brasileira o qual, devido sua extensão,
optamos por publicar em duas edições
(DATA VENIA nos.11 e 12).
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