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*Política
Externa Brasileira: ideologia,
pragmatismo e o interesse Nacional
Por
Luiz Fernando Silva Pinto
A
política externa brasileira sempre foi
caracterizada por sua habilidade em promover o
interesse nacional. Durante sucessivas fases históricas,
coube aos seus formuladores identificar os interesses
da nação e promovê-los em
um mundo em constante mutação.
Além
da conjuntura internacional, o interesse nacional
também passou por diferentes transformações.
Ao longo dessas mudanças conjunturais e
transformações do interesse nacional
construiu-se, de maneira penosa, passando por
momentos específicos de desvios, o paradigma
de ação da nossa política
externa.
O
objetivo deste capítulo é traçar
sinteticamente um histórico da política
externa brasileira, enfatizando os momentos de
inflexão que caracterizam tanto a construção
do paradigma de ação como o padrão
dos desvios que ele apresenta. Neste sentido,
alguns contextos específicos serão
recortados e destacados.
1.1
– Pragmatismo versus Alinhamento Automático
ou Ideológico.
Nenhum
período pode ser mais ilustrativo ao buscarmos
a essência da política externa brasileira,
tal como o padrão de seus desvios, do que
o período em que José Maria da Silva
Paranhos Júnior, o Barão do Rio
Branco, ocupou a chefia do Itamaraty.
Internamente,
o contexto no qual Rio Branco tornou-se Ministro
das Relações Exteriores era bastante
calmo. A República já havia sido
consolidada, tal como a disputa pela hegemonia
política já havia sido vencida pelos
cafeicultores paulistas, desbancando os militares
e os setores que representavam a classe média
(mais concentrados no Rio de Janeiro). A vitória
dos cafeicultores paulistas fez com que o plano
de modernização e industrialização
do país, que os Governos dos Marechais
Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto tentaram
implantar, fosse abandonado. Os esforços
do Estado, em termos econômicos, estariam
voltados unicamente ao café.
Isso,
na perspectiva dos formuladores da política
externa, significava que, em termos econômicos,
o único objetivo era a promoção
do café no exterior. Tarefa simples, o
que fazia com que os diplomatas brasileiros se
preocupassem mais com os temas políticos.
Em
termos políticos, os interesses nacionais
do período eram basicamente buscar a consolidação
jurídica definitiva de nossas fronteiras,
defendê-las, ampliar o prestígio
internacional do país e buscar a supremacia
na América do Sul.
Tais
objetivos deveriam ser promovidos em um contexto
internacional totalmente adverso. Durante este
período, os Estados europeus estavam no
auge de suas disputas interimperialistas, buscando
colonizar e dominar todas as áreas do globo
(1). Além disso, no âmbito hemisférico,
os EUA, sob a presidência de Theodore Roosevelt,
vinham adotando uma política externa extremamente
agressiva. Foi quando o Corolário Roosevelt
foi somado à Doutrina Monroe, o lema do
corolário, speak softly and carry a big
stick, já diz muito da natureza dessa política.
Como se não bastasse, devido ao extraordinário
crescimento argentino a partir de 1880, a possibilidade
da constituição de um bloco Hispano-Americano
hostil ao país, sob a liderança
Argentina, era iminente.
Foi
nesse contexto, de extrema adversidade, que o
Barão do Rio Branco estabeleceu um princípio
de ação que se tornou parte importante
do acervo diplomático permanente do Estado
Brasileiro, o pragmatismo.
Pragmatismo
significa, acima de tudo, buscar única
e exclusivamente os interesses nacionais, sem
balizar a ação por princípios
abstratos ou ideológicos.
Foi
com base nesse princípio, somado às
excelentes e realistas análises acerca
do Sistema Internacional, e do posicionamento
do Brasil neste, que o Barão obteve seu
extraordinário sucesso.
Para
a realização de seus objetivos o
Barão opta por alinhar-se aos Estados Unidos.
Na
perspectiva do Barão, a aproximação
com os Estados Unidos teria o papel de eliminar
possibilidades de intervenção
externa no País, ao mesmo tempo em que
reforçava a capacidade negociadora do
Brasil na solução das questões
fronteiriças. Serviria, dessa forma,
aos interesses da nação, sem necessariamente
significar uma redução da soberania.
Era
uma aliança estratégica fundamentada
nos objetivos do momento, seja de consolidação
das fronteiras nacionais, seja de diminuição
da pressão hegemônica da potência
líder do sistema internacional, a Inglaterra.(2)
Logo, percebe-se que a aliança com os EUA
era um recurso de poder simbólico, um elemento
funcional para a busca do interesse nacional em
um contexto internacional adverso.
É
muito importante distinguir o alinhamento pragmático
adotado pelo Barão do alinhamento automático
ou ideológico que será analisado
mais à frente. A maior prova de que Rio
Branco via o alinhamento com os EUA de um modo
pragmático, como um elemento funcional
ao interesse nacional, está na atuação
brasileira durante a II Conferência de Haia,
em 1907. Aliás, esta Conferência
marcaria um dos pontos mais altos da diplomacia
brasileira em toda sua história.
O
principal tema da II Conferência de Haia
foi a tentativa de criação de um
Tribunal Internacional de Arbitragem. O problema
se deu quando da discussão acerca da composição
do Tribunal. As grandes potências européias
e os Estados Unidos defendiam a idéia de
que deveriam ser feitas distinções
entre os Estados soberanos, fazendo com que apenas
as grandes potências ocupassem um lugar
permanente no Tribunal. O Brasil, tendo Rui Barbosa
como chefe da delegação em Haia,
sob as ordens do Barão no Rio de Janeiro,
defendeu a tese da igualdade dos Estados livres
e soberanos. A corajosa defesa do Brasil teve
uma repercussão estrondosa nos salões
de Haia, as grandes potências sentiram-se
ultrajadas, enquanto a maioria dos países
da América Latina passou a defender a tese
brasileira.
Rui
tornou-se em Haia um líder de numerosos
países, e isso determinou a sua vitória,
fazendo malograr o projeto das grandes potências
(3).
Vale
notar que no meio das negociações
foi oferecido ao Brasil status equivalente ao
das grandes potências na Corte permanente
do Tribunal, o que supunha a nossa desistência
da tese de igualdade soberana dos Estados, oferta
que refutamos em prol do ideal de justiça
nas relações internacionais. Aliás,
tal fato pode ser tido como o primeiro embate
significativo Norte-Sul a ocorrer em uma conferência
multilateral, fato que só viria a se tornar
corriqueiro a partir da década de 1960.
O
pragmatismo do Barão fez com que sua política
se tornasse conhecida e comentada em todo mundo.
Além da simbólica vitória
da tese brasileira em Haia, Rio Branco conseguiu,
com extrema habilidade, consolidar juridicamente
as fronteiras nacionais, equacionando o primeiro
problema de uma agenda de política externa,
o de estabelecer a diferença entre o “interno”(nacional)
e o “externo”(mundo). Outro ato importante
da política externa do Barão foi
seu empenho no trabalho de aproximar os países
da América Latina e extinguir desconfianças
existentes entre eles. Nesse sentido, destaca-se
a idéia do Pacto A.B.C., que deveria caracterizar
uma política de cordial inteligência
entre a Argentina, o Brasil e o Chile. Tal proposta
é importante pois representa a primeira
tentativa mais abrangente vinda do Brasil de política
cooperativa com os países da América
do Sul. A América do Sul tornou-se a principal
preocupação de Rio Branco nos seus
últimos dias de vida. Ele disse a um amigo:
Já
construí o mapa do Brasil. Agora o meu
programa é o de contribuir para a união
e a amizade entre os países sul-americanos.
Uma das colunas dessa obra deverá ser
o A.B.C. (4).
Após
resolver os problemas fronteiriços, o Barão
entendia que o peso norte-americano na política
externa brasileira deveria ser contrabalançado
por uma ativa diplomacia cooperativa com os países
da América do Sul.
Apesar
do sucesso alcançado pela diplomacia de
Rio Branco, havia quem discordasse de algumas
de suas políticas. Nesse sentido, para
os fins deste trabalho, destacam-se as idéias
de Joaquim Nabuco (5). Os princípios de
ação que ele defendia representam
o oposto do pragmatismo do Barão. Tais
princípios privilegiam fatores de ordem
normativa e/ou filosófica na justificativa
de uma aliança. A aliança é
considerada como um fim em si mesma. Esse princípio
é o que eu chamarei nesse trabalho de alinhamento
automático ou ideológico.
Tal princípio, apesar de não ser
hegemônico dentro das formulações
do Itamaraty, foi utilizado em períodos
de desvios dos padrões normais da política
externa brasileira.
Nabuco concebia uma realidade internacional
dominada pelas grandes potências e pela
existência de uma hierarquia de nações,
derivada do poderio inerente a cada uma, o que
levava à conclusão de que, para
um país destituído de poder como
o Brasil, a melhor defesa da soberania nacional
seria justamente a preservação
dessa hierarquia, simultaneamente à busca
de alianças com a potência hegemônica
(6).
Tal
citação demonstra claramente o caráter
conservador desse pensamento, pois defende o status
quo, o que de maneira nenhuma poderia representar
o interesse brasileiro. Como um país de
características continentais que ocupa
uma posição periférica no
Sistema Internacional, a busca de nossos interesses
faz com que tenhamos um papel revolucionário
na ordem mundial.
Logo,
a idéia é de que o alinhamento automático
subordina o interesse nacional, fazendo com que
fiquemos subservientes aos países centrais.
Esse
embate, pragmatismo versus alinhamento
automático ou ideológico,
persiste até hoje na formulação
e implementação da política
externa brasileira, com clara hegemonia do pragmatismo,
a despeito de alguns hiatos e desvios que fizeram
com que momentaneamente nos alinhássemos
automaticamente à potência hegemônica.
Com a morte do Barão, em 1912, a política
externa brasileira passa a inclinar-se a adotar
o princípio do alinhamento automático
com os Estados Unidos. Tal padrão só
mudaria a partir de 1930, quando bruscas mudanças
nos planos interno e externo transformariam o
interesse nacional.
1.2
– Modernização, industrialização
e os novos objetivos da política externa
brasileira.
A
partir da década de 1920, a economia brasileira,
agroexportadora baseada no café, passa
a entrar em colapso, levando com ela o sistema
político de dominação baseado
nessa estrutura.
Tal
colapso se deve a crescente urbanização
que vinha ocorrendo no Brasil. As classes médias
urbanas, extremamente prejudicadas pela política
econômica de sustentação à
economia cafeeira, passam a lutar por seus interesses.
Isso, somado a crise do capitalismo mundial, iniciada
em 1929, com o crash da bolsa de Nova Iorque,
fez com que as situações política
e econômica brasileiras ficassem insustentáveis.
Com
a crise econômica mundial, as compras de
café diminuíram muito, fazendo com
que houvesse o estrangulamento externo da economia
brasileira. Logo, ocorreu a queda da renda das
exportações, o que fez com que ficasse
impossível importar os produtos industrializados
que importávamos, gerando uma crise de
abastecimento no Brasil. Tais fatos fizeram com
que as forças sociais ficassem ainda mais
exaltadas.
A
crise fez com que as elites dirigentes regionais
brigassem entre si, destruindo o esquema de alianças
políticas que havia sustentado a República
Velha. Nesse contexto, nas eleições
de 1930, com a fraude eleitoral que garantiu a
vitória do candidato que representava os
interesses da elite agroexportadora paulista,
e a subseqüente revolta das elites nordestinas,
mineiras e gaúchas, ocorreu uma ruptura
institucional que derrubaria a República
Velha. A Aliança Liberal, coalizão
das elites nordestinas, mineiras e gaúchas,
toma o poder. Getúlio Vargas é conduzido
à presidência. Getúlio e sua
coalizão, com amplo apoio das classes médias
urbanas, têm um projeto modernizador para
o Brasil. A partir daí o grande objetivo
da nação será a busca do
desenvolvimento econômico e social.
Esse
momento é muito importante para compreendermos
a evolução da política externa
brasileira. A partir daí o principal objetivo
de nossa política externa será auxiliar,
no cumprimento de suas funções,
a busca do desenvolvimento nacional. Desenvolvimento,
em grande medida, principalmente para um país
agrário e atrasado, significava industrialização.
Esse era o grande objetivo do Governo Vargas.
A
política externa foi de grande valia para
que Getúlio alcançasse alguns objetivos
de seu projeto governamental. Utilizando-se do
mesmo princípio do Barão do Rio
Branco, o pragmatismo, Getúlio, aproveitando-se
de um contexto internacional extremamente favorável,
com a disputa hegemônica mundial entre os
Estados Unidos e a Alemanha, consegue aumentar
enormemente o poder de barganha brasileiro.
Com
o poder de barganha aumentado, dado a posição
estratégica do Brasil, principalmente após
os avanços das tropas alemãs comandadas
por Rommel no norte da África, Getúlio
consegue negociar um excelente acordo que alinharia
o Brasil aos Aliados e aos Estados Unidos na Segunda
Guerra Mundial. Em troca de nosso esforço
de guerra receberíamos, entre outras coisas
(7), dos EUA, empréstimos para a implementação
da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Vale lembrar que para se alcançar a industrialização
o domínio da siderurgia era um fator fundamental.
O
alinhamento adotado por Getúlio, diferentemente
do automático ou ideológico, era
pragmático e funcional, foi negociado,
aos moldes do alinhamento adotado pelo Barão
no início do século. Nesse momento,
somou-se o pragmatismo, já tradicional
da política externa brasileira, com a busca
do novo interesse nacional, o desenvolvimento
econômico e social.
Se
ao Barão do Rio Branco coube utilizar o
pragmatismo para a consolidação
do espaço nacional, a partir de Getúlio
caberia utilizá-lo para desenvolver este
espaço.
1.3
– A Guerra Fria, Hegemonia norte-americana,
“entreguismo” e nacionalismo.
Ao
terminar a Segunda Guerra Mundial, em 1945, boa
parte do que hoje conhecemos como mundo desenvolvido
estava em ruínas. As antigas potências
européias estavam quase que totalmente
destruídas.
Em
contraposição a isso, os Estados
Unidos apresentavam um poder político,
econômico e militar sem precedentes.
Ao
mesmo tempo, ao leste, o outro grande vencedor
da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética,
buscava a reconstrução e o desenvolvimento
seguindo um modelo alternativo ao capitalismo,
o socialismo.
Tal
contexto, com a estimulação das
elites dirigentes nos dois países (EUA
e URSS), gerou um embate que ficou conhecido como
Guerra Fria.
Os
anos que vão de 1945 até 1963 constituíram
o período mais “quente” da
Guerra Fria, a chamada “primeira guerra
fria” (8). Durante esse período a
margem de manobra para os países em desenvolvimento
era mínima. As superpotências (EUA
e URSS) haviam dividido o mundo em duas áreas
de influência, e os países inseridos
nessas áreas deveriam subordinar seus interesses
a política de segurança de uma delas.
Aproveitando
o ensejo, o Governo Brasileiro do Presidente Dutra,
sem tentar buscar alguma margem de manobra para
uma posição política mais
autônoma, cortou relações
com a União Soviética (1947) e alinhou-se
automaticamente aos Estados Unidos, adotando o
princípio das fronteiras ideológicas
na condução da política exterior.
Além
disso, no início de seu governo, o projeto
nacional-desenvolvimentista foi deixado de lado.
Adotou-se uma plataforma liberal. O ministro da
Fazenda de Dutra, Corrêa e Castro, chega
inclusive a afirmar que o destino do Brasil seria
a exportação de produtos primários.
Apesar
disso, a partir de 1947, com a adoção
de políticas de substituição
de importações, o governo Dutra
retoma o projeto nacional-desenvolvimentista.
Nesse momento, em termos de política externa,
passa a haver uma disjunção entre
os temas políticos e os econômicos.
Enquanto nos políticos o Brasil adota uma
posição de alinhamento aos EUA,
nos econômicos, para garantir o projeto
governamental, foram adotados posicionamentos
independentes. Uma prova da postura independente
do Brasil nas questões econômicas
internacionais foi seu posicionamento na Reunião
de Havana sobre comércio e emprego, onde
56 países examinaram a carta constitutiva
da Organização Internacional do
Comércio (OIT).
“O
Brasil, na companhia da Austrália, da
Índia e de diversos países em
desenvolvimento, defendeu o direito de discriminar
produtos ao aplicar cotas de importação
para promover a industrialização,
opôs-se aos regimes tarifários
preferenciais e aos subsídios à
exportação. Defendeu a tributação
interna de produtos importados, a obrigatoriedade
de inclusão de componentes nacionais
a produtos importados e a possibilidade de imposição
de cotas em caso de problemas de balanço
de pagamentos”.(9)
Com
as eleições de 1950, Vargas volta
ao poder e dá continuidade ao projeto de
desenvolvimento nacional autônomo, ainda
que sob forte oposição interna e
pressão internacional.
Não
cabe dúvida que a rigidez político-ideológica
que orientava a práxis política
da potência hegemônica norte-americana
restringia por si a margem de autonomia da atuação
externa e de defesa dos interesses próprios
de países como o Brasil (10).
Vargas
ainda acreditava que podia conseguir apoio dos
Estados Unidos para o projeto desenvolvimentista
do Brasil. No entanto, para isso, ele sabia que
precisaria de uma certa margem de manobra que
lhe garantisse poder de barganha. A verdade é
que nesse contexto de “primeira guerra fria”
a única maneira de conseguir alguma margem
de manobra era buscar uma maior aproximação
com a URSS, contrabalanceando a influência
norte-americana. Na medida em que o Brasil nem
mesmo mantinha relações diplomáticas
com Moscou, o peso dos Estados Unidos na política
brasileira tornava-se muito grande, impossibilitando
a margem de manobra desejada por Vargas.
Além
disso, foi nesse período que os EUA iniciaram
uma política imperialista ofensiva para
América Latina.
“As
Transnacionais – em criação
– começaram a buscar novos campos
de inversão rentável, particularmente
nos países com capacidade de absorver
tecnologia intermediária, já tornada
obsoleta em seus países de origem. Entre
os países com essa capacidade de absorção,
estava precisamente o Brasil. O- correu, então,
importante ofensiva imperialista em direção
a esses países, tendo as grandes corporações
estadunidenses como ponta-de-lança”(11)
A enorme influência norte-americana ia de
encontro direto ao projeto de Vargas.
“O
princípio da política externa
dos Estados Unidos para América Latina
desde o pós-guerra foi o de priorizar
a promoção do livre-fluxo dos
seus interesses privados”.(12)
Tal
contexto fez com que alguns analistas caracterizassem
a política externa do segundo governo Vargas
com o slogan de pragmatismo impossível
(13), representando a idéia de que o cenário
internacional impossibilitava a adoção
de medidas mais autônomas. Como demonstrado
acima, não concordo com a interpretação
desses analistas. O cenário internacional
só impossibilitou que Vargas tomasse medidas
mais autônomas porque ele se recusou a aproximar-se
da União Soviética. A melhor prova
de que isso já era possível foi
a emergência do Movimento dos Países
Não Alinhados (MNA), liderado por governantes
nacionalistas como Tito (Iuguslávia), Sukarno
(Indonésia), Nasser (Egito) e Nehru (Índia),
na Conferência de Bandung em 1955. Apesar
dessa conferência só ter ocorrido
após a morte de Vargas, o movimento já
vinha se estruturando desde 1952. A idéia
dos países do MNA era conseguir autonomia
ao manter relações simultâneas
com as duas superpotências rivais, garantindo
uma enorme margem de manobra em suas negociações
internacionais.
Mesmo
assim, não era apenas o contexto internacional
que pressionava Vargas, internamente, passou a
haver uma crescente polarização
entre “entreguistas”(liberais) e nacionalistas.
Tal polarização fora resultado direto
do aumento da pressão imperialista exercido
pelos EUA. Aliás, estes desempenhariam
papel importante nesse embate interno. Nesse sentido,
foi de especial importância a doutrinação
de militares brasileiros aos cânones da
Doutrina de Contra-Insurgência. Tal doutrinação
ocorria nas academias de West Point e, a partir
de 1961, na School of the Americas (apelidada
de Escola dos ditadores), localizada na Zona do
Canal do Panamá. A Doutrina de Contra-Insurgência
consistia na idéia de que o mundo estava
dividido em dois blocos, de um lado, o bloco Ocidental
Cristão (ao qual pertenciam os países
capitalistas), de outro, o Comunista (ao qual
pertenciam os países socialistas). Nesse
sentido, caberia às forças armadas
do país líder do bloco ocidental,
os EUA, garantir a defesa do bloco contra um ataque
externo, enquanto caberia às forças
armadas dos países da América Latina,
supostamente frágeis à subversão
comunista no interior de suas fronteiras, garantir
que tais forças internas se mantivessem
afastadas do poder. Isso incluía, já
que segundo a teoria os movimentos subversivos
aproveitavam-se das instituições
e das garantias constitucionais do Estado de Direito
para semear a discórdia e difundir programas
que insuflavam a luta armada, se necessário,
a adoção de regimes de exceção,
ou seja, a implantação de regimes
ditatoriais. A difusão dessas idéias
nos meios militares acarretou enormes pressões
aos governos latino-americanos que adotavam políticas
nacionalistas.
No
Brasil, os entreguistas eram representados principalmente
pela UDN (União Democrática Nacional),
partido de oposição a Vargas, liderado
por Carlos Lacerda. Eles defendiam a não
intervenção do Estado na economia,
além de sua abertura total, irrestrita
e sem controle ao capital estrangeiro. Em outras
palavras, defendiam um “modelo” econômico
baseado na dependência externa. Em termos
políticos, pautavam uma política
externa baseada no princípio de fronteiras
ideológicas, apoiando incondicionalmente
os EUA. Ou seja, defendiam o alinhamento automático.
Os
nacionalistas defendiam a intervenção
do Estado na economia e davam preferência
ao capital nacional. Tinham como objetivo básico
a industrialização autônoma.
Em termos políticos, defendiam uma política
externa pautada pelo pragmatismo na busca do interesse
nacional, aos moldes do paradigma consolidado
por Rio Branco.
Esse
embate interno, somado às pressões
externas, fez com que Vargas adotasse algumas
políticas contraditórias, ora nacionalistas,
como no caso da criação da Petrobrás,
no decreto que limitava remessas de lucros de
empresas estrangeiras e na proposta de criação
da Eletrobrás, ora “entreguistas”,
como no caso da Comissão Mista Brasil –
EUA e no Acordo Militar com os Estados Unidos,
em 1952.
O
recrudescimento da crise política levou
Vargas ao suicídio, em 1954, visando evitar
o golpe militar engendrado pelos “entreguistas”.
Com
a morte de Vargas, toma posse o vice-presidente,
Café Filho. Este, ciente das pressões
que levaram Vargas ao suicídio, adota uma
política que favoreceu aos interesses dos
liberais. É por isso que chama o arquientreguista
Eugênio Gudin para a pasta da Fazenda. Este,
de imediato, revoga os limites para as remessas
de lucros das empresas estrangeiras. Além
disso, foi obra dele a Instrução
113 do Sumoc (Superintendência da Moeda
e do crédito), que permitia o ingresso
de capital estrangeiro direto na forma de máquinas,
veículos e equipamentos, sem cobertura
cambial, ou seja, sem necessidade de aquisição
de dólares correspondentes.
1.4
– Kubitschek, o capitalismo dependente e
a Operação Pan-Americana
Juscelino
foi eleito, em 1955, graças a um audacioso
plano de modernização e desenvolvimento.
Era o plano de Metas. Com o slogan de “50
anos em 5” JK aproveitou o espírito
desenvolvimentista que havia acometido a nação.
O
Plano de Metas foi o primeiro plano sistematizado
de industrialização do Brasil. Seus
objetivos principais eram desenvolver a capacidade
energética do país, a de transportes,
e garantir a produção de alimentos.
Apesar da essência do plano ser constituída
basicamente das idéias nacionalistas já
existentes no período de Vargas, JK adota
algumas mudanças importantes, principalmente
devido à pressão da UDN e dos EUA,
que pressionavam o Brasil para a adoção
de uma política econômica que garantisse
maior abertura aos investimentos privados estrangeiros.
Para realizar tais mudanças JK utiliza
a Instrução 113.
Kubitschek
soube jogar bem tanto com os nacionalistas como
com os entreguistas, sua política econômica
acomodava os interesses dos dois grupos. De um
lado, havia o fortalecimento do Estado, garantido
pelos maciços investimentos deste que visavam
lograr as “metas” econômicas.
Do outro, houve uma enorme inversão de
investimentos estrangeiros, principalmente na
forma de máquinas e equipamentos, devido
à adoção da Instrução
113.
Nesse
sentido, em termos de política externa,
num primeiro momento, JK adota o alinhamento automático
com relação a Washington. A prioridade
era buscar investimento nos países desenvolvidos.
O
plano de JK garante um acelerado crescimento econômico
para o Brasil mas, com a adoção
da instrução 113, o perfil econômico
do país começa a mudar. O modelo
de industrialização econômica
independente, ainda hegemônico, começa
a perder lugar para o modelo dependente, o que
acirra ainda mais a polarização
entre entreguistas e nacionalistas. Além
disso, a partir de 1958, devido às distorções
criadas pelo capital estrangeiro, a crescente
inflação e a dívida externa
passam a ameaçar o crescimento econômico.
Ciente
de que sua sustentação interna dependia
da manutenção do crescimento econômico,
JK insiste em uma política econômica
expansiva, se negando a aceitar empréstimos
do FMI, que exigia, em contrapartida, a adoção
de uma política econômica extremamente
recessiva. O Brasil chegou inclusive a romper
relações com o FMI em 1959.
No
plano externo, JK se dá conta de que o
Brasil deveria se desalinhar de Washington, buscando
uma política de barganha. É justamente
essa política de barganha que a Operação
Pan-Americana vai representar.
A
mudança no contexto internacional foi fundamental
para que a margem de manobra brasileira aumentasse
com relação aos EUA. Nesse sentido,
a mudança de estratégia da política
externa soviética foi de fundamental importância.
Procurando obter a adesão ou ao menos a
neutralidade dos países subdesenvolvidos,
a URSS passou a apoiar algumas de suas reivindicações
sem interferir em seus negócios internos,
se dispondo a estabelecer com esses países
proveitosas relações comerciais,
proporcionando, inclusive, assistência técnica
e financeira.
JK
percebeu a importância estratégica
que a América Latina podia representar
dentro da política externa dos EUA, já
que a região passou a ser alvo da política
externa soviética, e aproveitou-se da situação
para promover uma aproximação comercial
com os países socialistas.
“Esta
atitude visa tanto encontrar uma alternativa
aos excedentes primários não exportados
e a obtenção de tecnologias e
produtos industriais, como exercer uma barganha
mais efetiva face aos Estados Unidos, numa esfera
particularmente sensível para os interesses
deste país”(14).
A
OPA (Operação Pan-Americana), lançada
nesse contexto, aproveita-se da situação
para alertar os EUA de que caso não haja
auxílio para que os países do Hemisfério
alcancem o desenvolvimento, estes teriam que se
aproximar dos países socialistas na busca
de novos mercados. A idéia era fazer com
que os Estados Unidos adotassem uma espécie
de Plano Marshall para a América Latina.
A
despeito dos poucos resultados concretos da OPA,
ela representou um momento de transição
na política externa brasileira, um momento
em que o Brasil passa a se dar conta de que é
possível buscar autonomia em um contexto
de Guerra Fria.
1.5
– A Política Externa Independente
No
período que vai do início do governo
Jânio Quadros (1960) até a interrupção
do governo de João Goulart (Jango) com
o golpe de 1964, é formulada a Política
Externa Independente, que marca a sistematização
de muitos princípios da política
externa brasileira contemporânea.
A
Política Externa Independente representou
a soma do pragmatismo tradicional da diplomacia
brasileira, herança do Barão do
Rio Branco, ao ideal nacional-desenvolvimentista
Isebiano(15), que recebia influência direta
das idéias da CEPAL(16).
O
objetivo principal da Política Externa
Independente era remover quaisquer obstáculos
que pudessem ser percebidos como instrumentos
de contenção do desenvolvimento
econômico, científico e tecnológico
ao qual o país estava destinado.
Pela
primeira vez o relacionamento com os Estados
Unidos é concebido não como um
instrumento para aumentar o poder de barganha
externa, mas como a conseqüência
da própria ampliação deste
poder, que deve ser construído autonomamente
pelo Brasil.(17)
A
Política Externa Independente representou
a tomada de consciência de que a busca do
desenvolvimento autônomo inexoravelmente
levaria a um embate de interesses com as grandes
potências. De que essas potências,
principalmente devido à posição
pouco estratégica da América Latina
naquele contexto de Guerra Fria, não teriam
interesses no desenvolvimento da região.
Uma
vez que se percebeu que o interesse das Superpotências
era (e sempre será) a manutenção
do status quo, e de que o desenvolvimento de países
como o Brasil levaria à reestruturação
da ordem mundial, ficava clara a inviabilidade
de qualquer tipo de alinhamento. Daí a
ênfase no eixo de conflito Norte-Sul, na
aliança com os países em desenvolvimento
e nas demandas para o estabelecimento de uma Nova
Ordem Econômica Internacional.
Com
a Política Externa Independente o Brasil
finalmente reconhece o papel revolucionário
que lhe cabe no Sistema Internacional.
Foram
Afonso Arinos de Melo Franco, San Tiago Dantas
e Araújo Castro, todos chanceleres durante
o período, que desenvolveram os princípios
que influenciam até hoje o Itamaraty. São
eles:
- não alinhamento;
- defesa dos interesses econômicos do Brasil
em qualquer contexto ideológico;
- universalização de nossas relações;
- preferência pela diplomacia multilateral;
- busca da ampliação da autonomia
política e econômica;
- defesa de uma Nova Ordem Econômica Internacional;
e
- promoção da cooperação
sul-sul.
Naquele
momento, utilizando-nos desses princípios,
foram adotadas medidas como a opção
pelo eixo de conflito Norte-Sul ao invés
do Leste-Oeste, o reforço ao multilateralismo
da ONU (com apoio às demandas do Terceiro
Mundo), o reatamento diplomático com a
União Soviética, o incremento das
relações comerciais com o mundo
socialista, o estabelecimento de relações
especiais com a República Federativa Alemã,
a aproximação com a África
(O Brasil como ponte entre África e Ocidente),
a mediação das relações
entre Cuba e Estados Unidos, a defesa do princípio
de autodeterminação dos povos e
a crítica à invasão da Baía
dos Porcos.
A
implementação desses princípios
exigiu uma ampla universalização
de nossos contatos internacionais. Pela primeira
vez nossa diplomacia passa a atuar em âmbito
verdadeiramente global.
No
entanto, apesar de todo o esforço para
implementar essa política, ainda faltavam
meios reais de projeção de poder
para uma atuação externa tão
autônoma. Havia um hiato entre teoria e
prática, discurso e ação.
Isso fica patente no caso das colônias portuguesas,
quando o Brasil absteve-se de apoiar a descolonização
desses países na Assembléia Geral
da ONU, cedendo as demandas do lobby português.
Esse
descompasso entre querer e poder fez com que os
resultados alcançados pela Política
Externa Independente fossem pouco significativos.
Mesmo assim, seus princípios criaram uma
concepção intelectual que seria
extremamente útil posteriormente, quando
o Brasil passou a apresentar outras realidades
materiais.
Cabe
destacar que o recrudescimento da polarização
interna entre “entreguistas” e nacionalistas
também atrapalhava na implementação
da Política Externa Independente. Para
os “entreguistas”, qualquer atitude
nacionalista e autônoma representava um
movimento subversivo que visava implementar o
comunismo. Aliás, o golpe militar de 1964
representou o fim dessa polaridade interna, com
a vitória momentânea dos interesses
“entreguistas”.
1.6
– O Golpe militar e a dependência
externa
Foi
durante o período da Política Externa
Independente que a polarização interna
entre nacionalistas e entreguistas alcançou
seu ápice. Jânio Quadros, com sua
personalidade sui generis, vence as eleições
utilizando-se de uma retórica nacionalista
ao mesmo tempo em que é apoiado politicamente
por setores entreguistas (UDN). Tal contradição
se reflete diretamente em seu curto governo. Adota
a Política Externa Independente (nacionalista)
simultaneamente a uma política econômica
restritiva (liberal, entreguista). Isso fez com
que Jânio perdesse toda sua base de apoio.
Logo, em um ato desesperado, visando voltar à
presidência com poderes ampliados, Jânio
renuncia. Seu plano fracassa, sua renúncia
é aceita pelo Congresso e pelo povo.
O
vice-presidente, João Goulart (Jango),
então líder das forças nacionalistas,
é tido pelos setores conservadores como
comunista. O país entra em uma profunda
crise política. Enquanto os setores entreguistas
tentaram impedir a posse de Jango, que estava
em viagem na China, os nacionalistas foram às
ruas para pedir por sua posse. Para resolver a
situação é alterado o regime
político brasileiro, é adotado o
parlamentarismo, que restringiria o poder de Jango.
Diante
disso, somado à disputa econômica
entre o modelo autônomo e o dependente,
a economia brasileira começa a entrar em
crise. A crise deflagrou uma intensa mobilização
popular que visava o restabelecimento do presidencialismo.
Diante da pressão, o Congresso autorizou
um plebiscito sobre a matéria, plebiscito
que teve o presidencialismo como regime vitorioso.
Com plenos poderes de presidente, Jango inicia
efetivamente seu governo.
Tentando
conseguir apoio tanto dos entreguistas como dos
nacionalistas, Jango apresenta o Plano Trienal.
O plano previa, como medidas de longo prazo, amplas
reformas sociais, tais como a reforma agrária
e a lei que limitava a remessa de lucros ao exterior.
Como medidas de curto prazo, diante da crise,
foram adotadas medidas conservadoras, baseadas
em uma política econômica monetarista.
Isso fez com que, de um lado, os nacionalistas
e a esquerda se mobilizassem contra as medidas
de curto prazo. Do outro, que os entreguistas
temessem as medidas de longo prazo. A situação
era insustentável, Jango tinha que escolher
um lado. Como histórico nacionalista, herdeiro
político de Getúlio, Jango opta
pela autonomia. Foram deflagradas então
as reformas de base, o “caminho brasileiro”(18).
Era
tarde demais, o modelo dependente havia se fortalecido
muito e os setores entreguistas souberam aproveitar
a crise e conseguir o apoio dos militares e da
burguesia nacional para um golpe que pôs
fim ao governo de Jango.
“O
golpe tornou-se possível porque as vacilações
iniciais do governo Goulart, na medida em que
retardaram a implementação das
reformas estruturais indispensáveis,
favoreceram o prolongamento dos efeitos desorganizadores
da crise, provocando descontentamentos e divisões
no seio das forças nacionais e criando,
assim, o clima ‘psicossocial’, como
diria o General Golbery do Couto e Silva, propício
ao golpe”(19).
O golpe de 31 de março de 1964 representou
a vitória política dos entreguistas
sob os nacionalistas. Castelo Branco se tornou
o presidente do Brasil. A partir de então,
o objetivo dos entreguistas passou a ser a implementação
do “modelo” dependente de reprodução
de capital no Brasil.
“Em
função disso, [o governo] teve
como principal tarefa, independentemente da
consciência dos que o integravam internamente,
a de remover os obstáculos para a expansão
imperialista no país e depois garantir
uma política que desse estabilidade ao
‘modelo econômico daí decorrente’.
Para cumprir essa tarefa, não havia outra
alternativa senão o esmagamento da expressão
social e política das forças nacionais,
isto é, da democracia”.(20)
Foi
com o objetivo de abrir espaço para o capital
estrangeiro que foi implantado o PAEG (Plano de
ação econômica do Governo).
A base do plano era a adoção de
medidas econômicas monetaristas, ou seja,
corte dos investimentos estatais, corte dos gastos
públicos, restrições ao crédito
e aumento dos impostos e da taxa de juros. O PAEG
foi implantado por Roberto Campos e Octávio
Gouvêa de Bulhões, os dois liberais
convictos e discípulos do velho Gudin.
Em
se tratando de política externa, adota-se
uma posição de completo alinhamento
aos EUA. Todas as premissas da política
externa independente são deixadas de lado.
O Brasil volta a basear sua atuação
externa no eixo de ação Leste –
Oeste, além de eliminar qualquer atrito
que havia com os Estados Unidos.
“De
tudo isso resulta uma política tímida,
cautelosa nas relações internacionais,
que de tanto desejar evitar atritos e pontos
de fricção e de tanto almejar
ajustar as tensões, acaba por substituir
o realismo pragmático ou mesmo o romantismo
revolucionário pelo moralismo contra-revolucionário,
ou, se quiserem, neoclássico ... O moralismo
contra-revolucionário parte de idéias
negativas, como a corrupção e
a subversão e não de idéias
positivas, como o desenvolvimento e a modernização”.(21)
O
PAEG de Campos e Bulhões aprofundou a crise
econômica que vinha ocorrendo desde 1962,
fazendo com que parte da burguesia nacional, que
havia apoiado o golpe, passasse a se distanciar
do novo regime, criando um clima de instabilidade,
que fez com que os investimentos estrangeiros,
tão necessários segundo os planos
da nova equipe econômica, se afastassem
do país.
Foi
só após o “golpe dentro do
golpe” , com a ascensão de Costa
e Silva à Presidência, em 1967, e
o conseqüente “endurecimento do regime”,
que o modelo dependente se consolidou no Brasil.
Entretanto, para sua consolidação,
já que a retomada do crescimento econômico
era essencial para o novo regime, procurou-se
integrar os elementos nacionais desenvolvidos
anteriormente ao modelo dependente, ainda que
de maneira subordinada a este. Isso foi realizado
pelo então ministro Delfim Netto.
As
principais conseqüências do modelo
dependente foram a monopolização
da economia, a superexploração da
força de trabalho e o desequilíbrio
entre os setores produtivos brasileiros, com crescimento
desproporcional do setor IIb (de produtos duráveis),
controlado pelas grandes corporações
estrangeiras.
Tal
modelo econômico exigiu algumas alterações
na política externa brasileira. Com um
modelo econômico interno altamente concentrador
de renda, que baseava seu crescimento na expansão
do setor IIb, controlado por empresas estrangeiras,
a industria privada nacional, concentrada no setor
IIa (de produtos populares), passou a necessitar
de novos mercados, que teriam de ser encontrados
no exterior. Para isso, foi necessária
a adoção de uma política
externa comercial mais agressiva, que necessariamente
dependia de um certo afastamento de Washington.
Logo, em termos de política externa, o
pragmatismo passa a ser retomado, ainda que estivesse
limitado a alguns dogmas ideológicos do
regime.
1.7
– O II PND e o pragmatismo responsável
e ecumênico.
A
partir da década de 1970, o padrão
dependente de acumulação de capital,
implantado no período anterior, passa a
entrar em agonia. Isso se dá, em grande
parte, devido às diversas crises internacionais
deflagradas no início daquela década.
Tais crises representavam o início do processo
de decadência do império norte-americano.
Os imensos custos econômicos da Guerra do
Vietnam, somados à ascensão econômica
da Alemanha e do Japão, fizeram com que
os Estados Unidos não mais pudessem garantir
a paridade dólar-ouro que havia sido estabelecida
na Conferência de Bretton Woods, em 1944.
Isso, somado à crise do petróleo
de 1973, por ocasião da criação
da OPEP (Organização dos Países
Produtores de Petróleo), conseqüência
direta da Guerra de Yom Kippur, gerou uma grande
crise nos países centrais. Como de costume,
os países centrais tentaram jogar o ônus
da crise para sua periferia, principalmente através
do protecionismo com relação a muitos
produtos provenientes do Terceiro Mundo e do “repatriamento”
de lucros e de investimentos realizados nos países
dependentes.
Tal
crise fez que se abrissem duas perspectivas para
os países dependentes,
“ou
aumentavam a subordinação externa,
adotando o chamado ‘ajuste estrutural’,
eufemismo que disfarçava as políticas
de contenção das economias nacionais
a fim de aumentar o papel do capital estrangeiro
e criar as condições para o pagamento
do ‘serviço’ da dívida
externa; ou aproveitavam a crise para começar
a trilhar um caminho independente de desenvolvimento,
adotando um programa de substituição
de importações em setores básicos
e estratégicos e aumentando o papel do
Estado na economia”.(22)
Nesse
contexto, o Brasil, com a vitória dos setores
nacionalistas das Forças Armadas na transição
presidencial, optou pelo segundo caminho, de superação
da dependência externa e busca do desenvolvimento.
Era esse o objetivo do IIPND (Segundo Plano Nacional
de Desenvolvimento), lançado pelo Presidente
Geisel.
O
IIPND tinha como prioridade o desenvolvimento
dos setores básicos da economia. Para isso,
o investimento estatal e o financiamento público
a empresas nacionais seriam o aspecto central
do Plano.
Em
termos de política externa, Geisel, com
o competente auxílio de seu Chanceler Azeredo
da Silveira, recupera os princípios da
Política Externa Independente de Jânio
e Jango. O slogan da política externa do
período, Pragmatismo Responsável
e Ecumênico, já demonstram que o
antigo modelo de política externa baseada
em fronteiras ideológicas havia sido substituído
pelo pragmatismo.
Como
resultado do pragmatismo na atuação
externa, foram adotadas importantes atitudes,
como no acordo com a República Federal
Alemã (RFA) para a compra de tecnologia
nuclear (com forte oposição norte-americana),
no reconhecimento da independência de Angola
e do Movimento para a Libertação
de Angola (de esquerda), na condenação
de Israel pela ocupação de territórios
Árabes e no reconhecimento da OLP (Organização
para Libertação da Palestina) como
representante do povo palestino, no reconhecimento
da China comunista em detrimento de Taiwan, na
denuncia do acordo bilateral de assistência
militar com os EUA (que havia sido firmado em
1952), na recusa de assinar o Tratado de Não-Proliferação
Nuclear (TNP) e na defesa das teses Terceiro-mundistas
nos órgãos multilaterais.
Tais
atitudes refletiam diretamente as novas estratégias
adotadas pelo governo brasileiro, como a aproximação
com a Alemanha (para contrabalançar a influência
norte-americana), com os regimes comunistas, com
os países Árabes (extremamente importante
no período devido à crise do petróleo),
a universalização (ecumenismo) de
nossas relações diplomáticas
(principalmente em relação aos países
do Terceiro Mundo), a denúncia do “
congelamento do poder mundial ” e a negação
definitiva da aliança especial com os EUA
(crença que se manteve desde a Segunda
Guerra Mundial).
Além
disso, foi orquestrada, a partir do Itamaraty,
importante ofensiva na política comercial
externa. Apesar de ser algo que já vinha
sendo adotado desde 1967, como imperativo do modelo
dependente de reprodução do capital,
tal política se tornava ainda mais necessária
na medida em que a crise no sistema capitalista
internacional fazia emergir barreiras protecionistas
nos países centrais. Daí, também,
a importância da aproximação
política com os países socialistas
e periféricos, pré-condição
para um maior intercâmbio comercial, necessário
para uma política de diversificação
das exportações.
O
sucesso do Pragmatismo Responsável, sustentado
internamente pelo IIPND, marcou profundamente
os diplomatas do Itamaraty, que passaram, a partir
daí, salvo raras exceções,
a serem importantes defensores do projeto nacional-desenvolvimentista
(23).
1.8
– O início das “décadas
perdidas” e a Nova República.
O
período que vai do final do Governo Geisel
até o início do Figueiredo é
marcado pelo início de uma nova recessão
mundial, desencadeada, principalmente, pela segunda
crise do petróleo, em 1979, por ocasião
da derrubada do poder no Irã do aliado
norte-americano, o Xá Reza Pahlevi.
Como
de costume, os países centrais, liderados
pelos EUA, tentam transferir a crise para os países
dependentes. Foi isso que fez Reagan ao aumentar
a taxa de juros norte-americana (no início
da década de 1980), base da taxa internacional
de juros, pela qual os países do Terceiro
Mundo (os dependentes) se endividaram na década
de 1970. Explodiu então a crise da dívida
nos países do Terceiro Mundo, o que desencadeou
enorme transferência de recursos dos países
dependentes para os países centrais.
Com
isso, novamente, abrem-se duas perspectivas para
o Brasil, ou aprofunda o modelo autônomo
de desenvolvimento, dando continuidade e aperfeiçoando
o IIPND, ou submete-se à pressão
do capital estrangeiro e adota o “ajuste
externo”, destinado a conter o crescimento
econômico e gerar as divisas necessárias
ao pagamento do “serviço da dívida”.
O
Brasil, agora governado por Figueiredo, que não
fazia parte das correntes mais nacionalistas das
forças armadas, depois de um certo imobilismo
inicial, opta pelo “ajuste externo”.
Nesse sentido, Delfim Netto, guindado novamente
à chefia da economia, promove o corte do
investimento público, do crédito
e do salário, provocando grande recessão,
inaugurando as duas “décadas perdidas”.
Essa
política econômica provocou grande
descontentamento popular, com, inclusive, importantes
setores da burguesia nacional afastando-se cada
vez mais do regime. Além disso, ela aprofundou
ainda mais a crise, a ponto de não podermos
mais pagar os “serviços” da
dívida externa. Isso, somado a escassez
de crédito internacional provocada pela
crise da dívida em todo o Terceiro Mundo,
fez com que, seguindo o modelo de dependência
e subordinação, o Brasil se rendesse
ao FMI (Fundo Monetário Internacional),
aceitando seus empréstimos em troca de
seguir adotando as medidas ditadas pelo Fundo,
medidas que levariam ao limite o programa de “ajuste
externo”, aumentando ainda mais a recessão.
Apesar
disso, a política externa manteve os princípios
básicos adotados no governo Geisel, agora
enfrentando um cenário internacional muito
mais instável, caracterizado pela grande
crise no Terceiro Mundo e pelo aumento do protecionismo
nos países centrais. Tal cenário
fez com que se estreitassem as possibilidades
de atuação do Brasil no plano global,
valorizando a América do Sul como alternativa
estratégica.
A
crise da dívida, a Guerra das Malvinas
e a agressiva política externa adotada
pelos governos Carter e Reagan com relação
ao Terceiro Mundo fizeram com que os países
da região, notadamente o Brasil e a Argentina,
antigos rivais, adotassem políticas mais
cooperativas, acelerando o lento processo de integração
regional iniciado nos anos 60 (24).
Vale
dizer que a adoção de uma política
econômica monetarista, aos moldes do FMI,
que exacerba a dependência externa, limita
a margem de manobra de qualquer política
externa que vise a autonomia e pense no desenvolvimento.
Com
o aumento da recessão, a pressão
sob a ditadura aumenta muito. Em 1984, com o enorme
descontentamento popular, é deflagrado
o movimento das Diretas Já, que exigia
eleições diretas para presidência
da República. Apesar de a eleição
não ter sido direta, é eleito pelo
colégio eleitoral, sob intensa pressão
popular, o primeiro presidente civil desde 1964,
presidente que teria a tarefa de consolidar a
democracia. Nasce a Nova República.
O
Presidente eleito pelo colégio eleitoral,
Tancredo Neves, experiente político com
um histórico pautado pela defesa dos interesses
nacionais, não chega a tomar posse. Acometido
por grave doença, morre após várias
intervenções cirúrgicas.
Em seu lugar toma posse o vice, José Sarney.
O
governo Sarney, depois de um certo imobilismo
inicial, é impulsionado pelas forças
sociais que tornaram possível a Nova República,
adotando medidas que visavam acabar com a recessão
que assolava o povo Brasileiro. Nesse sentido,
deixou de lado o receituário monetarista
do FMI e adotou políticas nitidamente Keynesianas.
O desenvolvimento de novo entra em cena como o
centro da política econômica do governo.
É com essa idéia que Sarney lança
o Plano Cruzado.
Na
política externa o governo Sarney mantém
os princípios do Pragmatismo Responsável/Política
Externa Independente, em um contexto internacional
ainda mais desfavorável do que o do governo
anterior.
“Em
se tratando de política externa o período
Sarney foi essencialmente uma época de
constrangimentos, de restrições,
de espaços que se fechavam, quer pela
crise e desmobilização do mundo
em desenvolvimento, quer pela progressiva ascendência
dos países desenvolvidos e dos interesses
do norte em geral sobre a agenda internacional”
(25).
Dentre
os constrangimentos externos enfrentados pelo
governo Sarney, o principal era a política
externa dos EUA. Do lado ambiental, apoiado por
diversas ONGs (Organizações Não
Governamentais), os Estados Unidos iniciam uma
campanha que visava desacreditar a capacidade
do Estado Brasileiro e de seus vizinhos do norte
no referente à proteção da
Amazônia. Tal campanha tinha como objetivo
internacionalizar a Amazônia, ou seja, retirar
do Brasil e de seus vizinhos importante parte
de seus territórios, futura e inestimável
fonte de riqueza para seus povos. Do lado comercial,
visando enfraquecer a oposição de
alguns países (do Brasil e da Índia)
perante suas propostas na Rodada Uruguai, além
de não permitir planos autônomos
de inovação tecnológica,
os EUA utilizam o Brasil como showcase em sua
política de retaliação comercial.
Utilizando-se da seção 301 do Trade
Act de 1974, o governo dos EUA, como resposta
a reserva brasileira de informática e fármacos,
retalia o Brasil comercialmente. Além disso,
havia a habitual pressão financeira para
que o Brasil adotasse uma política econômica
que favorecesse o pagamento dos “serviços”
da dívida.
Perante
este constrangimento, o governo Sarney acelera
ainda mais o processo de integração
regional sul-americano, com clara pretensão
de diminuir a influência norte-americana
na região. Neste sentido, destacam-se a
Ata de integração Argentino-Brasileira,
assinada em 1986, e o posterior Tratado que estabeleceu
o Mercado-Comum Brasil-Argentina, embrião
do Mercosul.
No
plano econômico interno, após grande
sucesso inicial do Plano Cruzado, este, devido
a falta de incentivos ao investimento na ampliação
da capacidade produtiva da nação
e da falta de firmeza no enfrentamento do problema
da dívida externa, com o adiamento da moratória,
passa a entrar em colapso. A inflação
passa a atingir números assombrosos. Para
tentar resolver o problema, Sarney implementa
planos conservadores, como o Cruzado II e o Plano
Verão, que terminaram por tornar a economia
brasileira um caos. Ao final de seu mandato, tem
inicio a “abertura da economia”, algo
que vai ser complementado nos governos Collor
e FHC.
1.9
– Collor, o “Consenso de Washington”
e
o interregno com Itamar.
Como
resposta à crise, a população
manifestou seu descontentamento ao eleger um jovem
político que possuía um discurso
demagógico e prometia a “modernização”
do país.
O
plano econômico proposto pela equipe de
Collor tinha como base as idéias do chamado
“Consenso de Washington”(26), ou seja,
abertura econômica (fim da proteção
concedida as empresas nacionais), privatizações,
desregulamentação da economia e
flexibilização das relações
de trabalho (limitar os direitos trabalhistas,
sindicais e previdenciários).
Devido
ao curto período em que Collor ficou na
Presidência da República, graças
ao impedimento em 1992, seu governo não
teve tempo de implementar, com profundidade, a
maior parte das medidas acima, com exceção
da abertura econômica, que já vinha
ocorrendo desde o final do governo Sarney e foi
acelerada em seu governo.
A
política externa brasileira também
passou por grandes transformações
durante o governo Collor. Em primeiro lugar, ciente
da importância de uma política externa
submissa para um maior sucesso na implementação
de seu “plano neoliberal”, Collor
esvazia o Itamaraty de suas principais funções,
deixando-as para os titulares das pastas econômicas,
devidamente escolhidos pelo Presidente. Isso porque,
devido a sua identificação com o
projeto nacional-desenvolvimentista e com os princípios
da Política Externa Independente e do Pragmatismo
Responsável, o Itamaraty era visto como
um núcleo de resistência oposto ao
projeto de Collor.
“Uma
outra leitura dos interesses nacionais deu forma
ao processo decisório dos governos neoliberais.
As chancelarias foram em boa medida silenciadas,
como guardiãs que eram do patrimônio
político da filosofia desenvolvimentista.
Sua esfera de ação foi confinada
à diplomacia ornamental, os novos temas
da moda, como a governança global, o
meio ambiente, os direitos humanos e as intervenções
humanitárias. A política internacional
pesada, isto é, as relações
econômicas internacionais dos países
como comércio, finanças, vinculações
empresariais ou transferências de ativos
privatizados, passou para o comando dos ministérios
econômicos, ocupados por jovens que em
sua maioria haviam feito pós-graduação
em universidades norte-americanas ou haviam
servido como técnicos de agências
tais como o FMI e o Banco Mundial.”(27)
Nesse
sentido, foi adotado o alinhamento total e automático
com as posições de Washington, tendo
sido evitado qualquer tipo de atrito com os EUA.
Inclusive, no plano retórico, houve uma
descaracterização de nosso perfil
terceiro-mundista.
Apesar
disso, o Itamaraty atuou no sentido de redirecionar
ou minimizar os impactos negativos de certas decisões
de política externa do governo Collor,
introduzindo elementos de continuidade na atuação
internacional do Brasil, com destaque para as
medidas que visavam aprofundar o processo de integração
regional que havia sido acelerado na década
passada.
“Para
o Embaixador Nogueira Batista, o Itamaraty não
participou ativamente da formulação
da política externa do Governo Collor.
Contudo, no espaço de manobra que lhe
cabia na execução da política,
teve uma ‘atuação minimizadora
do custo de algumas posturas presidenciais’.
A esse respeito, cita dois exemplos da engenhosidade
do Itamaraty: o Acordo Quadripartite de salvaguardas
nucleares entre o Brasil, a Argentina, a ABCC
e a AIEA; e o acordo 4+1 entre os quatro membros
do Mercosul e os EUA. No primeiro caso, o Itamaraty
teria formulado o instrumento de ‘adesão
indireta’ ao TNP. No segundo caso, também
seria de autoria do Itamaraty a coordenação
de uma resposta conjunta dos países do
Mercosul à iniciativa para as Américas
proposta pelo Presidente Bush, motivada pelo
objetivo de assegurar a ‘salvaguarda da
integridade do Mercosul’, que poderia
vir a ser ameaçada por negociações
bilaterais de seus membros com os EUA.
Para
o Embaixador Celso Amorim, a principal manifestação
do Itamaraty, no referente à utilização
de sua margem de manobra para adoção
de políticas, se deu na criação
do Mercosul.” (28)
Logo,
enquanto Collor e seus auxiliares buscavam aproximar,
de maneira subordinada, o Brasil dos EUA, o Itamaraty,
com poderes limitados, adotou medidas que visavam
amenizar tal aproximação.
A
recessão econômica somada às
denuncias de corrupção provocaram
intensas mobilizações populares,
que possibilitaram o impedimento do mandato de
Collor. No seu lugar, entrou o vice, Itamar Franco.
Itamar,
ao contrário de Collor, era um político
de tradição nacionalista, não
simpatizava com o projeto neoliberal. Logo, no
início de seu governo, abaixou a taxa de
juros, ampliou o gasto público e resistiu
aos projetos de privatização.
Em
termos de política externa, houve um distanciamento
com relação aos EUA, principalmente
durante a gestão do Embaixador Celso Amorim
na chefia do Itamaraty. A principal característica
da política externa do governo Itamar foi
a prioridade dada ao processo de integração
regional, com destaque para o lançamento
da proposta de criação da Área
de Livre Comércio Sul Americana (ALCSA).
Apesar
de seu viés nacionalista, Itamar passou
a abrir muito espaço para alguns de seus
ministros, com destaque para Fernando Henrique
Cardoso, que após rápida passagem
pelo Ministério das Relações
Exteriores assumiu o cargo de Ministro da Fazenda,
tornando-se o homem mais poderoso do novo governo.
“Na
verdade, o ‘governo’ de Fernando
Henrique foi antecipado em um ano e meio. Começou,
na prática, quando foi guindado a Ministro
da Fazenda em junho de 1993. A partir desse
posto privilegiado, passou a comandar o essencial
da ação do governo, retomando
e levando ao extremo o programa do ‘Consenso
de Washington’ inaugurado no Brasil por
Collor. Nesse sentido, é possível
afirmar que o governo de Itamar durou pouco
mais de oito meses, isto é, entre outubro
de 1992 e junho de 1993.”(29)
Logo, apesar de ter aliviado um pouco a recessão
e garantido um certo crescimento econômico,
o governo Itamar durou pouco.
1.10
– FHC e a exacerbação do “modelo”
dependente.
Fernando
Henrique Cardoso (FHC), primeiro como Ministro
da Fazenda e depois como Presidente da República,
dizia que sua prioridade era controlar a inflação
para garantir o crescimento “sadio”
da economia. Para isso, ao invés de combater
os verdadeiros causadores da inflação,
a transferência de recursos ao exterior
e a estrutura monopólica da economia brasileira,
adotou um desastroso plano que exacerbou ao máximo
a dependência externa de nossa economia.
A
essência de seu plano estava na supervalorização
artificial da nova moeda, o Real – “âncora
cambial” -, que somado à crescente
“abertura” da economia, subsidiava
as importações, forçando
os preços internos para baixo. Logo, tal
política fez com que houvessem enormes
déficits na balança comercial, que
somados com a drenagem de recursos para o exterior
registradas nas contas de serviço e de
capital por conta da renegociação
da dívida, tornou necessária a adoção
de elevada taxa de juros interna – “âncora
monetária”-, que tinha como objetivo
atrair grandes quantidades de capitais estrangeiros
para o financiamento dos déficits externos.
Com os juros elevados, havia o aumento dos encargos
financeiros do setor público, que exigiam,
para serem cobertos, aumento do superávit
primário, ou seja, aumento dos impostos
e diminuição dos investimentos do
Estado – “âncora fiscal”.
Tal
política, além de gerar instabilidade
na economia, por fazê-la depender dos humores
do capital especulativo internacional, era extremamente
prejudicial aos empresários nacionais,
que tinham de enfrentar a concorrência externa
subsidiada. Tal concorrência, predatória,
terminou por destruir boa parte da indústria
nacional, gerando desemprego e pobreza.
Em
se tratando de política externa, FHC assume
pessoalmente o seu processo de elaboração
e implementação, que passou a se
caracterizar pelo slogan de “diplomacia
presidencial”.
Nesse
sentido, foi de especial importância a “aliança”
com países nos quais os chefes de Estado
e Governo tinham vínculos de amizade com
o nosso presidente, notadamente os líderes
da chamada “Terceira Via”(30), Bill
Clinton (EUA) e Tony Blair (Inglaterra).
O
grande objetivo da política externa de
FHC, face ao seu plano econômico, era buscar
investimentos no exterior, principalmente nos
países centrais – EUA, UE e Japão.
A grande necessidade de tais investimentos, para
cobrirem o “rombo externo”, fez com
que adotássemos uma postura passiva, aceitando
de imediato a agenda da “comunidade internacional”,
ou seja, dos países centrais. Um bom exemplo
disso foi a adesão, sem barganha, ao TNP
(Tratado de Não-Proliferação
Nuclear), que mostra o total desapego da equipe
de FHC ao pragmatismo nas negociações
internacionais.
Apesar
disso, FHC, provavelmente para tentar conservar
seu inexplicável prestígio de intelectual
“progressista”, muitas vezes adotava
uma retórica crítica, alertando
para os riscos da conjuntura internacional.
“As
falas presidenciais, sobretudo no exterior –
no Colégio do México, em New Dehli,
Beijing ou nos convescotes da ‘Terceira
Via’ – sugeriam que o país
estava consciente dos perigos da atual (des)ordem
mundial. Quase que apontavam para uma vigorosa
política externa, capaz de fazer frente
aos constrangimentos internacionais que ameaçam
países como o Brasil. O que sobrou de
todos esses discursos foram palavras, palavras,
palavras ...”(31)
FHC
sempre fingia equilibrar suas negociações
com os países desenvolvidos – norte
de sua política externa-, com tímidas
iniciativas junto aos grandes países periféricos,
como foi o caso das parcerias estratégicas
com a China, a Índia, a Rússia e
a África do Sul.
Além
disso, apesar de seguir com o projeto de integração
regional junto aos países da América
do Sul, ainda que com colorações
neoliberais e a um ritmo bem mais lento, FHC manteve
acesas as negociações da ALCA (Área
de Livre Comércio entre as Américas),
que põe em risco toda a autonomia da América
Latina.
O
cientista político Oliveiros Ferreira resume
bem a política externa de Fernando Henrique,
ao escrever:
“a
adesão ao ‘pensamento único’,
o predomínio de uma visão economicista
das coisas e o culto dos números (do
dinheiro) por parte das figuras-chave no Executivo
criaram um sistema de forças cujo resultante
inibe uma conduta de fato autônoma na
cena internacional e faz que o Estado dê
prioridade, não aos seus próprios
interesses e aos valores que deveriam orientar
sua política internacional, mas aos valores
que os Estados Unidos, megapotência hegemônica,
estipulam como sendo aqueles que devem conformar
(no fundo e na forma) as políticas interna
e externa dos países em desenvolvimento.”(32)
Nos
anos de 1997-1998, com a crise Asiática,
o plano FHC entra em colapso. Como os investidores
internacionais tinham acabado de sofrer grandes
prejuízos na Ásia, estes optaram
por “retirarem” seus investimentos
das “áreas de risco”, onde
o Brasil estava inserido. Logo, com a cessação
da entrada de capitais especulativos externos,
o enorme déficit brasileiro ficaria descoberto,
acarretando a perda de nossas reservas. Tal movimento
só não ocorreu de maneira mais abrupta,
pois o Brasil seguia com sua criminosa política
de privatização. Aliás, o
processo de privatização foi essencial
para captação de recursos no exterior,
era a principal exigência dos investidores.
Nesse
contexto, não havia outra alternativa para
FHC, ele teria de soltar a “âncora”
do Real. O objetivo era desvalorizar o Real, o
que favoreceria as exportações e
desfavoreceria as importações, diminuindo
(ou acabando) com o déficit comercial.
O problema era que a “âncora”
cambial era a base da política de combate
a inflação, daí sua substituição
por uma política baseada nas “metas
de inflação”, com a necessidade
de uma taxa de juros ainda mais elevada.
Apesar
das altas taxas de juros, o capital estrangeiro
continuava deixando o país, levando com
ele nossas insuficientes reservas, mesmo após
o aumento das exportações. Diante
dessa insustentável situação,
para garantir as condições para
que os especuladores pudessem retirar seus capitais
do país, o FMI veio em nosso socorro, ou
melhor, deles. Daí os três acordos
do Brasil com o FMI. Em troca desses empréstimos,
o Brasil garantiu enormes superávits primários,
política que agravou ainda mais a situação
econômica e social do país.
Os
resultados dos oito anos de governo Fernando Henrique
foram catastróficos, com a desnacionalização
da economia, o endividamento explosivo (interno
e externo), o aumento da vulnerabilidade externa,
a explosão do desemprego e o aumento da
fome e da miséria.
1.11 - Lula, continuidade e ruptura.
O povo brasileiro, desgastado após a exploração
imposta pelo projeto neoliberal, manifestou toda
sua vontade de mudança nas urnas, durante
a eleição presidencial de 2002.
O candidato que daria continuidade à desastrosa
“Era FHC”, José Serra, é
derrotado pelo candidato do Partido dos Trabalhadores,
Luiz Inácio Lula da Silva, retirante nordestino,
ex-operário e ex-líder sindical,
que representava a esperança de mudança
que havia acometido o sofrido povo brasileiro.
No
entanto, o governo Lula, pressionado pelas forças
populares que pedem mudança e pelas forças
conservadoras e externas que pedem continuidade,
vem adotando uma postura contraditória,
que combina continuidade e ruptura.
“Continuidade
no que diz respeito à política
econômico-financeira, especialmente nas
áreas monetária, fiscal e cambial,
e suas ações derivadas nas chamadas
reformas microeconômicas; ruptura em relação
à política exterior e suas ações
derivadas na política de comércio
exterior. Ao continuar os aspectos da política
macroeconômica relativa às áreas
monetária, cambial e fiscal, mantém
a subordinação da economia ao
FMI e às regras impostas pela administração
estadunidense e os credores externos e internos;
ao mudar a política exterior, afasta-se
do alinhamento automático com aquela
administração e pratica uma política
externa independente e uma conseqüente
política de diversificação
do comércio exterior. É essa a
contradição do governo Lula.”(33)
Logo,
enquanto é mantida a política de
“metas de inflação”
como eixo central da política econômica,
com juros elevados e a necessidade do elevado
superávit primário, contentando
os setores conservadores, a política externa
adota uma posição autônoma,
que contenta os setores populares.
A
política externa do governo Lula, manifestação
dos anseios de mudança da população,
resgata os princípios de ação
da Política Externa Independente e do Pragmatismo
Responsável, combinação das
heranças do Barão do Rio Branco
e do nacional-desenvolvimentismo. Nesse sentido,
os responsáveis por sua formulação
e implementação, Embaixador Celso
Amorim (atual Ministro das Relações
Exteriores), Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
(atual Secretário Geral do Itamaraty) e
o ex-secretário de Relações
internacionais do PT, Marco Aurélio Garcia
(atual assessor especial da presidência
para política externa), vêm fazendo
um excelente trabalho.
O
eixo central da política externa de Lula
é o processo de integração
regional(34), com destaque para a recuperação
e ampliação do Mercosul, debilitado
depois da abrupta desvalorização
cambial brasileira dos anos 1998-1999, e para
a criação da Comunidade Sul Americana
de Nações (CASA), ambos com o objetivo
de barrar a influência estadunidense na
região. Além disso, Lula e seus
colegas Sul-Americanos se esforçam em substituir
o “eixo comercial” – baseado
nas “forças do mercado” - ao
qual vinha sendo baseada a integração
na década de 1990 - à moda neoliberal
– por um “eixo político-estratégico”,
baseado na integração física
da região, com destaque para projetos de
infra-estrutura e de formação de
cadeias produtivas complementares.
Outro
importante eixo de ação da atual
política externa são as parcerias
estratégias com os “grandes Estados
periféricos”(35), notadamente a China,
a África do Sul, a Índia e a Rússia.
Com esses países, destacam-se o aumento
do intercâmbio comercial e os importantes
projetos de cooperação tecnológica.
Outra
importante característica da diplomacia
de Lula é a retomada na aproximação
com os países árabes. Estes parceiros,
muito importantes durante a década de 1970,
vieram diminuindo a intensidade de suas relações
com o Brasil ao longo das décadas de 1980
e 1990. No entanto, agora, no governo Lula, tal
relacionamento tem sido retomado, com destaque
para a Cúpula América do Sul –
Países Árabes, organizada pelo Brasil
e responsável por um grande aumento nas
relações comerciais entre as duas
regiões.
O
resultado de todas essas medidas são, de
um lado, a diminuição da dependência
externa, devido à diversificação
das exportações provocada pela aproximação
com o Terceiro Mundo, exportações
que foram o eixo central do crescimento econômico
do país no período. De outro, o
aumento do prestígio político internacional
do país, possibilitando o lastro necessário
para que lideremos importantes manobras, tal como
na criação do G-20, durante a reunião
da OMC em Cancun.
No
referente às negociações
da ALCA, o simples fato do Embaixador Samuel Pinheiro
Guimarães, severo crítico do projeto,
que por isso chegou a ser exonerado do cargo de
presidente do IPRI (Instituto de Pesquisas de
Relações Internacionais) durante
o governo FHC, ter sido guindado ao segundo cargo
mais importante do Itamaraty (o de Secretário-Geral
da instituição), já revela
a falta de vontade da administração
Lula para com o projeto de “integração
hemisférica”. Além disso,
a posição brasileira (e do Mercosul
em geral) de resistência às imposições
dos EUA nas negociações, está
praticamente inviabilizando a continuidade do
projeto.
Ainda
que a política externa brasileira tenha
logrado importantes avanços no governo
Lula, estes podem ser ameaçados pela política
econômica submissa de Palocci e Meireles,
que limita o projeto de autonomia buscado pelo
Itamaraty, apoiado pelas forças populares
e por amplos setores do atual governo.
Notas.
*. Tema que intitula o primeiro capítulo
de uma pesquisa ainda em curso, realizada no âmbito
da iniciação cientifica do Unicentro
Belas Artes, sob a orientação do
prof. Dr. Nilson Araújo de Souza.
1.O historiador Eric Hobsbawm chama esse período,
que vai de 1875-1914, de Era dos Impérios.
2.OLIVEIRA, Henrique Altemani de. Política
Externa Brasileira. São Paulo: Saraiva,
2005. Pg. 39-40.
3.LINS, Alvaro. Rio Branco (O Barão do
Rio Branco). Biografia pessoal e história
política. São Paulo: Alfa-Omega,
1996. Pg. 362.
4.Idem, Pg. 432.
5.Joaquim Nabuco foi um importante personagem
da História brasileira, principalmente
no que se refere à sua militância
a favor do abolicionismo. Apesar disso, neste
trabalho, considerar-se-á apenas suas idéias
no referente à política externa
do período. Vale lembrar que Nabuco era
um grande amigo do Barão do Rio Branco,
sendo, além disso, nesse período,
embaixador em Washington.
6.SILVA, Alexandra de Mello. O Brasil no Continente
e no Mundo: atores e imagens na política
externa contemporânea. Rio de Janeiro: CPDOC,
1995. Pg. 13.
7.Além dos empréstimos para a constituição
da CSN, os empréstimos e a cessão
de materiais bélicos ao Brasil foram significativos.
8.A “primeira guerra fria” produziu
momentos de tensões que quase levaram à
deflagração de um Terceiro Conflito
Mundial. Ex. as duas crises de Berlim, a Guerra
da Coréia e, principalmente, a crise dos
mísseis.
9.BARRETO, Fernando de Mello. Os sucessores do
Barão 1912-1964. Relações
Exteriores do Brasil. São Paulo: Paz e
Terra, 2001. Pg. 178.
10.HIRST, Mônica. O pragmatismo impossível:
política externa do Segundo Governo Vargas
(1951-1954). In Cena Internacional, ano 5, n.3,
jun/2003. Pg. 1.
11.SOUZA, Nilson Araújo de. A Longa Agonia
da Dependência. Economia Brasileira Contemporânea
(JK-FH). São Paulo: Alfa-Omega, 2004. Pg.
57.
12.HIRST, Mônica. O pragmatismo impossível:
política externa do Segundo Governo Vargas
(1951-1954). In Cena Internacional, ano 5, n.3,
jun/2003. Pg. 2.
13.Termo que se refere ao título do artigo
de Mônica Hirst.
14.VIZENTINI, Paulo. A política externa
do Governo JK. In ALBUQUERQUE, José A.
G. (org). Sessenta anos de política externa
brasileira (1930-1990). São Paulo: USP,
1996.
15.Referente ao ISEB (Instituto de Estudos Brasileiros),
instituição criada por JK e que
reunia intelectuais progressistas que discutiam
o desenvolvimento do Brasil. Para citar alguns
nomes que participaram do ISEB temos: San Tiago
Dantas, Hélio Jaguaribe, José Honório
Rodrigues e etc.
16.CEPAL (Comissão Econômica para
a América Latina), agência da ONU
que reuni intelectuais latino-americanos para
pensar e estudar o desenvolvimento da região.
Durante as décadas de 1950 e 1960 a CEPAL
realizou contribuições inestimáveis
para o avanço dos estudos sobre o desenvolvimento
econômico. Dentre diversos intelectuais
que ocuparam seu quadros, destacam-se, sem dúvida,
Raúl Prebisch e Celso Furtado.
17.SILVA, Alexandra de Mello. O Brasil no Continente
e no Mundo: atores e imagens na política
externa contemporânea. Rio de Janeiro: CPDOC,
1995.
18.Caminho Brasileiro era o nome do programa de
reformas apresentado por Jango ao Congresso.
19.SOUZA, Nilson Araújo de. A Longa Agonia
da Dependência. Economia Brasileira Contemporânea
(JK-FH). São Paulo: Alfa-Omega, 2004. Pg.
99.
20.Idem, Pgs. 109-110.
21.RODRIGUES, José Honório. Interesse
Nacional e Política Externa. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1966. Pgs.
203-204.
22.SOUZA, Nilson Araújo de. A Longa Agonia
da Dependência. Economia Brasileira Contemporânea
(JK-FH). São Paulo: Alfa-Omega, 2004. Pgs.
19 e 20.
23.Essa característica dos diplomatas brasileiros
vai ser extremamente importante durante a década
de noventa, quando os governos Collor e FHC abandonam
totalmente o projeto nacional-desenvolvimentista.
24.O processo de integração regional
sul-americano, objeto de estudo deste trabalho,
será melhor analisado em capítulo
específico.
25.CORRÊA, Luiz Felipe de Seixas. A política
externa de José Sarney. In ALBUQUERQUE,
José A. G. (org). Sessenta anos de política
externa brasileira (1930-1990). São Paulo:
USP, 1996.
26.O “Consenso de Washington” diz
respeito a um documento, resultado de uma reunião
convocada pela Sociedade Internacional de Economia,
em Washington, em 1989, que objetivava analisar
o contexto internacional e propor alternativas.
O documento foi o resultado da sistematização
das alternativas propostas pelos analistas durante
a reunião.
27.CERVO, Amado Luiz. Relações Internacionais
da América Latina: velhos e novos paradigmas.
Brasília: FUNAG, 2001. Pg. 283.
28.MELLO, Flávia de Campos. Regionalismo
e inserção internacional: continuidade
e transformação da política
externa brasileira nos anos 90. Tese de Doutoramento:
USP, 2000.
29.SOUZA, Nilson Araújo de. A Longa Agonia
da Dependência. Economia Brasileira Contemporânea
(JK-FH). São Paulo: Alfa-Omega, 2004. Pg.
463.
30.Terceira Via teve como seu principal ideólogo
o cientista político britânico Anthony
Guiddens, que defendia a adoção
de um modelo intermediário entre o capitalismo
e o socialismo, com o objetivo de “humanizar”
o primeiro. Os grandes líderes da Terceira
Via foram Tony Blair, Bill Clinton e Fernando
Henrique Cardoso. Sabemos muito bem que, principalmente
para Blair e FHC, a “Terceira Via”
só era posta em prática nos discursos,
com o objetivo de tentar manter o perfil “progressista”
enquanto adotavam políticas conservadoras.
31.GARCIA, Marco Aurélio. O melancólico
fim de século da política externa.
Carta Internacional, v. IX, n. 94/95, p. 6, dez.2000/jan.
2001.
32.FERREIRA, Oliveiros. A crise na política
externa: Autonomia ou subordinação?
Rio de Janeiro: Revan, 2001.
33.SOUZA, Nilson Araújo de. Lula-lá:
continuidade e ruptura. Data Venia, ano III: n.
11 – jan-mar/05.
34.Este processo, por ser o objeto central de
estudo deste trabalho, vai ser melhor analisado
nos próximos capítulos.
35.Conceito desenvolvido pelo Embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães, em seu livro Quinhentos
anos de periferia. Uma contribuição
ao estudo da política internacional, onde
afirma que os “grandes Estados periféricos”
são aqueles países não desenvolvidos,
de grandes populações e grande território,
não inóspito, razoavelmente passível
de exploração econômica e
onde se constituíram estruturas industriais
e mercados internos significativos.
Luiz Fernando Silva Pinto
Acadêmico
do 5º semestre de relações
internacionais
no Unicentro Belas Artes. |