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DATA
VENIA é a revista
eletrônica do Curso de Relações
Internacionais do Centro Universitário Belas
Artes de São Paulo. De periodicidade trimestral,
seu conteúdo não necessariamente coincidirá
com o pensamento da FEBASP, mantenedora desta Instituição,
mas será de inteira responsabilidade dos autores
que subscreverão suas respectivas matérias.
As colunas
serão alimentadas pelos professores do Curso,
contando-se também com a colaboração
do alunado, da Comunidade Febaspiana como um todo,
e apenas marginalmente, ocorrerá a participação
de colaboradores externos à Instituição.
Além
de divulgar as notícias relacionadas ao Curso,
as matérias publicadas reportar-se-ão
às sociedades nacional e internacional, através
de textos inéditos e não muito extensos,
acolhendo-se também material redigido nos idiomas
inglês e espanhol.
O conteúdo
divulgado em DATA VENIA pautar-se-á pelo balizamento
ético e pluralismo das idéias, as quais
autoriza-se sua reprodução por quaisquer
meios desde que se mencione suas respectivas fontes.
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| A
esperança venceu o medo
O
historiador Eric Hobsbawn [em: Era dos Extremos
- o breve século XX] definiu o Brasil como
"um monumento à negligência
social". De fato, há muito sabemos
de nossas riquezas, principalmente naturais, a
conviver com a pobreza material, intelectual e
política acometidas sobre a maior parte
dos brasileiros. A pobreza qualificada pelos dois
últimos termos em grande parte justifica
o qualitativo inicial dessa trilogia, e até
mesmo sua perpetuação.
Somos
afinal um país de contrastes: rico e ao
mesmo tempo pobre; injusto e ofertante de oportunidades;
e eis que da segunda pior distribuição
de renda do planeta [Serra Leoa detém esse
indigesto troféu] surge um magnífico
exemplo de ascensão social: uma vez metalúrgico...outra
presidente.
Cinqüenta
e três milhões de brasileiros não
tiveram receio de confiar a Luiz Inácio
Lula da Silva, o diploma de Presidente do Brasil,
aliás, o primeiro de sua vida. Ele o recebe,
agradece e chora, como se ainda não acreditasse
em tamanho feito, mas os números expressam
e ratificam o quantum de legitimidade, confiança
e sobretudo de esperança num futuro melhor.
Ratificam também o segundo lugar no ranking
mundial de presidentes eleitos com expressiva
votação [Ronald Reagan em primeiro].
E confirmam ainda a existência de elementos
repetitivos na história [Lech Walessa que
o diga].
Lula
da Silva parece consciente de que a dimensão
de seu feito não é menor do que
ainda terá de fazer, resguardadas as devidas
proporções. Resta saber se a maior
parte de seus eleitores consciente está
dessas proporcionalidades, das factibilidades,
enfim, das distâncias entre o possível
e o realizável e em que prazos ambos convergirão.
Nosso
regime presidencialista e nossa cultura política
contribuem para a (con)fusão entre governo
e governante, da qual resulta a figura onipotente
de um salvador da pátria. O próprio
presidente eleito, quando ainda em campanha, apontava
nessa direção, ao falar da necessidade
de um "displomado" para sanar os males
de nossa esfera educacional. Por ora, Basta lembrar
de que, no âmbito governamental, o atendimento
das demandas internas da nação provém
das (i) atitudes não apenas emanadas de
seu principal mandatário, mas também
do (ii) esforço e dedicação
de toda a equipe que o cerca; das (iii) políticas
implementadas e em que direção;
dos (iv) recursos disponíveis interna e
externamente; (v) do ingresso de capitais externos
sob a forma de investimentos [isso se as arriscadas
agências de risco não os afugentar];
além da (vi) redução do protecionismo
comercial, principalmente na área agrícola.
Decorrente disso, a presença de um "displomado"
na equipe é mero detalhe a certificar a
exceção de que toda regra carece.
Severa
mesmo é a escassez de recursos a estreitar
a margem de manobra no cumprimento das promessas
realizadas. Mas prometeu é bom cumprir
a fim de evitar, aí sim, o medo de não
se ter mais esperança.
Não
esperemos por milagres, mas ao menos no plano
interno, contamos com mudanças qualitativas
no direcionamento da política econômica,
pois se nem só de pão vive o homem,
muito menos só de estabilidade de preços
viverão os brasileiros.
Já
no plano externo, dependeremos mais do que nunca
da capacidade negociadora do Itamaraty, a fim
de tirarmos proveito do relacionamento com um
mundo globalizado, porém assimétrico.
Precisamos
lutar pela construção de uma via
de mão dupla para o comércio internacional,
na qual as portas se abram de fora pra dentro,
e também, de dentro pra fora. Desta forma,
poderemos encher os pratos da balança,
mas sem esvaziar o dos brasileiros.
Que
o exemplo de democracia, maturidade política
e solidez institucional, demonstrado pelo Brasil,
sirva de alavanca para impulsionar nossa auto-estima,
ampliar nossa capacidade de escolha, enfim, concretizar
os nossos sonhos ou ao menos fazer que não
deixemos de sonhar.
Raimundo Ferreira de Vasconcelos
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| O
dogmatismo conservador: quem tem medo na América
Latina? - Parte I
"O
conceito de poder é sociologicamente amorfo.
Todas as qualidades imagináveis de um homem
e todas as espécies de associações
possíveis podem colocar alguém na
posição de impor a sua vontade em
uma determinada situação. O conceito
de dominação deve por isso, ser
mais preciso e só pode significar a possibilidade
de que um mandato seja obedecido". Max Weber
.
Em
recente editorial , o jornal O Estado de São
Paulo fez crítica contundente aos primeiros
pronunciamentos do presidente eleito, Luiz Inácio
Lula da Silva, em temas de política externa
para a América Latina. O centro das preocupações
do editorialista foi a manifestação
de Lula da Silva a favor de uma integração
política da América Latina por meio
da instituição de um Parlamento
latino-americano nos moldes do Parlamento da União
Européia.
A
resistência às considerações
do futuro presidente, e o temor das suas repercussões
entre nossos vizinhos, contidos no presente editorial,
sugeriam atar o futuro governo ao conhecido nó
górdio do dogmatismo conservador em relações
internacionais. Dogmatismo que tem imobilizado
nas últimas quatro décadas toda
a ação externa de nossos presidentes,
quando o assunto é nossa relação
com a América Latina. Nesse caso, o falso
dogma conservador seria, em tese que: qualquer
proposta de integração sul-americana,
lançada por nossos presidentes, constituí
intervenção descabida à autodeterminação
de nossos vizinhos, e por princípio, serão
por eles consideradas ilegítimas e descartadas
a priori.
O
dogmatismo em relações internacionais,
tão francamente defendido e exposto no
referido editorial, é mais um exemplo da
dificuldade que o conservadorismo militante impõe
aos nossos governantes, quando esses tentam formular
princípios de ação para a
política externa do Brasil. Dessa vez,
o pito conservador quem leva é Luiz Inácio
Lula da Silva.
O
que impede que tenhamos um princípio efetivo
multipartidário em política externa,
ou em termos menos acadêmicos, um consenso
político nacional em temas de política
externa, que o legitime, é o dogma conservador
do "não agir politicamente" em
termos propositivos. Dogma que o editorialista
defendeu com naturalidade. Devemos acatar agendas
multilaterais, propostas por outros e negociadas
entre muitos em agências e organismos internacionais.
Meteremos nossa colher nessas agendas, defendendo
nossas "necessidades adaptativas" (termos
do editorial), quando e se formos convidados a
usar a palavra, bem entendido.
Antes
de se propor a identificar as confusões
de Lula sobre política externa, o editorial
deveria ter evitado de produzir as suas próprias.
Quando compara MERCOSUL a União Européia
é inequívoco o desconhecimento dos
fatos históricos europeus dos anos da guerra
fria. Afirmar, sem mais nem menos, que economia
e política andavam desvencilhadas nesses
anos, e que o maniqueísmo do conflito leste-oeste,
o cheiro de guerra no ar, entre 1947 e 1994, não
eram paradigmas políticos e institucionais
que povoavam a mente até do mais comum
dos cidadãos europeus, e em seu caldo nasceram
as instituições econômicas
da Europa atual, é algo difícil
de se aceitar.
Uma
Europa repartida entre os esquemas de segurança
dos exércitos hostis de duas superpotências
nucleares (OTAN e Pacto de Varsóvia), era
também a Europa que se repartia entre dois
modelos de economia e integração.
Integração de capitalistas ou integração
de estados socialistas burocráticos: economia
de mercado ou socialismo de estado, CEE ou COMECOM.
Paradigmas da guerra fria eram paradigmas de segurança
político-militar... e paradigmas políticos
de integração econômica. Duas
superestruturas de integração (termo
utilizado no editorial) se digladiaram na Europa
por quatro décadas até que, finalmente,
a capitalista suplanta em definitivo a socialista
burocrática. Isso se considerarmos, como
fecho desse processo, o relevante ato político
da Comunidade Econômica Européia,
este ano, de assumir o ônus de integrar-se
as economias do leste europeu. Lembrando de que
esse ato é muito mais que simbólico:
essas economias são sobreviventes do ocaso
estatal comunista; com suas burocracias imensas,
ineficiências fiscais e baixos índices
de produtividade. Riscos políticos e econômicos
à integração européia,
ônus testado em menor escala por Helmut
Kõln, ao integrar alemães orientais
e ocidentais sobre a mesma República Federal
Alemã.
A
esfera da economia não se desvencilha tão
facilmente da esfera política, no discurso,
como pretendem os ativistas do dogmatismo conservador
em relações internacionais. Pelo
menos, não quando fatos da história
estão ainda frescos em nossa memória.
Passando
ao largo da história, aquele editorial
fugiu da verdadeira questão por traz das
declarações do futuro presidente:
quais são as "dificuldades objetivas
para que a integração avance"?
Quem tem medo da integração política?
E por que?
Como
o editorialista não nomeia diretamente
quem reage com perplexidade às declarações
de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil
ou no exterior, só podemos inferir que
ele se utiliza de outro dogma conservador que
afirma que, em política, deve-se nomear
sempre as partes pelo todo, para confundir os
adversários. Esse segundo dogma - verdadeiro
erro de metonímia política, o tão
conhecido "l'etat c'est moi" - pretende
que se confundam os eventuais partidos no governo
com a estrutura administrativa do próprio
governo de uma nação - ou o que
é pior nesse caso, com o "espírito
vivo" de uma nação.
Devemos
evitar a malícia (contida no editorial)
e nos formular a pergunta em termos conceituais
explícitos: que parcela significativa das
forças conservadoras no Brasil, ou entre
nossos vizinhos, se sentem perplexas com os ideais
de Luiz Inácio Lula da Silva? Que há
tanto aqui no Brasil, como acolá, por traz
de nossas fronteiras, quem tema o PT e Lula da
Silva, o próprio editorialista nos confirma,
ao nos lembrar "quão rombudamente
investiu Carlos Menem contra o então presidenciável
petista" (palavras do editorialista). Contudo,
é fato reconhecido por todos, o equívoco
de se acreditar que representaria a legitima voz
da nação o bordão desse dogmatismo
conservador, o "tenho medo" inserido
na campanha eleitoral de 2002. Cinqüenta
e dois milhões de brasileiros solenemente
o ignoraram, e o descartaram junto com o candidato
oficial, que o lançou na mídia.
O fato incontestável, nas recentes eleições,
é que esse dogmatismo conservador não
representa o "espírito da nação",
e esse bordão de intenção
política duvidosa foi deslegitimado pela
sociedade brasileira.
Se
é claro, pelo exposto acima, que a perplexidade
dogmática, neste caso, se restringe e alcança
somente as hostes dos leitores do jornal O Estado
de São Paulo, e não pode ser imputada
ao Ministério das Relações
Exteriores do Brasil, nem às Forças
Armadas do Brasil, ou aos partidos vencedores
na eleição de outubro e seus eleitores,
falta legitimidade para afirmar que os conservadores
brasileiros ao se indignarem, quem de fato se
indigna é a nação brasileira
ou as demais nações sul-americanas.
Ou, o que é pior, por serem o "espírito
vivo" da nação esses conservadores
sabem o que é bom senso em política
nacional ou externa. Aliás, inclusive,
para imporem essa falsa distinção
entre política nacional e externa, de "internalidades"
e "externalidades" da práxis
política no exercício político
da presidência. Como se a arte da política
em um mundo globalizado comportasse as conceituações
de manuais de teoria política dos tempos
do Marquês de Pombal. O Brasil é
uma república presidencialista. Não
temos no Brasil divisão executiva do poder
da presidência. Por ser presidência
é poder soberano, e por ser soberano é
indivisível. Luiz Inácio Lula da
Silva será o presidente do Brasil, em 2003,
não só dentro do país mas
no exterior também.
A
questão a saber, e de importante conceituação,
é se a sociedade brasileira que legitimou
a esse presidente no Brasil, e a esse espírito
de mudança, tem a legitimidade necessária,
junto às demais sociedades latino-americanas,
para propor a integração política
do continente. Seria esse espírito de mudança
legítimo de ser divulgado pelo futuro presidente
do Brasil aos seus interlocutores no continente
- sejam eles presidentes ou líderes oposicionistas
em seus respectivos países?
A
legitimação desse espírito
de mudança não será, como
poderiam pensar os mais afoitos, o compromisso
de nossos vizinhos com o projeto político
de Luiz Inácio Lula da Silva, ou com os
objetivos nacionais brasileiros. Mas ela poderá
ocorrer se essas sociedades sentirem que, no Brasil,
há um movimento de mudanças nos
valores políticos similar aos seus. A possibilidade
existe. Isso se pensarmos, no caso, a representação
política real das sociedades sul-americanas
não a sua idealização conservadora.
Ao contrário do que afirmou o editorial,
ou deixa transparecer nas entrelinhas, foi-se
os tempos das ditaduras latino-americanas, dos
"homens fortes", dos consensos oligárquicos.
A democracia é a moeda corrente das negociações
políticas no continente. Situações
e oposições partidárias latino-americanas
têm muito a propor e negociar em termos
de integração econômica no
continente.
Os
conservadores brasileiros poderiam afirmar que
essa democracia sul-americana é frágil.
Olhariam para a Venezuela, Argentina, Uruguai,
Paraguai, Peru e diriam, provavelmente, que seria
uma temeridade integrar o continente por meio
da institucionalização de um processo
parlamentar latino-americano. As propostas de
"mudanças radicais" vindas de
países com governos e partidos "radicais"
como o Brasil impediriam o "consenso"
com as elites latino-americanas que passam por
crises, como as dos países citados acima.
Ou pior, talvez agravassem essas mesmas crises
internas. O temor da "contaminação
radical" dos anti-globalização
desencadeando a variante ibero-americana do bordão
conservador brasileiro: "tengo miedo que
venga a nacer un Lula en mi pais".
Só que esse seria um falso alarme. A contaminação
em parte já ocorreu, se por contaminação
os conservadores pensam ser a identificação
de valores comuns entre as oposições
partidárias no continente e o fenômeno
eleitoral petista. Só para citarmos um
caso, o que dizer, por exemplo, acerca das negociações
de um publicitário brasileiro, vencedor
das eleições de novembro, com um
pré-candidato às eleições
presidenciais argentinas? Seria um exemplo de
"intromissão" indevida do Brasil
nos assuntos internos da Argentina se um partido
brasileiro mantivesse contatos com partidos argentinos?
O Brasil infringiu a autodeterminação
dos povos, ao exportar o marketing das mudanças?
Nesse caso seria mais justo argumentar que teria
havido uma convergência entre setores excluídos
da política partidária argentina
e o fenômeno petista; uns querendo exportar
seu prestígio político recém
adquirido, outros, na sua ausência, tomando-o
emprestado para se lançarem na arena eleitoral.
As visitas do presidente eleito à Argentina
e ao Chile, bem como os contatos que ele manteve
em 6 de dezembro, na Granja do Torto, com os presidentes
e chanceleres que vieram a Brasília para
o Encontro de Chanceleres do MERCOSUL, demonstra
que o editorial subestimou o entendimento dos
líderes latino-americanos sobre as propostas
de Lula da Silva. No Chile, o presidente Ricardo
Lagos afirmou que seu país poderia participar
do MERCOSUL se ele for concebido de outro modo,
que não uma simples união tarifária.
Citou como exemplo, a possibilidade do MERCOSUL
ser uma união política que tratasse
de assuntos macroeconômicos, câmbio
e integração dos países sul-americanos.
Ora, o editorialista poderia afirmar ser Ricardo
Lagos um socialista, e, mesmo adotando seu governo
a linha econômica liberal, simpatizaria
com os temas da agenda latino-americana do PT
e do futuro presidente do Brasil. Contudo, se
assim o fizesse, estaria confirmando que o "temor
da integração", o "temor
a Lula" é do conservadorismo, até
mesmo no Chile, e não dos latino-americanos
em si mesmos.
A
tentativa de reduzir a margem de manobra do presidente
eleito, ao cercear seu direito de propor a integração
latino-americana, com o argumento pífio
de que a proposta é ingênua, mas
desculpável por vir de quem é noviço
nas relações internacionais, não
se sustenta nos fatos. O sintético bom
senso do editorialista colide com a complexidade
das negociações comerciais no continente.
Só para ficarmos no exemplo chileno, pensemos
nos acontecimentos em torno da visita de Lula
da Silva ao presidente daquele país. Ricardo
Lagos afirmou não haver interesse em integrar-se
ao MERCOSUL se ele fosse uma simples união
aduaneira. Essa tão categórica afirmação
não era fortuita, muito menos inflexível.
Era a retórica realista de um governo que
estava para receber alguns dias mais tarde a visita
do representante dos EUA, que apresentaria a agenda
George W. Bush para o acordo bilateral de comércio
entre os dois países. Quem acompanhou esse
segundo encontro percebeu que o Chile não
está perdido para o MERCOSUL.
O
presidente Ricardo Lagos foi surpreendido por
uma proposta que, em síntese, nada cedeu
ao Chile, mas muito dele cobrou. George W. Bush
bateu de frente com a agroindústria e o
setor farmacêutico chilenos, ao revelar
sua intenção de levantar barreiras
alfandegárias à importação
de laticínios, e contestar o prazo das
patentes de remédios fabricados no Chile.
Sem nada ceder em troca, ficou claro que a intenção
de George W. Bush é usar o precedente do
que for negociado com o Chile para formular sua
agenda para a ALCA, em 2003. Como Ricardo Lagos
afirmou que só assinará o acordo
bilateral com os EUA se ele for de fato bom para
o Chile, há espaço e tempo hábil
para o governo brasileiro semear alianças
dentro do Chile, com os setores descontentes com
a proposta dos EUA, e fora do Chile, com os setores
que se sentem ameaçados com a postura de
Washington. Portanto, o futuro governo do Brasil
não tem porque abrir mão de lançar
à mesa do MERCOSUL sua própria agenda,
que inclui a integração rápida
do Chile, Bolívia e países andinos.
A
batalha pela legitimidade na América do
Sul não está comprometida, pela
camisa de força das "necessidades
adaptativas", como afirmou o editorialista.
Se nesse ponto se revela a questão da legitimidade,
é que ao contrário do que pensou
o editorialista, essa sim não pode ser
posta de lado em nome da eficiência da ação
política do estado brasileiro no exterior.
Por o carro na frente dos bois, no caso, é
ser "eficiente" no sentido conservador
e legitimar-se na sociedade que nega esse conservadorismo
depois. A afirmação vale tanto no
Brasil como no Chile. A "ineficiência"
do trator diplomático de Washington, em
Santiago, é evidente: até uma economia
que se sente "integrada" ao modelo George
W. Bush de comércio se sente obrigada a
não legitimar esse modelo.
Difícil
será explicar à nação
brasileira que as negociações em
torno da ALCA e do MERCOSUL devam ser, em nome
do "realismo" dos conservadores brasileiros,
um mero jogo de cena. Difícil será
manter a legitimidade do mandato de Luiz Inácio
Lula da Silva se os índices socio-econômicos
de seu governo forem piores do que os de FHC,
e por não ter ele rompido com as causas
do enfraquecimento e erosão da capacidade
produtiva da nação, ao se submeter
ao "bom senso" de ser omisso na sua
agenda política - e agradar aos dogmáticos
conservadores brasileiros - ao desistir de construir
uma alternativa legitima de integração
no continente.
Impor
o cronograma da ALCA como fatídico, e afirmar
que não importa o que se negocie, deve
Luiz Inácio Lula da Silva acatar a agenda
de George W. Bush no dia D da assinatura do acordo,
será enterrar mais um presidente brasileiro
na vala comum desse "dogmatismo conservador"
em relações internacionais. Não
importa quais sejam as conseqüências
de uma administração federal omissa
em seus deveres externos, como o editorial do
Estado de S. Paulo tão orgulhosamente propôs,
o que importa é que serão mais algumas
décadas perdidas para o Brasil e a América
do Sul, na sua luta pela sobrevivência.
Paulo Tempestini
Doutor e mestre em Ciência
Política
Professor do curso de Relações Internacionais
do
Centro Universitário Belas Artes de São
Paulo |
| Alca:
prossegue nova fase de negociação
apesar da conjuntura Após
as reuniões do Comitê de Negociações
Comerciais (CNC) realizadas na Venezuela, no Panamá
e na República Dominicana durante 2002,
definiu-se que a negociação da Alca
se desenvolveria em duas frentes: de um lado,
os grupos de negociação que continuaram
a trabalhar nos rascunhos que compuseram o acordo
de consenso na reunião ministerial de novembro,
no Equador; de outro, começou a etapa de
apresentação de ofertas e demandas
de liberalização para a negociação
de acesso a mercados.
Verificou-se
uma espécie de impasse das negociações
da Alca nos últimos meses. As causas são
pelo menos duas. A primeira foi o impacto que
a política comercial dos EUA tem provocado
no comércio hemisférico e mundial
depois de levantar barreiras à importação
de aço, aprovar novos subsídios
à agricultura (Farm Bill) e indicar restrições
à 521 produtos depois de autorizar o TPA
(Trade Promotion Autority). A segunda causa é
também preocupante: há um aumento
significativo nos movimentos de negociações
preferenciais sub-regionais ou bilaterais entre
EUA e países da América Latina e
Caribe, como se tem observado com o Chile, alguns
países centro-americanos, e países
caribenhos. O resultado do processo é um
enfraquecimento de um projeto de liberalização
hemisférico e o crescimento de movimentos
"anti-Alca" em outros países
latino-americanos em geral e no Brasil em particular.
Pode-se dizer que na atual conjuntura, por razões
diversas, tanto os Estados Unidos quanto o Brasil
têm menos interesse na integração
hemisférica do que já tiveram a
tempos atrás. Os dois países enfrentaram
arranjos políticos fundamentais para a
redefinição de suas políticas
comerciais. O Brasil enfrentou eleições
gerais em outubro e o novo presidente já
acenou acertadamente para posições
mais duras em relação ao processo
de integração hemisférica.
Nos Estados Unidos, alcançada a maioria
de representantes na Câmara e no Senado,
o presidente Bush assumiu condição
de força para fortalecer sua capacidade
de ação política comercial.
Permanecem, no entanto, resistências internas
à Alca na sociedade americana.
Apesar
da conjuntura, o processo negociador continua
sua programação seguindo o que havia
sido decidido em Buenos Aires, em abril de 2001,
e reiterado em Quito, no mês passado. Está
praticamente terminado o debate sobre métodos
e modalidades e iniciadas as negociações
de acesso a mercados em cinco grupos: agricultura,
acesso a mercados, compras governamentais, serviços
e investimentos. Está definido um período
de dois meses, entre 15 de dezembro de 2002 e
15 de fevereiro de 2003, para apresentação
das primeiras ofertas de liberalização
para que depois, a partir de 15 de julho de 2003,
ocorra a apresentação das ofertas
revistas. A tarifa base para início das
negociações também já
está definida. No caso do Mercosul e outros
blocos sub-regionais está permitido o ajuste
da TEC até 15 de abril de 2003 quando deverá
ser finalmente notificada a tarifa base. Está
também definido que todo o universo tarifário
poderá ser negociado mas não necessariamente
eliminado. Em princípio, a desgravação
será linear seguindo um cronograma para
quatro grupos de produtos com desgravação
imediata, em 5 anos, 10 e mais de 10 anos. Um
grupo ad hoc será constituído em
setembro de 2002 para negociar regras de origem.
A
negociação em duas frentes é
uma tentativa de incentivar as negociações.
Os esforços da Coalizão Empresarial
Brasileira (CEB) na intensificação
do diálogo com o governo têm sido
fundamentais para a definição e
representação dos interesses da
economia brasileira. Já se sabe que setores
como o agribusiness, bebidas, cosméticos,
siderurgia, têxteis, papel e celulose, calçados
e couro, e partes do setor químico apresentam
competitividade na luta pelos mercados externos.
É chegado o momento de reduzir o custo
Brasil e adotar uma estratégia de inserção
comercial que não comprometa setores mais
sensíveis, justamente aqueles que mais
empregam. O esforço negociador após
Quito continua. 2003 será um ano decisivo
e as negociações devem se intensificar
quando a secretaria administrativa se mudar para
Puebla, no México. O Brasil deve seguir
firme na defesa de seus interesses, fazendo que
a combinação de balança comercial
favorável com redução do
impacto no emprego sejam prioridades para o desenho
do futuro acordo.
Christian
Lohbauer
Doutor em Ciência Política
e membro do GACINT/USP.
Coordenador do Curso de Relações
Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco. |
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Caminhos da humanidade... |
| Conferência
Mundial sobre Direitos Humanos: 10 Anos
Introdução
A
reafirmação do valor da dignidade
humana e a vinculação entre democracia,
direitos humanos e desenvolvimento, além
do caráter de universalidade, indivisibilidade
e interdependência desses direitos, são
os pontos centrais da Declaração
e do Programa de Ação de Viena,
aprovados, entre 14 a 25 de junho de 1993, na
Conferência Mundial de Direitos Humanos,
promovida pela ONU, na capital austríaca.
Viena também aprovou, por consenso e por
unanimidade, por parte dos governos de 171 Estados,
a legitimidade da efetiva intervenção
internacional diante de sérias violações
de direitos humanos, contribuindo, assim, para
que o tratamento dado pelos governos aos cidadãos
deixasse de ser uma exclusividade da jurisdição
doméstica.
Neste
artigo, serão destacados o contexto dessa
Conferência, seus principais resultados,
a colaboração que envolveu a ONU,
os governos dos Estados-Nações a
ela filiados e os 3.000 representantes de 1.500
ONGs e povos indígenas de todo o mundo,
para que os seus objetivos fossem atingidos. De
10 a 12 de junho de 1993, no mesmo espaço
da Conferência oficial, foi realizado um
Fórum Mundial de ONGs sobre o tema "Todos
os Direitos Humanos para Todos", com o objetivo
de acompanhar os trabalhos da Conferência
oficial e de encaminhar, aos representantes dos
Estados, as recomendações da sociedade
civil internacional para a atuação
da ONU e dos governos no campo dos direitos humanos.
O
lobby das ONGs teve influência decisiva
na formulação final dos documentos
de Viena. A participação dessas
organizações foi preparada, por
meio de um longo processo de construção
de consenso, em conferências regionais preparatórias
realizadas, a partir de 1992, em Túnis,
Bangkok, Quito, Atlanta e Lund, na Suécia.
Antecedentes
A
primeira Conferência Mundial de Direitos
Humanos foi realizada pela ONU, em Teerã,
tendo ainda, como anfitrião, o regime do
xá Reza Pahlevi, notoriamente conhecido
como promotor de violações a liberdades
fundamentais. A principal ênfase da Conferência
de Teerã foi dada ao direito de desenvolvimento.
O contexto da época, imediatamente posterior
à etapa da descolonização,
favorecia um amplo debate sobre o desenvolvimento,
conceituado, entre outros autores, pelo papa Paulo
VI, em sua encíclica Populorum Progressio
("Sobre o Progresso dos Povos"), como
"a passagem de condições menos
humanas para condições mais humanas
de vida".
Vinte
e cinco anos depois, as Nações Unidas
chegaram à conclusão sobre a necessidade
de promover um amplo debate internacional sobre
a situação dos direitos humanos
no mundo, em termos de avanços e retrocessos,
no contexto das mudanças no cenário
internacional. O cenário desse debate foi
a cidade de Viena, a pouco mais de 100 km da antiga
Iugoslávia, um dos palcos mais destacados
de violência e de guerra, no Pós-Guerra
Fria. O processo de preparação da
Conferência de Viena começou oficialmente,
em 1989, quando a Assembléia Geral da ONU
solicitou à Secretaria Geral que coletasse
as posições dos governos, dos órgãos
da ONU e das ONGs sobre a realização
de uma conferência mundial para analisar
as questões mais cruciais sobre o papel
das Nações Unidas na promoção
e proteção dos direitos humanos.
A proposta foi bem recebida e a preparação
imediata dos trabalhos foi iniciada, em 1990,
por decisão da Assembléia Geral.
Foi constituído um Comitê Preparatório
e as tarefas executivas foram atribuídas
ao Centro de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.
Sempre
por consenso, foram definidos cinco pontos para
a agenda de Viena: a comemoração
do Ano Internacional dos Povos Indígenas,
em 1993; os progressos realizados, na área
dos direitos humanos, desde a aprovação
da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, pela ONU, em 1948; o relacionamento entre
desenvolvimento, democracia e o acesso universal
de todos os seres humanos a todos os direitos
humanos econômicos, sociais, culturais,
civis e políticos; novos desafios para
a efetivação dos direitos humanos
de mulheres e homens, inclusive os direitos das
pessoas pertencentes a grupos vulneráveis
e o aprofundamento da cooperação
internacional no campo dos direitos humanos. Três
pontos complementares foram sugeridos à
consideração da Conferência:
a ratificação universal dos Pactos
Internacionais de direitos econômicos, sociais
e culturais e de direitos civis e políticos,
além de outros instrumentos básicos
de direitos humanos e a atribuição
de pelo menos 0.5% dos orçamentos da cooperação
para o desenvolvimento a programas de direitos
humanos, por se considerar a limitação
financeira como um obstáculo para as atividades
da ONU nesse campo; a criação de
um Alto Comissariado [da ONU] para os direitos
da ONU e de uma Corte Internacional para os Direitos
Humanos.
Em
novembro de 1992, 41 Estados africanos reuniram-se
em Túnis, na Tunísia, para a sua
Conferência Preparatória, que destacou
a preocupação, dos governos e das
ONGs, com a escalada no número de refugiados
e de pessoas deslocadas de suas casas e países,
na África, além da relação
entre os direitos humanos e a legislação
humanitária. Túnis destacou também
o compromisso dos Estados africanos com a Declaração
de 1948 e com os princípios da Carta Africana
de Direitos Humanos e dos Povos.
Por
sua vez, em janeiro de 1993, a América
Latina e o Caribe realizaram a sua Conferência
em San José, na Costa Rica. Debateram,
entre outros pontos, o tráfico ilegal de
armas e de drogas, a militarização
da sociedade e a falta de um sistema independente
de justiça, como obstáculos aos
direitos humanos. A Declaração de
San José afirma que "a paz, a democracia,
o desenvolvimento e o bem estar social são
essenciais para a realização dos
direitos humanos". Finalmente, a preparação,
para Viena, dos países em desenvolvimento
foi completada na Conferência de Bangkok,
na Tailândia, em março e abril de
1993, com a participação de governos
e ONGs de 40 países asiáticos. A
Declaração de Bangkok enfatizou
a necessidade de considerar os direitos humanos
nos respectivos contextos regionais e nacionais,
com o respeito aos princípios da soberania
nacional e da não interferência nos
assuntos internos dos Estados-Nações.
Destacou ainda que "os principais obstáculos
à realização do direito ao
desenvolvimento registram-se em nível macroeconômico
internacional, como o que ocorre no fosso profundo
entre o norte e o sul, entre os ricos e os pobres".
A
participação brasileira
O
marco principal da preparação do
Brasil para a Conferência de Viena foi o
do processo de transição para a
democracia, a menos de 10 anos do término
do regime ditatorial de 1964. Nesse processo,
interagiram, de forma inusitada, após mais
de 20 anos de obscurantismo, os representantes
do Estado e da sociedade civil, sob o patrocínio
do Ministério da Justiça, foi estabelecida
uma "agenda comum" sobre direitos humanos.
Para debatê-la, foram realizados diversos
seminários, em Brasília e em outras
capitais. O governo brasileiro assumiu, diante
das ONGs, o compromisso de considerar, nas propostas
oficiais do Brasil, em Viena, o ponto de vista
das organizações não-governamentais.
Pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar,
as ONGs foram chamadas a cooperar com o governo
- e também com os Poderes Legislativo e
Judiciário - na formulação
de propostas de políticas públicas,
envolvendo, inclusive, o enfrentamento do crime
organizado.
Essa
dinâmica foi integralmente cumprida em Viena.
Todos os dias, durante a Conferência, reuniram-se,
no Palácio de Convenções,
sede dos trabalhos, ministros, juristas, parlamentares
e representantes das ONGs, para um debate franco
e aberto sobre as propostas do Brasil nesse evento.
O
Brasil teve, também, uma participação
destacada na construção do consenso
que resultou na aprovação da Declaração
e no Programa de Ação de Viena.
Nesse sentido, tiveram um papel essencial os diplomatas
Antonio Augusto Cançado Trindade e Gilberto
Saboya e o jurista Paulo Sérgio Pinheiro.
Entre
as ONGs brasileiras presentes em Viena, destacaram-se
as entidades filiadas ao Movimento Nacional de
Direitos Humanos (MNDH) e as organizações
feministas, indígenas e indigenistas. As
mulheres e os representantes dos povos indígenas
constituíram-se no mais organizado e atuante
lobby da Conferência de Viena. A militante
guatemalteca, Rigoberta Menchu - que receberia,
depois, o Prêmio Nobel da Paz -, teve um
papel destacado em Viena, por defender, ao mesmo
tempo, os direitos dos indígenas e os direitos
das mulheres.
Declaração
de Viena
A
Declaração de Viena, resultante
de todo um processo de negociação,
item por item, pode ser resumida em 15 pontos:
1.
A promoção e a proteção
dos direitos humanos - é uma questão
prioritária para a comunidade internacional
e a conferência é uma oportunidade
única para analisar, em profundidade,
o sistema internacional de direitos humanos
e os mecanismos de proteção, para
que esses direitos sejam promovidos, de forma
justa e equilibrada.
2. Todos os direitos humanos têm sua origem
na dignidade e no valor da pessoa humana e este
é o sujeito central dos direitos humanos
e das liberdades fundamentais; deve, pois, ser
o principal beneficiário desses direitos
e liberdades e deve participar ativamente sua
realização.
3. Todos os Estados têm a responsabilidade
de promover e respeitar os direitos humanos
e as liberdades fundamentais de todos, sem distinção
de raça, sexo, idioma ou religião.
4. Homens e mulheres, e Estados grandes e pequenos
devem ser tratados com base na igualdade de
direitos.
5. A Declaração Universal dos
Direitos Humanos (ONU, 1948) é uma meta
comum para todos os povos; é a base em
que foram e são fixadas as normas contidas
nos instrumentos internacionais de direitos
humanos, particularmente o Pacto Internacional
de Direitos Civis e Políticos e o Pacto
Internacional de Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais.
6. Devem ser adotadas medidas eficazes para
garantir, vigiar a aplicação das
normas de direitos humanos com relação
aos povos submetidos à ocupação
estrangeira.
7. São preocupantes as violações
dos direitos humanos durante os conflitos armados
que afetam a população civil,
particularmente as mulheres, as crianças,
os idosos e os portadores de deficiências.
Os Estados e todas as partes envolvidas em conflitos
armados devem observar estritamente o direito
humanitário internacional, estabelecido
nos Convênios de Genebra, de 1949 e nas
outras regras e princípios de direito
internacional.
8. São preocupantes as várias
formas de discriminação e de violência
a que continuam expostas as mulheres em todo
mundo.
9. Sendo 1993 o Ano Internacional dos Povos
Indígenas do Mundo, deve ser reafirmado
o compromisso da comunidade internacional com
os direitos humanos desses povos e com o respeito
ao valor e à diversidade de suas culturas
e identidades.
10. O caráter universal dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais não
admite dúvidas.
11. Todos os povos têm direito à
livre determinação. Em virtude
desse direito, determinam livremente sua condição
política e buscam livremente seu desenvolvimento
econômico, social e cultural.
12. Todos os direitos humanos são universais,
indivisíveis e interdependentes e estão
relacionados entre si. Os direitos humanos devem
ser tratados de forma global e de maneira justa
e eqüitativa, em pé de igualdade
recebendo todos o mesmo peso.
13. Deve ser levada em conta a importância
das particularidades nacionais e regionais,
assim como dos diversos patrimônios históricos,
culturais e religiosos, mas os Estados têm
o dever, sejam quais forem seus sistemas políticos,
econômicos e culturais, de promover e
proteger todos os direitos humanos e as liberdades
fundamentais.
14. A democracia, o desenvolvimento e o respeito
aos direitos humanos e às liberdades
fundamentais são conceitos interdependentes
que se reforçam mutuamente.
15. A democracia baseia-se na vontade do povo,
livremente expressa para determinar seu próprio
regime político econômico, social
e cultural e em sua plena participação
em todos os aspectos da vida.
Conclusões
No
relacionamento humano, e, por extensão,
no campo das relações internacionais,
a realidade da contradição entre
princípio e fatos é uma constante.
De um lado, a Conferência de Viena representou
uma das etapas mais significativas na busca de
um consenso internacional sobre direitos humanos,
desde a Declaração de 1948; de outro,
os fatos políticos, resultantes do processo
de dominação em escala internacional
e da assimetria na interação entre
Estados-Nações centrais e Estados
periféricos, indicam a distância
efetiva entre a utopia e o cotidiano.
Em
Viena, registrou-se, por exemplo, a tentativa
frustrada de garantir o direito à palavra
aos representantes do Curdistão, uma pátria
sem nação e, para negar o acesso
a esse direito, houve consenso entre os representantes
de governos ideologicamente tão díspares,
como é o caso dos Estados Unidos, do Iraque,
do Irã, da Turquia e de Israel. Do mesmo
modo, foi negada a palavra ao Dalai Lama, líder
político e espiritual dos tibetanos, diante
da objeção da China, que considera
o Tibet como parte de seu território. Houve,
também, muita resistência de praticamente
todos os representantes dos Estados diante da
reivindicação dos povos indígenas
de serem tratados como nações, em
suas diversas etnias.
De
todo modo, a Declaração final de
Viena e o seu Programa de Ação têm
resultado, nos últimos 10 anos, em medidas
concretas voltadas para a implementação
dos direitos humanos como referência central
para todas as políticas públicas
e para o estabelecimento de uma ética dos
mínimos, no cenário internacional.
Entre as medidas aprovadas em Viena, concretizaram-se
na elaboração de Programas Nacionais
de Direitos Humanos e a criação,
já em 1994, do Alto Comissariado para os
Direitos Humanos, diretamente ligado à
Secretaria Geral da ONU e atualmente dirigido
pelo diplomata brasileiro Sérgio Corrêa
da Costa, ex-coordenador do processo de transição
para a independência de Timor Leste.
Bibliografia
Notes for Speakers - Human Rights
World
Conference on Human Rights - edited by Manfred
Nowak
Dermi
Azevedo
Mestre e Doutorando em Ciência
Política.
Coordenador do Programa Estadual Paulista de Proteção
às Testemunhas.
Professor do curso de Administração
de Empresas do Centro Universitário Belas
Artes de São Paulo.
|
| A
invenção da semelhança
Todo
agrupamento humano - seja um grupo estudantil,
a torcida de um clube de futebol ou uma nação
- para se manter e ter ações coordenadas,
precisa construir sua identidade. A identidade
cultural é fundamental na construção
e manutenção de qualquer grupo humano.
No entanto, as dificuldades para tal empreendimento
são imensas. Os indivíduos, base
de qualquer grupo, são diferentes entre
si. A experiência da individualidade é
uma necessidade tão vital quanto a experiência
de fazer parte, de pertencer. Individualidade
e pertencimento atuam como forças ambivalentes
na construção da identidade cultural.
Pertencemos àqueles grupos com o qual nos
identificamos. Mas como nos identificarmos se
somos tão diferentes uns dos outros?
O
grande desafio, portanto, é transformar
a diferença em semelhança. E não
são somente os indivíduos entre
si que são diferentes. A organização
de grupos pequenos, aonde os indivíduos
se relacionam face a face, leva-os a perceberem
a diferença em relação a
outros grupos. As sociedades, principalmente as
mais complexas, são formadas por uma infinidade
de grupos com interesses contrários e contraditórios,
que ora se aliam, ora se opõem e se combatem.
Articular e conciliar as contradições
e ambigüidades decorrentes da diferença
e da desigualdade e fazer que a semelhança
seja mais percebida que a diferença é
uma das principais funções da cultura.
E os recursos disponibilizados são sempre
simbólicos.
É
o jogo simbólico da diferença e
da semelhança que permite a cada grupo
construir sua identidade. E cada grupo constrói
a sua como se constrói uma peça
de tapeçaria. É um paciente - e
interminável - trabalho de passar e repassar
fios. E todos os indivíduos do grupo são
cooptados para esse empreendimento, cada um colaborando
com sua parte. Quanto maior o grupo, maior o desafio,
pois as diferenças, desigualdades e contradições
são maiores e mais intensas, sendo, portanto,
maior a necessidade de criação de
novos símbolos. Quando falamos da construção
de uma identidade nacional que envolve milhões
de indivíduos, pertencentes a uma infinidade
de pequenos grupos e, além disso, espalhados
por um grande território, a tarefa não
é pequena. Maior ainda quando as diferenças
são tão evidentes. Esse é
o caso de muitas nações, inclusive
o Brasil.
A
construção de qualquer identidade
nacional recebe o aporte das mais diferentes áreas
da vida social produtoras de soluções
simbólicas, mas uma área particularmente
privilegiada é o mundo das artes. A liberdade
artística confere uma flexibilidade e plasticidade
a esse processo que outras áreas da vida
social, como a acadêmica, econômica
ou política não possuem. Gostaríamos,
então, de pensar a construção
disso que é chamado "brasilidade"
a partir dos fragmentos de uma obra de um dos
mais prestigiados músicos contemporâneos:
Antonio Nóbrega. A obra se chama "O
Marco do Meio-dia", título que além
de nomear o espetáculo também nomeou
o disco que foi lançado na ocasião.
Começaremos examinando uma música
que se chama "Viagem Maravilhosa" e
que foi composta pelo próprio Nóbrega,
em parceria com Bráulio Tavares e Wilson
Freire. Canta ele que
Aí,
um dia,
eu sentado na cadeira,
um Estalo-de-Vieira
clareou a minha mente.
Eu percebi
que tinha de procurar
descobrir e encarar
minha terra e minha gente.
A
inquietação do poeta diante da diversidade
coloca-o em movimento para explicar seu próprio
pertencimento, em primeiro lugar. Como afirmamos
acima, tão fundamental quanto construirmos
nossa individualidade, ou seja, nossas especificidades,
é também construirmos nosso pertencimento.
A individualidade, por si só, não
nos permite (re)conhecermos. Procuramos nos reconhecer
em nossos semelhantes, só que, paradoxalmente,
essa semelhança também precisa ser
construída. Construímos o "outro"
para nos vermos a nós mesmos. Assim, o
"outro" funciona como um espelho sobre
o qual se busca uma imagem de si. O poeta é
então impulsionado e se instrumentaliza
para procurar essa semelhança. Afirma ele
que
E
sem demora
minha burra eu selei,
pus um cabresto e montei,
pus espelho e um radar.
Pus uma bússola,
astrolábio e luneta,
diário, mapa e caneta,
e falei: "vou viajar".
Assim
equipado, nessa viagem imaginária, pronto
para descobrir e inventar a um só tempo,
o poeta cruza os principais pontos geográficos
do país, que estão associados à
história, construindo a identidade com
as tramas dos fios do tempo e do espaço.
Diz ele que
No
meu galope,
mais ligeiro que um corisco
eu cruzei o São Francisco,
mergulhei no Iguaçu.
Fui despertar
no sol da Zona da Mata,
vestido de ouro e prata,
dançando maracatu.
Passei
por todas
as ladeiras de Olinda,
e muita morena linda
ainda se lembra de mim...
Cantei seresta,
tirei verso na ciranda,
toquei tuba numa banda,
na outra toquei flautim.
No
meu caminho
enchi o Brasil de pernas,
até chegar nas cavernas
da Gruta de Maquiné.
Voltei de lá
com um papiro na mão,
trazendo a decifração
dos segredos de Sumé.
Eu
vi Xamãs
dominando tempestades,
cavando Sete Cidades,
separando Marajó...
Vi o profeta
puxando com sua cruz
cada órfão de Jesus
que cruzou Cocorobó.
Mas
quanto maior a diversidade, maior o desafio simbólico,
e a trama do tempo/espaço por si só
não é suficiente. Precisa ser adensada
com a trama da musicalidade e da religiosidade
do povo. Mais fios para fechar ainda mais a trama.
E um outro recurso simbólico freqüentemente
acionado - como em qualquer cultura - é
a culinária. Ela se torna em um dos elementos
fundamentais da construção identitária,
já que a comensalidade é um ponto
vital de imbricação da natureza
e cultura pois é quando o alimento é
transformado em comida. No seu devaneio poético
ele afirma que
Fiz
um almoço
lá no "Buraco da Jia",
começou ao meio-dia
terminou pela manhã:
cuscuz com fava,
bode assado, dobradinha,
macaxeira com farinha,
codorniz e ribaçã.
Bolo
de milho,
marisco no vinagrete,
feijoada com croquete,
quitude e baião-de-dois.
Comi de tudo
sem pressa, sem me cansar,
só para me preparar
para o que vinha depois...
Arroz-de-polvo,
risoto de camarão,
maionese e macarrão,
salpicão, frutos do mar,
feijão-macassa,
galinha de cabidela
e um bife de panela
bem leve, pra descansar.
Um
ensopado
de carne com batatinha,
feijão-verde e farofinha,
sanduíche de peru.
Pra terminar
um conhaque, um cafezinho,
mais um cálice de vinho
e três doses de Pitu.
Depois
dessa frenética salada simbólica
preparada nessa cozinha cultural, nesse jogo em
que a diferença só é percebida
para ser reintroduzida e apropriada como complementaridade,
o poeta diz que
Porém
um dia
eu cruzei em meu caminho
com um Cavalo-marinho
que era gêmeo com o meu.
Puxei a rédea
fiquei olhando pra ele,
ele achou que eu era ele,
eu achei que ele era eu.
Nesse
momento
mais um galope se ouviu,
outro cavalo surgiu
passando perto da gente.
Uma figura
semelhante e parecida,
mas como tudo na vida
tinha algo diferente.
E
mais dois outros
chegaram no mesmo instante,
e logo mais adiante
outro ainda apareceu.
Eu que pensava
que era único no mundo
encontrei num só segundo
muitos outros como eu.
O
caminho está agora totalmente percorrido
e a peça bem tramada. O poeta percebe a
diferença, mas a dinâmica simbólica
que produz a semelhança mostrou a sua força
e ele se reconheceu naqueles mesmos que ele havia
construído. No entanto, essa tapeçaria
tão habilmente produzida, sempre corre
o risco de ser esgarçada pelo tempo e pelas
contradições da vida social, com
suas forças de ruptura e dispersão.
A construção da identidade cultural
tem esse caráter precário e provisório,
estando sempre inacabada, como a própria
sociedade. Precisa, portanto, ser constantemente
reinventada.
Carlos
Tadeu Siepierski
Doutor em Antropologia Social e
Professor do curso de Comunicação
Social do
Centro Universitário Belas Artes de São
Paulo. |
| Semana
cultural
A
semana cultural promovida pelos cursos superiores
da Belas Artes teve início no mês
de outubro, prolongando-se até dezembro
conforme programação em seqüência.
Cursos:
Eventos:
ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS - I SEMANA
DE NEGÓCIOS BELAS ARTES
14/10
- "Gestão de Empresas Prestadoras
de Serviços - mude ou morra". Palestra
com José Paulo G. Neto - KLA Advogados.
15/10
- "Marketing na Hotelaria - Parcerias Estratégicas".
Palestra com Sandra H. Maia - ACCOR.
16/10
- "Ferramentas de Gestão da Responsabilidade
Social".
Palestra com Gláucia Terreo - Instituto
ETHOS.
17/10
- "Criatividade".
Palestra com Conrado Schlochauer - Laboratório
de Negócios SSJ.
RELAÇÕES
INTERNACIONAIS - I SEMANA DIPLOMÁTICA
"A Segurança e o sistema Internacional
no Limiar do 3º. Milênio"
Solenidade
de abertura: Apresentação do Coral
Belas Artes.
28/10
- "O Equilíbrio entre Liberdade e
Segurança no Contexto das Nações".
Palestras com Dr. Medad Medina, Cônsul Geral
israelense em São Paulo e com o Conselheiro
Antônio Humberto Fontes Braga, representante
do Itamaraty em São Paulo.
Mediador: Prof. Dr. Raimundo Ferreira de Vasconcelos
- FEBASP.
29/10
- "Desafios e Alternativas à Política
Externa Brasileira frente aos Riscos Transnacionais".
Palestra com o Prof. Dr. Oliveiros S. Ferreira
- USP e PUC/SP.
Mediador: Prof. Mestre e doutorando Flávio
Rocha de Oliveira - FEBASP.
30/10
- "Vetores Estratégicos da Segurança
no âmbito macroregional da África
Negra, Ásia-Pacífico, Oriente Médio
e América Latina".
Mesa Redonda com os Professores Dr. Fernando A.
A. Mourão - USP e Univ. d'Angola; Dr. Henrique
Altemani de Oliveira - USP e PUC/SP; Dr. Joaquim
Rogério - Univ. de Lisboa.
Mediador: Prof. Dr. Paulo Tempestini - FEBASP.
COMUNICAÇÃO SOCIAL - RESPONSABILIDADE
SOCIAL: UM OLHAR DAS
EMPRESAS PARA A SOCIEDADE
20/11
- Solenidade de abertura
Prof. Msc. Cláudio Andrade.
Palestra: "Responsabilidade Social: a Visão
da agência"
Convidado: Sr. Frank Pflaumer - Sales D'Arcy
21/11
- Apresentação do Coral Belas Artes
Palestra: "Mídia Impressa".
Convidado: Sr. Rondon Fernandes - W/Brasil.
Palestra: "responsabilidade Social"
Convidada: Sra. Maria aparecida Prazeres - Dow
Química.
TURISMO
- I SEMANA DE TURISMO
25/11
(noite) - Lançamento do I Caderno de Turismo
da Belas Artes.
Convidados: Profa. Msc. Luciana Paolucci e Prof.
Msc. Carlos Ribeiro.
Mesa
Redonda com os seguintes convidados e respectivos
temas:
"Turismo Online" com Ana Lúcia
Busch - Diretora Executiva da Folha Online.
"Sensorialização, Prazer e
Satisfação do Hóspede"
- Hotéis Templos do Prazer" com Marcelo
Lima, Editor da Revista da Folha de São
Paulo.
"Um olhar estrangeiro" com Caio Vilela
- Fotógrafo Profissional.
Vernissage
- Exposição de fotografias - "um
olhar estrangeiro"
Exposição de Caio Vilela.
26/11
(manhã) - "Roteiros personalizados
com ênfase em Marrocos".
Palestras com Roberta & Carlos Roth - Roth
Tours.
"Hotel sobre Rodas".
Palestra com Flávio Melo - da Exploranter.
27/11
(manhã) - Palestra e demonstração
sobre "Resgate voluntário".
Convidado: Julio Vema - Pres. AGRC (Associação
de Grupamento do Resgate Voluntário).
Palestra e demonstração sobre "Velejar:
uma opção de lazer".
Convidado: Prof. Richard Paul Andersen - Fundador
da Escola de Vela da Federação do
Estado de São Paulo - FEVESP.
28/11
(manhã) - "Marketing Turístico".
Palestra com Marcos Cobra - FGV.
"O Mercado de Gastronomia para o Profissional
de Turismo".
Palestra com Mariana de Albuquerque - Gerente
de Salão do Restaurante Ritz.
Brunch
Convidado: Josenildo da Silva Guedes - Chef de
Cozinha do Hotel Blue Tree.
DESENHO
INDUSTRIAL - EXPOSIÇÃO DE TRABALHOS
DE GRADUAÇÃO
05/12
- A Arte - Apresentação e Exposição.
09/12
- A Embalagem - Apresentação e Exposição.
10/12
- O Produto - Apresentação e Exposição.
LICENCIATURA
EM ARTES VISUAIS - SEMANA CULTURAL
09/12
- [Abertura]: eXposição aMostra
10/12
- PeRFORmAnceS
vivências > Alice
videoS [teatro contemporâneo]
encenAção
Performance > BertOneTo
11/12
- Manhã
AberTura aRtíSTica >> T.C.C.
Período noturno - MúSicA.
12/12
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BEDIN,
Gilmar Antonio et al. Paradigmas das relações
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Porto Alegre: Unijui Ed., 2000.
BULL,
Hedley. Sociedade anárquica: um estudo
da ordem na política mundial.
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado,
2002.
MELLO,
Leonel Itaussu Almeida. Argentina e Brasil: a
balança de poder no cone
sul. São Paulo: Anna Blume, 1996.
MELLO,
Leonel Itaussu almeida. Quem tem medo da geopolítica?
São Paulo:
Edusp, 1999.
PROENÇA JÚNIOR, Domício et
al. Guia de estudos de estratégia. Rio
de Janeiro:
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envolvendo: consulta ao acervo; a dicionários,
revistas e jornais eletrônicos; Free Translation;
acesso a bancos e bases de dados. A renovação
do empréstimo das obras poderá também
ser realizada por meio dos seguintes esquemas.
Bibliofone:
renovação via Fone - das 7 às
23h - Fone 5576-7300 ramais 174/175/176
Bibliofax: renovação via fax: disponível
24h - Fone 5576-7300 ramal 178
Biblioemail: renovação e reserva
via e-mail - disponível 24 h :
Reserva e Renovação de Material
Leila
Rabello de Oliveira
Mestranda em Ciência da Informação
e
Personal Information do Centro Universitário
Belas Artes de São Paulo
RFdV. |
A
estratégia sob análise
Guia
de Estudos de Estratégia
PROENÇA JR., Domício, DINIZ, Eugênio
& RAZA, Salvador G.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. 186
pp.
Nesses
tempos pós 11 de Setembro, assistimos ao
recrudescimento de conflitos militares em diferentes
regiões do mundo. No Oriente, palestinos
e israelenses seguem se enfrentando; as tropas
aliadas continuam no Afeganistão sem ter
conseguido prender Bin Laden, ou pior, pacificar
inteiramente o país. Índia e Paquistão
são candidatos seríssimos a protagonizarem
a primeira guerra nuclear da História.
Em nosso continente, a Colômbia promete
novos momentos de uma intensa guerra civil, que
englobará o governo, os paramilitares de
direita, as FARC e o crime organizado controlado
pelos narcotraficantes - não necessariamente
nessa ordem e por vezes se confundindo uns com
os outros. Os Estados Unidos, a maior máquina
de guerra de todos os tempos, seguem imperialmente
envolvidos em todas essas lutas.
Assim,
todos aqueles que se interessam pelos assuntos
da política internacional devem selecionar
as suas leituras de modo a incluir trabalhos intelectuais
que abordem, em sua especificidade, o fenômeno
da guerra. Em português, é notória
a falta de publicações atualizadas
sobre esse tema. Nesse sentido, passou quase que
desapercebido um livro escrito por pesquisadores
do Rio de Janeiro, ligados ao Grupo de Estudos
Estratégicos da UFRJ, e que aborda temas
e teorias ligados à guerra. Trata-se do
Guia de Estudos Estratégicos.
O
Guia constitui-se numa interessante introdução
aos Estudos Estratégicos como área
científica, que demanda saberes especializados
e interdisciplinares. Elaborado num formato de
ampla divulgação, serve tanto ao
público leigo, mas que possui interesse
em ser bem informado, quanto aos especialistas
civis e militares.
No
primeiro capítulo, os autores estabelecem
o objeto dos Estudos estratégicos - EEs:
o estudo do emprego dos meios de força
do Estado, com fins políticos. Os Estudos
Estratégicos buscariam "entender,
agregar, analisar e explicar" a experiência
humana acerca dos conflitos. Possuem uma perspectiva
interdisciplinar, combinando elementos das ciências
sociais e naturais. Os EEs realizam, ainda, a
tarefa de estudar e propor o aperfeiçoamento
das questões envolvendo a avaliação
e aplicação dos meios de força.
A
especificidade dos Estudos Estratégicos
reside na compreensão da complexidade das
atividades de segurança estatal, internacional
e nacional em diferentes níveis. Envolve
análises técnicas e políticas,
dialogando com a diplomacia e as Forças
Armadas. Abordam-se as realidades concretas em
torno do confronto armado. Os Estudos Estratégicos
recorrerão constantemente a uma historiografia
militar científica, cujo estudo correto
tem as seguintes características, conforme
Michael Howard: abrangência, profundidade
e contextualidade. Para os autores do Guia, deve-se
levar em conta a construção de teorias
e paradigmas no espírito popperiano e khuniano.
Há um interessante quadro acerca das "Crises"
político-militares, na pg. 52, apresentado
na forma de um Box em separado e que torna o livro
extremamente claro e conciso. Aliás, essa
forma de apresentação gráfica
é extremamente útil para o leitor,
pois fornece informações precisas
de forma rápida e concentrada, sem rodeios
e indo diretamente ao ponto em questão.
No
cap. 2, dá-se atenção aos
pensadores que os autores consideram como fundadores
dos Estudos Estratégicos enquanto área
do conhecimento: Jomini e Clausewitz. O primeiro
é o autor que pretende estabelecer princípios
de validade universal acerca da "arte da
guerra", e que seguidos serviriam como uma
receita para a vitória (p.60). Para ele,
a "chave da guerra é a estratégia;
a estratégia é controlada por princípios
científicos universais"(p.60). Ele
conclui que "a vitória na guerra é
decorrente da ação ofensiva que
concentre forças contra o inimigo no ponto
decisivo." Jomini é um pensador que
busca as permanências ao invés da
mudança entre guerras de diferentes épocas,
sendo nesse sentido um conservador. O limite de
seu pensamento se dá pela pouca profundidade
científica, e pela tentativa de simplificação
excessiva acerca dos princípios da guerra
- o que, de resto, mostra a influência de
um cientificismo positivista em sua obra.
Em
seguida, os autores abordam Clausewitz. Este pensador
alemão parte de um conceito abstrato, a
guerra absoluta, cujo objetivo é desarmar
o inimigo e submetê-lo à nossa vontade.
Para ele, todavia, a história demonstra
que tal forma de guerra nunca foi atingida, sendo
moderada pela influência da Política.
Nesse sentido, Clausewitz cunha a expressão
de que "a guerra é a continuação
da política por outros meios". Ela
é a província da incerteza e do
acaso, tendo de ser levada em conta com uma série
de outros fatores (p.78). Clausewitz aceita as
novidades revolucionárias presentes nas
Revoluções Francesa e Norte-Americana,
com o surgimento da presença do povo enquanto
ator participante da política e do combate,
a atividade essencial da guerra.
No
cap. 3, descreve-se a guerra no mar. Trabalha-se
inicialmente com o pensamento de Mahan. O almirante
norte-americano que escreveu na passagem do século
XIX para o século XX, procurou se inspirar
no método de trabalho jominiano. Tenta
adaptar a teorização da guerra em
terra para o mar. Não realiza uma pesquisa
científica sistemática, mas escolhe
arbitrariamente os fatos e se utiliza de aforismos.
Ele é o defensor da idéia de que
as grandezas dos povos derivam de um grande poder
marítimo, que deve assentar na existência
de uma esquadra poderosa, de uma grande marinha
mercante e de uma ampla indústria naval.
Durante a guerra, deve-se assegurar o domínio
dos mares pela ofensiva visando buscar e destruir
a frota de batalha inimiga num confronto decisivo.
O aspecto negativo de Mahan se dá pela
ausência de uma sistematização
crítica e rigorosa de seu trabalho, tendo
ele, na verdade, tornado-se um ideólogo
do poder naval independente, com raízes
mentais na marinha da época do navio à
vela; e pela sua incapacidade de compreender corretamente
o progresso tecnológico.
Um
outro teórico da guerra oceânica,
o inglês Corbertt, é analisado como
um contraponto à escola mahaniana. Corbertt
realiza uma análise dos fundamentos da
guerra naval de um perspectiva "clausewitziana".
Propõe que se tome cuidado com as simplificações
excessivas sobre a guerra no mar, criticando indiretamente
a Mahan. Para ele, a guerra naval não deveria
transcorrer em separado da guerra na terra, devendo-se
levar em conta os objetivos políticos dos
governos e dos Estados.
Corbett
rejeita o domínio do mar no sentido mahaniano.
Para ele, o comando do mar é igual à
capacidade que os combatentes têm de usá-lo
de acordo com os seus fins político-militares.
O limite de seu pensamento, conforme Proença
Jr. et all, evidencia-se pela sua compreensão
errônea dos limites políticos da
condução da guerra naval e por não
ter avaliado corretamente certas questões
técnicas, como a do comboio.
No
cap. 4, os autores abordam a teoria da guerra
aérea. Aqui, centram sua análise
num único autor, Douhet. Este teórico
italiano irá conceber o avião como
uma arma definitiva, que por seu alcance, velocidade
e poder ofensivo tornaria obsoletos os exércitos
e as marinhas. Aqui, os limites de sua análise
se dão pela abordagem incorreta dos aspectos
tecnológicos da guerra moderna, e pelo
seu apego "corporativo" ao papel autônomo
da Força Aérea.
No
capítulo final, eles irão discorrer
sobre os diferentes conceitos de Revolução
nos Assuntos Militares. Terminarão por
afirmar a necessidade dos estrategistas trabalharem
de maneira interdisciplinar, levando em conta
as questões de formação de
pessoal qualificado - o capital humano - o avanço
nos processos tecnológicos e novas organizações
e reorganizações operacionais e
intelectuais dentro das Forças Armadas.
Esse
livro é, repito, de uma excelente introdução
ao tema da estratégia. Leigos e especialistas
têm muito a ganhar com sua leitura. Ainda
assim, alguns problemas surgem. O primeiro deles
diz respeito ao excesso de síntese. Por
vezes ficamos perdidos com a exposição
dos autores, que por saberem tanto sobre o tema,
esquecem de que os leitores muitas vezes são
leigos. A impressão que se tem aqui é
a de que várias pontas ficam soltas no
texto.
Finalmente,
os autores esquecem de criticar deficiências
na abordagem de Clausewitz, sendo que o fazem
com excessivo - e bem construído - rigor
em relação a todos os outros pensadores
apresentados. Fica-se aqui com a impressão
de que a adesão às idéias
de Clausewitz é feita de uma maneira tão
entusiástica que se optou por não
procurar inconsistências em sua construção
teórica. Lembra muito a posição
de alguns marxistas ou estudiosos do marxismo,
que sempre hesitam em reconhecer erros na obra
de Marx, procurando sempre justificar as suas
inconsistências atribuindo-as, por exemplo,
ao "jovem Marx".
Uma
importante obra de introdução ao
tema, o Guia de Estudos de Estratégia apresenta-se
como uma leitura essencial para aumentar a compreensão
sobre os problemas da guerra no mundo contemporâneo.
As diversas disciplinas que abordam as Relações
Internacionais, como a História, a Ciência
Política ou a Sociologia - para citarmos
algumas, encontram nesse trabalho uma bem construída
base para estudos posteriores.
Considerando-se
o que ainda o porvir em termos de política
internacional, esse livro, mesmo com alguns dos
problemas apontados, apresenta-se como um importante
apoio intelectual para as pessoas bem informadas
que desejam entender os rumos que o Sistema Internacional
está tomando atualmente.
Flávio
Rocha de Oliveira
Mestre e Doutorando em Ciência
Política.
Professor do curso de Relações Internacionais
do
Centro Universitário Belas Artes de São
Paulo. |
| A
memética e a linguagem
Este
artigo tem como objetivo tecer algumas considerações
sobre meme e linguagem, tendo como base histórias
pessoais frutos da interação com
meus amigos e alunos ao longo de minha vida e
de minha experiência docente. Mais especificamente,
pretende-se discutir a repetição
do discurso que às vezes parece limitar
nossas ações.
Mas
o que é meme? Todos que lidam diariamente
com computadores já devem ter visto a palavra
meme em alguns programas, no entanto creio que
poucos tiveram curiosidade para buscar seu significado.
De acordo com o Novo dicionário Aurélio,
meme é um termo de origem latina que vem
de memento e significa lembra-te. Este termo,
porém, vem sendo utilizado com diferentes
conceitos por diversos autores. Para desenvolver
este artigo, utilizo os conceitos de meme presente
nos estudos de Blackmore (2001) e Meneghetti (2001).
Para
Blackmore (2001), o maior proponente da memética
foi o filósofo Dan Dennet, que expõe
a idéia do meme como um replicador. Citando
Dawkins, esta autora diz ainda que tudo que aprendemos
por imitação de alguém é
um meme, incluindo todas as palavras de nosso
vocabulário, as estórias que conhecemos,
as habilidades e hábitos que tomamos de
outras pessoas e até as brincadeiras, as
canções e os jogos de que gostamos,
além das regras as quais obedecemos. Meneghetti
(2001), por sua vez, conceitua meme como uma “Unidade
de base para a difusão de idéias,
culturas, estereótipos” (p.101).
Ainda segundo este autor, meme é uma “Idéia
que, uma vez posta no cérebro que a hospeda,
influencia os eventos e em modo tal a criar outras
cópias de si mesma ou variáveis
estruturais.”
Na
área de informática, o meme é
uma espécie de linguagem de comando que
faz com que a máquina repita uma operação
sempre que estiver diante de uma atividade específica,
como por exemplo, a resposta automática
disparada quando se recebe uma mensagem de e-mail.
Em nosso dia a dia, um exemplo de meme observado
e que todos já devem ter vivido, é
aquele momento em que ao chegarmos em casa quando
as luzes já estão acesas, em um
movimento mecânico tendemos a por a mão
no interruptor, mesmo sabendo que não é
necessário. Esse ato seria motivado por
uma informação registrada em nosso
cérebro que nos faz responder sempre da
mesma forma a uma determinada situação,
exatamente como se procede na área de informática.
Na
linguagem, o meme se realiza em algumas frases
que, assim como os comandos do computador, parecem
estabelecer em nós um comportamento automático
e mecânico. Um exemplo disso pode ser o
“obrigado”, que por vício teima
em aparecer mesmo quando quem fez o favor fomos
nós. Quem já não se flagrou
dizendo obrigada ao finalizar uma conversa ao
telefone, quando deveria ter sido a outra pessoa
a fazê-lo? Uma outra situação
similar seria pedir desculpas quando quem teve
o pé pisado fomos nós. Cabe ainda
ressaltar um episódio ocorrido comigo,
em relação ao uso do telefone celular,
no qual o meme se fez presente: ao pegar o telefone,
ouço uma voz “Oi, João!”
e respondo em seguida “Não tem ninguém
aqui com esse nome”.
Provavelmente,
havia um monte de João ao meu lado, já
que eu estava em uma praça de alimentação.
Ri de mim mesma e quem ligou deve ter rido de
mim também, fora as pessoas ao meu lado
me ouvindo falar como se eu estivesse em casa
sentada no sofá da sala, “Não
tem ninguém aqui com esse nome!”.
Larguei o lanche pela metade, guardei o telefone
na bolsa e levantei assim como quem estava muito
atrasada para uma reunião de negócios
e saí para explodir em gargalhadas assim
que virei a primeira esquina.
Estes
exemplos ilustram o mesmo tipo de mecanismo utilizado
na área da computação, quando
o programa faz disparar uma ação
no computador, como já dito anteriormente.
No caso do ser humano, parece que o corpo tem
momentos de independência nos quais fazemos
coisas que não queremos realmente fazer
e sobre as quais nem refletimos para decidir sobre
nossa ação. Se por um lado, essa
memética parece interessante e útil,
como no caso da resposta de e-mail ou para dirigir,
por exemplo, pois os movimentos para manter o
carro funcionando vão saindo automaticamente,
por outro lado pode nos tornar um pouco robóticos
e repetitivos e o que é pior, pode nos
fazer passar a gostar de tudo que funciona dessa
forma. E é este último aspecto que
me faz escrever este artigo, pois tenho visto
no discurso de nosso dia a dia uma linguagem carregada
de memes.
Não
é mais surpresa quando você liga
para uma empresa para fazer uma reclamação
ou resolver um problema, e embora o mesmo não
seja resolvido, o interlocutor diga frases como
“mais alguma coisa, senhora?” ou “a
empresa X agradece ...”, com um tom de cordialidade
talvez inadequado tendo em vista a falta de solução
para o problema apresentado. Em nosso dia a dia,
há também falas como “viu?”
e “não” que teimam em aparecer
no início de uma resposta ou mesmo para
iniciar uma conversa, sem nada que justifique
sua utilização. Com certa freqüência,
tenho acompanhado atentamente alguns programas
de entrevistas e quase sempre os entrevistados
iniciam uma resposta com a palavra “não”,
quando na verdade ao final de sua fala percebe-se
que a resposta era positiva.
Lingüisticamente
falando, seria possível analisar esses
casos como um vício de linguagem, mas fica
um vazio que nos leva a questionamentos tais como,
de onde vem esse vício? Como e por que
ele iniciou-se? O “né” e o
“tá” utilizados ao final de
nossas frases, por exemplo, têm um certo
sentido, pois estamos procurando apoio, talvez
em um momento de nervosismo. Seria algo como:
não é verdade? Não estou
certa? Ta bom? Ta agradando? Mas creio que o “viu”
e o “não” de que falo fogem
a esse comportamento lingüístico porque
surgem em frases com as quais não parecem
estabelecer conexão alguma, e por isso
creio ser possível considerá-los
como memes.
No
entanto, é necessário ressaltar
que, assim como afirma Blackmore (2001), “os
memes são passados adiante por imitação”,
não sendo, portanto, memes todas as formas
de comunicação, todas as idéias
e comportamentos, a não ser quando passados
adiante por pura imitação. Nesta
perspectiva, para evitarmos a expansão
de memes que mecanizam nossa linguagem e nosso
comportamento, segundo esta autora, é necessário
desenvolver um processo de aprendizagem por tentativa
e erro ou por feedback. Diante desta afirmação,
fica patente que o meme só se aloja em
nossa mente e se propaga se não houver
reflexão, problematização,
oposição, conscientização,
estudo e reelaboração.
Contudo,
o discurso da repetição infelizmente
tem sido muito freqüente, basta ler os jornais
e assistir aos telejornais, por exemplo, nos quais
as notícias são propagadas exatamente
da mesma forma, com o mesmo texto que aliás
é aquele que lemos nas páginas da
Internet. É também grande o número
de trabalhos “clonados” que os alunos
entregam aos professores. Enfim, o discurso memético
tem sido tão freqüente que há
sempre uma grande reação quando
é preciso criar, problematizar, decidir.
O que se vê em geral é que aprender
não importa, o que importa é repetir
o que o professor diz ou o que se lê nas
páginas da Web, atender bem um cliente,
observando suas singularidades não importa,
o que importa é dizer a frase que está
no script previamente definido. Nesse contexto,
o discurso vai impondo, moldando, impedindo a
criatividade e a construção de conhecimento,
além de colaborar para a perpetuação
de um discurso de passividade que parece insistir
em se manter em cada indivíduo e por que
não dizer, na sociedade.
Referências
bibliográficas
BLACKMORE, S. (2001) O Poder do Meme: waking from
the Meme dream the Psychology of awakening: Na
international Conference on Buddhism, Science
and Psychotherapy, Dartington, 9 November 1996.
DAWKINS,R. (1993) Viruses of the mind. Em B.Dahlbohm
(ed) Dennett and his Critics: Demystifying Mind.
Oxford, Blackwell.
DENNETT,D. (1991). Consciousness Explained. Boston,
Little, Brown.
DENNETT,D. (1995) Darwin's Dangerous Idea, London,
Penguin
MENEGHETTI, A (2001a) Princípios de Ontopsicologia;
tradução Adriana dos Reis. Brasília:
Ontopsicologia Editrice.
MENEGHETTI, A (2001b) Dicionário de Ontopsicologia,
tradução Adriana dos Reis São
Paulo: Ontopsicologia Editrice.
MENEGHETTI, A (2001c) O Meme como novo paradigma
de análise cultural, tradução
Adriana dos Reis. Revista Nova Ontopsicologia,
2:04-12, Roma: Psicologia Editrice.
Dilma
Mello
Doutoranda e mestre em Lingüística
Aplicada e Professora do curso de Relações
Internacionais do Centro Universitário
Belas Artes.
|
| O
problema é que os homens têm dedos...
Dilma
Mello
Dedo
mindinho, seu vizinho, maior de todos, fura bolo
e cata-piolho...
Dedo
que tira meleca
Dedo que fuça e informa
Dedo que fura o bolo,
traz a calda, lambe o sorvete
Dedo que fala do aniversário
Dedo que aperta a campainha e enlouquece as donas-de-casa
Dedo
que delata, condena e aperta o gatilho
Dedo que se põe na cara das pessoas,
que serve para calar, pedir silêncio
Dedo que acena e nega passagem
Dedo
que ameaça
Dedo que brinca e clica no mouse do computador
Dedo que clica e promove confusão, pânico
e medo
Dedo que autoriza o lançamento de um míssil
Dedo
que pede cerveja, que pede a conta, que reivindica
Dedo que clica e manipula contas
Dedo que apaga luzes
Dedo
menino
Dedo espião
Dedo safado
Dedo cibernético...
...que
indica o caminho, que mostra o atalho, mas que
também pode "deletar" o mundo |
| Centro
Universitário Belas Artes de São Paulo
Um
novo alento à tradicional Faculdade de
Belas Artes de São Paulo ocorre com sua
transformação em Centro Universitário,
neste mês de novembro de 2002. A Comunidade
Febaspiana está em festa e regozija-se
com mais este feito que vem somar-se a tantos
outros acumulados ao longo de 77 anos de existência.
Sinônimo
de qualidade e tradição no ensino
das artes, ultimamente esta respeitada instituição
educacional, abrigada no não menos tradicional
bairro paulistano da Vila Mariana, vem diversificando
suas atividades, a fim de ampliar o leque de opções
aos candidatos dispostos a escolher e aprender
uma profissão de nível superior.
Administração
de Empresas, por exemplo, recentemente reconhecido
pelo MEC, obtendo conceitos A (Proposta Pedagógica),
B (Quadro docente/discente) e A (infra-estrutura
de apoio, incluindo-se biblioteca etc.), é
um dos cursos superiores oferecidos pelo CENTRO
UNIVERSITÁRIO BELAS ARTES que, somando-se
a outros mais recentes como Relações
Internacionais, Design de Moda, Turismo, além
dos que ainda advirão, e na certa serão
agraciados com a mesma qualidade e tradição
conquistadas por seus cursos mais antigos como
Design Industrial, Artes Visuais, Arquitetura
etc.
Conforme
o Decreto N.3.860 de 09/07/01, em seu Art.11,
os Centros Universitários são Instituições
de Ensino Superior pluri-curricular [oferecem
diversos cursos], que se caracterizam pela excelência
do ensino oferecido, comprovada pelo desempenho
de seus cursos nas avaliações coordenadas
pelo MEC, pela qualificação do seu
corpo docente e pelas condições
de trabalho acadêmico oferecidos à
comunidade escolar. Diferem, portanto, das universidades
pelo fato de não estarem na obrigação
de realizar a pesquisa stricto sensu (mestrado
e doutorado).
Considerando-se
a definição acima e dado que os
referidos Centros só podem surgir de IES
já credenciadas e em funcionamento regular,
com qualidade comprovada em avaliações
realizadas pelos profissionais do MEC, Centro
Universitário é o resultado natural
e legítimo para quem, como a Belas Artes,
trilhou os caminhos da ética, da justiça,
do profissionalismo e da decência em suas
atividades e atitudes.
O
fato é que o mais jovem Centro Universitário
paulistano passará por uma nova avaliação
do MEC daqui a três anos. Por ora, possui
as prerrogativas para criar, organizar e até
mesmo extinguir cursos e programas de educação
superior, bem como remanejar ou ampliar vagas
nos seus cursos já em funcionamento.
Contudo,
não estará desobrigado de atividades
como iniciação científica
e estágios para seu alunado, publicações
acadêmico-científica por parte de
seus docentes, maior interatividade de seus programas
e disciplinas, obtenção de resultados
satisfatórios no ENAC (provão) etc.
RFdV. |
|
Processo
seletivo
O
curso de Relações Internacionais
continua atraindo um elevado número de
candidatos. Os números da Fuvest apresentaram
ligeira queda em relação ao ano
passado (2001), quando realizou seu primeiro vestibular
para essa carreira profissional. Ainda assim,
a procura situou-se ao redor de quase quarenta
candidatos/vaga, considerando-se os dois períodos
(matutino e noturno) em que são oferecidas
sessenta vagas ao todo.
Na
Belas Artes ocorreu o inverso, tendo a
procura se elevado inclusive em relação
ao seu vestibular anterior. Desta feita, o número
de candidatos superou o de vagas, fornecendo um
resultado de 1,2 para essa relação
até o fechamento desta edição
(final de novembro). Cabe sublinhar que o processo
seletivo na Belas Artes é contínuo
e assim, a referida relação tende
a se elevar. O fato é que o número
de candidatos, neste semestre, fora multiplicado
por quatro (até este momento) e a explicação
para tanto aponta para o maior conhecimento do
público sobre a existência do curso
na Belas Artes, contando-se ainda com a
divulgação realizada pelos próprios
alunos que aqui ingressaram.
Esse
maior conhecimento sobre o nosso curso é
aferido também quando do processo de entrevistas
com os candidatos (Modalidade I) e ainda, na seleção
tradicional (Modalidade II). Existe praticamente
uma unanimidade dos candidatos em seus relatos
sobre os fatores atrativos do curso, variando
apenas a ordem para: matriz curricular, logomarca
Belas Artes, qualificação docente,
conceito "A" do MEC etc.
O
que não mudou para nós foi o nível
dos candidatos, permanecendo elevado. Até
porque mantivemos o grau de exigência quanto
ao perfil do candidato (vide edição
n.1 desta publicação), habilidade
em redigir, conhecimento dos idiomas inglês
e espanhol etc. Aliás, devemos ser o único
curso de relações internacionais
a exigir habilidade prévia em língua
estrangeira, quando do processo seletivo.
Na
avaliação institucional realizada
neste semestre com nossos quadros docente e discente,
perguntamos a este último o que diria para
quem pretende cursar relações internacionais
na Belas Artes: eis algumas das respostas obtidas.
"...o
curso tem se apresentado de forma satisfatória
e é recomendado a quem gosta de uma turma
mais tranqüila e parceira, e para quem estar
disposto a ler bastante".
"Leve
o curso com seriedade...e por ser um curso novo,
precisa ainda se firmar e ganhar respeito no mercado".
"Que
deve estar disposto(a) a ler, pensar e ter algum
grau de dedicação, pois o curso
"em si" não é para turistas".
"Pense
muito antes de fazer; é um curso difícil".
"...É
um curso que pode vir a ser o melhor de São
Paulo".
"Muita
leitura, dedicação e boa sorte".
"Só
curse R.I. na Belas Artes se estiver certo de
que irá ter de ler muito".
Somos
gratos aos comentários sinceros de nossos
alunos e ao mesmo tempo, agradecemos aos candidatos
cujas escolhas recaíram sobre o nosso curso,
na certeza de podermos lhes oferecer dedicação,
seriedade, qualidade e experiência acumuladas
por nossa equipe diretiva, técnico-administrativa
e docente.
Parabéns
aos que lograram aprovação; ânimo,
melhor preparo e persistência aos que não
obtiveram o mesmo êxito, e que jamais desistam
de seus objetivos.
Sejam
bem vindos ao CENTRO UNIVERSITÁRIO BELAS
ARTES DE SÃO PAULO!!!
Welcome,
Bien venidos ao curso de RELAÇÕES
INTERNACIONAIS!!!
RFdV.
|
| Nesta
2ª edição de Data Venia não
realizamos para esta coluna propriamente uma entrevista,
mas um diálogo informal ocorrido durante
a I Semana Diplomática, organizada pelo
curso de Relações Internacionais.
Diálogo este travado entre a platéia
e o ilustre palestrante, Prof. Dr. Oliveiros S.
Ferreira, da PUC/SP, após este ter discorrido
sobre a questão da segurança no
Sistema Internacional. Naquele dia (29/10/02),
os trabalhos da mesa tiveram a mediação
do Prof. Flávio Rocha de Oliveira, do Centro
Universitário Belas Artes. Leia a seguir
trechos do referido diálogo, editado a
partir da gravação em vídeo,
na seguinte ordem de perguntas.
Platéia:
Antes de perguntar eu quero parabenizá-lo
pela brilhante reflexão, como sempre o
faz. Gostaria de ouvi-lo quanto às perspectivas,
dentro desse contexto todo, sobre o governo Lula.
Em que sentido o Lula dispõe de uma autonomia
maior ou menor para mexer as pedras desse xadrez?
Oliveiros:
Veja, eu diria que nesses oito anos que passaram
foram lançadas, assentadas as bases para
uma estrada que não tem desvio. Eu me recordo
de uma palestra, de uma aula, creio que do ex-chanceler
Lampréia, em que ele dizia que, por mais
que se quisesse fazer a bomba atômica hoje,
isso seria impossível, porque o tratado
que nós assinamos impede. Então
para vocês terem uma idéia do que
significa esse tratado de controle de proliferação
- eu não vou entrar nos méritos
- só as cláusulas da denúncia,
o tratado pode ser denunciado com alguns anos
ou alguns meses de antecedência; isso não
tem nenhuma importância, num documento dirigido
ao Conselho de Segurança da ONU. Nesse
documento, o país que denuncia deverá
explicar as razões pelas quais ele está
denunciando. Ele deverá explicar porque
apenas a bomba atômica garantirá
a sua segurança contra terceiros.
Quer
dizer, praticamente é impossível
o Brasil estar denunciando, porque implica que
a Argentina vai fazer a bomba atômica, não
tem o menor sentido. Bem, veja, o TNP (Tratado
de Não Proliferação) não
é tanto pela bomba. O TNP, a assinatura
do TNP é por termos jogado, deixado de
lado uma alternativa; não queria usar uma
expressão desagradável, mas uma
alternativa de chantagem. Então nesse aspecto,
ontem, já num discurso, o Lula deixou claro
que respeitará o TNP, isso já está
seguro.
Tem
latitude de negociação, digamos
assim, no que se refere à Alca? Ele pode
chegar e dizer: não quero! Caberá
a ele dizer se quer ou não. Não
sei se a conjuntura em que ele se elegeu permitirá
que tenha uma atitude desse tipo, que poderá
ser até negativa para os interesses futuros
do país. Ele está condicionado,
digamos assim, se não aceitar o acordo
com o Fundo (FMI), não terá no primeiro
ano, os 24 bilhões de dólares, que
dependem de ele concordar com os termos do acordo;
se não concordar não teremos os
24 bilhões. A crise cambial se acelerará
e o dólar irá para o espaço.
É que também aí ele tem muito
pouca margem. Poderá ter uma grande decisão
no que se refere ao Mercosul, mas tendo em vista,
digamos assim, não sentar em cabeça
de boi, ele terá de se empenhar em aumentar
o comércio internacional. Isso exigirá,
digamos assim, uma atitude firme nas negociações
da ALCA. Mas também não poderá
negar-se porque se negar ir à ALCA o Brasil
terá, digamos assim, tarifas alfandegárias
sobre os seus produtos e os outros não
terão. Como nós produzimos aquilo
que os outros produzem também, não
temos uma produção que (...), as
margens de manobra nesse caso são pequenas.
Na retórica poderá mudar. Poderia
seguir o México no que se refere à
denúncia do TIAR (Tratado Inter-Americano
de Assistência Recíproca). O fato
do México ter se adiantado retira, digamos
assim, retira o "panache" para o Brasil,
se ele denunciasse. Terá, se for verdade
a informação que o governo Fernando
Henrique não vai decidir, ele terá
a chance de manifestar alguma independência
na compra dos aviões da FAB, um contrato
de 700 milhões e que vai chegar a bilhões,
não sei quantos. E terá de escolher,
vamos dizer, entre russos e franceses e americanos.
Uma escolha fora da área americana ou inglesa
implicará, digamos, uma disposição,
eu não diria uma disposição
hostil, mas uma disposição de frieza
das relações.
Platéia:
Dr Oliveiros, eu gostaria de ouvir uma consideração
mais abrangente sobre a tal "cabeça
de boi", porque no âmbito das relações
Norte-Sul, parece que para os países do
sul, a "cabeça de boi" às
vezes acaba sendo mais uma imposição
e não um tipo de escolha. O senhor veja,
um país como os Estados Unidos, por exemplo,
na situação de hoje, que forças
tem a ONU, por exemplo, para ordenar aos Estados
Unidos, na posição em que se encontram,
a obedecer a determinadas leis e a determinados
tratados. Os americanos recusam-se a reconhecer
o Tribunal Penal Internacional, recusam-se a ratificar
o Protocolo de Kyoto, então, eu perguntaria:
será que a única forma de fazer
uma nação como os Estados Unidos,
hoje, a ficar de certo modo de "joelhos"
seria somente através do terrorismo?
Oliveiros:
Eu diria ao senhor, eu diria que a resposta que
qualquer norte-americano lhe daria seria a seguinte:
o General De Gaulle dizia que o poder não
recua. O poder não recua, compreende? Vou
matar 700. Eu mato 160 e você morre. Não
há hoje poder capaz de confrontar os Estados
Unidos nos termos que vosmecê coloca. Vamos
ser realistas: a ONU não tem competência
p'ra fazer isso em primeiro lugar. A ONU foi feita
para garantir a Segurança Internacional
e agora está se metendo nas missões
de paz, paz interna em alguns países. Mesmo
se tivesse competência, não tem força.
E ela corre o risco, veja bem, ela corre o seguinte
risco - que tem acontecido ao correr dos anos,
às vezes isso vai e vem - de ouvir o Congresso
americano dizer: não paguem, não
se paguem as contribuições para
a ONU. Não se pague, como não se
pagou durante muito tempo. Foram os atentados
de 11 de Setembro que motivaram o Congresso a
autorizar o Executivo a pagar as contribuições
devidas à ONU, que não foram completadas
pois a dívida não foi paga inteiramente.
Pretender, mesmo entre aspas, que os Estados Unidos
se coloquem contra a parede, eu diria assim, como
diria o socialista francês do fim do século
XIX, seria uma abstração do pensamento.
Veja,
o terrorismo pode, pode levar a..., mas há,
imaginem, imaginem a situação extrema,
que poderia acontecer na Rússia, por exemplo;
a situação extrema em que um bando
terrorista ocupe uma usina nuclear e ameace explodi-la.
A notícia de que os terroristas ocuparam
uma usina nuclear provocará imediatamente
um êxodo civil extraordinário, vai
ser uma confusão, uma cena da II Guerra,
da invasão alemã à França.
E o governo dos Estados Unidos? Como é
que os Estados Unidos vão chegar à
conclusão de que _ morram, destruam-se,
eu não posso ceder. Por que veja o seguinte:
se eles cederem em um caso, terão de ceder
em todos. Imaginem - desculpem colocar essa comparação
- que de repente esses alunos todos resolvem fazer
greve e ocupar o prédio; ocupar e ameaçar
detoná-lo se o senhor não ceder
ao que eles querem.
Platéia
(interrompe): Não dá idéia!
(risos).
Mediador
(intercede): E pegar os professores como reféns!
Oliveiros:
Pegá-los como reféns e o pior: _
vamos matar um por hora (risos).
E o senhor cederá como eu cederia. Agora,
precisa ver se a polícia vai deixar o senhor
ceder. Porque a polícia precisa pegar os
terroristas, porque são todos terroristas,
e coisa e tal, levar todos para o Carandiru. Abrir
de novo o Carandiru, vão todos p"ra
lá. Levar todos pra lá, percebe?
E como fazer? Veja, imaginar que se possa colocar
contra a parede um poder como o poder norte-americano,
eu penso que isso foge à análise
objetiva dos fatos. Nós podemos fazer assim,
podemos navegar entre Scila e Caribde. Veja, quando
as relações Brasil e Estados Unidos
não estavam boas, e isso começou
já no governo Costa e Silva, percebe? O
Brasil teve um gesto que não agradou aos
Estados Unidos, que foi a compra de uma esquadrilha
de Mirages, da França. E a partir dessa
autonomia no campo militar, nós fomos caminhando
até que o governo Geisel denunciou o acordo.
Denunciou o acordo militar com os Estados Unidos
e o selou com a Alemanha. Agora, veja o senhor
o que aconteceu quando o Brasil fez o acordo com
a Alemanha. Houve imediatamente uma enorme campanha
de imprensa, do Brasil e fora dele, dizendo que
o acordo fora feito para permitir que a Alemanha
construísse fora da Alemanha a bomba atômica.
Construiria no Brasil a bomba atômica. Porque
a Alemanha estava proibida, pelos acordos que
lhe deram soberania, de se comprometer a construir
bombas atômicas. Houve enorme pressão
para que a EURATOM não fornecesse urânio
enriquecido para as usinas brasileiras, [não
atendesse] a demanda do governo brasileiro. E
o que é curioso: toda essa pressão
foi montada em cima de um fato que todos conheciam.
Se um parafuso de uma usina nuclear não
estivesse supervisionado pela Agência Internacional
de Energia Atômica, ela não seria
sancionada. Quando o governo brasileiro percebeu
- não que ele tivesse essa intenção
- que ele não poderia fazer absolutamente
nada fora dos acordos que a Alemanha assinara
com a Agência Internacional de Energia Atômica,
o Brasil fez um programa paralelo. Tentemos imaginar
que o projeto do General Geisel fosse esse: colocar
os Estados Unidos contra a parede, de fazer a
bomba, afinal de contas tivemos lá o episódio
dos poços, vamos imaginar que ele tivesse
isso na cabeça, não tínhamos
urânio enriquecido, não tínhamos
como comprar material para fazer o projeto paralelo,
tivemos de andar pelo mundo como filibusteiros
à procura de alguma coisa. E os Estados
Unidos não se incomodaram. Ajudaram a fazer
a campanha contra o Brasil e ficaram calados.
Sabiam que não podíamos fazer nada.
Agora, qual é a condição
do Brasil de fazer alguma coisa contra os Estados
Unidos? Qual é a condição,
veja bem, se o Brasil quiser fazer alguma coisa,
pretender, digamos, responder positivamente à
sua questão, ele teria - de certa maneira
- de dar abrigo às teses, e dar abrigo
possivelmente às pessoas, às teses
e pessoas terroristas. Ora, isso seria quase que
uma declaração de guerra. E aí
eu lembro de uma anedota que corria no tempo do
Estado Novo, que o Getúlio Vargas chamou
o Góes Monteiro, que era um grande estrategista
brasileiro e lhe disse: "Góes, só
tem uma saída para o Brasil; temos esses
e esses problemas. Só temos uma saída
que é declarar guerra aos Estados Unidos,
porque assim, se nós perdermos eles pelo
menos vão tomar conta de nós".
E aí o Góes virou p'ra ele e disse:
"Presidente, e se nós ganharmos? (risos).
E se nós ganharmos a guerra contra os Estados
Unidos?"
Eu penso que nas condições de força
que existem hoje no mundo, os Estados Unidos estão
em condições, são a única
potência hoje, e nem a Rússia mais
tem..., que podem dizer que não aceitam
os tratados que foram assinados. Quer dizer, o
pacto sum servanda não vale para os Estados
Unidos. Paciência! Eu sou soberano, e foi
com base nisso que os alemães invadiram
a Bélgica. Nós somos soberanos e
foi com base nisso que mudamos a nossa opinião.
A Rússia não se opõe mais
aos Estados Unidos e o senhor sabe que a Rússia
é uma potência nuclear. Ela necessita
de boas relações para poder resolver
os seus problemas internos, problemas econômicos
internos que são grandes, e mais, eu não
vejo como podemos colocar os Estados Unidos contra
a parede. Mesmo porque acredito que é uma
política que não tem futuro; não
tem futuro porque nós não temos
como, não temos "boi" suficiente
para sentarmos em cima dele.
Platéia:
[Mudando de horizonte] uma saída fora da
Alca, uma outra alternativa além dela seria
o Brasil fazer o comércio com a União
Européia. Que a União Européia
e o Brasil estariam levando vantagem...
Oliveiros:
Veja, você fala num acordo com a União
Européia, que recebe um quarto da sua exportação,
os Estados Unidos recebem o outro quarto. O problema
é que...você pode fazer acordo com
quem você quiser. O acordo com a União
Européia não resolve o problema
da Alca. Está colocado, e é isso
que nós temos de ter bem presente. Os dados
foram lançados, percebe? Não sei
se vocês conhecem o Seven Eleven: dois dadinhos
que se joga, e se fizer sete ou onze a banca ganha,
se fizer seis ou doze a banca perde. Se sair qualquer
outro número a banca tem de repetir o jogo.
Os Estados Unidos lançaram os dados. Não
deu ainda sete, não deu sete ou onze, mas
não deu seis ou doze. Eles vão ter
de repetir e se sair sete ou onze depois nós
ganharemos. Eles vão ter de repetir, mas
com um parceiro que não tem dinheiro p'ra
cobrir a banca. Essa é a realidade. Nós
somos a décima economia do mundo e os Estados
Unidos têm um PIB de US$10 trilhões.
Escreve 10 trilhões e vamos ver se você
acerta quantos zeros têm. O orçamento
militar deles é maior do que os doze países
que vêm imediatamente abaixo [deles]. Quer
dizer, é uma coisa que nós não
conseguimos imaginar. E eles não têm
a menor cerimônia, veja bem, a menor cerimônia
de dizer que nós estamos errados.
A
União Européia fará um acordo
conosco? Muito bem! Qual é o interesse
da União Européia? É compra
de órgãos governamentais? Participar
de todas as concorrências? É liberdade,
digamos, do mercado financeiro? Quer dizer, permitir
abrir bancos, casas de corretagem, com a facilidade
que se tem hoje, que precisa de um decreto governamental,
presidencial, para autorizar a abertura de banco.
E uma série de coisas que os Estados Unidos
também vão colocar. Quer dizer,
nós concedemos para a União Européia
e os Estados Unidos poderão dizer: _ e
o princípio da nação mais
favorecida que rege as nossas relações?
Eu quero gozar do princípio da nação
mais favorecida. E aí o Brasil terá
de dizer se sim ou não. Se disser não,
não custará nada ao Executivo norte-americano
baixar um decreto dizendo que a tarifa de tal
coisa subirá. E as nossas exportações
para os Estados Unidos cairão, e nós
entraremos em uma crise cambial. Veja, não
estou dizendo que devamos ceder; eu estou dizendo
que a situação é muito difícil.
Quer dizer, de certa maneira estamos naquele momento
em que a Maria quer casar e o pai diz que ela
só poderá casar-se com o João,
percebe? O pai está dizendo: "minha
filha, veja assim, não é bem assim
e coisa e tal". Nós estamos chegando
num momento em que o pai vai dizer: "tem
de casar com o João". E aí
eu pergunto: vamos sentar em cabeça de
boi? Sentar em cabeça de boi significa
[neste caso] fechar importações,
racionamento de petróleo, possível
racionamento de energia elétrica, significa
aumentar o desemprego. Será que vamos chegar
a isso, sem um grande partido que mobilize as
massas? Esse é o problema. Quer dizer,
no fundo teremos de ligar a situação
externa à situação interna.
Nós teríamos uma grande vitória
popular, sem dúvida nenhuma, mas obteríamos
uma pequena vitória política. Não
seria uma grande vitória política,
mas uma pequena vitória política.
O Congresso não tem maioria. Se fosse um
regime parlamentar, o Lula, o PT teria hoje a
maioria no Congresso, tranqüilo. Mas não
é; é um regime presidencialista
e nós temos um rosário de partidos
e é preciso costurar um acordo no Congresso,
e ao mesmo tempo costurar um acordo na sociedade.
Platéia:
Em relação ao interesse nacional
e à segurança, considerando-se essas
fronteiras frágeis a que o senhor se referiu,
o maior problema é da sociedade que tem
um desinteresse em proteger essas fronteiras,
não tem sequer noção sobre
elas, falta de patriotismo, também de nacionalismo,
ou o problema não é prioridade governamental?
Oliveiros: Você tem uma parte da
sociedade que de certa maneira é responsável
por isso. E você teve um governo, no passado,
que cedeu à pressão da sociedade.
Tome o Projeto Calha Norte se não me engano,
no Governo Sarney. Ele previa a situação
que está aí, ou seja, a instalação,
a demarcação de fronteiras, direitinho.
Você imaginaria, como saberemos que atravessamos
a fronteira Brasil-Colômbia, por exemplo?
Você não sabe, percebe? Você
está andando no mato e de repente atravessou
uma linha geodésica. Olhou p'ra cima, não
viu e você já atravessou. Está
do lado de lá. Então o Projeto previa
pelo menos a instalação de marcos.
Você já imaginou, você passava
o arame farpado em torno da fronteira, e tal (risos).
A
segurança e os pelotões no fundo
seriam, digamos assim, o ponto de aglutinação
de populações, de pessoas que fossem
p'ra lá. Quando o Projeto Calha Norte se
tornou público, houve uma grande reação
de parte da sociedade e, se não me falha
a memória, por parte da CNBB. "Esse
é um projeto militar, é um projeto
que vai militarizar as fronteiras; este é
um projeto que vai acabar com os índios;
esse é um projeto isso, esse é um
projeto aquilo". E o governo cedeu. Além
do que ele não tinha muito dinheiro, mas
cedeu. E ficamos nessa situação.
Quer dizer, a sociedade, uma parte da sociedade
vê qualquer ação governamental
em que entra índio como parte contrária,
como um massacre dos índios. E aí?
Aí faz um estardalhaço, compreendeu?
Parte da sociedade tem culpa e o governo, os governos
também têm culpa. Além do
que, eu me pergunto, tome o caso do SIVAM, o estardalhaço
todo que se fez com o SIVAM e agora ele está
aí, detectando os aviões que entram,
mas não pode abater os aviões que
não se identificam (risos).
"Você
está invadindo o espaço aéreo
brasileiro. Desça!" Aí você
diz: "não vou descer e pronto".
O decreto está na mesa do presidente. E
dizem as más línguas - sempre coisa
de más línguas - que o problema
é que nós temos medo, receio justificado,
de abater um avião norte-americano que
esteja inspecionando nossas fronteiras para ver
se os traficantes...
E
se o piloto não quiser se identificar?
Eu invadi o espaço aéreo e não
vou me identificar. Eu não posso revelar,
veja bem, eu não posso revelar a missão
que eu estou cumprindo.
Platéia
(interrompe): Mas esse avião não
pode ficar aqui...
Oliveiros:
Eu sei. Veja, [pegando uma folha de papel e apontando
para a borda] a fronteira é essa linha
aqui, só que é geodésica.
Você não vê. Então o
avião vem e faz assim [demonstra como se
atravessasse a fronteira]. O SIVAM detectou e
logo o caça da FAB vem atrás dele.
Esse avião deve ser um pouco mais veloz
do que o caça da FAB, mas não tem
problema (risos). E o piloto diz: "identifique-se!"
E o invasor responde: "não vou me
identificar". "Então eu vou atirar
em você e pfiuuuu!" [faz um movimento
rápido com a mão sobre a borda do
papel, indicando que o avião atravessou
de volta a fronteira geodésica]. Entende?
Se eu estou cumprindo uma missão e ela
é secreta, é secreta; não
posso comunicar. Quer dizer, p'ra sua tranqüilidade,
quando um dos presidentes norte-americanos visitou
o Brasil (estávamos aqui comentando), um
caça norte-americano invadiu o espaço
aéreo brasileiro. Compreende? Invadiu,
porque não comunicou que ia entrar. E os
Mirages foram buscá-lo e quase o derrubam.
E então ele se identificou, porque a missão
não era secreta, senão ele não
teria retornado.
Veja,
Mesmo não se gostando dos Estados Unidos,
tá tudo muito bem, mas é preciso
tratar com eles. Podemos não gostar do
gerente do banco, daquele onde estamos devendo
a duplicata, não é? Mas teremos
de tratar bem o gerente se quisermos renovar o
crédito. Senão...
Com
os agradecimentos de Data Venia.
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e revisão técnica:
Prof. Dr. Raimundo F. de Vasconcelos
Revisão de texto: Sr. João
de Oliveira
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do curso de relações internacionais
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