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Globalização, financeirização,
concentração e desnacionalização
O
ponto de partida deste trabalho foi a compreensão
de que a dinâmica econômica no Brasil
está fortemente interligada às tendências
que predominam nas relações políticas
e econômicas em nível internacional.
O que é ainda mais evidente no caso do
nosso objeto de estudo, o setor petroquímico,
cujas mudanças nos anos 90, de caráter
bastante internacionalizado, devem ser analisadas
à luz de transformações mais
gerais no quadro externo, chamadas de globalização.
A própria abertura comercial e privatização
foram justificadas como condições
necessárias para garantir uma inserção
positiva do país no processo de internacionalização.
Por isso optamos por dedicar este primeiro capítulo
a uma análise do processo de globalização
produtiva.
Argumentamos
que uma das características do processo
de inserção dos países em
desenvolvimento é a tendência à
desnacionalização de setores nos
quais se havia consolidado uma presença
significativa de empresas de capital nacional,
privado ou estatal. Particular ênfase será
dada à inter-relação entre
globalizações financeira e produtiva.
Costuma-se analisar tais fenômenos separadamente
por envolverem, aparentemente, atores distintos
e serem movidos por dinâmicas próprias.
Porém, o impacto das crises inerentes à
globalização financeira se fizeram
sentir de forma particularmente forte no setor
produtivo nacional nos países periféricos,
reforçando ainda mais a existência
de uma vantagem muito grande das transnacionais
em relação às empresas em
atuação somente no espaço
local. Na periferia, isso aparece como uma tendência
à desnacionalização.
O
objetivo deste capítulo, portanto, é
apresentar uma análise do contexto global,
fundamental para a compreensão das mudanças
no setor produtivo brasileiro nos anos 90.
1.1
Globalização e investimentos externos
diretos
O
processo de globalização pode ser
analisado a partir da internacionalização
do capital produtivo, tanto em números
quantitativos (aumento espetacular nos Investimentos
Externos Diretos, IED, a partir de meados dos
anos 80) quanto em termos qualitativos (formação
de sistemas de produção integrados).
Por outro lado, a dinâmica dos fluxos financeiros
nas suas várias modalidades mereceu mais
atenção das autoridades públicas
nacionais e multilaterais, como também
da opinião pública, justamente pela
característica que mais a distingue da
globalização produtiva: sua volatilidade
e as conseqüentes instabilidades que provoca
nas diversas economias nacionais.
A
partir de meados dos anos 80 (1986) observamos
mundialmente um crescimento expressivo dos IED.
O aumento quantitativo se refere aos dados que
se seguem.
· Aumento nominal em relação
aos IED dos anos anteriores. A média anual
dos investimentos externos das multinacionais
entre 1982 e 1986 foi de US$ 61 bi e saltou para
US$ 600 bi em 1998. Em termos nominais, os fluxos
de IED se multiplicaram com um fator 2,5 entre
1987 e 1996, e, mesmo com ajustes pela inflação
e flutuações nas taxas de câmbio,
a tendência se manteve: uma multiplicação
com um fator 2.
· Aumento maior que o registrado na produção
mundial e no comércio internacional. Desde
1987, a taxa de crescimento dos IED superou as
taxas já expressivas de crescimento do
comércio internacional com um fator 1,3.
· Aumento superior às taxas de crescimento
dos investimentos domésticos a partir de
1986. Até então, as taxas eram iguais,
porém, entre 1986 e 1996, o aumento dos
IED superou as taxas de crescimento dos investimentos
domésticos com um fator 3.
Existe forte sustentação na literatura
que analisa a globalização de que
essas mudanças quantitativas dos
IED vêm acompanhadas de mudanças
qualitativas. Essas modificações
se dão nos anos 90, num contexto de liberalização
do comércio internacional e de políticas
governamentais de desregulamentação,
tanto por meio de políticas unilaterais
dos governos nacionais quanto no contexto da proliferação
dos acordos regionais e multilaterais. Igualmente
importante é situar o aumento dos IED no
contexto do processo da reestruturação
produtiva, o novo paradigma de produção
caracterizado por novas formas de organização
e pelo uso de novas tecnologias. A utilização
da telemática permite uma coordenação
muito maior das cadeias produtivas (da pesquisa
à distribuição) em nível
internacional. Ao mesmo tempo, coloca a competição
internacional em outros patamares.
A mudança qualitativa mais importante na
dinâmica das multinacionais é o processo
de concentração de capital.
Em 1998, 80% do total dos IED foram direcionados
para fusões & aquisições.
NUNNENKAMP interpreta esses fenômenos como
indicadores do desenvolvimento de uma “produção
globalizada”. Outros autores tentam relativizar
as causas ou os desdobramentos qualitativos do
indiscutível aumento quantitativo dos IED,
principalmente criticando a tese do surgimento
da “fábrica mundial” ou a tese
da transformação da empresa multinacional
em empresa transnacional, desvinculada da dinâmica
da economia nacional do país de origem.
HIRST e THOMPSON concluem a respeito:
As empresas internacionais estão ainda
em grande parte ligadas a seu território
nacional no que diz respeito à totalidade
das suas operações; seguem enraizadas
no seu país de origem e continuam empresas
multinacionais em vez de transnacionais.
O mesmo argumento para rejeitar a tese do surgimento
da transnacionalização da grande
empresa é utilizado por TULDER e RUIGROK.
A principal preocupação desses autores
diz respeito à capacidade potencial
de regulamentação do Estado nacional.
Mas esses autores não chegam a negar que
as empresas transnacionais têm uma extraordinária
capacidade de mobilização de recursos
financeiros, tecnológicos e organizacionais
em nível global, cujo aumento quantitativo
implica algumas conseqüências qualitativas
para a relação com os outros atores
nas economias nacionais dos países em que
operam. Ou, nas palavras de DUNNING:
A economia globalizada emergente nos anos 90 coloca
uma série de pressões sobre os governos
nacionais visando mudar suas políticas
econômicas internas e as estratégias
com que participam das mesas de negociação
internacionais.
De acordo com as teses desenvolvidas por VERNON
(1971, 1977), a internacionalização
da produção seria uma decisão
racional de uma empresa, em determinada fase de
sua expansão, relacionada à teoria
do product life cicle. Nesse caso, só depois
que o produto estivesse na fase de maturidade
seria feito fora do país. Nos anos 80,
vários autores começaram a polemizar
com Vernon enfatizando a heterogeneidade e a complexidade
das decisões de internacionalizar. TAYLOR
e THRIFT tentaram definir the global corporation
(1982). LEVITT tentou trocar a tese da internacionalização
do product life cicle pela tese da globalização
dos mercados, que faz com que as empresas multinacionais
busquem vender as mesmas coisas, da mesma forma,
em todos os lugares do mundo (1983). Na mesma
linha foi OHMAE ao explicar as decisões
pela internacionalização, identificando
a necessidade de estar presente nos três
grandes mercados para sobreviver à competição
internacional (1985).
Para enfatizar o processo, uma tendência
maior do que uma nova realidade já consolidada,
utilizaremos o conceito de estratégias
transnacionais, com o qual se podem reconhecer
as observações feitas contra a idéia
do surgimento da empresa globalizada, mas ao mesmo
tempo enfatizar o surgimento de uma nova dinâmica.
1.2
1994-1999 das crises tequila e asiática,
o impacto da moratória russa e a desvalorização
do real
Uma
análise das experiências com as crises
financeiras da segunda metade dos anos 90, manifestações
do novo dinamismo do capitalismo mundial, nos
ajuda a entender alguns dos aspectos cruciais
das estratégias transnacionais e sua relação
com o processo de desnacionalização
na periferia.
As
crises financeiras internacionais desde o México,
em 1994, mostram que as diferentes modalidades
de capital não se deslocam na mesma direção.
Se isso já era claro no caso da crise mexicana,
ficou ainda mais com os impactos das crises asiáticas
e russa e a pressão sobre o Brasil, que
foi obrigado a abrir mão da política
de sobrevalorização do real. A tese
que vamos defender aqui é que as empresas
transnacionais sabem navegar muito bem nas turbulências
financeiras, isso em grande contraste com as empresas
nacionais e os governos da periferia. Estes últimos
são vítimas dos aumentos de juros
e dos spreads provocados pelas crises. Com isso,
as transnacionais conseguem tirar proveito a partir
das suas estratégias transnacionais, o
que demonstra sua enorme flexibilidade.
No
México, novembro de 1994 marcou uma corrida
de US$ 1,7 bilhão contra o peso, resultando
numa desvalorização de 13%. Foi
necessário um pacote de emergência
de US$ 38 bi para estabilizar e reverter o quadro.
Como conseqüência, houve uma interrupção
abrupta dos fluxos de portfólio para toda
a América Latina, que tiveram queda de
52% entre 1993 e 1994. Dados do Banco Mundial
mostram que esses fluxos caíram de US$
25 bi, em 1993, para US$ 6 bi, em 1995.
Ora,
vejamos o comportamento dos IED: houve, entre
1993 e 1995, um aumento de 37% (dados da UNCTAD),
e a participação do México
no total dos IED para a América Latina
ficou em 26% em 1996, o que equivale quase à
média de sua participação
no período de 1986 a 1995.
Tabela
1 – Fluxos financeiros para os mercados
emergentes em US$ bi.
Fluxos líquidos de capital privado IED
Investimentos em carteira Outros investimentos
privados
1991 123,8 31,3 36,9 55,6
1992 119,3 35,5 51,1 32,7
1993 181,9 56,8 113,6 11,5
1994 152,6 82,7 105,6 -35,8
1995 193,3 97 41,3 55
1996 212,2 115,9 80,9 15,4
1997 149,1 142,7 66,8 -60,4
1998 64,3 131 36,7 -103,4
Fonte: Informe Anual FMI 1999
Notamos
aqui que, enquanto o fluxo de capital privado
líquido para os países emergentes
despencou de US$ 212,2 bi, em 1996, para US$ 149,2
bi, em 1997, e em seguida para US$ 64,3 bi, em
1998, os fluxos de IED evoluíram na outra
direção e registraram um grande
crescimento, subindo de US$ 115,9 bi (1996) para
US$ 142,7 bi (1997). Considerando a queda dos
IED para os países emergentes em 1998,
em relação ao ano anterior, lembramos
que os valores são registrados em dólares,
e que os principais países receptores passaram,
naquele período, por fortes desvalorizações.
É, portanto, muito imaginável que
o poder de compra dos US$ 131 bi, em 1998, tenha
sido significativamente superior aos US$ 142,7
bi, em 1997.
1.3
O caso da Coréia do Sul
As
crises financeiras chegaram até a abrir
portas para as transnacionais na Coréia
do Sul. Trata-se de um país onde se havia
construído, a exemplo do Japão,
uma indústria nacional voltada para a exportação,
e que, ao longo dos anos, apropriou-se das tecnologias
avançadas no desenvolvimento de seus processos
e produtos. Além disso, baseada em grandes
investimentos em educação e P&D,
estava se tornando produtora de tecnologia. O
governo estimulou os conglomerados nacionais não
só a exportar produtos mas também
capitais. De fato, durante toda a década
de 90, até 1998, a Coréia do Sul
era exportadora líquida de fluxos de capitais
produtivos, como pode ser observado na tabela
seguinte:
Tabela
2 – Fluxos de entrada e saída de
IED em US$ bi – Coréia do Sul
Fluxos de entrada de IED F&A internacionais
Fluxos de saída de IED
1994 1 0,001 2,3
1995 1,36 0,192 3
1996 2,3 0,564 4,7
1997 3 0,836 4,4
1998 5,4 4 4,7
1999 9,3 10 4,1
2000 9,3 6,5 5
Fonte: WIR 2002 e FMI
A
Coréia do Sul se destaca pelo fato de os
IED em 1998 terem representado um valor quatro
vezes superior à média desses fluxos
durante o período entre 1991 e 1995. Fica,
portanto, evidente o aumento expressivo dos fluxos
de IED para a Coréia do Sul e, ao mesmo
tempo, a tendência de queda de suas exportações
de capitais voltadas para IED: a crise asiática
abriu a porta para as transnacionais desafiarem
o capitalismo nacional. A venda da Daewoo é
só um símbolo dessa realidade, mas
igualmente importante é a compra de ativos
petroquímicos da Hanwha, uma das maiores
coreanas do setor, pela BASF, que, com isso, se
consolidou como a maior empresa química
estrangeira na Coréia, seguindo sua estratégia
de expansão na região. Como parte
da sua estratégia de focalização,
a BASF tinha vendido sua unidade de fitas magnéticas
para um grupo coreano, mas, com a crise financeira,
este foi obrigado a vendê-la em seguida
a um grupo de capital britânico.
Por
vontade própria e por pressão internacional,
os governos dos países asiáticos,
entre os quais o da Coréia do Sul, reagiram
com as seguintes políticas à crise
financeira:
Ø desvalorização;
Ø liberalização;
Ø desregulamentação, especialmente
em relação à venda de empresas
nacionais para multinacionais; e
Ø mais esforços para atrair IED
para cobrir os déficits nas transações
correntes.
Todas essas políticas fortalecem as estratégias
das transnacionais e foram recomendadas pelo FMI,
em troca de uma megaoperação para
disponibilizar créditos e enfrentar a crise.
As
empresas nacionais, já bastante endividadas,
viram suas dívidas em dólar aumentadas
pela desvalorização. Ao mesmo tempo,
houve uma alta drástica dos juros. O resultado
foi um leilão, ou melhor, uma liquidação.
SOROS, ele mesmo considerado um dos incendiários
da crise asiática, previa, já no
início de 1998:
O resultado líquido será o fim do
modelo asiático e o começo de uma
nova era em que os países envolvidos estarão
ainda mais estreitamente integrados ao sistema
capitalista global. Os bancos internacionais e
as corporações multinacionais conquistarão
posições fortes.
Essa
preocupação com a desnacionalização
provocada pela onda de fusões e aquisições
foi também objeto do discurso do primeiro-ministro
da Malásia, Mahathir, na X Conferência
da UNCTAD, em fevereiro de 2000:
...mergers and acquisitons... are making big corporations
even bigger. Now many of these corporations are
financially more powerful than medium sized countries.
While we welcome their collaboration with our
local companies, we fear that if they are allowed
into our countries unconditionally they may swallow
up all our businesses.
No
mesmo período, a ICC (Câmara Internacional
de Comércio) e a UNCTAD publicaram o resultado
de uma pesquisa que apontou nessa direção:
as multinacionais estavam instigadas com as oportunidades
criadas a partir da crise financeira. Abriu-se
uma porta tão fechada (no caso da Coréia
do Sul) e ainda a preço de liquidação
(principalmente em decorrência da desvalorização).
O
impacto desse processo no setor químico
é exemplar. A BASF, maior empresa química
da Europa, se aproveitou da situação
para fortalecer significativamente suas posições
não só na Coréia, mas também
em outros países asiáticos, construindo
na Malásia (Kuantan) um dos maiores pólos
petroquímicos do mundo. Na Tailândia,
em março de 1997, a crise quebrou a campeã
nacional, a Thai Petrochemical Industries (TPI),
com uma dívida de US$ 3,7 bi, provocando
um amplo debate no país sobre a oportunidade
de o governo intervir para evitar uma desnacionalização
ou, como defendeu o magnata fundador da empresa,
Prachai Leophairatana, convidar investidores estrangeiros
a tomar o controle da empresa.
Destacamos
a Coréia do Sul, porém, o mesmo
repetiu-se nos demais países asiáticos
afetados. Os fluxos para os países emergentes
asiáticos, em 1998, são superiores
à média anual no período
de 1991 até 1995, o que contrasta enormemente
com a sangria de capital financeiro que a região
sofreu no mesmo ano de 1998. No seu conjunto,
os cinco países mais afetados pela crise
(Indonésia, Coréia do Sul, Malásia,
Filipinas e Tailândia) receberam um fluxo
de US$ 18 bi em IED. Porém, há que
se considerar o caso particular da Indonésia.
Na Indonésia, houve uma
reação muito negativa do capital
produtivo, que resultou não só em
queda das entradas, mas até em saída
líquida de IED, fato extremamente raro.
Vejamos a tabela 3.
Tabela
3 – Fluxos de entrada de IED em US$ bi –
Indonésia
1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
2,1 4,3 6,2 4,7 -0,36 -2,7 -4,5
Fonte: UNCTAD, WIR 2002
Em
nossa avaliação, trata-se de um
desinvestimento político. A Indonésia
foi o país onde a crise financeira desestabilizou
totalmente a estrutura política, com grandes
violências, revoltas separatistas, religiosas
e de trabalhadores. A queda do regime de Suharto
teve um significado político muito maior
que a troca dos primeiros ministros na Tailândia
e na Coréia do Sul ou a queda do presidente
do Banco Central no Brasil. Acrescente-se a isso
que o impacto da crise indonésia foi até
mais acentuado. De acordo com dados do economista
Octávio de Barros, com base no WIR e FMI,
a Indonésia tem de longe a pior relação
“passivo externo bruto/PIB” dentre
os países emergentes: 219,2% contra, por
exemplo, 62,6% no Brasil ou 118,7% do segundo
colocado, a Malásia.
O
caso é interessante porque mostra que nada
impede um redirecionamento brusco e drástico
dos fluxos dos IED, assim como o dos fluxos financeiros.
1.4
Estratégias transnacionais dos global players
produtivos – Transnacionais como atores
da globalização financeira
Os
dados demonstram que as empresas transnacionais
e outras fontes de IED não se deixaram
intimidar pelas turbulências financeiras
e, ao contrário, intensificaram o ritmo
de seus fluxos. No Brasil não foi diferente.
Em outubro de 1998, no meio do desdobramento da
crise financeira causada pela declaração
da moratória russa e junto com a dramática
fuga de capitais de curto prazo, chegavam ao Brasil
US$ 3,5 bi na forma de IED, ou seja, em um mês
de crise financeira generalizada entrou um volume
de IED duas vezes superior à média
das entradas anuais dos anos 80. Como interpretar
esse fenômeno? As crises financeiras caem
como uma luva para a estratégia das multinacionais.
Para entender essa afirmação, temos
de considerar a principal característica
da globalização produtiva: a
concentração do capital.
Comparemos
os fluxos de IED com os fluxos de Fusões
& Aquisições envolvendo empresas
com países de origem diferentes:
Tabela
4 – Fluxos mundiais de IED x F&A internacionais
em US$ bi
Mundo Periferia (Incl. Brasil) Brasil
F&A IED F&A IED F&A IED
1994 127,1 256 15 104,9 0,367 2,6
1995 186,6 331,9 16,5 111,9 1,8 5,5
1996 227 386,1 35,7 152,7 6,5 10,8
1997 304,8 478 67 191 12 19
1998 531,6 694,5 82,7 187,6 29,4 28,9
1999 766 1.088,3 74 225,1 9,4 28,6
2000 1.143,8 1.492 70,6 237,9 23 32,8
2001 594 735,1 85,8 204,8 7 22,5
Fonte: UNTCAD, WIR 2002
A
tabela 4 é de extrema importância
para entendermos a principal dinâmica dos
fluxos de IED e da predominância de processos
de fusões e aquisições ao
longo da década de 90. Ainda observamos
uma queda acentuada nos fluxos totais em 2001,
ficando, porém, acima da média dos
anos 90. Mas observa-se que o fluxo voltado a
aquisições em países periféricos
não parou de crescer, mesmo considerando
a valorização do dólar em
relação às moedas locais
dos países envolvidos.
Esse
debate dialoga com a literatura em torno de conceitos
sobre “financeirização”,
como os de ARRIGHI (1996) e CHESNAIS (1996 e 1998).
Nessa literatura, o ponto de partida é
a dominação da lógica do
capital fictício. Arrighi imagina fases
no capitalismo em que predomina a esfera financeira
e fases em que predomina a esfera produtiva. No
caso, o que vem chamando de globalização
coincide com uma fase de auge da lógica
financeira e, portanto, transferência de
riqueza da esfera produtiva para a esfera financeira.
O autor afirmou ver as multinacionais como expressões
da fase decadente do capital produtivo. Chesnais
acrescenta que não existem lógicas
diferentes ou até antagônicas entre
capital financeiro e capital produtivo. Haveria
um só capital, que, no caso, hoje em dia
segue uma lógica financeira: inflação
do valor dos ativos (formando o capital fictício,
que pode ser destruído tão facilmente
quanto se formou pela maciça deflação
de ativos) e transferência de riqueza para
a esfera financeira (particularmente por meio
da dívida pública e do mecanismo
da securitização). Mesmo assim,
Guttmann utiliza a idéia de duas dinâmicas
para apresentar o conceito do capital fictício:
movimentações especulativas sem
contrapartida em capital produtivo. Nas palavras
do próprio autor:
A irresistível atração da
especulação monetária e dos
outros veículos de capital fictício
deriva do fato de esses instrumentos poderem prosperar
relativamente isolados do resto da economia.
Existem,
de fato, basicamente dois modelos de análise.
O primeiro olha para a globalização
como um ciclo único, que integra o comércio
internacional, os IED e os fluxos financeiros.
E um outro modelo que analisa a globalização
de cada um dos três movimentos separadamente.
Isso tem um significado importante, porque, neste
segundo caso, mais próximo da nossa abordagem,
enfatizamos a existência de dinâmicas
diferentes e, portanto, possibilidades de interesses
e articulações políticas
distintas.
Ora,
o termo capital financeiro está se referindo
hoje a dois fenômenos extremamente interligados:
Ø o movimento de valorização
(relativamente) autônoma da esfera produtiva;
e
Ø o aumento das operações
puramente financeiras dos grupos industriais.
Para
chegar à conclusão de Arrighi de
que as transnacionais representam a decadência
do capitalismo na sua atual fase, é preciso
afirmar não só que as transnacionais
se beneficiam das oportunidades abertas pelas
múltiplas operações financeiras
que estão à disposição,
mas que essas operações impõem
uma nova dinâmica ao conjunto do seu processo
de valorização e, mais do que isso,
que há de fato um processo de substituição.
Nesse caso, haveria uma diminuição
relativa das despesas com capital fixo e pesquisa
em benefício de despesas com formas variadas
de ativos financeiros. As atividades financeiras
das transnacionais representariam, em vez de suporte,
um papel parasitário.
1.4.1
Gestão centralizada do caixa das transnacionais
Não
há dúvida de que as transnacionais
sempre foram players na globalização
financeira. Mais do que isso. A primeira fase
da globalização financeira está
ligada à formação de eurodivisas
na City de Londres, onde se começaram a
debitar e creditar contas em dólares fora
do controle das autoridades monetárias.
É verdade que o pontapé inicial
foi dado pelos países comunistas para garantir
pagamento de importações, guardando
suas divisas fora dos EUA por medo de confisco.
Mas eram números pequenos. O impulso para
a formação de atividades bancárias
offshore (fora do controle do sistema de bancos
centrais) foi dado principalmente pela migração
de capital das multinacionais dos EUA para a Europa
para facilitar o financiamento da sua expansão
global. Já no início dos anos 70
estavam acumulados US$ 160 bi nos Euromercados.
Porém, até meados dos anos 80, as
atividades de caixa das transnacionais referiam-se
à gestão de riscos financeiros (câmbio
e taxa de juros) e serviam para gerir mecanismos
de circulação interna com o objetivo
de racionalizar a tributação (transfer
pricing) e driblar outras formas de regulamentação,
como restrições a remessas de lucro
e dividendos ou pagamentos transnacionais de royalties.
Em seguida, as transnacionais começaram
gradualmente a reforçar seus departamentos
financeiros, centralizando cada vez mais seu caixa
para fazer frente à instabilidade financeira
e à extrema volatilidade, principalmente
dos mercados de câmbio. E hoje, na estrutura
das transnacionais, a gestão financeira
se tornou um centro de lucro com obrigação
de resultados, desenvolvendo para isso comportamentos
especulativos típicos dos demais atores
da globalização financeira. Estudo
encomendado e publicado pelo FMI mostra o papel
ativo dos departamentos financeiros das transnacionais
na onda de ataques especulativos contra moedas
européias em 1992, seguindo de perto os
fundos especulativos especializados (os Quantum
Group of Funds da vida) e ao lado das operações
dos investidores institucionais.
De
acordo com dados do BIS, as transnacionais realizam
cerca de 50% das operações dos contratos
de câmbio (swaps). De qualquer forma, as
intervenções dessas empresas nos
mercados de câmbio são várias
vezes superiores às necessidades de pagamento
de suas transações comerciais. Ou
seja, as transnacionais não só têm
a capacidade de se adaptar às flutuações
da esfera financeira como também atuam
nos seus moldes.
Não
se trata, do nosso ponto de vista, de afirmar
a existência de um mercado de compra e venda
de empresas da mesma forma como as administradoras
de carteiras de investimento compram e vendem
ações e títulos, seguindo,
portanto, uma lógica financeira. Pelo menos
nos setores industriais, como é o caso
do complexo químico, há semanalmente
anúncios de compra e venda, mas estes sempre
seguem uma lógica de estratégia
produtiva no sentido amplo: fortalecer
linhas de produtos, acrescentar novos produtos,
fortalecer presença em determinados mercados
e capacidade de pesquisa & desenvolvimento
(P&D), destruir capacidade produtiva (racionalização
da oferta), fortalecer o sistema de distribuição,
garantir massa crítica para grandes investimentos,
integração vertical, proteção
contra aquisição ou até simplesmente
seguir a tendência do mercado.
As
operações financeiras das transnacionais
se tornaram parte central das suas estratégias
globais e determinam, da mesma forma que a sua
capacidade tecnológica, seu poder de controle
dos mercados, o que aumenta sua superioridade
em relação aos demais atores na
esfera produtiva. A gestão centralizada
do caixa tornou-se uma importante vantagem competitiva
das empresas transnacionais e permite formar uma
visão global das atividades financeiras,
organizar fluxos financeiros internos, ter capacidade
de deslocar fundos e lucros entre filiais, fixar
preços de transferência, tomar empréstimos
internos, antecipar ou adiar pagamentos interfiliais,
rever formas de repartição dos resultados,
além de aproveitar o máximo possível
oportunidades de aplicações financeiras
que aparecem nos diversos cantos do mundo.
1.5
Poder das transnacionais
Por
definição, as transnacionais possuem
vantagens de monopólio vis-à-vis
seus potenciais rivais locais, caso contrário
não haveria fluxos de IED. O aumento dos
IED reflete a tendência à crescente
oligopolização internacional e vem
acompanhado de mudanças qualitativas,
que alteram também o ambiente dos demais
atores, em vários níveis:
· Concentração por meio de
fusões e aquisições.
· Busca de participações
relevantes nos três centros geográficos
industriais avançados.
· Combinação de dispersão
espacial das funções produtivas
e concentração das decisões
estratégicas e das funções
intangíveis (ex: P&D) no centro.
· Relação entre as atividades
econômicas da mesma empresa nos diferentes
países (maior integração
internacional e/ou regional) e comércio
internacional no interior da mesma empresa multinacional.
· Pressão sobre o marco regulatório
predominante dos IED em níveis nacional
e internacional.
· Alteração da dinâmica
da estrutura econômica nacional e enfraquecimento
da capacidade de intervenção do
Estado nacional.
· Nova relação com fornecedores
(global sourcing), inclusive terceirização
das funções acessórias.
· Aumento dos investimentos em pesquisa
& desenvolvimento, junto a uma maior apropriação
da tecnologia.
· Novos tipos de alianças, que não
envolvem controle patrimonial direto (‘redes’,
alianças estratégicas que se baseiam
principalmente em compartilhar ativos imateriais,
como licenças de tecnologia, franchising,
leasing).
Os protagonistas desse sistema de produção
globalizada são um núcleo de poucas
centenas de multinacionais que dominam os setores-chaves
das economias e concentram poder de controle do
mercado e da tecnologia. GONÇALVEZ afirma
que “...a presença de um bloco de
capital estrangeiro gera uma força econômica
e política em defesa dos interesses específicos
desse capital”. A base desse poder está
na grande capacidade produtiva; o controle sobre
os canais de exportação; a possibilidade
de mobilizar recursos, deslocando-os no interior
da própria multinacional, ou seja, uma
grande capacidade de reagir a preços relativos
e ter uma avaliação global; o grau
de integração que lhe permite usar
mecanismos de preços de transferência
e, mais no geral, uma capacidade de esquivar-se
das políticas econômicas nacionais;
o controle das informações estratégicas
sobre mercados internacionais e desenvolvimento
tecnológico de processo e produtos; a marca,
imagem e publicidade; a capacidade de articular
o governo de seu país de origem ou outros
em que tenham uma presença significativa
em prol de seus interesses. O avanço da
tecnologia de informática permite a combinação
de descentralização produtiva e
centralização da tesouraria. Com
isso, um único sistema, o chamado cash
management, gerencia o caixa de várias
unidades, o que agiliza a tomada de decisões
e barateia os custos financeiros e possibilita
interligar os fluxos operacionais (pagamentos
e recebimentos) com os fluxos financeiros (empréstimos
e aplicações) em nível global.
Parte da política dessas transnacionais
é garantir sua presença em todos
os mercados e indústrias relevantes, no
intuito de aumentar e consolidar o seu controle
do mercado global. A capacidade concorrencial
depende da presença nos principais espaços
geográficos. Com isso muda também
a organização interna. Na concepção
de BAUMANN, o processo produtivo num “sistema
globalizado” adquire uma nova racionalidade:
...diversas unidades nacionais passam a ser componentes
da mesma estrutura integrada de geração
de valor, ao mesmo tempo que aumenta a fluidez
de transmissão de normas, valores e rotinas
operativas, condição necessária
para a crescente homogeneização
produtiva.
O complexo químico é um exemplo
dessa tendência. Todos os principais players
transferiram mais poder para as divisões
globais por produto, diminuindo o das nacionais.
As estratégias de negócios por produto
às vezes são regionalizadas. No
caso da BASF, por exemplo, qualquer decisão
estratégica para o Brasil tem de ser tomada
entre os responsáveis pela região
da América Latina e os responsáveis
globais do negócio envolvido. No setor
químico, dificilmente novas plantas surgem
apenas para abastecer o mercado nacional. Decisões
sobre investimentos envolvem uma competição
entre filiais de diversas localidades. Exemplo
de estratégia regional é a compra
dos ativos petroquímicos no pólo
argentino de Bahía Blanca pela Dow, que
visava claramente o mercado brasileiro. O mesmo
vale, aliás, para os pesados investimentos
na petroquímica básica previstos
pela Mobil na Venezuela, em associação
com a estatal Pequiven. Isso não significa
que o COI local não tenha peso nenhum,
mas a sua margem de decisão ficou cada
vez mais subordinada às estratégias
globais, e com isso considerações
nacionais perderam peso.
Fica
evidente que as transnacionais têm de fato
uma vantagem muito grande em relação
às empresas oriundas e atuantes somente
no espaço local. É a partir da formação
e reformulação do espaço
produtivo global que se define o espaço
que cabe às indústrias periféricas.
O espaço local, que condiciona a existência
de empresas sediadas em um único país,
está sendo recriado e reorganizado a partir
das estratégias dos principais global players.
Já as empresas nacionais, com pouca possibilidade
de responder ativamente, teriam duas saídas:
integrar-se a um dos global players ou retirar-se
do mercado. Igualmente importante é relacionar
a estratégia de concentração
aos processos de focalização e redirecionamento
estratégico que fazem que a concentração
se dê através de um processo complexo
de compra e venda. Isso é particularmente
visível no setor químico, onde os
global players estão constantemente comprando,
mas também vendendo ativos em função
de escolhas estratégicas. Por exemplo,
a venda de ativos na petroquímica básica
e a compra de ativos no setor de agrotóxicos.
Ou a separação de algumas divisões
para, logo em seguida, criar uma fusão
para ocupar um novo espaço, como fizeram
a Rhone-Poulenc e a Hoechst ao criar a Aventis,
em um novo setor que vem sendo chamado de ciências
da vida. A relevância desse debate está
no fato de que isso pode deixar parte da cadeia
produtiva nas mãos de empresas nacionais,
em uma reorganização da divisão
internacional de trabalho ao longo de uma cadeia
produtiva. No caso, para a empresa nacional de
um país emergente, trata-se de um “confinamento”,
e não de uma “escolha” estratégica.
Esse confinamento está evidentemente ligado
a uma reestruturação compulsória
e determina a estratégia tecnológica,
como também a necessidade de capital de
investimento. A venda a uma corporação
estrangeira é a alternativa para empresas
locais que não detêm capital e capacidade
tecnológica suficientes para investimento
em modernização.
A
concorrência tecnológica, como a
financeira, segue a lógica de crescente
assimetria. A capacidade de empresas (e países)
se adaptarem e promoverem avanços tecnológicos
depende da posição atingida. Ao
mesmo tempo, o cenário mundial obriga todas
as empresas, em menor ou maior grau, a trabalhar
sob o benchmarking mundial no que diz respeito
a patamares de eficiência internacional.
1.6
O caso Brasil
A
tabela 4 mostra o extraordinário crescimento
dos IED no Brasil como parte de um fenômeno
mais geral. Houve uma defasagem no tempo com relação
ao ciclo internacional, que passou por um salto
a partir de meados dos anos 80, enquanto no Brasil
isso se verificou somente no início dos
anos 90. Particularmente logo após o Plano
Real, os investimentos diretos no Brasil explodiram.
Em sua grande maioria tratava-se efetivamente
de investimentos de empresas já instaladas
no Brasil. Há de se ressaltar que os governos
brasileiros, a partir de 1990, em sintonia com
o Consenso de Washington, iniciaram uma série
de desregulamentações e liberalizações
dos investimentos externos que devem ter estimulado
ainda mais a explosão desses fluxos. Em
primeiro lugar, podemos mencionar a própria
abertura comercial, que permitiu a maior integração
das subsidiárias à estrutura das
transnacionais, além da privatização,
que permitiu a entrada destas últimas em
setores até então nacionais. Além
disso, houve mudanças na legislação
visando o fim de restrições à
remessa de lucro, o fim da proibição
de pagamento de royalties entre matriz e filial,
a revisão constitucional de 1995, quebrando
o monopólio estatal de petróleo,
telecomunicações, gás e cabotagem,
e a liberalização de financiamentos
do BNDES para as multinacionais. E ainda o Brasil
assinou vários acordos bilaterais de proteção
aos IED com os governos dos países-sede
das multinacionais com investimentos no Brasil,
além da adesão a vários acordos
multilaterais no âmbito da OMC, como o de
propriedade intelectual, todos voltados a limitar
de forma estrutural o poder potencial de intervenção
do governo nacional para condicionar e regulamentar
a atuação das transnacionais no
seu território.
O
aumento dos investimentos diretos no Brasil dirigiu-se
a vários segmentos, com dinâmicas
diferentes:
Ø setores nos quais já havia grande
presença de capital internacional (por
exemplo, montadoras);
Ø setores até então com forte
presença de empresas privadas nacionais,
por meio de compras (alimentação,
autopeças);
Ø setores dominados por empresas nacionais
(bancos, turismo, varejo); e
Ø setores dominados por capital nacional
estatal (telecomunicações, energia,
petroquímica básica).
Pesquisa coordenada pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), a pedido do Ministério
de Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior, publicada no final de 2002, calcula
o avanço do capital externo nas empresas.
A partir de um universo de 300 empresas, cada
uma com receita anual superior a US$ 35 milhões,
a pesquisa mostra que o capital externo aumentou
sua participação nas empresas instaladas
no país de 14,8%, em 1991, para 26,4%,
em 1996, e 36,4%, em 1999. Nas indústrias
difusoras de tecnologia, como química fina,
aeronáutica e eletroeletrônica, a
participação estrangeira pulou de
60,3% para 86,9%, enquanto na indústria
básica, petroquímica, siderurgia,
papel e celulose, esta foi de 21,2% para 33,1.
A pesquisa identifica cinco motivos para explicar
essa onda de desnacionalização no
Brasil:
1) os ativos das empresas eram considerados baratos
quando comparados com os de outros países;
2) o mercado brasileiro parecia mais atrativo;
3) as empresas nacionais não tinham condições
de bancar investimentos para ganhar competitividade;
4) as condições das multinacionais
eram favoráveis; e
5) o governo avançou nas privatizações.
Como
pode ser visto na tabela 5, esse movimento não
conseguiu alavancar um crescimento na formação
bruta de capital fixo (FBCF) ao longo desses anos.
Tabela
5 – Evolução da FBCF como
% do PIB
86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 2000
18,8 17,9 17 16,7 15,5 15,2 14 14,4 15,3 16,7
16,5 18,1 17,7 16,2 15,7
Fonte: IBGE e IPEA
1.7
Conclusão
A
globalização produtiva é
resultado do processo de concentração
de capital e tecnologia. Estimula, por sua vez,
o avanço desse processo. Com isso, mudou
o ambiente para os demais atores, que se viram
obrigados a adaptar suas estratégias.
Argumentamos
que a década de 90 foi marcada por uma
onda generalizada de fusões e aquisições
internacionais, que envolve também o complexo
químico, como parte do processo de globalização.
Esse processo significa, no caso dos países
periféricos, uma perda das posições
de empresas de capital nacional. As crises financeiras
foram um fator agravante do processo ao acelerar
a concentração e atingiram particularmente,
de forma desproporcional, as empresas nacionais
nos países periféricos. Isso porque
trouxeram aumentos expressivos dos juros e secaram
as fontes para financiamento de longo prazo, o
que causa impacto ainda maior em setores de capital
intensivo.
Os
capítulos seguintes trazem uma análise
sobre como a petroquímica brasileira se
relaciona com esse fenômeno mais geral e
por que ela não foi atingida plenamente
por essa tendência à desnacionalização.
Notas:
*.
Primeiro capítulo da Tese de Doutoramento
apresentada à USP em novembro de 2003.
Ver resumo na coluna Resenhas & Sinopses.
Ver, por exemplo: FRANCO, op. cit.
2 Tanto dos setores industriais quanto de serviços.
3 Investimentos Externos Diretos (IED) é
a tradução em português do
Foreign Direct Investment (FDI). A palavra externo
se refere ao fato de que o investimento envolve
transferência de capital de um país
para outro. A palavra direto se refere ao fato
de esse investimento estar ligado a um controle
direto n gerenciamento da atividade na qual foi
efetuado. Isso em contraposição
a empréstimos internacionais, transferências
de ajuda financeira internacional e investimentos
portfólio, que envolvem compra de ações
e de títulos sem que o investidor estrangeiro
exerça controle direto sobre o gerenciamento.
Numa visão mais simples, o IED estaria,
de uma forma ou outra, ligado a atividades produtivas,
em contraposição aos investimentos
de caráter puramente financeiro e/ou especulativo.
Na prática existem cada vez mais casos
que não se encaixam nessa divisão.
O critério internacionalmente aceito é
o que considera as participações
acionárias votantes acima de 10% como IED,
como indicador da existência de uma influência
efetiva no gerenciamento e de uma relação
mais duradoura. (OECD, FMI).
4 UNCTAD, World Investment Report 1999.
6 Idem, 1997.
6.Idem, 1997, e WTO, 1996.
7 Idem, 1997, fig. 1.6.
8 NUNNENKAMP, Peter. Foreign direct investment
in Latin America in the era of globalizes production.
Transnational Corporations, UN, v.6, n°1,
p. 51-81, april 1997.
9 GONÇALVES, Reinaldo. Ô abre-alas:
a nova inserção do Brasil na economia
mundial. Rio de Janeiro:
Dumará, 1994, p. 62.
10 HIRST, P.; THOMPSON, G. Globalization in question.
Cambridge: Polity Press, 1996, p. 98. (tradução
nossa).
11 RUIGROK, W.; TULDER, R. The logic of international
restructuring. London/New York: Routledge,
1995, p. 168/169.
12 DUNNING, John H. The global economy, domestic
governance, strategies and transnational corporations:
interactions and policy implications. Transnational
Corporations. United Nations, v. 1, nº 3,
1992, p. 7-45. (tradução nossa).
13 NUNNENKAMP, op. cit., p. 54.
14 SOROS, George. A crise do capitalismo: as ameaças
aos valores democráticos; as soluções
para o capitalismo global. 2a ed. Rio de Janeiro:
Editora Campus, 1999, p. 185.
15 UNCTAD, World Investment Report, p.14.
16 Financial Times, 30/10/2000.
17 Suharto chegou ao poder em 1965, com o golpe
militar provavelmente mais sangrento da história
moderna, e foi para os investidores estrangeiros
um símbolo de estabilidade e garantias
políticas. Estima-se o número de
vítimas, suspeitas de apoiar os comunistas,
em 300.000.
18 Da mesma forma que o valor total dos fluxos
de IED não corresponde na mesma proporção
a um aumento dos investimentos produtivos (porque
grande parte se dirige exatamente à compra
de capacidade instalada), nem todos os valores
envolvendo F&A internacionais são oriundos
dos IED. Por exemplo: uma empresa A pode usar
dinheiro captado nos mercados nacionais da empresa
B para comprá-la. No caso do Brasil, ficou
conhecida a utilização do dinheiro
do BNDES para financiar compra de empresas (estatais)
no país. Isso explica os dados de 1998
apresentados para o Brasil.
19 In: CHESNAIS, François (coord.) A mundialização
financeira-gênese, custos e riscos. São
Paulo: Xamã Editora, 1998, p. 83.
20 De qualquer forma, bem diferente do que Lenin
e Hilferding analisavam na época e denominavam
Finanzkapital, um sistema em que os diferentes
interesses coincidiam: o capital financeiro e
o capital produtivo teriam se unido numa lógica
só. O termo capital financeiro para Lenin
não é aquele que se diferencia do
capital produtivo, mas o resultado da fusão
entre o capital bancário e produtivo. Ver:
Lenin, V.I. Imperialism: the highest stage of
capitalism. In: WRIGHT, H. Analysis of Late Nineteenth-Century
Expansion. Massachusetts: Lexington, 1976.
21 A reflexão que segue se baseia no artigo
de SERFATI, Claude. O papel ativo dos grupos predominantemente
industriais na financeirização da
economia. In: CHESNAIS, op. cit.
22 De acordo com dados de CHESNAIS (A Mundialização
do Capital. São Paulo: Xamã Editora,
1996, p.
253), totalizavam em 1952 US$ 2 bi e em 1960 US$
4,5 bi.
23 CHESNAIS, op. cit.
24 GOLDSTEIN, M. International capital markets.
Washington: IMF, 1993, p. 22.
25 STREETEN, Paul. The role of direct private
foreign investment in developing countries. ADMP
Series,
Sophie University, Tokyo, n°4, 1993.
26 A UNCTAD calculou que um terço do comércio
mundial é “intrafirma”, ou
seja, comércio entre
subsidiárias ou entre subsidiária
e matriz da mesma multinacional, o que aumenta
todo o problema dos
preços de transferência (UNCTAD,
WIR, 1996).
27 GONÇALVES, Reinaldo. Globalização
e desnacionalização. São
Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 45.
28 BAUMANN, Renato. (org.) O Brasil e a economia
global. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1996,
p. 44. Na mesma linha vão KORTEN (1997)
e OHMAE (1985, 1990).
29 O conceito da diferenciação entre
“escolha’estratégica”
e “confinamento” é emprestado
do Prof. João
Furtado, da UNESP.
Giorgio
Romano Schutte
Doutor em ciências pela USP. Mestre e bacharel
em Relações Internacionais pela
Univ. de Amsterdam/Holanda. É professor
no curso de relações internacionais
do Unicentro Belas Artes. |