Belas Artes recebe o Prêmio Darcy Ribeiro 2016

Blog da Reitoria nº 275, 28 de novembro de 2016

Por prof. Paulo Cardim

Ensinar exige rigorosidade metódica” (Paulo Freire)

Avaliar também” (Paulo Cardim)

A nobre missão de educar já não é  mais a mesma de quando foi fundada a Academia de Belas Artes de São Paulo, em 1925. O objetivo, sim, permanece aquele de formar cidadãos e profissionais que entendam seu propósito no mundo e, com isso, consigam a realização pessoal. Mas o caminho para atingir este objetivo… ah, este mudou! Hoje, 91 anos depois da fundação e com o nome de Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, vivemos um mundo que era apenas “ficção científica” há 9 décadas. O avanço tecnológico ocasionou mudanças comportamentais, estabeleceu diferenças profundas entre gerações,  criou inúmeras possibilidades e desenhou um cenário dinâmico que exige da nossa instituição um ritmo acelerado de pequenas revoluções que fazemos dentro das nossas salas de aulas, laboratórios, oficinas, bibliotecas e espaços de convivência. Essa nossa realidade não depende de uma conexão com o além-muro – ela depende da desconstrução do muro para construção de pontes que nos conectam com o bairro, a cidade, o estado, o país e o mundo. E, dentro desse contexto, o Prêmio Darcy Ribeiro de Educação 2016 chega como a comprovação de estarmos no caminho certo.

Criado para “contemplar pessoas ou entidades cujos trabalhos ou ações mereceram destaque especial na defesa e na promoção da educação brasileira”, o prêmio é concedido pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Em 2016, foram 32 indicações. No dia 22 de novembro, nosso querido Pró-Reitor, Prof. Sidney Ferreira Leite, participou da cerimônia de entrega do prêmio e, em seu discurso, conseguiu explicitar a essência do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo – ou seja, a criatividade que nos move, a inquietação que nos faz avançar e os motivos pelos quais continuamos acreditando, com absoluta convicção, que a educação deve ser generosa para poder transformar nosso mundo.

Abaixo, compartilhamos o discurso do Prof. Sidney. Leitura recomendadíssima para todos!

Em nome do magnífico Reitor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Paulo Antonio Gomes Cardim, saúdo e agradeço a todos os presentes e aproveito a oportunidade para fazer uma saudação e agradecimento especial ao Presidente da Câmara do Deputados, o nobre deputado Rodrigo Maia, ao Presidente da Comissão de Educação, o deputado Arnaldo Faria de Sá e aos ilustres deputados: Lelo Coimbra, Lobbe Neto e Onyx Lorenzoni, pela outorga do Prêmio Darcy Ribeiro Educação 2016 ao nosso Centro Universitário.

O Jeito Belas Artes e Darcy Ribeiro de Ser

Os sentimentos de regozijo são, neste momento, duplos e intensos. Em primeiro lugar, a grande honra de representar o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, em um momento tão especial. Em segundo lugar, o fato do prêmio ser o Darcy Ribeiro Educação 2016. De fato, Belas Artes e Darcy Ribeiro, têm muito em comum, notoriamente, a crença inabalável e indelével na educação de qualidade.

A trajetória de Darcy Ribeiro, ao longo de sua vida, foi a luta por um Brasil mais justo e melhor para todos os brasileiros. Nessa senda, escolheu a educação como a estratégia e a tática para promover uma verdadeira e fecunda transformação de uma sociedade marcada historicamente por uma pesada herança, cuja origem pode ser detectada na sua formação de natureza colonial e predatória.

A rigor, o grande educador sempre postulou que as mudanças profundas e reais nasceram, ao longo da História, em aguda sintonia com o espírito de autonomia intelectual e de seus corolários, isto é, as concepções e as atitudes racionais que, diante dos obstáculos, desafios e problemas, proporcionam a emergência de soluções criativas e inovadoras, inventando e reinventando a própria História.

A educação, como acreditava Darcy Ribeiro, transforma o homem na sua essência, dando-lhe armas e ferramentas mentais para construir um mundo melhor para ele próprio e para todos à sua volta.

Quando afirmou, certa vez, que “só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”,  o educador fez dessa sentença, não apenas um exercício de retórica, mas a síntese de suas lutas por uma educação de qualidade e por Brasil mais equânime. Essa foi a sua ação na vida e sobre a vida, como antropólogo, pesquisador, escritor, secretário de educação, vice-governador, chefe da casa civil e, notadamente, como professor.

“Educar é preciso!”, repetia em todas as suas falas públicas. O projeto de implantar em todo o país o modelo da escola em tempo integral, por exemplo, que dividia com outro grande educador, Anísio Teixeira, continua a ser o que de mais avançado se pensou em nosso país, no campo social e educacional, mas que, infelizmente, continua a ser apenas um sonho.

O pensador e fazedor (como gostava de ser identificado) tinha convicção que a arte e a cultura integram a parte mais nobre da formação dos seres humanos, enriquecendo e nutrindo todo e qualquer campo do saber e do fazer. Em outras palavras, dando sentido e sabor às habilidades e competências que aprendemos e adquirimos na escola, na universidade e na vida.

Darcy Ribeiro, acompanhado pelo grande intérprete da contemporaneidade, Zygmunt Bauman, entendia que a educação deveria formar seres humanos que funcionassem como mísseis inteligentes, isto é, pessoas capazes de construir as suas próprias visões de mundo, capazes de ter ideias, capazes de mudar de ideia, revogar e revigorar decisões, pois a vida, como nos ensinou o filósofo pré-socrático, Heráclito, é mudança, transitoriedade e inovação. Viver é fluir e educar é apresentar caminhos, mas acreditar que cabe os nossos alunos escolher as suas próprias trilhas. Afinal, nunca nos banhamos duas vezes na água de um rio.

Como defendeu Darcy Ribeiro, precisamos preparar as nossas crianças e os nossos jovens, em outras palavras, o nosso futuro, para o complexo mundo que inexoravelmente terão que enfrentar. Eles precisam, sem sombra de dúvidas, de conhecimento prático, concreto, imediato e imediatamente aplicável. Todavia, para ser prático, o ensino de qualidade precisa provocar e propagar a abertura mental, a criatividade, a inovação, o lúdico e o onírico.

Em diversos aspectos há áreas de profunda interseção entre os ideais e as realizações do professor Darcy Ribeiro e o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Nessa ordem de reflexões, o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo é uma instituição de ensino superior, com 91 anos de existência e que construiu, ao longo de sua trajetória, o seu Jeito Belas Artes de ensinar e aprender, isto é, a nossa marca, a nossa forma de inserção na modernidade, de experimentar e de intervir nos desafios que se apresentam.

Nascemos no contexto e em função do espírito da Semana de Arte Moderna de 1922. O aroma de mudança e de liberdade que fluía nos corações e mentes dos fundadores da Belas Artes, em 1925, é ainda o éter que permanece fluindo em nossos professores, alunos e gestores. Tal aroma pode ser detectado nas palavras do nosso fundador, Pedro Augusto Gomes Cardim, proferidas quando da nossa criação: ” As Belas Artes deve ser um lugar onde as pessoas desenvolverão as suas habilidades naturais para tornarem-se criadoras. “

De fato, nós preservamos a nossa essência de escola de artes; todavia, promovemos o diálogo profícuo e intenso entre os avanços tecnológicos, expressos e sistematizados nos novos paradigmas digitais do ciberespaço e nas demandas da modernidade.

A nossa essência do desenho, da forma, da estética, da plástica e do traço continua presente em nossas aulas, porém, associada às renovadoras e tonificantes vivências, propiciadas pelas plataformas de vanguarda, em nossos novos laboratórios de impressão 3D (FabLab) e de Experiências Imersivas.

Em outras palavras, o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo acredita e pratica a interação entre os universos analógico e o digital. Trata-se de uma Instituição de Ensino Superior que investe intensamente na ampliação dos horizontes intelectuais e na formação de alunos, conscientes das complexidades e diversidades coetâneas e, consequentemente, discentes que valorizam a ética e são comprometidos com a qualidade de ensino. Nessa perspectiva levamos a cabo e propagamos:

I.    A indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão.

II. A articulação dialética e orgânica entre as várias áreas do conhecimento.

III. A integração curricular e a transdisciplinalidade.

IV. A inserção de disciplinas optativas e de disciplinas que integram o núcleo comum dos nossos cursos (Estética e Felicidade, Empreendedorismo e Neurociência).

V. A ênfase e foco na economia criativa, pois acreditamos e praticamos a sustentabilidade.

As nossas regras de ouro apontam e orientam para os seguintes horizontes: a convicção, o desejo e o esforço de tornar o mundo melhor, mais humano, justo, livre e cooperativo. Nosso objetivo central é melhorar a vida das pessoas e, dessa forma, contribuir para fazer dos nossos alunos seres humanos mais altruístas e felizes. Alunos capazes de contar a suas próprias histórias, com o começo, o meio e, o olhar fixado no futuro, no empreendedorismo, na mudança e na inovação. Em outras palavras: não esquecemos do passado, vivemos intensamente o presente e nunca deixamos de pensar no amanhã.

O Jeito Belas Artes de ensinar e aprender espalha ondas virtuosas de valores que, entre outros resultados, investe na formação de seres humanos, ao mesmo tempo, flexíveis e racionais; capazes de possuir uma visão de mundo concomitantemente densa, multidimensional, polissêmica, complexa e, como sustentou, em diversas ocasiões, o professor Darcy Ribeiro, inquieta.


Nessa senda, respeitamos a diversidade, porque somos essencialmente diversos, buscamos constantemente a alteridade e somos, a um só tempo, arquitetos e operários que constroem pontes, algumas vezes sobre “águas revoltas”, de cooperação e respeito mútuo.

A orientação mais fulcral que o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo dá aos seus alunos é: siga a sua paixão, pois, como Darcy Ribeiro, defendemos que a realidade deve ser construída com base em nossos sonhos. Nós não vivemos a realidade, mas a imagem que construímos da realidade, e essa, na Belas Artes, é onírica, e, ao mesmo tempo, responsável e múltipla.

Como podemos detectar, as conexões entre os ideais e os valores do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e do grande mestre Darcy Ribeiro não são similitudes que emergiram tão somente do fato de ambos terem nascido no mesmo contexto histórico, isto é, o momento do éter renovador e inspirador da Semana de Arte Moderna. Mas, a crença e a ação comum em torno da educação, e desta, como a base sólida para a formação de seres humanos capacitados a construir, a participar e a desfrutar das conquistas da contemporaneidade.

Em suma, tenho a convicção plena que Darcy Ribeiro ficaria extremamente feliz com a outorga ao nosso Centro Universitário de um prêmio que carrega o seu nome, pois ele sempre defendeu, de certa forma, que a educação e a vida são amigas das belas artes e porque o seu jeito de ser, pensar e fazer são semelhantes aos nossos.

Muito obrigado e um forte abraço!


“É mais fácil governar um povo culto, cioso de suas prerrogativas e direitos, que tem nítida a compreensão de seus deveres, que um povo ignaro, indócil, sem iniciativa e inimigo do progresso”.

“O papel da instrução é preparar e formar homens capazes e úteis à sociedade; o papel do governo é fornecer meios fáceis de se adquirir a instrução, disseminando escolas e patrocinando iniciativas boas confiadas à competência e ao amor por tão nobilitante tarefa”.

Prof. Carlos Alberto Gomes Cardim

Diretor da Escola Normal “Caetano de Campos”

Educador e Inspetor de Alunos, 1909

Irmão do fundador do

Centro Universitário Belas Artes de São Paulo

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