Carnaval: liberdade ou libertinagem?

Blog da Reitoria nº 382, 11 de março de 2019

Por Prof. Paulo Cardim

“Ensinar exige rigorosidade metódica” (Paulo Freire)

“Avaliar também” (Paulo Cardim)

O carnaval tem história como significado de liberdade. Segundo os historiadores, tem sua origem no entrudo português, em período anterior a Quaresma. O entrudo foi introduzido no Brasil pelos colonos portugueses, no século 17. Era uma festa prosaica: os carnavalescos se divertiam com água, ovos e farinha, jogados uns nos outros.

Alguns pesquisadores vão muito além, há centenas de anos a.C. Era um culto agrário, destinado a afugentar os demônios que assombravam com uma colheita ruim. Passam pelas festas aos deuses egípcios, pela idade média até chegar em pleno século 20 com sua extravagante realização somente no Brasil. Em outros países é apenas uma festa pagã, que tem início sete domingos antes do domingo de Páscoa. Registra-se que a palavra carnaval vem do italiano carnelevale, que significa “tirar a carne”, em alusão à noite anterior a quarta-feira de cinzas, que assinala o início da Quaresma cristã, quando não se come carne.

Os costumes mudam, o mundo se transforma a cada dia. Aos poucos o nosso carnaval passou a receber a influencia dos carnavais da Itália, da França e de outros países europeus, com desfiles de máscaras. Quem não se lembra do Rei Momo, da colombina e do pierrô? “Um Pierrô apaixonado; Que vivia só cantando; Por causa de uma Colombina; Acabou chorando, acabou chorando…”. Do inocente lança perfumes às drogas ilícitas e devastadoras destes tempos. Do Cordão do Bola Preta para os blocos, escolas de samba. Os bailes de carnaval, “com pompa e circunstância”, chegaram ao auge no final do século 20. Quem não se lembra dos bailes de gala do Copacabana Palace Hotel, com desfile de fantasias caríssimas e a premiação dos campeões.

A liberdade de expressão passou a não respeitar a liberdade do outro, indo às raias da irresponsabilidade, nas escolas, nas universidades, na política. Acabou por desaguar nos carnavais. A liberdade que era símbolo dos carnavais de outrora, aos poucos, passou para a exploração da nudez feminina, avançou para cenas libertinas, caricatas e sórdidas, com estímulo ao turismo sexual. As escolas de samba, financiadas, em parte, com o dinheiro público por prefeituras, viraram um grande comércio. Algumas foram além dos limites e passaram irresponsavelmente para a devassidão, libertinagem, o oposto de liberdade. Das bizarras críticas à política e aos políticos aos tempos de cenas degradantes, sem uma causa aparente.  Fatos que estavam ocorrendo silenciosamente em escolas e universidades passaram a ser expostos publicamente, por escolas de samba e blocos de rua.

De uma festa pagã, com forte influência dos costumes cristãos, aos tempos de irreverência e desrespeito à religiosidade e à liberdade do outro caminham os nossos carnavais. “A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro”, frase atribuída ao filósofo inglês Herbert Spencer, está sendo violada no dia a dia das pessoas. O carnaval está somente refletindo a irresponsabilidade de grande parte de nossa sociedade. A mesma sociedade que coloca a educação em quarto ou quinto lugar em suas prioridades, invertendo uma escala de valores, respeitada nas sociedades mais avançadas do planeta, social e economicamente.

Por que não empregarmos a energia que dissipamos nos carnavais em nossas atividades, na escola, nas instituições de ensino superior (IES), no trabalho? Que o carnaval possa voltar, caso a sociedade na sua maioria também o faça, às suas origens de pureza, de exercício da liberdade pura e simples, sem os adereços indesejáveis da pornografia. Liberdade e não libertinagem.

“É mais fácil governar um povo culto, cioso de suas prerrogativas e direitos, que tem nítida a compreensão de seus deveres, que um povo ignaro, indócil, sem iniciativa e inimigo do progresso”.

“O papel da instrução é preparar e formar homens capazes e úteis à sociedade; o papel do governo é fornecer meios fáceis de se adquirir a instrução, disseminando escolas e patrocinando iniciativas boas confiadas à competência e ao amor de quem promove tão nobilitante tarefa”.

Prof. Carlos Alberto Gomes Cardim

Diretor da Escola Normal Caetano de Campos

Educador e Inspetor de Alunos, 1909

Irmão do fundador do

Centro Universitário Belas Artes de São Paulo

Pedro Augusto Gomes Cardim

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