Educação, relações sociais & alegria

Blog da Reitoria nº 502 de 16 de agosto de 2021

Por Prof. Paulo Cardim

O século 21, a Era de Aquário, a Era do Conhecimento, a Era Digital ou da Quarta Revolução Industrial é também a era de crises nas relações sociais, com reflexos em todas as áreas, incluindo a educação, em todos os níveis. O super desenvolvimento econômico mundial aprofunda as dissenções, forjada na desigualdade erguida e mantida há séculos.

Nações entram em guerra; grupos étnicos guerreiam entre si. Não há mais adversário, mas inimigo. Às vezes buscam a mesma solução, mas por caminhos diversos. E os caminhos das relações nesse ambiente não se cruzam. E se cruzam, guerreiam.

Esse relacionamento, que revela um conjunto de tensões, tem reflexos em todas as áreas sociais, incluindo a educacional. Não se faz da diversidade um momento para empatia.

Pessoas singulares, “fora da caixinha”, sofrem nessa atmosfera. Idem os tímidos, os portadores de necessidades sociais. O bullying é um ato de agressão e intimidação por não aceitação por um grupo, que se repete há séculos, em especial, no ambiente escolar. É o contrário da empatia. Somente os resilientes conseguem superar esses obstáculos.

O professor-educador procura trazer ao diálogo com os seus discípulos temas para reflexão, análise e construção de saberes. Como o convívio fraterno, saudável pode ser construído com familiares, colegas, professores, em particular, na comunidade acadêmica. Esse mestre consegue arquitetar um  ambiente saudável, onde não haja discussão nem debate, mas diálogos democráticos, sem militância. Conviver com os contrários, com os difíceis, com as diferenças e os diferentes. Discordar sem gostar menos. Os ganhos aparecem nas atividades em grupo. Nesse processo não há espaço para o “eugrupo”, a “euequipe”.

Volto ao meu livro de cabeceira ‒ EDUCAÇÃO ‒ Um tesouro a descobrir (São Paulo: Cortez; Brasília: MEC, 2006). Trata-se da publicação, na íntegra, do “Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI”, mais conhecido como “Relatório Delors”. Jacques Delors, intelectual e político francês, é o autor e organizador desse relatório.

Os quatro pilares da educação saem do bojo desse relatório para ganhar o mundo, abrindo portas para um novo processo educacional para o século 21. Já estamos entrando na terceira década deste século, mas ainda engatinhamos no desenvolvimento pleno desses pilares. Destaca-se entre os quatro pilares o “Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros”, classificado por Delors como “um dos maiores desafios da educação”. E ele mesmo pergunta: “Poderemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos, ou de os resolver de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento dos outros, das suas culturas, da espiritualidade?”. Ele mesmo apresenta várias saídas. Entre elas, “Os métodos de ensino não devem ir contra este reconhecimento do outro. Os professores que, por dogmatismo, matam a curiosidade ou o espírito crítico dos seus alunos, em vez de os desenvolver, podem ser mais prejudiciais do que úteis. Esquecendo que funcionam como modelos, com essa atitude arriscam-se a enfraquecer por toda a vida nos alunos a capacidade de abertura à alteridade e de enfrentar as inevitáveis tensões entre pessoas, grupos e nações. O confronto através do diálogo e da troca de argumentos é um dos instrumentos indispensáveis à educação do século XXI”.

Um notável educador brasileiro, Rubem Alves (1933/2014), aborda o tema deste Blog, em consonância com a educação para este século: “o mestre nasce da exuberância da felicidade. E, por isso mesmo, quando perguntados sobre a sua profissão, os professores deveriam ter coragem para dar uma absurda resposta: Sou um pastor da alegria [...]”.

Ser um pastor da alegria!

Que é um pastor: ‒ ele cuida; ‒ trata da ovelha; ‒ carrega-a no colo; ‒ levanta-a nos  braços para não se ferir nas andanças.

Mas o pastor não a quer pra sempre no seu abraço.

Tem que ter coragem e força e bastante humildade para olhá-la de longe e até se afligir se a ovelha ousada e curiosa parte em busca de seu caminho.

O pastor, então, em vez de retê-la, corta as amarras para vê-la crescer, olhar o céu, ser estrela, dona do próprio nariz, correndo na pradaria.

E como um sábio reconhece seu jeito de ser feliz: ver sua ovelha brilhar!

Aí, sim, ele é um PROFESSOR ‒ um pastor da alegria!

Mas, é claro, somente seus alunos poderão atestar a verdade de sua declaração.


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