Mens sana in corpore sano x a verdade dos fatos

Blog da Reitoria nº 449 de  20 de julho de 2020

Por Prof. Paulo Cardim

“Ensinar exige rigorosidade metódica” (Paulo Freire)

“Avaliar também” (Paulo Cardim)

Juvenal (Décimo Júnio Juvenal), poeta satírico romano, possivelmente, viveu entre o ano 60 do século I e 127 de século II. É mais conhecido por suas Sátiras, traduzidas livremente, usadas segundo o interesse de cada citante. As Sátiras de Juvenal são geralmente citadas de forma fragmentada, com frases curtas, para uso dos mais diversos argumentos. A mais conhecida é Mens sana in corpore sano, mencionada com frequência. Essa outra é quase desconhecida, por contrariar a primeira: “Os jogos de azar são indecentes para os medíocres, o adultério também“. Serve aos viciados em jogos de azar ou para o adultério. Funciona como uma espécie de absolvição. Em tradução livre, Mens sana in corpore sano foi extraída da Sátira a seguir transcrita:

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.

Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,

que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,

que suporte qualquer tipo de labores,

desconheça a ira, nada cobice e creia mais

nos labores selvagens de Hércules do que

nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.

Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;

Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.

O Estadão publicou, no último dia 9, no Blog de Fausto Macedo, artigo do professor Eduardo Abrunhosa, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, tradicional instituição de educação superior (IES) paulistana, sob o título:

Mens sana in corpore sano. Ele é historiador, mestre em Arquitetura e Urbanismo e doutorando em História pela Universidade de Salamanca.

O articulista, após breve histórico das origens do Ministério da Educação e a relação da quase totalidade de seus titulares, passou a tecer críticas ao governo atual em relação a esse ministério e, naturalmente, aos seus titulares, desde janeiro do corrente ano. Deve-se ressaltar que o atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, já ocupou os cargos de reitor e vice-reitor da mesma Universidade Mackenzie e é membro do Instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade mantenedora da mencionada IES. Em sua posse o professor Milton Ribeiro afirmou o “caráter laico do Estado e do ensino público”.

O professor Eduardo Abrunhosa tece exacerbada crítica ao governo, concernente aos ministérios da Educação e da Saúde, “com sua política de cultura subordinada a uma dança das cadeiras, o esporte desaparecido, aquelas áreas que integraram o propósito inicial e que levaram 90 anos para se estruturar hoje padecem”. Desses 90 anos citados pelo articulista, o MEC, nos últimos trinta anos, esteve nas mãos de mestres e doutores em educação, até 2019. A pior era da educação com políticas assistencialistas e ideologicamente comprometidas com o comunismo.

Fernando Haddad, ex-ministro da Educação de Lula e Dilma, em artigo publicado no periódico Estudos Avançados (12, 1998), afirmou que “o socialismo é o reino da justiça onde se exerce a liberdade” (sic), em uma reles imitação das onze “Teses sobre Feuerbach” de Karl Marx, em 1845.

Doutor em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), a tese de doutorado do professor Haddad tem o sugestivo título “De Marx a Habermas: o Materialismo Histórico e seu Paradigma Adequado”. Publicou, ainda, os livros “O Sistema Soviético” (São Paulo: Scritta, 1992), “Em defesa do socialismo” (Petrópolis, RJ: Vozes, 1998), “Desorganizando o consenso” (Petrópolis, RJ: Vozes, 1998) e  “Sindicatos, cooperativas e socialismo” (São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003). Com essa bagagem, Fernando Haddad, como ministro da Educação, aparelhou o MEC e as universidades federais, na era petista, que aviltou a administração democrática durante catorze anos. Uma era perdida para a democracia e o pluralismo de ideias.

E ainda houve um ministro da Educação e uma “presidenta”, na era petista, que informaram ser doutores pela Unicamp, em seus currículos, fato negado pela referida IES.

O professor Abrunhosa ainda coloca nos ombros do governo federal os desacertos da “pior crise sanitária dos últimos 100 anos, doentes pela supervalorização da política de governo sobre a de Estado, carentes de um projeto nacional de avanço efetivo”. Esquece que ao governo federal cabe suprir estados e municípios de recursos públicos e as estes, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), compete a legislação, normas e ações sobre a pandemia da Covid-19, incluindo a educação da livre iniciativa e a pública.

Ainda critica a livre iniciativa na área da educação, da qual faz parte a Universidade Mackenzie, ao afirmar que “a estrutura desse corpo chamado educação padece, com a sua mercantilização que transforma educador em insumo, educando em cliente e formação em bem de consumo”. Queira ou não o professor Abrunhosa, o educando é um cliente, consumidor do serviço educacional, que recorre ao Código de Defesa do Consumidor, quando se julga com seus direitos lesados, tanto nas instituições educacionais particulares quanto nas ditas públicas,  financiadas por todos os brasileiros, pessoas jurídicas ou físicas, nestas incluídos os miseráveis e pobres, que sustentam um ensino público de má qualidade, com as raríssimas exceções de praxe.

Por fim, o professor Eduardo Abrunhosa apela para a conhecidíssima frase do satírico poeta romano Juvenal ‒ Mens sana in corpore sano ‒ para afirmar que “a Lógica da fragmentação do conhecimento vai na contramão de um dos princípios básicos da Universidade moderna, a inter e transdisciplinaridade estão no DNA do ensino superior contemporâneo”. A fragmentação do conhecimento foi fortemente promovida nos últimos trinta anos, pelos diversos ministros das Educação, desde o governo Sarney até o fim do tragicômico governo Dilma Rousseff. A gestão do presidente Jair Bolsonaro ainda não conseguiu desbaratar os vespeiros e a caixa preta das universidades federais, o berço da fragmentação do conhecimento e da ausência de pluralismo de ideias.

Devemos sim, como sugere o romano Juvenal, pedir em oração que a mente seja sã num corpo são, mas que a alma seja corajosa, virtuosa e fiel à verdade dos fatos.

“É mais fácil governar um povo culto, cioso de suas prerrogativas e direitos, que tem nítida a compreensão de seus deveres, que um povo ignaro, indócil, sem iniciativa e inimigo do progresso”.

“O papel da instrução é preparar e formar homens capazes e úteis à sociedade; o papel do governo é fornecer meios fáceis de se adquirir a instrução, disseminando escolas e patrocinando iniciativas boas confiadas à competência e ao amor de quem promove   tão nobilitante tarefa”.

Prof. Carlos Alberto Gomes Cardim

Diretor da Escola Normal Caetano de Campos

Educador e Inspetor de Alunos, 1909

Irmão do fundador do

Centro Universitário Belas Artes de São Paulo

Pedro Augusto Gomes Cardim.

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