Síndrome da Gaiola & educação presencial

Blog da Reitoria nº 501, 9 de agosto de 2021

Por Prof. Paulo Cardim

Tenho um amigo que tem, em casa, uma gaiola com um casal de periquitos, mantidos em cativeiro há alguns anos. Há cerca de um ano, ele esqueceu a gaiola aberta. Pela manhã, ao fazer a higiene da gaiola, teve a surpresa de estar sem o casal de pássaros. Preocupado, saiu à procura deles pela casa. Encontrou-os tranquilos em um recanto da sala, numa “conversa” melancólica. Apesar de libertos, o cativeiro fez deles pássaros passivos, sem iniciativa, sem a capacidade de tentarem o voo da liberdade. O meu amigo descobriu a Síndrome da Gaiola.

A pandemia do coronavírus trouxe esse tema, agora aplicado às crianças, adolescentes e jovens. O distanciamento social prolongado, com os confinamentos decretados por prefeitos e governadores, ao abrigo de deliberação do Supremo Tribunal Federal (STF), provocou reflexos altamente negativos no processo educacional, em particular, na educação básica ‒ educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. A educação como bem essencial e intransferível sofre, agora, na volta às aulas presenciais, estas com pleno atendimento às normas sanitárias de governadores e prefeitos e as orientações do Ministério da Educação.

As instituições de educação superior (IES) mantidas pela livre iniciativa sofrem, neste 2º semestre de 2021, com o medo ou a recusa clara ou dissimulada de alguns pais, responsáveis e alunos para a volta às atividades educacionais presenciais. É visível a Síndrome da Gaiola nessas atitudes.

Guilherme Polanczyk, psiquiatra da infância e adolescência e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, explica, ao apontar a intensificação da ansiedade fruto da possibilidade de contaminação através do contato com o mundo externo,  que “essas pessoas, na maior parte das vezes, já apresentavam algum tipo de transtorno mental, frequentemente um transtorno de ansiedade antes da pandemia, ou, pelo menos, sintomas, e com esse estressor grande que a pandemia constitui, realmente apresentaram uma piora”. São atitudes próprias da Síndrome da Gaiola.

Patrícia Cardim, diretora-geral do nosso Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e integrante do movimento #ESCOLASABERTAS, na semana finda, ao participar do Seminário de Integração Docente e Inovação Educacional (SIDIEd), que se repete no início de cada período letivo, convocou os nossos professores-educadores para a jornada de acolhimento, estímulo e orientação segura para os alunos que ainda resistem à matrícula presencial, em consequência do confinamento e isolamento social prolongado.

Patrícia, em pouco mais de vinte minutos, discorreu sobre os problemas atuais do ensino presencial e da posição do nosso Centro Universitário diante da questão ensino presencial x ensino remoto ou EAD. Relata que estamos, no campo internacional, somente atrás do Sudão,  no que se refere à educação básica. Cerca de 900 mil estudantes, na faixa etária dos 10 anos de idade, em São Paulo, ainda não foram alfabetizados. Trata-se de um angustiante pacto de mediocridade, envolvendo algumas categorias profissionais e econômicas sem a visão de futuro e passando ao largo da educação como formação do cidadão e do profissional, além dos aspectos sociológicos de convívio com colegas e professores, exclusivo da educação presencial.

A nossa Diretora-geral diz que existe um “achismo” de que a educação remota deu certo e está suprindo satisfatoriamente a educação presencial. Ledo engano. Para prender os filhos no casulo doméstico, a fim de conter a pandemia, tem que ser muito Poliana. Completamente ausente da realidade revelada por educadores, pediatras e hebiatras. Trata-se de comprovação científica x comodidade de governantes e mantenedores, desfocados dos princípios da educação autêntica.

Patrícia realça que a mão educa o cérebro, tendo presente um dos pilares da educação para o século 21, aprovados pela Unesco em 1998, em Paris, França: Aprender a Conviver ‒ aprendizagem fundamental para a vida em sociedade e para bem visualizar as demais aprendizagens ‒ e Aprender a Fazer, teoria e prática juntas, além dos demais pilares ‒, Aprender a Ser e Aprender a Conhecer. Esses pilares somente podem ser desenvolvidos na educação presencial, admitindo-se, apenas, momentos a distância, com o uso responsável, eficaz e eficiente das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs).

Pestalozzi (Johann Heinrich Pestalozzi – 1746/1827), um dos pioneiros da pedagogia moderna, já afirmava, nos idos do século 18, que “o ideal é ligar o estudo ao trabalho manual, a escola à oficina, fazendo dos dois uma só atividade”.

Mas Patrícia vai além. Diz que pediatras e hebiatras conceituados, além de educadores comprometidos com a educação de qualidade, como os profissionais que atuam na Belas Artes, revelam vários casos, em particular na educação básica na modalidade remota, de suicídio, violência doméstica, autoflagelação, embotamento intelectual, evasão escolar. Levaremos cerca de vinte anos para recuperar os anos perdidos para o isolamento e o confinamento doméstico.

Ao final, Patrícia Cardim recruta os professores da Belas Artes, para serem a linha de frente de combate a esse marasmo que está tomando de assalto a educação como um todo. Na Belas Artes os professores-educadores estão alinhados a fazer o correto, em uma instituição de economia criativa, que investe na inovação e na avaliação contínua da aprendizagem. “Empatia, comunicação rápida, racionalidade científica, liberdade de expressão” devem ser a diretriz para os profissionais da educação que atuam na Belas Artes, uma escola quase centenária, mas inovadora e criativa. Uma escola diferente, com foco na educação de qualidade.

Ao fecharmos a redação deste Blog, o Conselho Nacional de Educação (CNE) editou a Resolução CNE/CES nº 2, de 5 de agosto de 2021, publicada no dia seguinte, 6, que trata do retorno à presencialidade das atividades de ensino e aprendizagem, em todos os níveis, etapas, anos/séries e modalidades da educação nacional, como ação educacional prioritária, urgente e, portanto, imediata, com fundamento no Parecer CNE/CES nº 6/2021, devendo observar os aspectos especificados, “em consonância com o princípio constitucional do pacto federativo e com as diretrizes estaduais, distrital e municipais estabelecidas para o enfrentamento da pandemia”. Vamos acompanhar e observar a aplicação da referida Resolução nº 2/2021.

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