A lição dos Brics – Folha de S.Paulo – Caderno Saber – 04/04/2011

 

EDUCAÇÃO EXECUTIVA
A lição dos Brics

Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul se apressam em capacitar executivos para o mundo

Divulgação
 

Alunos na sede da Skôlkovo, na Rússia

MARINA DARMAROS

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Mudanças geopolíticas geradas pela pujança econômica dos países pertencentes ao grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e agora também África do Sul) já refletem nos currículos das escolas de administração, principalmente nos cursos destinados aos profissionais que estão no meio da carreira.
Em março, cerca de 20 estudantes da Escola de Administração Skôlkovo, na Rússia, instituição recém-fundada sob patronato do presidente do país, Dmítri Medvedev, estiveram no Brasil para uma semana de imersão no mercado e na cultura local.
A responsável pelo treinamento dos alunos-executivos foi a mineira Fundação Dom Cabral (FDC). Em abril, a FDC recebe representantes de outro país do Brics -os estudantes da Indian School of Business (ISB), da Índia.
Segundo Carlos Eduardo Ávila, gerente de projetos internacionais da FDC, o programa preparado para visitantes estrangeiros é sempre voltado à gestão de negócios.
“Além de aulas, há visitas direcionadas. Em São Paulo, por exemplo, fomos a uma empresa que trabalha o quadro das classes C e D, em ascensão nos países emergentes. A Rússia está passando por uma situação parecida, o que dá uma boa bagagem aos alunos quando voltam ao país”, explica Ávila.
“Estudando na Rússia e sendo, ao mesmo tempo, um indiano, vir ao Brasil me deu uma perspectiva ainda maior”, disse Ravi Sachdev, 36, estudante da Skôlkovo.

MAIS TROCAS
Após quase 20 anos à frente da universidade chinesa Ceibs (China Europe International Business School), e um dos responsáveis por sua ascensão, o belga Wilfried Wanhonacker é o atual reitor da Skôlkovo.
“Nossos alunos participam de três projetos durante o curso: um no governo, pois nesses mercados o Estado tem um papel muito importante; outro numa empresa privada; e outro que é desenvolver seus próprios projetos”, resume.
A escola russa tem módulos internacionais que se desenvolvem nos países do Brics em todos os seus programas. Além da visita ao Brasil, outra leva de estudantes já esteve na China e os inscritos no programa integral têm inclusos na grade curricular -e na anuidade de cerca de 60 mil euros- viagens à China e à Índia.
“Nosso objetivo na escola é desenvolver o que chamamos de “talento de liderança empreendedora para ambientes difíceis’”, afirma Wanhonacker.
Para o austríaco Oliver Girzick, 36, não foi somente o fato de a Alemanha, onde vive, ser o maior parceiro comercial da Rússia que o levou a escolher a Skôlkovo. “Quando encontrei a escola com esse foco em mercados emergentes, vi que havia algo novo para aprender.”
A FDC conduz seu próprio programa “Brics on Brics”, realizado em parceria com a indiana ISB, a Skôlkovo e a escola de administração da Fudan University, prestigiosa instituição de Xangai.
“A vantagem é que cada escola conhece bem seu próprio país”, explica o diretor acadêmico do programa, Aldemir Drummond.

GLOBALIZAÇÃO
Além de desafios semelhantes, o grupo dos Brics compartilha também um indicador educacional positivo: começam a ver o aumento da presença de instituições e estudantes internacionais, sobretudo de administração, em seu território.
“A globalização é uma realidade nos negócios e qualquer boa escola de administração deve integrá-la a seu currículo”, afirma Matt Symonds, coautor do best-seller “ABC of Getting the MBA Admissions Edge” (“O ABC para sair na frente nas admissões de MBA”).
“Uma escola americana não pode ficar só na América do Norte porque a China é demasiadamente importante, uma escola de negócios europeia não pode focar só a Europa porque o Brasil está fazendo acontecer”, diz.
Entre os indicadores do crescimento na busca por educação empresarial nos Brics está também o número de universidades estrangeiras abertas nesses países.
Segundo relatório do Observatory on Borderless Higher Education, a China tinha, já em 2009, 15 estabelecimentos de ensino superior estrangeiros em seu território, incluindo a renomada francesa de negócios EMLyon, em Xangai.
A escola belga de administração Vlerick Leuven Gent, além de ter uma sede em São Petersburgo e um programa na Universidade de Pequim, começa a operar, em outubro, um campus em Moscou.
Na Índia, onde a legislação proíbe o estabelecimento de instituições estrangeiras, o ministro da educação Kapil Sibal tem insistido por uma mudança até o final do ano.
“Um documento oficial do governo autorizou dois campi na Índia e um deles será a Universidade de Duke, com sua Fuqua School of Business”, adianta Symonds.
No Brasil, por enquanto, apenas convênios garantem ao estudante contato com o conhecimento globalizado.

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