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Publicado em 30/09/2013

Memória de um Aluno-Professor: Antonio Carlos Rampazzo

Tivemos o privilégio de ter o depoimento do nosso querido professor Antonio Carlos Rampazzo, que nos contou, na qualidade de formado 41 anos, quais sensações e lembranças de sua trajetória ainda se fazem presentes em sua vida

Recorro à minha memória para resgatar um pouco daquilo que fomos guardando ao longo do tempo e que pode contribuir com a história da Belas Artes. Então, quando ainda frequentava o colégio, em 1969, em Dois Córregos (nasci em Mineiros do Tietê), minhas intenções para frequentar um curso de arte eram bem evidentes, embora não soubesse quais decisões haveria de tomar.

Naquele ano conheci Marília Vaz de Lima, esposa do delegado que assumira o posto na delegacia da cidade, formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes, creio que em 68. Andando pela cidade e seus arredores, ela chegou ao sítio onde morávamos. Meus pais lá vivem ainda hoje. Estava interessada em reunir alunos para abrir um curso de   desenho numa sala alugada como ateliê. Formamos um pequeno grupo de jovens e iniciamos com aulas de desenho de observação. Em poucas semanas, todos deixaram as aulas - fui o único que permaneceu com ela. O espaço foi fechado e passei a frequentar aulas em sua casa. Lá, eu via nos livros tudo aquilo que me encantava: os grandes artistas  e suas obras. Em certos dias, saíamos para desenhar ao ar livre, mas poucos desses estudos me restaram. 

1970 - Em Minas Gerais com o professor Eduardo.1972 - Parte da minha turma em sala de aula.

Marilia foi previdente ao solicitar autorização dos meus pais para virmos para a capital, porque julgava ser muito importante que eu visitasse a Bienal Internacional de São Paulo. Ela estava plenamente correta. A exposição foi um marco decisivo para minha carreira. Respirava absorvendo tudo o que podia. Depois, levou-me para conhecer a Faculdade de Belas Artes, onde se formara.

No caminho pela cidade, tudo me encantava, me transbordava aos olhos. Época em que   estavam construindo a Avenida 23 de Maio.   

Descemos do ônibus (linha Uberabinha-Luz) na Cásper Líbero e atravessamos a estação para chegarmos aos portões de ferro batido, que se nos abria à imaginação, naquele imponente edifício de tijolos à vista, hoje Pinacoteca.

Ali conheci a primeira pessoa de quem nunca me esqueci: Senhor Oliveira, o porteiro, fardado em azul e com seu quepe da mesma cor. Depois, subimos pela escadaria de madeiras nobres, paramos nas galerias superiores para apreciar a paisagem e fomos conhecer o inesquecível Sr. Urbano, sentado atrás da mesinha do telefone. “Faculdade de Belas Artes, bom-dia, em que posso servir?”. Passeamos pelos amplos corredores, entramos em salas de aulas, conversamos com pessoas das quais não me recordo e deixamos o recinto.

1972 - Minha Turma com o professor Mario Noburo. 1970 - Viagem a Minas Gerais

Retornei para casa inquieto e esperançoso.

Em janeiro de 1970, fiz uma maletinha com muito pouco, mas com todos os verdes e azuis, ocres e amarelos que colhia diariamente nas minhas paisagens e embarquei. Foi uma triste despedida ao deixar meus pais na plataforma da estação e me certificar de que aquele trem me traria para um outro e novo mundo.

Foi minha grande e arriscada decisão, porque ninguém acreditava em “artista” como profissional, já que a profissão nunca foi vista com bons olhos.

Mas eu sobrevivi e estou aqui a relembrar e poder dizer a todos aqueles que pretenderem alçar seu voos: não importa como ou quando, que nunca deixem de acreditar em seus  sonhos. Escolham um bom momento e se lancem ao sabor do vento. Os sonhos são a diferença em nossas vidas.

Podem imaginar o que aquilo significava para o jovem estudante que adentrava o universo das artes, impregnado ainda pelo cheiro de mato de cafezais e capins?

Aprendi muito, não só durante o Curso de Licenciatura, mas também pela constante busca nos livros, em museus e exposições, de tudo o qual me interesso.

Fiz grandes amizades durante o curso: Anésia, minha parceira de trabalhos, e tantas outras que conservo até hoje, sem necessidade de serem mencionadas, porque, tenho certeza, cada qual sabe do carinho e do respeito que lhes conservo. Entretanto, dois incentivadores respeitosos sempre estiveram comigo. Do professor Vicente, ainda ouço  aquele: “Desenha Rampa... desenha Rampa”; da professora Iole, guardo os bilhetinhos e a constante força para continuar na luta por meus princípios e objetivos. A todos, o meu respeito.

Com o professor Eduardo, em 1970, fiz minha primeira viagem de estudos pelas cidades históricas de Minas Gerais, de onde conservo fotos e alguns desenhos. Tivemos um probleminha com o “bus” durante a viagem, revolvido em pouco tempo.

Saíamos para desenhar no Jardim da Luz. Éramos uma turma animada.

Mas meu tempo passava a ser rigorosamente controlado porque tinha que trabalhar para bancar meus estudos. Foram tempos difíceis, mas sem arrependimentos.

A formação universitária me abriu os horizontes e firmou minha convicção não só pela docência como também pela produção artística, porque participava de exposições e salões de arte.

Assegurado pelo certificado de conclusão do Curso de Licenciatura, ingressei na rede oficial de ensino de primeiro e segundo graus em 1972, deixando para trás o emprego que tinha numa indústria gráfica. Minha satisfação em trabalhar desenho e artes com os alunos da EEPG e a Profa. Julieta Nogueira Rinaldi, onde permaneci durante todos os anos de magistério, era muito enriquecedora, gratificante. Sempre tive apoio e respaldo para tudo que era possível propor e desenvolver.

Aqui, nesta que posso denominar de casa, desde 1977, tenho certeza de haver plantado muitas “sementes” que haverão de transformar-se em árvores e produzirão flores, frutos, sombra, perfume e gerarão novas sementes, continuando a espécie. As minhas medalhas, troféus, não são de metais valiosos. Não. Estão na memória dos meus alunos.

Coincidência ou não, quando viemos a São Paulo naquele 1969, ficamos hospedados na   casa dos pais de Marília, justamente na Rua Humberto I, e em 1984, quando mudamos da Luz para a Vila Mariana, fiquei muito surpreso ao olhar para aqueles sobradinhos geminados, que me pareciam tão familiares, e lembrar que, há quinze anos, eu estivera em um deles, ali, tão próximo de onde a Faculdade está situada hoje.

A “Belas Artes” comemorou seus oitenta e oito anos em 23 de setembro de 2013, três dos  quais eu, Antonio Carlos Rampazzo, vivenciei como aluno do curso de Licenciatura em Desenho e Plástica, e outros trinta e seis como professor, nesta, que posso dizer, minha casa.

E o que eu tenho com tudo isso?

Muito, muito mesmo.

É minha história, faz parte de minha vida.

2012

Antonio Carlos Rampazzo 

"Belas Artes desde 1972"

 

 

 

 

 

 

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